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Tetê 0.9

Quiquinha,

Hoje, no seu mêsversário de nove meses, estou longe, viajando com meus primos e tios.

Morrendo de saudades da mamãe, seu irmão e de você.

Estava vendo uma exposição da Frida Kahlo quando o vovô Fernando mandou sua foto pilotando um triciclo junto com o Samuel e, para espanto de ninguém, fiquei emocionado. Como pai, acho importante criar mulheres fortes enquanto aprendo sobre mulheres fortes.

Mais cedo, andei por uma praça cheia de crianças brincando, onde uma whippet dormia profundamente e precisamos voltar aqui logo para vocês conhecerem a cidade. Vamos fazer esse passeio.

Algumas noites têm sido mais longas nesse mês. E quando sua mãe te entrega para que eu coloque para dormir, eu preciso ficar um bocado de tempo andando até você me deixar sentar, dando uma folga para a minha coluna, para aí sim te colocar no berço.

Ao mesmo tempo, suas gargalhadas são o melhor remédio para os dias difíceis quando vemos o noticiário. Assim como me divirto com sua concentração com os brinquedos e ainda mais com você imitando a cachorra que mora em nosso prédio.

Vamos juntos aprendendo, criando e se descobrindo.

Logo a gente se vê, gatinha, e vou te encher de beijinhos.

Te amo.

O tempo se faz é vivendo #9 – Um “novo” começo

Com razão, algumas pessoas têm reclamado que minha “eussessoria” de imprensa não tem trabalhado como deveria, privando-as de atualizações. Não posso deixar de concordar. Mas trago um bom motivo.

A falta de notícias tem relação com os momentos de espera. A notícia relevante, aquela que demanda um release, demorou a vir por conta disso. Qualquer atualização nesse meio tempo seria absolutamente mundana. Afinal, todos e todas concordamos que “Acordei, tomei café e trabalhei”, “Estou chateado com o Cruzeiro” ou “Felipe dá sua opinião sobre o casal Hamilton e Kardashian” não são atualizações relevantes.

(Spoiler: Daqui para baixo, as notícias são boas).

Ainda no final de junho, tudo já estava super encaminhado para começar a radioterapia e a quimioterapia. Papeladas aprovadas, exames feitos, máscara moldada. Porém, decidimos ir atrás de uma outra opinião em Belo Horizonte. Este médico indicou um oncologista em São Paulo.

Fiz a teleconsulta em uma terça e ele, de posse das minhas ressonâncias, pediu que eu enviasse as lâminas com meu material tumoral para uma biópsia e outros exames mais completos. O objetivo era entender todo o perfil do meu tumor para saber se eu era apto a começar a tomar um medicamento que segue em uma direção diferente da que estava atualmente indicada.

“Tudo fica pronto entre três e seis semanas”, ele disse ao final da consulta.

Então, imaginem o que foi ficar esse tempo todo torcendo para não ser uma bomba-relógio, que é um dos pensamentos mais recorrentes nesta ampla cabecinha, além de ficar conjecturando o que estaria acontecendo comigo à medida que eu estava adiando o tratamento.

Passou julho, veio agosto. Com ele, meu aniversário e os resultados dos exames. E no dia do meu aniversário, a indicação de que eu talvez estivesse apto a tomar o medicamento. Eu ouvi quase como uma autorização médica para poder continuar celebrando aniversários.

“Queremos só uma ressonância e um exame de sangue para confirmar”.

A chama da esperança estava acesa, mas eu segurei a onda para não ficar muito empolgado. A boa notícia foi confirmada na sexta-feira, dia 21:

Estou apto a tomar o vorasidenibe (ou Voranigo como nome comercial).

Em linhas gerais, ele é um medicamento desenhado especialmente para o meu tipo de tumor e que atua como um inibidor do crescimento do onco metabólito. É um comprimido de uso contínuo e que exigirá um controle mais atento e mais frequente com exames de imagem e exames de sangue nos próximos anos.

Anos. Anos. Não semanas ou meses. Anos.

É uma notícia incrível. Que me ajuda a fazer planos e manter essa pulsão pela vida.

Agora, vem os próximos passos. Recebi hoje o relatório médico, vou entrar com o pedido no plano de saúde para o fornecimento do remédio, porque seu custo é alto. Se o pedido for negado, terei que judicializar o processo todo.

Mas amanhã eu penso nisso. Hoje, estou feliz com a notícia e ansioso para começar o medicamento.

Também continuar seguindo a vida, fazendo planos. Como disse, ainda há muita arte para ser feita, muitas belezas para aprender, compartilhar e trocar. É Importante também continuar fazendo exercício, tomando água e fazendo terapia, porque a saúde mental e a saúde do corpo vão além, simplesmente, do que mora na minha cabeça.

Seguimos juntos para os próximos capítulos.

 

Ieiel, 3

O cara mais legal do mundo completou três anos no final de semana.

E se eu pudesse arriscar, diria que esse terço de vida foi o mais cheio das descobertas. E cheio das conversas também.

Ele mudou de status na casa, o filho único virou irmão mais velho e tem descoberto como compartimentar suas emoções, com o ciúme e a perda de espaço se confundindo com o amor pela sua Quiquinha. Fica feliz quando contamos, eu e sua mãe, que nós nos tornamos pai e mãe no dia que ele nasceu. E dá gostosas gargalhadas quando falamos o quanto ela falava “aí, filho!” a cada giro dado na barriga por conta da sua movimentação.

Navegou entre a desconfiança, o medo e a curiosidade com a minha cirurgia. Para ele, não fez muito sentido o médico cortar metade do meu cabelo para depois eu ter que pedir ao vovô Léo para cortar o resto. Semanas depois da cirurgia, no caminho para a aula de natação, perguntou “quando eu ia voltar para o hospital”.

– Acho que não vou precisar tão cedo, filho.
– O que o médico disse? Você “tá” tomando os remedinhos?
– Sim, estou.
– Então tá bom.

Ele tem gostado de meios de transporte, pedindo para que eu contasse pela centésima vez de quando nosso carro caiu na vala na estrada de terra, correndo atrás de tratores e todos os tipos de caminhão na cidade, além de fuscas e motos. Transformou sua bicicleta de equilíbrio em uma moto, inclusive. Só admite ser chamado de “motoqueilo”. Tentei andar de ônibus com ele, mas ainda não tive sucesso.

O construtor de Legos, que pega os meus kits emprestados para trocar pneus dos carros, fazer a nave viajar pelo espaço sideral e fazer o astronauta dar carona para uma motorista.

Ele não sabe, mas muitas das suas observações são cheias de humor. Um caso mais antigo: dobrando a esquina de casa, vimos um homem fazendo xixi na rua, “escondido” atrás do carro.

— Olha só, filho, o moço fazendo xixi na rua.
— Ele pôs o 🐤 pra fora?
— Pôs.
— Que “glosseilo”.

Ou, mais recentemente, perguntou qual era a marca do purificador de água.

– É Philips.
– Philips…
– Igual o nome do papai, né, filho?
– Não, igual uma ferramenta: chave philips.

E, no meio disso tudo, vamos aprendendo juntos a lidar com os rompantes e vontades que vêm junto com o desenvolvimento de uma criança de três anos. Os “não quero”, “não vou” e afins e que muitas vezes torram a paciência do pai. Fico péssimo com isso, afinal, já deveria ter sacado como lidar com estes momentos, e não é tão fácil como imaginava.

No sábado, na hora do parabéns, só consegui cantar até o “nesta data queri…”. Um filme passou na cabeça pelo que eu tenho passado, pelo que ele passou no começo da vida, pelo rapaz que ele está se tornando, pela alegria que é ser seu pai.

Ô sorte.

A tentativa de tirar uma foto da Teté com a Tetê. Uma querendo abraçar a outra. A outra pedindo ajuda para não ser esmagada.
A tentativa de tirar uma foto da Teté com a Tetê. Uma querendo abraçar a outra. A outra pedindo ajuda para não ser esmagada.

Tetê 0.8

Tetê,

Pode ser até motivo de debates o que vou escrever agora, mas posso jurar de pés juntos que ouvi você falando suas primeiras palavras.

Outro dia, você estava no meu colo quando perguntei “qual é seu nome?”

– Tetê.

Impressionado, fiz a mesma pergunta e ouvi a mesma resposta.

Se isso não convencer, trago outra evidência. Estávamos na casa do vovô Fernando e da vovó Tânia quando você gritou a plenos pulmões:

– Vovóóóó.

Sua mãe estava na sala e pode comprovar este fato!

De qualquer maneira, nesse seu mês de vida você tem se divertido com a brincadeira de “achou”. Pode ser a gente brincando contigo, você pegando o próprio cobertor ou vestido para se esconder (ou “se esconder”) ou quando cobri o rosto da Tita, sua amiguinha de pano, com suas imensas orelhas. Suas risadas são de encher o coração!

Você também tem desenvolvido bastante o módulo de interação social. Os bracinhos e as mãozinhas balançam um bocado quando você está rodeada por pessoas, numa tentativa de dar “oi” ou “tchau” para quem está presente. E tem sido comum estar rodeada de pessoas. No começo da semana, você acompanhou a gente no primeiro dia de aula do Samuel. Em determinado momento da tarde, fomos cercados por umas sete crianças de seis anos que queriam porque queriam pegar em você.

Seguimos firmes também na sua introdução alimentar, que está indo devagar e sempre. De vez em quando, você acha que brincar com a colher é mais legal do que comer uma cenourinha, mas faz parte do processo. É muito jóia te ver experimentando e descobrindo sabores.

Continuamos construindo juntos.

Um beijo.

 

A tentativa de tirar uma foto da Teté com a Tetê. Uma querendo abraçar a outra. A outra pedindo ajuda para não ser esmagada.

O Primeiro dia de Aula

Samuel,

Hoje foi seu primeiro dia de aula.

Você chegou usando sua mochila do Mickey, desceu de mãos dadas com sua mãe e assim permaneceu até a hora que o Caetano, seu futuro coleguinha de sala, chegou com uma bola e começaram a chutá-la pra lá e pra cá. Você, dono de uma canhotinha potente. Ele, um goleiro aplicado que se esforçou, mas tomou alguns gols na meta imaginária. Em seguida, a turma entrou na sala para brincar de massinha e você nem “tchuns” pra gente.

Apesar de ter algumas lembranças do primeiro e segundo período, lembro claramente do primeiro dia de aula no terceiro período. Entrei na sala com um boné do Pluto, com dentinhos que saíam da aba e um estojo estampado com “Uma Cilada para Roger Rabbit”. Naquele dia, eu queria esconder dentro do boné. Quisera eu ter tido a coragem e a tranquilidade que você teve hoje. E eu espero que você faça amigos na escola que sigam pra vida, tal qual eu fiz. Que nessa sala e nas próximas estejam Andrés, Vitors, Marcelos e Marianas tal qual a minha sala do Albert Einstein em 1989.

Espero que você floresça com o que a escola pode te oferecer: o convívio com colegas, sua autoconfiança, autoestima, sua criatividade e suas expressões. Embora nenhuma escola seja perfeita e sabemos disso, saiba que você terá em mim e em sua mãe um canal aberto para te ouvir, acolher e oferecer caminhos quando as dificuldades aparecerem.

Hoje, mais do que nunca fui o pai de coração cheio e olhos marejados por um motivo lindo. O neném curioso está virando um rapaz. E um rapaz muito especial.

Estou torcendo por você desde esse primeiro dia.

Com carinho,

Papai

Sobre caixas e mudanças

(Vivendo em meio às caixas)

Eu acho que as mudanças de casa vão ficando exponencialmente mais complexas à medida que a vida avança.

Na vida adulta, a primeira mudança foi de cidade, quando saí de Belo Horizonte para São Paulo com uma mala, uma mochila e um sonho. Depois, já em São Paulo, a mudança da primeira para a segunda casa saiu com a adição de uma cama. Depois, um fogão. Uma televisão. Uma geladeira. Um sofá e assim sucessivamente.

(O sonho sempre esteve lá.)

A complexidade ficou maior quando voltei para Belo Horizonte, em janeiro de 2025. O caminhão de mudança partiu lotado de Moema para a Serra na terça-feira. No dia seguinte, eu, Carol, mais Samuel e Stellinha partimos com uma Fiat Toro cheia até a tampa.

Agora, mudamos de casa em Belo Horizonte. A família cresceu com a chegada da Maria Tereza.

Durante o processo, veio a certeza de que as caixas de mudança são como planárias. À medida que você vai esvaziando uma, aparecem mais duas. “Olha, mais caixas de diversos da cozinha!”

Desmontamos a casa na segunda, enchemos e esvaziamos o caminhão na terça. Ainda assim, precisei ir e voltar ao apartamento antigo ao longo da semana para buscar as coisas que ficaram para trás.

É um tremendo exercício de equilíbrio e controle de ansiedade: desembalar, montar móveis, pendurar quadros, instalar eletrodomésticos e riscar itens da lista de tarefas (que também se comportam feito planárias), junto com o desmonte da casa antiga e as entregas do trabalho.

Tudo é um sinal de que a vida também tem crescido e estou andando para frente. De que tenho me permitido sonhar, fazer planos, cuidar das crianças e contar com uma rede de apoio para isso. Seria ruim perceber que a vida se manteve a mesma durante todo esse tempo.

Mas, confesso, no rol de sonhos, tenho um muito específico em relação às mudanças de casa, quase uma “fantasia do pronto”. É poder estalar os dedos e ver a casa antiga empacotada. E estalar os dedos de novo e ver tudo arrumadinho na casa nova.

Será possível?

Ser pai é ser eternamente amador

“No momento que eu segurei meu filho mais velho, eu percebi o quanto eu não sabia. Ser um pai é ser um amador eterno. No sentido original da palavra no francês, ‘amateur’ é ‘aquele que ama’, tudo o que você pode fazer é aparecer e amar a criança. No momento que você acha que entendeu tudo, a criança muda, e de repente, você precisa descobrir as coisas de novo”.

Esse é um pequeno trecho do “Don’t Call it Art“, novo livro do Austin Kleon. Eu assino embaixo.

Desde o nascimento do Samuel, há quase três anos, eu vou descobrindo as coisas e o meu papel como pai. Há quase sete meses, com a vinda da Maria Tereza, vou descobrindo em dobro. É difícil descrever em palavras a emoção dessas descobertas nas crianças e em nós mesmos.

Porque é isso. Nesses quase três anos, não houve um dia igual ao outro. Eu tenho a impressão de que Samuel está um passo à frente na questão da sagacidade. De repente, as técnicas de negociação não funcionam mais e eu preciso descobrir outras. Um pequeno caso para ilustrar:

Samuel brincava com uma trena, e estava compenetrado fazendo medidas da sala.

Cortei a onda, porque trenas são perigosas para crianças. “Samuel, me dá a trena, por favor. Você pode cortar seus dedos. Depois o papai compra uma trena eletrônica para você“.

Um segundo depois, ele responde: “Papai, já é depois“.

—

Lido com isso todos os dias. Aos sete meses, Tetê já está tossindo de brincadeira, o que me faz pensar que logo estarei outro passo atrás. E que bom será desenvolver novas habilidades para novos desafios.

De certa forma, acompanhar o crescimento das crianças é viver o presente. A situação do dia, da semana, é essa. Semana que vem, tudo muda.

Sigo sendo um amador também nas responsabilidades sobre dar o exemplo, mostrar o caminho, para ensinar sobre respeito, cordialidade e modos. Enquanto também preciso proteger e falar das ameaças neste mundo cada vez mais complexo.

Estar presente é uma escolha que eu faço todos os dias, com eles e com a Carol. E ainda que eu seja um bom pai, ainda me cobro pensando que estou deixando algo pra trás, que não estou no nível da maternidade da Carol. Também há o desafio em encontrar o balanço perfeito entre a vida profissional e a vida de pai.

Mas vou desembolando tudo a cada momento e a cada dia. Daqui a pouco, Samuel vai pra escola e a vida muda novamente.

Conforta saber que tive um bom ponto de partida, sendo filho do meu bom e velho Compa, que me ensinou (e eu tento passar para seus netos) toda a curiosidade, a inquietação e a gentileza. É muito maluco perceber que tenho ficado cada vez mais parecido com meus pais e isso será tema de um texto em breve.

Quando mais novo, a decisão por ser pai nunca foi nítida. Fico feliz comigo mesmo ao ver que ela veio na hora certa, fruto do tempo, da maturidade e da vida.

E pensar que já usei o blog para reclamar do choro de bebês em aviões. Agora sou pai de uma dupla.

(Sendo o mesmo para me reinventar).

44

Com 20 anos, comentei aqui que havia implementado um sistema de comentários.

Com 21, disse “o mundo havia ficado mais batuta“.

22, achei digno compartilhar que dividia o dia com Charlize Theron, Bruce Dickinson e Caetano Veloso.

Aos 23, escrevi que minha idade mental variava entre 10 e 60 anos.

Com 25, completava 1/4 de vida. Faltavam 75% para pôr os planos todos pra frente.

Depois, aos 31, fiz uma comparação descabida com Michael Jordan, Michael Jackson e Ayrton Senna, mas com o começo do registro de um autoreconhecimento do trabalho e da jornada.

Um passinho além aos 34, com a vontade de sair da casca, ainda com as mesmas sinas e ensaiando novas rimas. Foi quando saí do domínio bonks.com.br e vim para esse aqui.

Quando completei 37 anos, fiz uma declaração de amor aos tambores e de quem eu sou como baterista.

(deveria ter escrito quando fiz 39 anos)

Completei 41 às vésperas de virar pai, falando sobre a música #41 e uma longa analogia com a letra. (E vendo o medo vencer).

42 foi a resposta definitiva da pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais, já sentindo que seria demitido da BP, reconhecendo a fragilidade da saúde mental, mas fazendo pouco para isso.

Hoje faço 44. Com uma esposa, um casal de crianças, uma cachorra, um acervo de fotos, um par de baquetas e tudo o que eu escrevi nos últimos meses sobre ser. E isso diz um bocado, porque era o que eu deveria ter escrito e ocupado há duas décadas nesse espaço virtual que sempre foi meu e em um espaço físico que eu deveria ter ocupado. Mas tinha medo de mostrar por alguma(s) razão(razões) que estão ficando mais explicadas.

Se há uma lição para tudo o que tenho passado nos últimos seis meses é largar o medo e tentar cumprir tudo o que ensaiei fazer nas linhas escritas nesse espaço desde 2002.

Diferente dos sonhos, que não envelhecem, o medo precisa ter prazo de validade. Mas é preciso saber que os sonhos e as ambições precisam sair do campo da imaginação para ganhar o mundo e me direcionar para a vida que vale ser vivida.

É o que vou fazer.

“Avante, garoto Felipe”, diria o saudoso Tião das Rendas.

E feliz aniversário.

O tempo se faz é vivendo #8 – Ainda estou aqui

02/08. Dois meses de cirurgia.

Ainda estou aqui.

Estou aqui, bem. E bem preocupado também.

Esperançoso porém angustiado com a demora da chegada dos exames.

Fazendo planos para dois anos e me preocupando se estou indo longe demais.

Trabalhando, imaginando e desenhando projetos ainda que tomando cuidado para o trabalho não engolir mais a minha saúde mental.

Me apaixonando a cada dia mais pelas minhas crianças, mas confuso pensando se qualquer sinal de cansaço é declínio mental. Tipo, arrumei todo o banho do Samuel e me esqueci da toalha. Ia escovar seus dentes com a minha escova.

Também descobrindo funcionalidades novas nas duas e receoso por não saber o quanto verei disso.

Vendo que “Meu desejo e meu destino brigaram como irmãos” e torcendo para que façam as pazes.

Ainda estou aqui, rodeado de gente incrível. mesmo pensando se eu deveria ficar isolado em bunker por não dar conta desse carinho todo. (Resposta: não deveria).

Ainda amando mais o próximo do que a mim mesmo. (Tentando equalizar a balança).

Escrevendo.

Criando.

Vivendo.

Ainda estou aqui. Que seja por um bom tempo.

Tetê 0.7

Quiquinha*,

No domingo você completou sete meses! Neste último mês, vimos você começar a sua introdução alimentar, com todas as caras e bocas de quem está provando as coisas pela primeira vez. Está uma delícia acompanhar essa aventura e ficar adivinhando a sua reação.

Com o Samuel, foi nesse momento que a Stella, a whippet, criou vínculos. Foi quando ela entendeu que precisa limpar o chão quando a comida cai. Então ela fica ali, atenta ao pedaço de manga, cenoura ou chuchu que escapa da sua mão. Ela é tão proativa que ontem tirou todo o resto de ovo cozido do seu assento quando sua mãe te levantou para te limpar.

Você também está sendo a irmã mais nova paciente, lidando com todos os apertões e amassos que o Samuel te dá, enquanto ele aprende a demonstrar o amor que sente por você. Ele tem adorado brincar de “achou!” com você, além de ficar gritando a plenos pulmões: “fofinha!”, “lindinha!”, “quiquinha!”. Gosto tanto dessa última palavra que resolvi abrir esta carta com ela.

E talvez seja por causa dessa falação dentro de casa que você esteja inspirada a conversar. Como você tem falado! Sua avó Pilar e suas tias-avós vieram almoçar aqui em casa ontem, e você não ficou atrás na conversa. Participou com vontade. A gente que lute quando as sílabas virarem palavras.

Porém, precisamos falar de uma coisa séria. Preste bem atenção. O que tem me derretido todos os dias, a toda hora, é o seu sorriso, junto com as suas gargalhadas. Como na mesa do café da manhã, no domingo: você estava sentada no colo da tia Fernanda, olhou para mim e, do nada, deu um sorrisão mostrando os dois dentinhos de baixo.

“Olha como ela gosta do papai!”, foi o que sua tia disse.

Pode ser de manhã, de tarde e até mesmo de madrugada, quando sua mãe pede ajuda para te fazer dormir depois de encher o tanque. Mesmo com sono, é uma delícia te colocar no colo, ver o seu sorriso e te fazer dormir aninhada.

Saiba que eu sou doido por você. E estou ansioso para acompanhar o seu desenvolvimento e as suas descobertas.

A vida presta demais com vocês ao meu lado.

Um beijo do seu pai.