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A mancha branca é (era) o tumor em formato de elipse.
A mancha branca é (era) o tumor em formato de elipse.

O caminho se faz é caminhando – Parte um

“Fodeu”.

Chegamos em Belo Horizonte no domingo, 21/03, marcamos os exames e consultas todos para a terça-feira, 23, e nos instalamos na casa do papai, tentando se ajustar à vida “normal”. Eu e Carol estávamos dormindo no seu quarto, Natália e Aloízio dividiam o que um dia foi o quarto dela. Papai ficou na casa da vovó.

Depois da convulsão, deitar e dormir deixaram de ser atividades comuns. Nunca tive problema para isso e não raro, demoro menos de dez minutos para roncar profundamente. Porém, depois da convulsão, tudo havia mudado. Não era normal pra mim e nem para quem estava comigo. Em uma das noites no hospital, levantei para ir ao banheiro e lembro da Natália levantando assustada, quase como um boneco de filme de terror – tronco em 90º – me perguntando se tinha acontecido alguma coisa. “Só vou fazer xixi, Tutu”.

Mensagem que mandei para meus amigos em 22/03 sobre o medo de dormir.

O Keppra, o anticonvulsivo que comecei a tomar ainda no hospital, super dava conta do recado. Só que isso não acaba com o medo de ter outra convulsão. Esse receio fica ali, rondando, mesmo sabendo que existe um medicamento fazendo o trabalho de proteção.

Como disse, o último mal estar – ou algo próximo dele – aconteceu enquanto esperava algum exame ainda no pronto atendimento do Hospital Alvorada. Dali em diante, nenhum susto. Ainda assim, no domingo e na segunda antes da consulta, eu ficava com medo de dormir, porque sabia que adormecer poderia significar outro episódio e outra convulsão. Carol também dormia mal, obviamente com medo de presenciar o que ela viu em São Paulo.

(Cenas que não podemos desver)

Mas nada demais aconteceu. Dormi bem e na terça, fui para uma consulta com o Dr. Paulo Caramelli. Ele foi o neurologista que acompanhou a dona Rachel na sua fase final, um homem incrível e que nos atendeu com muita atenção. Olhando pra trás, e relembrando o stress e a ansiedade, eu não lembro direito dos detalhes da consulta, mas foi a primeira das 322 vezes (e contando) que falei o que aconteceu, do primeiro mal estar até o momento que estava lá, sentado em seu consultório.

Talvez eu tenha omitido o Big Bang e a formação do Planeta Terra. Talvez não. Jamais saberemos.

Saí de lá direto para o hospital Mater Dei, do outro lado da rua, para fazer uma ressonância magnética com o Dr. Uedson Tazinaffo. Se a primeira ressonância foi desconfortável, essa foi muito pior.

Ficar uma hora na máquina de ressonância magnética foi uma das primeiras lições que tive de todo esse processo. Você precisa confiar nele, pois não há escapatória. Se em algum momento da vida adulta comecei a desenvolver uma claustrofobia, dar showzinho ou ficar desesperado não iriam me ajudar uma vez que eu entrasse no tubo.

Lembro de alguns episódios claustrofóbicos notáveis: o primeiro foi no vôo de volta do SXSW em 2016, quando tive uma crise que me fez saltar o companheiro da poltrona do corredor e correr pro fundo do avião, enjoado e com a pressão despencando. Foi o paradoxo do atendimento ao cliente. Um comissário abriu a porta do banheiro, me deu um saco de lixo preto, provavelmente o que ele iria embalar os restos do jantar, para vomitar, tipo “se vira aí, amigão“. Já a comissária mais velha lidou com mais profissionalismo. Me acalmou, ofereceu um copo de Ginger Ale para “acalmar o estômago“. Na época, achei que tinha uma crise de pânico, mas talvez tenha sido só claustrofóbica. Não sei.

Depois, em 2018, nas férias em família em Pernambuco. Estávamos indo para um show do Bel Marques em Carneiros e meu corpo disse “nem fodendo!” quando vi que sentaria no último assento desses carros de sete lugares, onde os bancos brotam do porta-malas.

Finalmente, pulamos para março de 2021, no famigerado Hospital Alvorada e a tal ressonância que iria confirmar a “cicatriz do AVC“. Foram 20 minutos de olhos fechados e desespero completo, onde meu cérebro alternava entre um lugar muito confortável e um lugar totalmente oposto, em uma briga constante entre “tá tudo dominado” e “não há a menor condição de sair daqui vivo“. Eventualmente, consegui sair do tubo na hora que injetaram o contraste e fui aos trancos e barrancos para o final do exame.

No episódio do Mater Dei, já haviam me avisado que o exame iria demorar cerca de uma hora. Seriam praticamente três exames em um só, quase o estado da arte da biópsia. E tudo bem, afinal, sou adulto, faço análise, faço reunião, dou palestra, sei lidar com essas coisas. E fui fazendo piadas, trocando de roupa, colocando o acesso para o contraste. Mandei foto pro grupo de amigos, mandei foto pra Carol, mas amigos e amigas, a Jurupoca (ou Jiripoca) cantou na hora que deitei no tubo.

Uma hora inteirinha de “não tem a menor condição de sair daqui vivo“. Uma hora inteirinha do cérebro fazendo piadas com ele mesmo. Uma hora inteirinha do cérebro falando “você acha que tá ruim? Pois pode piorar, seu otário”. Foi horrível. Absolutamente horrível. Olhos super fechados, umas lágrimas contidas e quando achava estava calmo, estava ainda mais ansioso. A máquina fazia uns barulhos que pareciam um show do The Prodigy, e aí, algum médico me chamou no alto falante:

– Felipe, o exame está acabando. Agora é hora de colocar o constraste.
– Por favor, me deixem sair do tubo pra respirar.
– Não podemos, você sai da posição e atrapalha o final do exame.
– Galera, eu estou chorando, peço por favor que me deixem tomar um ar.
– Eu entendo, mas não podemos fazer isso.

E assim foram os cinco ou dez minutos mais lentos da vida. Foi um alívio poder sair, embora com aquela sensação recorrente de “como alguém pode ter uma ereção nessa máquina?

O resto da tarde foi o resto da tarde. Estava em casa, livre do tubo, não tinha ideia do que poderia acontecer, não tinha ideia de quanto demorava a análise de uma ressonância desse porte, mas pensei: se estava medicado e estávamos investigando a cicatriz de um AVC, isso poderia tomar o tempo que fosse.

Mas…

Mensagem da secretária do Dr. Paulo Caramelli.

As coisas estavam andando mais rápido do que eu imaginava. E eu não havia gostado nada da ideia de um retorno rápido. Cheguei a comentar isso com a minha família antes de irmos para a consulta. Uma parte dizia não gostar nada dessa história, a outra, possivelmente o mecanismo de defesa, falava: “Pelo menos tira isso da cabeça logo e a vida segue”.

Chegamos, nós quatro no Caramelli, e eu não lembro da sequência exata a consulta. Lembro que ele disse algo parecido com a ideia de que não havia comprado a ideia de que eu havia tido um AVC e que desconfiava de um ponto epiléptico.

Eu olhava pra ele com uma cara de “olha só, que merda. A gente vai ficando velho e vai ficando com esses problemas”. Até que o Caramelli avançou no argumento, falou sobre quão completa era essa ressonância magnética e usou o termo “massa tumoral”.

“Você tem uma massa na cabeça”. É claro que tenho! Já viu o tamanho da minha cabeça? No começo, a frase “massa na cabeça” bateu e foi embora. Depois voltou. Voltou e ficou.

Olhava pro lado, e via a mamãe aos prantos. Do outro lado, Tutu e papai com uma cara de seriedade, mas era um sentimento total de tela azul. O Caramelli foi claro ao explicar que era um tumor glial de baixo grau, que se alocou em uma região pouco eloquente e que era altamente altamente operável, tem limites definidos e baixa taxa de crescimento. Poderia estar crescendo dentro de mim há anos.

Mas eu entrei num loop de descrença. “Eu sou muito novo”. Tive o mesmo sentimento dos dez anos de idade, entrando no Pronto Atendimento do João XXIII para suturar a cabeça. “Tem tanta gente no mundo, porque eu?” Demorei tanto pra encontrar minha voz, demorei tanto pra achar um caminho, quero montar minha loja de fotos, quero falar sobre aprendizagem, estou cheio de ideias e projetos e isso será interrompido dessa forma? Que loucura!

Quando dei o diagnóstico para o grupo de amigos

 

A mancha branca é (era) o tumor em formato de elipse.

Bateu e bateu bem errado. Entramos nos carros, acho que estávamos em dois, e eu lembro de montar um modo defensivo totalmente abrupto. Eu não queria fazer minha família sofrer. Eu não queria fazer a Carol sofrer. Falei com a Natália que se a Carol quisesse, ela poderia ir embora agora, porque estávamos entrando em um território desconhecido e eu não queria que ela passasse por isso. E por um lado, eu tinha certeza que ia morrer e quem precisa de planos quando se vai morrer?

Tutu é um poço de conhecimento, é a minha xamã em formação. Logo de cara, ainda no carro me deu um chacoalhão do tipo: “Agora é hora de por os planos pra frente“. Contar pra Carol foi uma das coisas mais tristes do mundo. Ela havia tido um dia horrível, entupido de reuniões. Quando chegou na sala e viu nós quatro com uma cara de “falta de chão”, ficou sem saber como reagir. Ninguém sabe como reagir dessa forma. Dela, ganhei outro chacoalhão. Não havia a menor chance dela ir embora.

(Eu sou uma pessoa de sorte!)

Terminamos a terça-feira com uma consulta marcada com o primeiro cirurgião, o Dr. Marcelo Vilela, traçamos uma estratégia grosseira de comunicação, avisei a família e pessoas mais próximas. Comecei a receber tanto carinho e tanta mensagem bonita, coisas que jamais esquecerei, e que me fizeram dormir um pouco menos angustiado do que o começo da noite.  Esse negócio tinha que dar certo, a conta simplesmente não fechava.

Antes de desligar o telefone, escrevi para meus pais e para a Tutu: Pessoal, vai ser desafiador, difícil e a porra toda, mas vai dar certo. Tudo que “nóis tem é nóis”.

(Narrador: errado ele não estava).

A gente estava só começando.

Mancha na Tomografia, indicada pelo amigo Rodrigo Lanna.
Mancha na Tomografia, indicada pelo amigo Rodrigo Lanna.

O caminho se faz é caminhando – Parte zero

Prefácio

Esta história é longa e ainda está em construção. Aos poucos, as perguntas tornam-se respostas e as coisas ganham mais clareza. Escrever é a forma que eu organizo o meu mundo, e tinha muita coisa represada aqui.

O objetivo é compartilhar com vocês a forma como estou encarando todo o processo, como me cerquei de pessoas e energias boas e, sim, como posso (podemos) aproveitar esses momentos para colocar a vida em perspectiva e valorizar o que realmente importa.

Espero que gostem do relato e que ajude de alguma forma. Sejam pacientes e tenham paciência comigo. Bebam água.

Capítulo Zero

Aos 38 anos e seis meses de vida, eu só tinha feito sutura por três motivos. Aos 21 e depois dos 30, quando precisei arrancar dentes e colocar uma prótese de titânio. Dos 17 pra 18, quando quase virei sócio honorário da Dr. Scholl e fiz todo tipo de solução possível pra resolver um problema grave de unha encravada. Finalmente aos dez, quando levei dois pontos na cabeça porque escorreguei e bati a cabeça em uma árvore na Escola da Serra, enquanto corria de duas meninas que eram apaixonadas por mim (ah, quanta inocência!).

Aliás, no caso do corte na cabeça, eu dei um showzinho com meu bom e velho pai a caminho do João XXIII, o pronto socorro de Belo Horizonte. Lembro de chegar e gritar “Dois milhões de pessoas moram em BH e quem é escolhido para tomar ponto na cabeça? Eu!”

No papel de paciente, essa era a minha experiência com hospitais e similares. Eu não tenho dor de cabeça, mal tomo medicamentos, durmo bem, sou uma pessoa de sorte. Eventualmente aparecia alguma sinusite ou “virose”, mas o procedimento sempre foi o mesmo. Entrava no hospital, resolvia o problema em algumas horas e ia embora medicado pra casa. Sempre uma linha reta. Por isso, fiquei sem entender quando, no comecinho da manhã de 17 de março, a plantonista do Hospital Alvorada me disse: “Felipe, sua tomografia está alterada e por isso vamos te internar”.

Oi?

Vou contextualizar.

No comecinho de fevereiro, tive um mal estar noturno absurdamente esquisito. Estava em Minas, na divisa entre Nova Lima e Itabirito, que tanto me acolheu durante o começo da pandemia no ano passado. No meio da madrugada, do nada, acordei com o estômago revirado, enjoo e ânsia de vômito. Era uma dor completamente nova pra mim.

Ardia, doía, parecia um bolo crescendo dentro da barriga. Não achava nenhuma posição para dormir e, depois de revirar na cama por alguns minutos, a dor passou. Como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.

Acordei com a sensação de ressaca e associei ao churrasco e à cerveja do dia anterior. O Bizafra, meu primo, havia feito uma visita no dia, a gente fez um churrasco, tomamos algumas cervejas e só. Não foi nada fora do extraordinário, mas a dor tinha sido muito viva. Não era sonho ou pesadelo. Tinha sido real. “Voltando pra São Paulo, preciso olhar um gastroenterologista e entender o que está rolando”.

Pra quem nunca teve nada, assusta. Que merda de dor havia sido essa? Por que tive aquilo? Vai aparecer de novo? Preciso me preocupar ou não? A nossa ignorância é tanta e ficamos tão surdos ouvindo as coisas que não importam que eventualmente, largamos as coisas pra lá. Tive uma dificuldade para ir ao banheiro, e eventualmente tudo voltou ao normal. Depois de uns dias, o mal estar sumiu.

Caralho, que susto. Um dia vou ao gastro e resolvo isso.

Porém, do jeito que veio e foi, o “acontecimento” – ainda não achei um termo bom pra isso – resolveu voltar e ficar. Sempre de noite e sempre da mesma forma. Era pegar no sono e o enjoo noturno aparecia. Junto, vinham a ânsia de vômito, um formigamento no braço esquerdo, gosto terroso na boca como bônus, e pensamentos delirantes parecidos com os de febre alta, mas sem febre alta.

É curioso como tenho dificuldade em definir a parte da febre alta. O jeito mais fácil é lembrar de um episódio de febrão que tive quando era novinho e lembrava que delirava imaginando casas pequenas sendo esmagadas por pedras muito grandes. Coisas muito fora de proporção e que assustavam.

Era muito vívido, muito real. Mas nunca demorava. Do mesmo jeito que vinha, ia embora. O sentimento não durava mais do que um minuto, se tanto. Cheguei a comentar com meus pais e havia associado ao stress. Dentro de uma linha do tempo, já estamos no meio de fevereiro, um pouco depois do carnaval. Eu e Carol havíamos viajado para Santo Antônio do Pinhal e tinha tido noites boas, sem dores ou sustos.

Continuava firme de que era stress ou ansiedade. Muita coisa acontecendo no trabalho, vovó Rachel estava mal (e respirou para sempre em 21/02), não estava achando tempo para treinar, D. Pilar considerando desmontar o apartamento na Bela Vista, e ao mesmo tempo que ela achava um novo lugar para morar em Belo Horizonte, eu precisava achar um apartamento em São Paulo. Isso eventualmente se acertou com uma oferta generosa do João Lacerda. Um apartamento do tamanho certo, no local certo, e um problema a menos no meio do caos.

Nada estava normal, nada estava “estável” e ainda assim, ao invés de entender a dualidade e a inconstância que a vida é, eu continuava em um estado de ansiedade. A sensação vinha toda noite, já em um ponto onde eu esperava aparecer. Sempre seguindo um mesmo padrão.

Meu maior medo era não assustar a Carol. Nem precisei me esforçar, porque no sábado, 13/03, tive o mal estar logo antes dela dormir e eu não consegui explicar o que havia acontecido. Na minha cabeça o processo era conhecido, mas como era algo misterioso, tive muita dificuldade em explicar o que havia sentido. Dias depois, tive a pior sensação da vida até agora.

O dia 17 de março foi um dia produtivo, porém difícil. Choveu bastante em São Paulo e era o quinto dia na casa nova. Ainda estava no processo de tirar a cidadania de Moema, afinal havia me tornado um moemer convicto, morando a cinco quarteirões de distância da Carol.

Jantamos, tomamos duas cervejas e antes da meia noite, estávamos deitados para dormir e o mal estar veio. Na minha cabeça foi tudo muito rápido. Só lembro de girar o corpo com o mandíbula travada, gemer alguma coisa para a Carol e apagar completamente.

Apagão total e um período indeterminado de silêncio e paz.

Acordo meia hora depois, super enjoado, querendo ir ao banheiro vomitar. Quando começo a entender a situação, olho pra Carol me segurando na cama e me pedindo para ficar quieto. “Você teve uma convulsão e o Samu está chegando”, ela me disse.

– Amor, eu preciso ir ao banheiro vomitar.
– Vomita no chão, a gente resolve isso depois. Fica quieto!

Ao fundo, eu ouvia o final da ligação e acho que a ambulância apareceu um tempinho depois. Eu estava puto, era a segunda vez que eu ia dormir no apartamento novo e eu tinha começado com esse cartão de visitas.

Fui recobrando os sentidos, o enjoo passava e até a hora que o Samu efetivamente chegou, eu já estava bem. Desci sem assistência, entrei na ambulância e no Hospital Alvorada sem nenhuma assistência. Batia um papo com a equipe de enfermagem como se nada tivesse acontecido.

(Aliás, esse é meu mecanismo de defesa, começo a falar sem freio).

Eu melhorei e estava zerado como em todas as outras vezes que havia sofrido do mal estar. Mas dessa vez, eu tive convulsão. Muito menos assustado do que a Carol, óbvio, mas assustado com o fato de ter convulsionado.

Chegamos, fiz uma batelada de exames de sangue, urina, raio X do tórax (imagino que por conta da Covid) e tomografia computadorizada. E esperamos. Esperamos pra caramba. Na minha parca experiência hospitalar, eu só imaginava que a quinta-feira seria terrível.

Carol entupida de reuniões, o meu dia começaria às 8h, e a gente ali, preso no hospital esperando os resultados dos exames. No processo de espera, tive tempo ainda pra um outro rápido episódio de mal estar, sem convulsão e sem nada.

Até que às 6h, a plantonista nos chama e fala “Felipe, sua tomografia está alterada e por isso vamos te internar”.

Oi? Como assim, moça? Você tá bem? Porque eu tô ótimo. Que mancha é essa que você achou? Checa de novo.

Segundo a plantonista, a teoria era que eu tive um AVC em uma região não eloquente do cérebro e a mancha na tomografia, assim como a convulsão, eram uma cicatriz desse evento. Por um lado, aquilo não fazia o menor sentido pra mim, afinal um AVC sempre foi sinônimo de sequela e eu estava ótimo. Por outro lado, isso fazia sentido porque ajudava a explicar a sequência de eventos que havia ocorrido desde fevereiro.

Mancha na Tomografia, indicada pelo amigo Rodrigo Lanna.

 

 

Mensagem que mandei para o grupo dos meus amigos enquanto esperava um quarto

 

Mensagem que mandei para Dona Pilar quando descobri que seria internado.

Consegui avisar a família, o Marcos, e os amigos mais próximos antes da bateria do telefone morrer.

Super legal, né? A primeira emergência da vida e deixo todo mundo sem notícias. Enquanto eu esperava um quarto, Carol foi nas duas casas e voltou com roupas, carregador do meu telefone e com a notícia de que Natália e Aloízio estavam voando de Belo Horizonte para dar assistência. Quando religuei o telefone, o grupo dos meus amigos tinha um caminhão de mensagens, liguei para o papai e ele disse que nunca esteve tão feliz em falar comigo.

Tratei de tentar tranquilizar todo mundo. Eu era uma compilação de memes ambulante, já medicado e dormindo bem. Assustado com a ideia de ter tido um AVC, mas feliz em estar bem, sem sequelas e vivo.

O resto da quinta e a sexta-feira foram tranquilos. Fiz uma batelada de exames, ultrassom de abdômen e carótida, ecocardiograma e a primeira visita à ressonância magnética.

Uma das experiências mais claustrofóbicas da vida e, como disse no grupo dos meus amigos, é difícil imaginar alguém conseguir ter uma ereção dentro de uma máquina que faz barulhos que misturam um show da banda “Man or Astroman?” com a UVB-76, a rádio espiã russa. A ressonância magnética merece um capítulo próprio, imagino, porque eu acho uma experiência muito desconfortável. E já passei por cinco delas e contando.

E tudo era muito esquisito, porque obviamente havia uma aura de seriedade no meu caso, seja com os cuidados, exames e medicamentos, mas eu me sentia perfeitamente bem. Falando sem dificuldades, coerente igual sempre me senti. Agora, medicado, assistido e sem saber a razão de estar internado em um hospital.

Mas o fato é que acabei recebendo alta no sábado, 20/03. Saí do hospital com o diagnóstico de que eu tive um micro AVC, abscesso ou isquemia em algum momento da vida, e que aquilo havia se tornado um ponto epilético. Poderia investigar fora do hospital e, por isso, começamos a coordenar a vinda para Belo Horizonte. Embarcamos, nós 4, no domingo, 21.

Afinal, toda família tem uma extensa rede de informantes, com a minha não é diferente. Enquanto eu estava no hospital, ligações estavam sendo feitas e opiniões sendo colhidas. O clínico geral da mamãe falou que essa dor de estômago e formigamento eram coisas do cérebro mesmo. Papai estava em contato constante com o Dr. Paulo Caramelli, neurologista que atendeu a vovó na fase final da vida. E ele foi enfático: “pode ser muita coisa. Até tumoral“.

Opinião compartilhada por um médico amigo da minha tia. “Uma mancha desse tamanho é um tumor ou sinal de uso extenso de drogas“. Eu ri desse diagnóstico. Caretinha que sou, na pior das hipóteses, “uso extenso de drogas” significaria ter bebido alguma vodka ou cachaça de qualidade duvidosa. Eu poderia rir dessa pessoa.

Ou de mim.

Fachada do Austin Convention Center em março de 2018.
Fachada do Austin Convention Center em março de 2018.

Reflexões e aprendizados do SXSW EDU 2021

(Ou: novos tempos precisam de novos acordos)

O ano de 2021 marca a quinta vez que participo do SXSW EDU. Acho que já contei a história, mas conto de novo. Descobri o festival de 2016, quando pesquisava sobre o SXSW Interactive, o “irmão maior”. Achava que teria algum conteúdo relacionado à educação corporativa e comprei o ingresso no impulso. Tinha um total de zero conteúdos. Z-E-R-O. Mas isso não me impediu de voltar para Austin religiosamente nos anos seguintes. Toda a programação foi cancelada em 2020 e a experiência desse ano foi diferente, porque o festival foi diferente: três dias totalmente online.

Ainda assim, um furacão de informações e conexões na cabeça e que compartilhei como deu nos últimos dias. No canal da 42formas no youtube, fizemos três lives com pessoas convidadas. No Chicken or Pasta, escrevi sobre a experiência do festival online e três lições baseadas no meu recorte de sessões: a importância de falarmos sobre traumas e dores na volta à vida normal, não existe solução única para a educação e é preciso repensar (de vez) a formação para o trabalho.

Finalmente, se vídeo for a sua onda, praticamente o mesmo conteúdo do C’n’P está disponível no vídeo abaixo.

Espero que gostem!

D. Rachel e Tutu em 1985.
D. Rachel e Tutu em 1985.

Para d. Rachel

“Feche seus olhos e conte até um. Isso é quanto tempo ‘para sempre’ seria”.

Dona Rachel contou até um na noite de domingo, aos 94 anos. Em paz, “como um passarinho”, ela diria. Um alivio para nós e para ela e ainda bem que não foi diferente. Quem viveu a vida de maneira tão enorme, não merecia passar pela fase final do mal de Alzheimer. Até então, enfrentou com uma coragem tremenda.

Foi um privilégio poder realizar essa coragem, ultimamente. Em vários momentos, isso foi o que me faltou para vê-la e para entender a desconexão que a doença traz. “As luzes estão acesas, mas ninguém está lá”. Papai fala que a vida vale pelos bons encontros e agora tenho certeza que precisamos aproveitá-los até o final.

Vovó foi nossa companhia de viagem para Bonito, João Pessoa e Buenos Aires. Juntava as pessoas nos saudosos almoços árabes nas sextas-feiras, era a pianista que dividiu um sem números de execuções d’”O bife”, a única música que sei tocar no piano. Sua casa serviu de apoio e repouso para sua mãe e suas tias já na fase final da vida. Na frente culinária, certa vez D. Rachel quis me convencer de que meu macarrão deveria estar al dente. Não consegui argumentar que o macarrão no caso era um miojo, onde as regras não se aplicam.

Não conheci o vovô Anuar, que morreu três anos antes de eu nascer. Do lado materno, a vovó Teteca morreu subitamente em 1995. Seis anos depois, foi a vez do Pancho. Agora, nos despedimos da D. Rachel. A idade não muda a tristeza e a saudade, a gente só aprende a processar as coisas de outra forma.

Finalmente, esses últimos dias foram importantes para celebrar os bons encontros, as nossas origens e nossos caminhos. Tenho muito orgulho e alegria de ser neto da d. Rachel e do dr. Anuar, do dr. José e da d. Therezinha. Preciso aprender todo dia com a coragem, a resiliência e a vontade de mudar o mundo, cada um da sua forma, que eles tinham. Aprendo todo dia também sendo filho do Léo e da Pilar e irmão da Natália.

Agradeço por isso sempre.

D. Rachel deixa seus seis filhos, nove netos, quatro bisnetos e um legado do tamanho do mundo para passarmos pra frente.

(Eu amo essa foto. Ela e a Natalia em 1985)

Morris Day e Prince
Morris Day e Prince

Quem controla o processo criativo?

Antes de começarmos, quero que vocês apreciem a melhor música feita pelo Prince. Não estou falando de “Purple Rain”, ou “Kiss”, nem “When Doves Cry”. Estou falando de “777-9311”. Ela é a prova de que o processo criativo é lindo e também te prega algumas peças.

 

No começo dos anos 1980, Prince aproveitou uma cláusula em seu contrato com a Warner Records, que o permitia recrutar e produzir artistas para a gravadora, para criar dois grupos: The Time, um grupo de funk, soul e R&B e o Vanity 6, um trio vocal feminino. Foi uma saída encontrada para dar vazão à sua produção criativa, dando espaço para outros gêneros e experimentos.

(Na década de 1990, a propriedade criativa foi tema central da longa batalha judicial entre Prince e a própria Warner Records. Ele queria gravar mais discos do que o seu contrato permitia e também queria ser dono das gravações originais. Foi daí que surgiu a história onde ele muda de nome, sendo chamado de “O Artista”, “o artista que foi conhecido por Prince”, um símbolo etc. Mas isso é outra história)

Nas duas bandas, Prince fazia tudo: composição, arranjos, letras. Além disso, gravava todos os instrumentos. As bandas não tinham nenhuma liberdade, só eram obrigadas a executar no palco o que já estava pronto.

Um dos frutos dessa produção foi “777-9311”. A primeira vez que ouvi falar dela foi nesse vídeo da baterista Pocket Queen, onde ela fala de cinco músicas que mudaram seu estilo de tocar. Não sabia quem era The Time ou o Morris Day, o líder da banda. Nem imaginava que era fruto da cabeça do Prince.

Linn LM-1

É uma música grandiosa, extravagante e diferente do trabalho do Prince até então. Começa com um groove de bateria altamente complicado, feito em uma drum machine Linn LM-1 (foto ao lado). A história é que a programação da bateria foi feita por David Garibaldi, baterista do Tower of Power, mas deu algum problema e deixaram do jeito que ficou. Bateristas ao redor do mundo sofrem para tocar. A música também tem uma linha de baixo absolutamente incrível, camadas de instrumentos e um grande solo de guitarra.

Talvez seja uma das melhores músicas compostas e executadas por Prince, mas que está no catálogo de outra banda. Ainda assim, serviu de experimentação para seu próximo álbum e que foi sua obra prima, “Purple Rain”.

Mas há o outro lado. O desconforto dos músicos do The Time era fato conhecido. Sem liberdade criativa, e obrigados a tocar exatamente o que havia sido composto e gravado, a única saída era fazer o melhor show possível. E eles fizeram isso sendo o ato de abertura dos shows do Prince em 1981. “O único poder que tínhamos eram os 45 minutos em cima do palco, porque era uma ditadura onde o Prince controlava tudo“, disse certa vez o guitarrista Jesse Johnson.

A tensão chegou em um ponto sem retorno. Prince chegou a afirmar que o The Time era a única banda que ele tinha medo, em um clássico caso da criatura ganhando do criador. Na turnê de “1999”, o disco anterior ao “Purple Rain”, o The Time foi retirado dos shows. A história seguiu em formato de “Y”. Enquanto a banda eventualmente perdeu potência, Prince virou o artista que conhecemos.

Gosto dessa história porque fiquei apaixonado pela música e tenho lido bastante sobre a vida do Prince. Não posso falar absolutamente nada sobre o processo criativo de uma das pessoas mais criativas do mundo, mas com o olhar de hoje, certamente havia espaço para os dois lados no mercado. No entanto, não acho produtivo sentar-se em cima de uma ideia, sem dar margem para ela andar por si só, criar ramificações e gerar coisas novas. E o grande pulo do processo criativo é a capacidade de sempre ir atrás da “próxima coisa nova”, a capacidade de gerar inovação.

Paradoxalmente, isso foi o que Prince fez durante a sua vida toda.

 

O ano em que aprendi a criar sentido para as coisas

Todo final de ano é a mesma coisa. Venho aqui nesse espaço e escrevo várias linhas sobre meu ano. As coisas boas, as ruins, os desafios, o que quero daqui pro ano seguinte. Para 2020, confesso que estava meio sem vontade de escrever. Cheguei nesse final de ano esgotado, mal consegui escrever as mensagens de boas festas para as pessoas, quiçá terminar esse aqui.

Mas depois pensei que seria importante para a posteridade. Esse blog atingiu a maioridade, tem muita coisa escrita aqui e esse ano não poderia ficar de fora.

Papai, Tutu e eu, no começo do ano.

E enfim, 2020 talvez tenha me provado que o niilismo otimista é uma verdade, ponto. Uma pessoa lerá esse texto e ficará bem puta com isso. Mas é o que é. Em um mundo sem sentido, precisamos achar e criar os nossos sentidos. No meu caso, foi ter a certeza de que consegui andar pra frente, quando tudo parecia ser muito difícil.

Ter essa noção é reconfortante de certa forma, especialmente pra quem sempre gostou de se autossabotar ou de achar que era um “forasteiro” em determinados grupos sociais. Ter a certeza de que andei pra frente em 2020 é ainda mais especial. O ano mais difícil de todos e um ano bem diferente do que eu havia imaginado.

(Acabei de perceber que escrevi a mesma coisa no texto do ano passado. Só que esse “diferente do que havíamos imaginado” foi diferente do que eu havia imaginado no fim de 2019. Ou as coisas mudam rápido ou sou péssimo em fazer previsões de ano novo.)

Grande parte do ano foi de angústia, ansiedade e aflição. Primeiro pela pandemia. E como se não bastasse isso, também existem os perrengues diversos ao nosso redor, sejam os nossos ou os de gente querida. Tem sido complicado entender os dias com a falta de liderança, os mais de 190 mil mortos e vendo gente conhecida – e esclarecida, espero – aglomerando, fazendo festa, ignorando o uso de máscaras. Mas como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

E vejam como é fácil ser seduzido pelas coisas que nos fazem mal. No meu caso, abrir as redes sociais e os portais, doido para consumir a última merda dita pelo presidente ou ver fotos de festinhas e aglomerações de conhecidos.

Mais fácil ainda é pegar todo esse contexto e assumir que a “falta de sentido” significa “desistir das esperanças” ou “largar tudo de lado”. Não, não é. De novo, esse ano foi a oportunidade de dar sentido para as minhas coisas e fazer o que era possível: andar pra frente. Foi difícil, desafiador, estressante, mas estou feliz comigo mesmo.

Profissionalmente, foi um ano recheado de desconfortos, bons e ruins. Fiz duas curadorias lindas para o SESI junto com a d. Pilar e a Cida Lacerda, fiz uma consultoria para um projeto super legal de uma escola de governo, manobramos a 42formas para um caminho mais estratégico, lançamos e pilotamos um produto, o Núcleo de Aprendizagem Ágil, eu e o Diego desenvolvemos um conteúdo incrível sobre mundo complexo e jazz. Fui mestre de cerimônias e moderador de conversas, aprendi bastante.

Quando olho pra trás, dá um orgulho danado. Pude conhecer gente super inteligente, pessoas que colocaram a barra lá em cima e que me assustaram no começo, mas não fugi da responsabilidade. É muita coisa em pouco tempo e é difícil ver o progresso no meio do turbilhão, mas está aí, registrado.

Esse ano não teve muita música. Por motivos óbvios, paramos os ensaios em março, mas continuamos conversando e nos apoiando pelo zoom. Trocamos as aulas de jazz e Beatles por bate-papos ricos sobre gravações. Até arriscamos gravar algumas canções. Mesmo não tocando muito, por conta de uma das curadorias, consegui trazer o baixista Victor Wooten pra falar em um dos seminários e dois dias depois, tive a honra de tocar com ele.

Também treinei pouco crossfit. Ganhei um pouco de peso, perdi força, mas tudo bem. Isso a gente corre atrás na hora que as coisas assentarem.

O que me trouxe sanidade foram os amigos, a família e ocupar a cabeça. Antes da pandemia, teve uma bela viagem em família para Miami no começo do ano. Depois, fiquei meses na minha comuna – o lote com as casas da minha mãe, do meu tio e de um primo – entre Itabirito e Nova Lima. Dei sentido para as coisas lendo, estudando, ficando horas e horas na marcenaria ou fotografando a lua e o céu. No meio tempo, as conversas com amigos, num esforço constante de todas as partes para saber quem estava bem, quem precisava de ajuda. 

E dentro das coisas mais improváveis e menos ortodoxas para uma pandemia, consegui redescobrir o amor. Com a Carol, 2020 começou dividindo o mesmo voo de Belo Horizonte para São Paulo, passou por um aniversário, um bar logo antes do pseudo-lockdown e do desespero começar. Viemos os dois para Minas. Nesse meio tempo, foram dezenas de horas de conversa, centenas de mensagens trocadas e, em maio, sou surpreendido com uma declaração. Deu certo. Desde então, tenho aprendido, crescido e amadurecido a cada dia. Uma sorte danada e uma história linda que merece ser contada com mais calma.

Talvez a Carol não goste de ler sobre o “niilismo otimista”, já tivemos boas conversas sobre esse tema e há uma discordância sobre “achar sentido nas coisas”, mas não tem jeito, foi a minha melhor definição do ano. Conscientemente ou não, foi a forma que achei para cumprir a promessa feita no ano passado: “soar mais como eu mesmo”.

Não estou nem perto de chegar no final desse processo, mas de novo, acho que consegui caminhar ainda mais na direção que acredito.

Feliz ano novo, pessoal!

As tábuas e onde eu aprendo na internet

Outro dia, o Conrado Schlochauer compilou a lista das 10 ferramentas que ele mais usa para aprender. Fez parte da pesquisa anual da Jane Hart sobre as ferramentas mais utilizadas para isso. A seleção do conrado é super interessante e eu compartilho várias das ferramentas, especialmente o Google, Twitter, Kindle e Whatsapp.

(E antes do tema desse post, um pequeno caso sobre o Whatsapp. Estou na reta final de uma consultoria e ontem, uma pergunta do outro consultor sobre um fluxo virou uma discussão riquíssima sobre processos, metodologia e abordagem entre nós dois e o cliente. A gente aprende MUITO ali, sem dúvidas.)

Voltando ao caso, se não estou enganado, essas são as minhas tábuas 10 até 15. Elas foram feitas com diversas madeiras que outrora foram móveis e pisos da casa do meu tio: peroba, ipê, algumas chapas de pinus que comprei.


Junto com a orientação do meu tio, colocar a mão na massa, a tentativa e o erro e as experiências anteriores, usei outras três tecnologias que uso para aprender: instagram, youtube e reddit.

(Há três anos, falei que os dois últimos eram locais “improváveis” para aprender algo. Admito que foi um título caça-cliques. A gente aprende horrores ali).

No caso dessas tábuas, o instagram foi fundamental para a parte criativa do processo. Quando educamos o algoritmo, o resultado é ótimo. Comecei a seguir perfis de marceneiros e pessoas que fazem tábuas e além dessas referências, chequei alguns vídeos sobre “como fazer”. Dentro do meu processo de aprendizado, tenho percebido como estou mais tolerante ao IGTV, mesmo com seus problemas de navegação e na telinha pequena do telefone.

Por isso, pra outras referências sobre construção e informações mais detalhadas, acabo recorrendo ao youtube. Além de checar meus makers favoritos, Jimmy diResta, Bob Clagett, Chris Salomone, busquei vídeos para resolver algumas dúvidas sobre a primeira camada de óleo mineral, o quanto devo lixar e qual lixa usar, e como fazer detalhes e acabamento usando uma tupia.

No Reddit, dentro de uma thread dedicada às tábuas de carne, achei a receita para fazer a mistura de cera de abelha e óleo mineral que usei para finalizar o trabalho. Aliás, essa pasta pode ser utilizada em qualquer utensílio de madeira que você usa na cozinha. Basta derreter uma parte da cera para três de óleo e esperar esfriar. Fiz isso em banho-maria. 🙂

Falando das tábuas, é certo que existem centenas de oportunidades para melhoria e o próximo lote sairá melhor do que esse. E sobre as ferramentas, é muito interessante entender e aprender as coisas com pessoas interessadas feito nós. Algumas das referências eram profissionais, gente que vive de fazer tábua pra viver. Porém muitas delas vieram de gente feito eu, alguém curioso, não necessariamente especialista no tema, mas que busca os caminhos do processo de aprendizagem.

 

MBFreakNo41 - Flickr | CC-BY-2.0
MBFreakNo41 - Flickr | CC-BY-2.0

O tal processo de reinvenção

Ahh, Carter Beauford, que homem maravilhoso. O baterista da Dave Matthews Band é uma das maiores influências que esse escriba tem na vida. E outro dia, o Diego – sempre ele – me mandou essa entrevista dele pro Harry Miree.

A piada é óbvia. Esse vídeo maravilhoso só tem dois problemas: só tem 14 minutos e eu não estou nele. Tirando isso, é o tipo de entrevista que eu adoro, sem focar nas coisas específicas: rudimentos, pratos, pele ou técnica. Era um espaço pra falar sobre como manter um olhar fresco sobre o que fazemos todos os dias. Carter conta que ele mantém a mesma paixão pelo instrumento e pela música, mas que sempre tenta trazer um olhar novo pro que faz seja “emulando os seus ídolos” ou “tentando acompanhar o que os novos caras estão fazendo”.

(Ele usa a expressão “cats” pra falar das outras pessoas e eu absolutamente adoro. É super utilizada no mundo do jazz, mas você precisa ser um pra poder usar. Eu não sou)

Isso é muito interessante. Primeiro, não dar nada como garantido. O Carter simplesmente poderia tocar a mesma coisa todas as noites, mas não, sempre ele aparece com algo novo. E se você já ouviu a Dave Matthews Band, sabe que eles tem dezenas de discos ao vivo, então existe material para comparação. Algumas partes e músicas não mudam, mas outras sempre têm uma coisinha diferente.

E mostrando vários exemplos da mesma passagem de “What Would You Say?” ao longo dos anos, Carter fala que embora esteja focado no resto da banda e em entregar a música, seus heróis estão sempre com ele.
Tento pensar o que Billy Cobham, Tony Williams ou Jack deJohnette fariam nesse pedaço da música…

Nesse momento eu pensei que essa afirmação ia contra o que está no meu post sobre o Neil Peart. Lá, contei sobre quando Peart resolveu voltar a estudar com um professor, porque sempre parecia outra pessoa quando tocava jazz. Porém aí veio a conclusão do pensamento do Carter:

“…mas também tento soar feito o Carter Beauford. Todas as coisas que eu escutei, faço com que elas pertençam a mim, de modo que eu tenha alguma coisa pra conversar com aqueles que me ensinaram e fazer a música ser interessante”

É simples e brilhante. Pensa na quantidade de coisas que você já aprendeu e como elas estão na sua caixa de ferramentas. Mais do que isso, pense sobre como você aprendeu e como isso deixou de ser “de alguém” para se transformar em algo seu. Finalmente, como você usa essa caixa de ferramentas para fazer o seu trabalho ou mudar o mundo que te rodeia, em qualquer escala. Porque é isso que conta e é disso que o Carter fala: servir a música, o propósito.

Kobe Bryant disse que roubou todos os movimentos dos grandes jogadores como uma forma de deixá-los orgulhosos e em nome do jogo, algo que era muito maior do que ele. Neil Peart se reinventou e o Carter Beauford se reinventa todas as noites, porque não sobre ele, é sobre a música.

Tem horas que questionar as coisas e achar um novo caminho pro que a gente faz todo dia é desgastante e cansativo, mas a motivação vem quando vemos nossas inspirações se movimentando nesse mesmo processo.

Pra fechar, eu entendo a felicidade do Harry Miree durante a entrevista. Eu passei pela mesma coisa em 2008, antes do show da banda no Rio de Janeiro. O Plauto Covre trabalhava na produção, conseguiu me colocar no finalzinho da passagem de som e no jantar da banda. Pedi uma foto pro Carter, disse que ele era uma inspiração e entreguei uma camisa do Cruzeiro de presente. Meu coração parou por um momento. Não imaginava tamanha gentileza e atenção. Que homem!

Eu e o Carter, antes do show da Dave Matthews Band no Vivo Rio, em outubro de 2008.

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air
Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

Sobre demônios e ar fresco

Com mais carinho, terminei a leitura do Keep Going, o último livro do Austin Kleon. Nessa entrevista durante o SXSW 2019, Austin explica porque ele resolveu escrever o livro. Basicamente, foi a forma que ele encontrou para manter-se produtivo e criativo durante os tempos difíceis.

Os capítulos do livro fizeram muito sentido pra mim e recomendo bastante a leitura. Eu gosto do jeito que o Austin escreve, cheio de referências e curadoria. O conteúdo faz sentido para todo mundo que tem um ofício, do ramo “criativo” ou não. No entanto, o capítulo que ressoou de maneira especial é a foto que ilustra esse post.

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

 

Os demônios odeiam ar fresco. E é irônico eu escrever sobre isso, especialmente porque eu fiz essa foto acima. Claramente, ar fresco é o que mais tenho nesse período de auto-isolamento. Vim para o condomínio perto de Belo Horizonte onde minha mãe, um tio e um primo tem casa dentro do mesmo lote. Um condomínio dentro do condomínio, com gente, espaço e ar livre. Ainda assim, os demônios costumam dar a sua graça.

Os demônios que o Austin faz referência no texto são tanto aqueles que moram dentro da nossa cabeça, nossos medos, expectativas e ansiedades, quanto os que estão do lado de fora, “as pessoas que querem nos controlar através do medo e da desinformação – as empresas, os marketeiros, os políticos – nos querem conectados em nossos telefones e assistindo TV, porque querem nos vender a sua visão de mundo”. Tem horas que é difícil manter distância, afinal:

– É difícil conviver com o demônio.
– Ele se esforça muito para ser legal.
– Eu te fiz um chá.
– Eu não pedi chá.

Nesses quase 50 dias de auto-isolamento, já vi um pouco de todos eles. O tempo elástico e a falta de interferências no dia a dia faz com que a gente revisite os pensamentos que ficam meio enterrados. Comigo, além das pequenas crises de ansiedade, vieram a falácia da super produtividade, de achar que preciso aprender dezenas de novas coisas, até aquele medo de “como será o mundo e a minha vida depois da pandemia”. Tiveram flashes de questionar escolhas e decisões na vida. Aposto que aconteceu com você também.

Junto, vem a “necessidade” da notícia ruim, de ficar lendo mil horas sobre o coronavírus, o caos na saúde, a falta de perspectiva e como é ruim ter um negacionista como chefe do executivo nacional. Um somatório de coisas que nos faz concluir que o mundo é cruel e não merece ser salvo e de como é sedutor querer ficar pra baixo.

O que tem me salvado é exatamente o ar fresco real e metafórico. Todos nós estamos no mesmo barco, esses sentimentos não vão durar pra sempre. Vivemos na eterna impermanência e tudo bem ser assim. Não estou me cobrando mais um excesso de produtividade, de tentar emular o mundo que a gente tinha antes. Se fico tempo demais olhando pra tela do computador, esperando que a inspiração (ou a transpiração) venha por osmose, eu paro. Dou uma volta ao redor da casa, sento no meu banquinho da reflexão ou faço outra coisa qualquer, em uma espécie de procrastinação produtiva.

(Em outro capítulo, o Austin Kleon diz que a produtividade tem temporadas, mas isso é outro assunto)

Mesmo metaforicamente, tento arejar as ideias. Mando uma mensagem pra alguém, vejo o que as pessoas que eu gosto estão fazendo. Não podemos sair na rua ainda, sentar em um bar ainda, fazer crossfit ainda. Mas podemos dar uma voltinha na rua, buscar referências em outros lugares, trocar ideias.

Os demônios odeiam ar fresco. E não estou dizendo que eles irão morrer de um dia pro outro com a nossa exposição ao ar fresco. Mas entender que eles existem e que também existe uma forma de controlá-los e, de alguma maneira, usá-los ao nosso favor.

Ainda existe muita arte para ser feita nesse mundo.