– Como você está?
– Com medo.
É engraçado ter esse sentimento agora, sendo que lidei de uma forma mais leve com a situação da primeira vez, há cinco anos. Parecia ser mais fácil estar com um tumor cerebral quando tudo era novidade e quando tinha pouco a perder. Agora, lidando de novo, o medo está mais presente, ainda que de forma compartimentada.
Eu não tenho medo da cirurgia e tudo que gravita em torno dela: sondas e cateteres, corte de cabelo, anestesia, ser eventualmente acordado, UTI, etc. Essa é a parte fácil.
Tenho medo das coisas que deram certo da primeira vez darem errado nessa: minha recuperação, sair com as funções cognitivas e intelectuais intactas, os bons resultados da biópsia. E na minha cabeça que cria muitos cenários, como me dizem, significa tempo abreviado. Quase viver o lado “quanto tempo me resta?” que escrevi no primeiro texto.
Aí fico com raiva de mim mesmo por ainda não ter conseguido criar um grande reserva para as pessoas que ficam. E, talvez mais importante, sentir a falta e ser a falta dessas pessoas: filho, filha, esposa, pai, mãe, irmã, sobrinhos e sobrinha, família, amigos.
Não estou falando absolutamente nada quando falo sobre criação de cenários. Isso tem um nome: ansiedade. Há 400 anos, Michel de Montaigne escreveu em “Dos Prognósticos”:
“Ainda assim, restam-nos alguns meios de adivinhação através das estrelas, espíritos, partes do corpo, sonhos e outros, todos exemplos notáveis da curiosidade obstinada da nossa natureza, que se deleita em preocupar-se com o futuro como se não tivesse o suficiente com que lidar no presente.”
É bem isso. Minha preocupação com o futuro não aparece lendo estrelas, horóscopo (sou leonino demais para acreditar nele) ou decifrando meus sonhos. Me preocupo com o futuro vivendo a ansiedade e não o presente de (ou “que é”) estar vivo e rodeado de pessoas incríveis e poder fazer planos.
Também como disse no primeiro texto, fazer planos mora na intersecção entre “para velhice vou” e “quanto tempo tenho?”. Por isso, é praticamente um exercício sentar, mentalizar e quase falar em voz alta sobre a necessidade de viver o dia presente, criar cenários, fazer e executar planos.
Não é (nunca é!) uma virada de chave. É um exercício que parece exigir mais energia quando se está com a cabeça cheia de forma literal e figurativa.
Como disse Luciano de Samóstata, em uma citação do próprio Montaigne:
“Que a mente dos homens seja cega para o que está por vir. Que aqueles que temem possam ter esperança.”
Nota para mim mesmo.
A foto que ilustra o post foi feita em Kazan, Rússia, em agosto de 2019.
Referência textual: “Against Prognostication“, do Austin Kleon.
