Blog

O dia em que a vida mudou pra sempre

Aproveitando o quarto mesversário do Samuel, deixo algumas linhas sobre o dia no qual a vida mudou para sempre.

Na tarde de 19 de dezembro de 2022, saí da consulta de controle com meu oncologista e fui encontrar Carol e minha mãe na casa da Tutu. Além de reforçar a equipe de apoio para a nova mamãe do pedaço, queria compartilhar as boas notícias da consulta de controle. É muito bom ouvir “você está 1000%”.

Contei isso, apreciei a beleza da duplinha recém-chegada ao mundo, fiquei pensando sobre o meu novo papel de tio. De volta para a casa dos meus sogros, Carol subiu o lance de escadas em direção aos quartos e, em um piscar de olhos, gritou:

“AMOR! AMOR!”

Na minha cabeça, foram uns dez segundos entre ouvir esse grito e subir o lance de escadas correndo. Atrás de mim, Stellinha – a whippet – também subiu correndo em desabalada carreira. Para a Carol, o tempo entre o grito e a minha aparição foi similar ao primeiro verso de “Nothing Compares 2 U”, música escrita por Prince e brilhantemente interpretada pela Sinead O’Connor: “It’s been seven hours and 15 days” (já se passaram sete horas e 15 dias”). O espaço-tempo é realmente elástico.

Durante todo esse (curto? longo?) tempo, eu já imaginava o que estava acontecendo. Ela não gritaria se não fosse nada. Carol segurava um bastãozinho azul e branco. E na primeira linha do display desse bastãozinho, estava escrito “Grávida”. Na segunda linha, “4-5”, as semanas de gestação. Nos abraçamos, choramos e nos beijamos, num misto de susto e felicidade.

Meus sogros foram os primeiros a saber da notícia. Meus pais e Tutu souberam no dia seguinte e, com exceção de um núcleo muito restrito de familiares, amigas e amigos, seguramos a notícia até o começo de fevereiro, em um esforço hercúleo de manter a boca fechada até lá.

Naquele dia, eu consegui imaginar o que seria ser pai, em um exercício baseado em achismo e em parcas evidências. Um ano depois, ainda com achismo e muito mais evidências, vejo que minha imaginação só acertou em três coisas: 1) o Samuel existe em carne e osso; 2) dormir uma noite completa é uma utopia; 3) esse menino é lindo.

De resto, errei em tudo. Ninguém me contou, ou eu não escutei, que ter um filho é um trem difícil. Muito difícil. Não existe receita de bolo, não existe fórmula fácil e é virtualmente impossível achar alguma criança com as mesmas características da sua. Aqui, não estou falando de todo o périplo médico enfrentado pelo Samuel em seu primeiro mês de vida.

Estou falando do dia a dia mesmo, do cotidiano. Os padrões de sono, as dorzinhas que podem ser uma infinidade de coisas, o desafio que é construir um processo de comunicação, aquele que me fez pensar “acho que o Samuel não gosta de mim”, e como as relações mudam e se renovam. O trabalho é absurdamente centrado na mãe, e no lado paterno, as sensações de culpa e impotência andam agarradas nas costas como uma mochila.

Porém todo mundo me contou e eu bem escutei que ser pai é um trem incrivelmente belo. Ajudei a gerar uma vida e ela está se desenvolvendo. Perceber a cor dos olhos, os primeiros movimentos, as conquistas do processo de comunicação (e perceber que ele realmente gosta de mim!), o sorriso matinal. Mais importante, perceber que o amor é um sentimento construído com o tempo e não aparece logo de partida. Assimilar tudo isso dá sentido para a minha vida e ajuda a colocar ordem em um mundo cada vez mais esculhambado.

Ser pai também tem trazido um medo absurdo da finitude. E voltando ao começo do texto, descobrir a gravidez da Carol foi a cereja do bolo de um dia bom do ponto de vista clínico. Desde então, foram mais duas consultas com o mesmo resultado, eu estou “1000%”. Mesmo sendo parte da rotina, ainda fico ansioso e um pouco estressado com todo o processo de fazer uma ressonância magnética do crânio e uma consulta oncológica. Sempre penso no pior. Que bom que tenho me enganado. Toda boa notícia me faz imaginar a quantidade de histórias, casos e experiências que terei acompanhando o crescimento do Samuel.

Eu e Carol fazíamos o tradicional compartilhamento de músicas durante o flerte e começo de namoro. É a infalível tática e conforto de poder se expressar com letras e melodias. E quem diria que a chegada do Samuel iria dar um novo significado para esse trechinho de “So Right”, da Dave Matthews Band.

“Oh so beautiful, and so strange
Oh, it was empty until you came…”

(“Tão lindo e tão estranho,
Era um vazio até você chegar”)

Para Samuel #2

Dentre os registros lindos do nascimento do Samuel feitos pela @natalia_franciscone_fotografia, fiquei vidrado nesses dois, parte do pinball de emoções da sua chegada.

1) No avanço da madrugada, um misto de preocupação e admiração durante o trabalho de parto da @carolbrant. Não havia nada que eu poderia fazer para diminuir as dores e ansiedades das contrações. Ao mesmo tempo, admirava a mulher que conduziu sua gestação com muita leveza e graciosidade.

2) O choro incontido de um primeiro encontro e a alegria em ver que a arte abstrata do ultrassom era muito mais concreta e bonita em carne e osso.

 


(Originalmente publicado no Instagram em 29 de setembro de 2023)

Para Samuel #1

“Guerreiro não foge da luta e não pode correr / Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer”

A sabedoria está em “Tá Escrito”, do Grupo Revelação. Há pouco mais de três semanas, Samuel chegou. Ele nasceu, eu nasci como papai e a Carol, essa fortaleza, como mamãe. O mundo tornou a começar.

Seus primeiros 19 dias foram restritos ao box 11 da UTI do São Luiz Star, com saídas esporádicas para exames de imagem e para a sala de cirurgia. Desde a 16ª semana de gestação, a gente sabia que ele precisaria tirar um negocinho que estava em sua boca.

E mesmo com todas as precauções, vivi praticamente um pinball de emoções: a ansiedade acompanhando o trabalho de parto, a alegria do nascimento, as incertezas sobre quando e como seria a cirurgia, o coração pequeno ao ver meu filho de cinco dias ser entubado, a angústia ao entender que os tempos da UTI são diferentes dos tempos do pai e da mãe, o êxtase vendo meu filho, agora com 12 dias, arrancar a sonda nasogástrica.

E o menino com os olhos da mãe, o nariz do pai, as mãos do vovô paterno e os pés do padrinho e da madrinha, mostrou-se um guerreiro e que me tem feito aprender e descobrir coisas inesperadas todos os dias.

O périplo hospitalar foi só uma delas, e ficou mais fácil passar por isso ao lado da Carol quando lembro da sorte que é ter uma rede de apoio: vovós e vovôs, titios e titias diretos e indiretos, amigos e amigas, seja de perto ou de longe. No lado da saúde, foi um senhor alívio contar com o apoio e carinho de toda a equipe obstétrica, da pediatria, da cirurgia e da terapia intensiva. Médicas, enfermeiras e técnicas que nos ajudavam, olhavam e cuidavam do Samuel com muito afeto e esmero.

Samuel nasceu no último dia de leão. Eu divido o signo com meu filho. Só consigo pensar em uma música que eu adoro, “Leãozinho”.

“Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho”

Que bom que nos encontramos, filho.

(Originalmente publicado no Instagram em 14/set/2023)

#41

41 anos completados hoje. E tal qual um dos primeiros versos da minha música preferida: “I’m coming slow but speeding” (ou, em tradução livre: “venho devagarzinho, mas acelerando”). Essa deve ser a terceira vez que menciono “#41”, música da Dave Matthews Band, aqui no blog. A primeira foi em 2003 e a segunda, em 2011. E há muitos anos, quando comecei a ouvi-la, pensava que deveria ser legal usar a música como tema do dia do aniversário de 41 anos. Obviamente, não fazia ideia de quantas vidas cabem em uma vida e, com isso, como o tempo pode mudar a intepretação das letras.

Dentro da transposição da vida para universo lírico, sinto que já “ganhei tempo em cima dos meus problemas”, já me perguntei “porque nunca fiquei orgulhoso?” e aprendi na marra a “correr para brincar na chuva e deixar as gotas (ou as lágrimas) escorrerem”. Porém, além da linha de bateria que sei de cor e salteada, também descobri que “estou seguindo nesse caminho e vou descobrir a saída para ele” e, por saída, entendam por “ir descobrindo o caminho”.

Eu estou em um bom lugar. E é desafiador e reconfortante escrever isso quando existem milhões de coisas passando pela cabeça.

O 41º ano trouxe muita coisa legal: uma cachorrinha, um casal de sobrinhos, um filho que está para nascer (e as dez mil palavras que já escrevi sobre isso não conseguem explicar todos os meus sentimentos), a contínua construção de uma história de amor e parceria, a certeza de estar rodeado de tanta gente amada.

Em uma rápida olhada nas fotos desse último ano, existe uma quantidade considerável de registros parecidos com esse que ilustra o post, que são fotos do meu reflexo. Escolhi essa feita em Nova York, em maio. Talvez, uma síntese do que foi o maior aprendizado do ciclo: olhar para mim mesmo, me entender, me enxergar com mais gentileza e me orgulhar da vida que estou construindo.

Ainda não estou onde quero estar, mas estou no caminho. Devagarzinho e acelerando. 😉

Feliz aniversário pra mim!

E essa é a versão mais linda de “#41”:

Um rápido olhar para trás

Estou na reta final do que é comumente chamado de inferno astral, distante apenas quatro dias de completar mais uma translação em torno do sol. Felizmente, não tive tempo de pensar nisso por um motivo lindo e óbvio, a chegada do Samuel nas próximas semanas.
Ainda assim, propus um novo olhar para uma atividade que gosto e dedico um tempo especial nesse período, que é plugar meu velho HD externo e olhar as pastas de fotos. Mais do que relembrar, queria fazer uma “leitura crítica” de algum registro que eu tenha amado fazer na época, daqueles que postava no Fotolog, o instagram de outrora. Essa “leitura” seria acompanhada de algum comentário autodepreciativo, possivelmente.
E em uma das possíveis pastas – o registro de almoço de aniversário de um tio querido, em novembro de 2004 – encontrei essa foto da Vovó Rachel. Fui pego no contrapé, porque não era a foto que procurava. Eu queria uma foto do por do sol, que não é tão legal feito essa.
Nesse dia, perguntei se podia fotografá-la e ela não só deixou, como se posicionou tal qual as fotos antigas e se dirigiu. Eu só apertei o botão, afinal não tinha a menor ideia de como orientar alguém nessa situação. São umas seis fotos dessa mulher incrível, no alto dos seus 78 anos e com uma história linda.
Quase duas décadas depois, celebro esse mini-ensaio, sorrio relembrando a gargalhada da vovó e penso que ela estaria feliz em ver o crescimento da sua prole de bisnetos. Eu estou feliz e já imagino as poses, ensaios e gargalhadas das vovós e dos vovôs do Samuel e do netinho que está para chegar.

Ainda Sem Nome, o legado

(Esse texto foi inspirado no que postei naquela rede profissional na semana passada. Está aqui de uma forma mais extensa)

Não imagino que seja algo fora do comum, mas uma das coisas que me orgulho na vida é ter trabalhado com gente boa de serviço e inspiradora. Em cada lugar que trabalhei, consigo puxar uma lista de pessoas que me inspira(ra)m. A primeira passagem na Lazo, de Dezembro de 2001 até Fevereiro de 2003, é um bom exemplo. Foi a minha primeira experiência profissional e a primeira vez que eu aprendi a conviver com várias pessoas em um ambiente diferente da escola.

E na lista dessas pessoas legais da Lazo, tem o Caio. Fomos colegas de produção HTML e CSS, ele foi um dos primeiros blogueiros que conheci e sempre gostei da forma que ele pensa o ofício da Comunicação. A amizade continuou mesmo com a minha saída da agência e, 12 anos atrás, ele me mandou um e-mail perguntando se eu topava fazer um podcast. O e-mail de resposta saiu quatro minutos depois do convite. “Uai, CC. Estou muito lisonjeado pelo convite, de verdade! Podemos fazer sim mesmo!”

Dessa conversa nasceu o Ainda Sem Nome. Esse título foi uma sugestão do Alexandre Estanislau e que foi prontamente aceita por nós dois. Produzimos 135 episódios em duas “temporadas” (2011-2013 e 2015-2017) com algumas pausas no meio, ocasionadas pelos compromissos acadêmicos do Caio, pela vida adulta e também pelo cansaço da produção.

Mais do que um espaço para falar de comunicação e conversar com uma porção de pessoas legais, o podcast me proporcionou momentos de muita experimentação e aprendizado, tanto na parte técnica: formato, pauta, produção, estudo e edição. Principalmente, aprendi e desenvolvi algumas habilidades “sociais”: perder a vergonha de mostrar o trabalho, achar meu tom de voz e meu espaço para falar; dar apoio e ser apoiado pelo Caio ao longo dos episódios. Foram várias, as oportunidades para praticar essas habilidades: gravamos online, presencialmente, fizemos edições ao vivo pelo finado Google Hangouts e também em cima do palco da FNAC em Belo Horizonte; deixamos conteúdos pré-produzidos.

Entrevistamos muita gente bacana como o Anderson Ramos, CEO da Flipside, na edição #135 e o Lito Sousa, do Aviões e Músicas, na edição #124. E tenho muito orgulho e carinho da pequena comunidade que se formou em torno do podcast: pessoas que comentavam, sugeriam pautas e davam valiosos feedbacks sobre o que produzíamos. Ganhamos até um presente: a logo que ilustra essa texto foi um mimo do Bruno Milagres, outro amigo e baita inspiração para esse escriba!

Na época da produção, todo esse conteúdo ficava em um domínio super descolado, o aindasemno.me. Com o fim do podcast, não renovamos o domínio. Agora, relembrando os seis anos do último episódio, o site foi republicado como um subdomínio do meu. Além disso, todos o conteúdo está no youtube, seja no canal oficial do Ainda Sem Nome ou na playlist feita pelo Caio. Aliás, ele também escreveu um texto super bacana sobre o podcast.

São maneiras de eternizar esse momento tão legal e que me faz coçar para voltar a produzir e compartilhar coisas nesse formato.

 

Manhattan vista do Edge.
Manhattan vista do Edge.

Para Nova York

Este é um registro um pouco mais extenso da viagem de férias, misturando coisas novas com o que já havia compartilhado no Instagram.

Foram nove dias em Nova York, de 13 a 21 de maio, vivendo a mistura curiosa do “tudo é novo” com “tudo é estranhamente familiar”. Afinal, estava visitando a cidade pela primeira vez e andei impressionado, com um sorriso bobo e a cara de “uau” no meio de referências e espaços presentes nas coisas que já vi, ouvi e li. Sinto que essa mistura do “novo” com o “familiar” pode ter aparecido quando saí do Brasil pela primeira vez, na viagem para Buenos Aires em 2003. Com certeza apareceu quando fui sozinho para a Europa, em 2006. A diferença principal é a quantidade de referências, pela cidade e na bagagem de vida. Nova York está em todo lugar: em discos, em filmes, podcasts, youtube, redes sociais e por aí vai. E tal qual as duas outras primeiras vezes, quis fotografar e anotar tudo que estava vendo e vivendo. O compartilhamento acaba sendo uma boa consequência.

Chegamos no hotel antes do horário do check-in, deixamos as malas na recepção e aproveitamos o tempo para achar um lugar para almoçar e começar a praticar a principal atividade da viagem: caminhar. Caminhar muito. A junção de prints do aplicativo Samsung Health não me deixa mentir. E logo de partida, o “ahhh” estava fixo nos meus pensamentos. “Ahhh, aqui é o Grand Central Terminal“, “ahhh, aqui é a Madison Avenue“.

Corte e junção das telas do aplicativo Samsung Health com a contagem de passos.

Depois do almoço, check-in, banho e um leve descanso, andamos mais uns 20 minutos até Times Square para mais uma sequência de “ahhh” para as cores, telões, anúncios e o contraste da quantidade de pessoas. Em um momento, estávamos andando no meio de uma multidão, tal qual qualquer centro das grandes cidades. Turistas, artistas, comerciantes, dezenas de carrinhos de comida (e queria experimentar todos eles!), trânsito, buzinas e afins. No entanto, quando dobramos uma esquina e andamos dois quarteirões, essa muvuca toda desapareceu e a minha atenção estava nos prédios, nas outras pessoas caminhando, nas cores da cidade.

A minha sorte foi conhecer a cidade com duas mulheres e guias incríveis: Carol e d. Pilar. Foram dias de mistura entre as experiências e visitas anteriores das duas, com a exploração e descobertas de novos lugares, o que me parece ser algo infinito em Nova York. Com elas, conheci o Guggenheim, a High Line, o Harlem, o Village Vanguard, o Central Park. Juntos, descobrimos o The Edge, a Columbia University, o Dumbo e outros lugares bacanas do Brooklyn.

E no domingo de Dia das Mães, fizemos essa foto que é linda e absolutamente simbólica: o 41º dia das mães da Dona Pilar, o primeiro da Carol. Apoiei o celular em uma grade, coloquei o timer em dez segundos e torci para o telefone não cair. Deu certo.

A foto do Dia das Mães no Central Park.

Uma coisa que imaginava e ainda bem que imaginei certo: Nova York é uma cidade que te obriga a olhar e registrar todos os lados. E antes da viagem, um dos meus dilemas era qual lente deveria engatar na minha Canon 5D II velha de guerra. E entre a 50mm, mais leve e menor, e a 24-105mm, maior, mais pesada e versátil, acabei optando pela segunda. Não me arrependi. Ela e o telefone celular tornaram-se a dupla perfeita.

A altura e diferentes revestimentos dos prédios, a movimentação das pessoas, as luzes e seus reflexos são um convite para as fotos. E andei bastante pela cidade com a câmera a tiracolo para fotografar tudo o que me saltava aos olhos. Me senti bastante seguro andando pela cidade com ela à mostra, que só voltava pra mochila dentro do metrô ou para uma melhor distribuição de peso. O celular era a opção para registros de improviso, locais apertados tipo o metrô e quando queria fotografar pessoas ou situações na rua. Falando nas pessoas, lembrei de uma mensagem trocada com o Carlos Hauck, amigo da faculdade, um dos meus mentores e inspirações na fotografia. A diversidade de pessoas é tanta, que eu tinha vontade de fazer fotos de todas elas. Naturalmente, me faltou coragem e penso que seria um pedido esquisito para o outro lado, então segurei a onda.

Várias caminhadas, diferentes pontos de vista: do metrô no subsolo ao 100º andar do The Edge, passando pela Highline, o parque linear e suspenso no meio da cidade; multidões e calmarias. Também experimentamos vários modais de transporte: metrô, ônibus, Toyotas Sienna na versão táxi e Lyft. E no modal carro, tive a experiência de dirigir de Manhattan até Woodbury, um centro de compras que fica a 70 quilômetros da cidade. Eu imaginava que o trânsito de Nova York seria barulhento, mas eu me enganei completamente. É dezenas de vezes pior.

Na hora que estávamos retirando o carro, perguntei ao agente da locadora se ele tinha alguma dica para o trânsito nova-iorquino. Na minha ingenuidade mineira, achava que ele iria falar para prestar atenção nas conversões à direita, que são livres, ou focar no fluxo do trânsito. Ledo engano.

Respire fundo“, foi a resposta dada de olhos fechados e seguida de um leve sorrido. Eu entendi porquê. Toda a raiva e frustração das pessoas que estão dirigindo é descontada na buzina, e elas não estão erradas. Buzinam para quem não acelera quando o sinal abre e a via está livre, buzinam para quem não respeita o sinal fechado e tranca o cruzamento – isso acontece toda hora – e também buzinam para o carro que não anda, mas sem saber que o carro não está andando porque o cruzamento está fechado. É uma sinfonia que toma as 24h do dia. Apesar das buzinas (aprendi com a Carol sobre como usar da forma local) e do prego gigantesco preso no pneu traseiro direito, deu tudo certo. E o vídeo abaixo, feito pela Carol, reflete já o momento de tranquilidade.

 

Naturalmente, um motivo de inspiração na viagem foi a arte, que está em todo lugar da cidade. Dos museus e galerias, passando pela música e as ruas.

No Guggenheim, o desenho do prédio e a exposição “A Year With Children”, que compõe o programa Learning Through Arts, promovido pelo museu dentro das escolas públicas da cidade. Um programa estruturado de artes para as crianças, que desenvolve a criatividade e a expressão por meio da exploração de processos, materiais e técnicas artísticas. Me identifiquei em algumas das criações e expressões e fiquei motivado a escrever um texto exclusivo para tudo isso. (Nota: está na fila.)

No MET, meus olhos estavam focados no cachorro-quente da porta do museu, na exposição do Richard Avedon e suas impressões gigantescas e na esfinge. Tal qual o British Museum em Londres, me fez questionar também as relações de poder e o quantos artefatos foram pilhados e roubados dos seus lugares de origem.

No histórico Village Vanguard, ouvimos a orquestra de jazz residente das segundas-feiras. Ouvi falar do local há uns dois anos, quando descobri esse disco do Christian McBride Trio. Quando comentei com a Carol, ela disse que conhecia e mencionou a escadinha que descemos para entrar no salão. E fiquei emocionado ao descer a escadinha, sentar em uma mesinha acanhada do salão apertado e estar, nas palavra de John Riley – baterista da orquestra -, “no local onde Miles, Coltrane, Sonny Rollins e tantos outros tocaram e gravaram“.

E finalmente nas ruas, seja de maneira explícita feito as instalações na Park Avenue, ao lado do nosso hotel; ou o mural do Kobra no Brooklyn. E na própria arquitetura e urbanismo da cidade, quando “buscamos” nas composições e contrastes dos prédios e ou vemos a cidade no 100° andar do The Edge.

Nove dias não foram suficientes para entender toda a cidade e as 1.500 palavras também não foram suficientes para falar de toda essa experiência. Deixei muita coisa para trás e a todo momento, fantasiei, observei e enumerei as coisas que quero fazer na(s) próxima(s) visita(s): ver o Flatiron depois da reforma, entrar no Apollo Theater, escutar mais jazz no Village Vanguard, explorar mais o Brooklyn e Manhattan e a lista vai e vai. O legal é saber que a próxima viagem, seja para Nova York ou qualquer outro lugar, será mais especial porque terei meu filho junto comigo. Quero apresentar e conhecer tantos outros lugares do mundo com ele.

Conclusões e reflexos que qualquer viagem proporciona: olhar pra fora para entender o mundo, entender as pessoas. Olhar para dentro e entender os próprios sentimentos, fazer planos, se conhecer melhor e se expressar melhor.

Seguimos!


Links para os posts do instagram: 14/05, 16/05,18/05, 19/05, 20/05 e 21/05. (Bônus: 01/06)

Link para a minha playlist de maio/2023.

"The rain that launches the sands of the Sahara onto the cars in Rome"
"The rain that launches the sands of the Sahara onto the cars in Rome"

Explorando o Midjourney e uma saída para o bloqueio criativo

A foto que ilustra esse post foi gerada por inteligência artificial. Traduzi a primeira estrofe de “Reconvexo“, uma das minhas músicas preferidas de Caetano Veloso, fiz o prompt no Midjourney e o resultado foi esse que você confere logo abaixo. Essa brincadeira, jogar trechos de letras e esperar o resultado, tem sido a saída que encontrei para (tentar) vencer o bloqueio criativo que tem me acometido há uns dois meses. Já explico.

the rain that launches the sands of the Sahara onto the cars in Rome, shot on Canon 5D Mark IV, modern mood

Uma coisa conectando com a outra. Desde a volta do SXSW Edu, mal consegui compartilhar o que vi e vivenciei na conferência. Tirando as conversas, uma apresentação de 20 minutos que fiz no trabalho e um pequeno evento no Learning Village, todas as anotações, pensamentos e conexões de ideias têm morado na minha cabeça, em uma pasta do Google Drive e no meu caderninho.

Seria fácil afirmar que as razões para esse “silêncio” seriam somente a carga de trabalho e as constantes descobertas e atribuições da vida adulta, aquela que está em constante mudança. Misturado com isso tudo, entram as razões principais: o bloqueio criativo e um sentimento (bobo) de que não estarei adicionando nenhuma novidade ao repertório e/ou a curiosidade das pessoas com o que tenho para compartilhar. Se a “constante mudança” me faz andar pra frente, as duas últimas razões me fazem ficar parado.

 

Pausa.

 

Além de uma crença reforçada na criatividade como habilidade fundamental para hoje e sempre, voltei do SXSW Edu com a vontade (e necessidade) de entender mais sobre a famigerada Inteligência Artificial Generativa e seus impactos nos ambientes de aprendizagem. Dediquei algumas horas de leitura, estudo e testes no ChatGPT, fiz uma assinatura básica do Midjourney e fui explorando. Uma exploração solitária diga-se de passagem, sem a ideia de como compartilhar algo estruturado e bem-feito com as pessoas, fora algumas imagens bobinhas que publicava em meus stories.

Até que um dia, andando pelos mesmos stories, passei pela história dessa carta do escritor Kurt Vonnegut. Em 2006, ele escreveu para cinco alunos da Xavier High School, de Nova York, em resposta ao pedido de visita à escola. O trecho abaixo é o motivo desse post:

(…) O que eu tinha para lhe dizer, além disso, não levaria muito tempo, a saber: pratique qualquer arte, música, canto, dança, atuação, desenho, pintura, escultura, poesia, ficção, ensaios, reportagens, não importa quão bem ou mal, não para obter dinheiro e fama, mas para experimentar se tornar, descobrir o que há dentro de você, fazer sua alma crescer.

 

Pensei comigo há quanto tempo tenho me privado da experimentação e exploração nas artes visuais (a fotografia, para ser específico) e na escrita, para “descobrir o que há em mim e fazer a alma crescer”. Tenho praticado pouco e editado menos ainda. E quando faço, era com a obrigação de acertar e fazer bem-feito, o que me limita tremendamente. A carta serviu de inspiração e nessa, resolvi testar uma abordagem diferente no Midjourney, a ferramenta de inteligência artificial generativa que cria imagens a partir de entradas de texto.

Depois de gerar dezenas de imagens bobinhas: cachorros em forma de balão, diagramas e infográficos de escolas, a fusão de duas fotos em uma e coisas do tipo, fiz o que está registrado na abertura do texto. Coloquei pequenos trechos de músicas que gosto e esperei o resultado. A única direção que dei foi em relação à saída: queria que parecesse uma fotografia, não uma ilustração, diagrama, colagem ou algo parecido. Me conectei de várias formas: as letras fazem sentido para mim, a música e a fotografia sempre foram formas de expressão, é divertido experimentar. Não fui atrás das artes mais bonitas. Queria entender a ferramenta, explorar as possibilidades, praticar o pensamento criativo e, na mistura das artes, me entender um pouco mais também. Os resultados você vê agora. 🙂

 

“Ants Marching” – Dave Matthews Band – Spotify

“And remembers being small
Playing under the table and dreaming”

Prompt: and remembers being small playing under the table and dreaming, shot on canon 5d Mark IV, modern mood

 

“Be (Intro)” – Common – Spotify

“Explored the world to return to where my soul begun
Never looking back, or too far in front of me
The present is a gift, and I just wanna be”

Explored the world to return to where my soul begun Never looking back or too far in front of me The present is a gift And I just wanna BE, shot on Canon 5D Mark IV, modern mood

 

1999 – Prince – Spotify

“I don’t wanna die
I’d rather dance my life away”

I don’t wanna die I’d rather dance my life away, shot on Canon 5D Mark IV, modern mood

 

“Palco” – Gilberto Gil – Spotify

“Minha aura clara, só quem é clarividente pode ver”

My clear aura can only be seen by those who are clairvoyant, shot on Canon 5D Mark IV, modern mood

 

Coloquei as imagens na ordem em que foram geradas, porque imagino que exista um padrão dentro da ferramenta. Afinal, a primeira imagem foi a da menininha embaixo da mesa e todas as seguintes saíram também com mulheres. O legal é testar pequenas mudanças no prompt e ter imagens completamente diferentes ainda utilizando o mesmo trecho da letra. Um bom exercício futuro: “personificar” as letras com caraterísticas da pessoa que escreveu e/ou interpretou.

 

Para fechar

Brincar com o Midjourney tem sido uma saída interessante para vencer esse bloqueio criativo. Testar prompts só por testar, sem a preocupação com qualidade ou significado tem ajudado na estruturação das ideias e na vontade de compartilhá-las. Me sinto estimulado a escrever, fotografar e… desenhar. Eu sou um péssimo desenhista, e agora, instigado com as possibilidades de geração de imagens, fico rabiscando e tentando traduzir esses rabiscos para o prompt do Midjourney. É o que disse no começo do texto: a curiosidade e a criatividade são habilidades fundamentais para esses tempos.

Assim como o lado “sério” da pesquisa. Continuar os estudos sobre possibilidades, limitações, questões éticas e de propriedade intelectual da inteligência artificial. Mas isso é tema para outras conversas.

 


 

A troca com algumas pessoas estimulou esse post. Obrigado, Carol, Natalia, Gabriel Albuquerque, Fabio Boehl e Walter Romano!

Sobre Legos e construções

Na noite de sábado, terminei a montagem da Eagle, o Módulo Lunar da Apollo 11, kit da Lego que foi o presente de Natal da Carol e que precisei dedicar algumas horas ao longo da semana. É o terceiro kit que ganhei de presente no último ano. O primeiro foi um Mclaren Elva, dado pela Tutu no natal do ano passado. Depois, esse Cosmic Cardboard Adventures (“Aventuras Cósmicas de Papelão”, em tradução livre), uma lembrança do Lee Magpili, designer da própria Lego, às pessoas que trabalharam na curadoria do Seminário SESI, em maio de 2022. Agora, foi a vez do Módulo Lunar.

Ao montar a Mclaren, fiquei impressionado com a quantidade de peças novas – em formatos e tamanhos – e também lembrando de como o Lego tem um espaço muito importante na minha infância, fisicamente e criativamente. No primeiro ponto, o meu quarto era meu mundo de Lego. Guardava todas as minhas peças em uma caixa de papelão que originalmente foi a embalagem para uma televisão de tubo de 29 polegadas. Imaginem o tamanho. Metade da caixa cheia de pecinhas, sem nenhuma organização. Achar peças era uma tarefa hercúlea. A busca por um tijolinho azul de 1×1 no meio de tantas peças maiores ou quatro rodas iguais demandava tempo e também abria espaço para a criatividade.

Mclaren Elva

Afinal, eu seguia a regra não escrita – que julgo ser universal –  de montar para desmontar. Na primeira vez, construía o kit utilizando o manual de instruções, celebrava o feito e desmontava a construção, jogando as peças dentro da caixa de TV. A partir dali, tal qual as “Aventuras de Papelão”, eu fazia as minhas histórias.

And remembers being small / Playing under the table and dreaming

E (ele) lembra ser pequeno / Brincando embaixo da mesa e sonhando

Lembrei desse trecho de “Ants Marching”, da Dave Matthews Band, enquanto montava o segundo kit: um quarto de criança com uma nave de papelão. Me vi com 10, 12 anos de idade naquele personagem, criando mundos, veículos, prédios e histórias. Não me importava lembrar a origem das pecinhas. Eu gostava de saber o que poderia fazer com elas. As peças vermelhas de Lego poderiam compor um grande quartel do Corpo de Bombeiros, com suas viaturas, pessoas e chamados de socorro. O cavalo do kit medieval agora morava em uma fazenda, O avião poderia virar uma nave espacial, ou ser um motor para carros. E eu pensava que, tivesse o tamanho de um bonequinho de Lego, entraria na nave, viajaria o mundo e conheceria outros planetas.

Cosmic Cardboard Adventures

Natália também brincava, e eventualmente, nossos primos também se juntavam. Quando isso acontecia, além da criatividade e das habilidades motoras, era preciso praticar a colaboração, a comunicação e eventualmente, um pouco de negociação.

Eu cresci e a grande caixa de Lego seguiu seu rumo, indo para meus primos mais novos. O carinho e interesse continuavam morando aqui comigo, mas as prioridades eram outras. Sempre solto um “ó!” e dou um sorriso quando vejo o Lego sendo usado em outros contextos: exercícios escolares, rotinas de check-ins em eventos e quando há intenção de desenvolver habilidades socioemocionais em adultos: criatividade e pensamento crítico, por exemplo.

Módulo Lunar Eagle

Por isso, ganhar e montar o Módulo Lunar foi um presentão carinhoso para completar esse círculo afetivo. Para um “montador da velha guarda”, esse é o kit mais sofisticado já montado. Para um apaixonado pela exploração espacial, é cheio de significados.

Um pouco mais metódico na construção, ainda muito impressionado com as peças novas e, tal qual antigamente, compartilhava o progresso da construção, do “Mar da Tranquilidade” até a última pecinha do estágio de ascensão, com a Carol. No processo, também um mar de lembranças: a minha visita ao Museu dos Cosmonautas em Moscou, trechos da letra de “Satellite”, da minha tentativa frustrada de fotografar a lua em 20 de julho de 2019, data do cinquentenário do pouso da Apollo 11. Em um recorte simplista e ingênuo, fiquei elucubrando também sobre criatividade, comunicação, curiosidade, resolução de problemas foram (e continuam) importantes para entendermos a lua, nosso sistema solar e além.

Aos 12 anos, na minha junção de pecinhas, devo ter construído uma nave espacial que levaria um bonequinho de Lego também para a lua, o sistema solar e além. E possivelmente, seria legal desmontar e construir outras coisas, mas não será o caso. Vou contemplar a Mclaren, a criança em uma caixa de papelão e o Módulo Lunar e, para além do Lego, continuar carregando (e praticando) as conexões pouco prováveis e a liberdade criativa para construir coisas novas.