Desde 2002.

Cabeça

Sobre preocupar e gostar

Post altamente modificado depois de conversas e releituras. Deixei a primeira parte como estava e construí o resto depois. Me pareceu o correto.

Há pouco mais de um mês, eu comecei a fazer terapia. Só essa decisão já daria um post. Fui para resolver algumas coisas que eu tenho na cabeça: inseguranças, angústias e questionamentos. Depois de cinco sessões e a ida pro divã, a impressão que eu tenho é que entrei em um túnel super apertado e fui parar numa câmara gigante, cheia de coisas para serem observadas e ligadas. Isso tudo também dão posts. Talvez esse seja o primeiro deles.

Nessas ligações e livres associações, comecei a pensar numa coisa interessante: uma equação complicada quando misturamos empatia, preocupação com os que nos rodeiam e como entendemos que a vida deve ser.

Na primeira versão desse post, eu pensei o seguinte:
Quando pensamos nas pessoas que mais gostamos e nas decisões que elas tomam em suas vidas, é natural que a gente não concorde com todas elas. Aí ou a gente se preocupa ou tenta mudar aquilo, baseado nas nossas afirmações. Ficar preocupado já é um problema, porque te desgasta, te cansa, te faz pensar nas soluções para aquela situação. E aí, fiquei pensando: quantas dessas preocupações são legítimas? Digo, as outras pessoas sabem/se importam com as suas preocupações em relação às decisões de vida delas?

Por outro lado, o quanto “gostar” não está relacionado à “se preocupar”? Esse me parece ser o maior desafio. Entender que não se preocupar com as decisões não significa não gostar. Tem um quê de livre arbítrio e resiliência aí, imagino. Mas é inócuo se preocupar se a pessoa dorme cedo/tarde, quais as decisões que ela tomou para a sua carreira, o que ela vai comer hoje, mas se ela está feliz, se isso não mexe na nossa vida, não faz sentido se preocupar. E isso não significa que você não tem carinho por essa pessoa. Talvez esses sejam os dois limites: felicidade e interferência em nossas vidas. Não dá para apoiar um relacionamento abusivo, algum comportamento que coloque a vida do outro em risco ou decisões que efetivamente nos sejam invasivos. Até que se atinja esse ponto, acho que é possível manter a separação.

Não tô dizendo que é fácil. Um nível mínimo de humanidade nos faz cuidadosos com quem gostamos e isso traz a preocupação, mas tentar furar essa bolha pode ser um exercício interessante de empatia e de tentar enxergar diferentes visões de mundo. E mais importante, pode ser um caminho para entendermos os nossos próprios dilemas e prioridades e acharmos (se for possível) a nossa própria felicidade.

Porém…

Depois de alguma reflexão, vi que isso tudo é muito egoísta. É importante pensarmos em nosso bem estar, em nossa felicidade. Mas enquanto espécie, só chegamos até aqui porque nos preocupamos um com os outros. Aliás, trabalhar em conjunto e viver em sociedade foi o que acelerou a nossa evolução. Talvez, essa preocupação é sinal de empatia, de que nos vemos no outro e que o seu bem estar também é o nosso bem estar.

Talvez, o que a gente precise é de um pouco mais de atenção e saber ouvir. Estamos tão preocupados com nós mesmos que deixamos de prestar atenção na resposta que vem de um “tudo bem?”. Aliás, na maioria das vezes não estamos nem perguntando se está realmente tudo bem, só cumprimos uma formalidade para receber outra de volta. É valioso quando o “tudo bem” vira um “vai melhorar” ou “estamos caminhando”. Sinal de que a pessoa do outro lado tem empatia com a gente.

Delimitar “espaços” tem sido um dos meus maiores questionamentos na vida. O que devo fazer e falar para ter o meu espaço respeitado e respeitar o do outros? Uma análise rasteira me fez escrever a primeira parte desse post. A conclusão de fato passa por se preocupar com o outro, mas sem “cagar regra” na vida deles. (E eu juro que não queria usar esse termo, mas ele é perfeito).

Como achar esse balanço? Bom, eu ainda não sei ao certo, mas acho que um dia chegaremos lá.

Trilha do post:

Ano XV

Só para não passar em branco, este distinto espaço completa 15 anos hoje. É uma relação de amor e ódio, de apego e desapego, mas que cumpre um papel ainda muito importante na minha vida.

Sigamos. 🙂

Sobre perder e se encontrar em Buenos Aires

(Escrito no voo Gol 7681, Aeroparque-Guarulhos, do lado de um argentino que me acordou tentando recostar a poltrona dele. Ele apertou o botão da minha, o sacana).

Tinha ido à Buenos Aires uma única vez, em 2003*. Eu, que lembro de tudo, tenho poucas lembranças dessa viagem. Sei que era a primeira vez que viajava para fora do Brasil e achei tudo uma maravilha.

Agora, escrevo esse post voltando de lá, numa viagem que pode entrar na categoria das viagens sem juízo. Minha mãe viajou a trabalho para lá, me ofereceu a passagem, arrumei na terça pra viajar na sexta-feira cedo. “Compra com milhas ou dinheiro?” Milhas. “Mas, mãe, meu o caixa não está recomposto por conta da viagem pros Estados Unidos”, não tem problema, dividimos o hotel. Então vamos. Curiosamente, foi a primeira vez que viajei com d. Pilar, só eu e ela. Foi uma das melhores descobertas da vida. Tudo sem pressa, no nosso ritmo. Conversas adultas. A relação com minha família sempre foi boa e tem melhorado com a idade.

A companheira de viagem

Comprei 1.400 pesos na quinta-feira no Aeroporto de Confins, voltando de uma reunião em BH. Desbloqueei o cartão no caminho pra Guarulhos, me esqueci do seguro-viagem. Dedos cruzados pra não escorregar e torcer o pé, feito a moça no McDonald’s da rua Florida, ontem. Sou fluente em portunhol, então vai dar certo. Já deu, estou voltando. Não fui passado pra trás, conversei política com o motorista de esquerda do Uber, ouvimos o taxista de direita bradar contra os imigrantes e Cristina Kirchner.

Comemos os maiores pedaços de carne de nossas vidas em Puerto Madero e a comida do Francis Mallmann no Patagonia Sur, em La Boca. Nunca vi tantos dígitos no valor de uma conta, mas foram proporcionais à experiência e à oportunidade.

Em três dias, além de Puerto Madero e Boca, fomos pra Recoleta, Retiro e Palermo. Só no domingo foram 21km. Saímos do hotel, fomos à Floraris Genérica, depois até o Malba, que só abria ao meio dia. Mamãe pega um táxi, volta pro hotel e vai para o aeroporto. Eu caminho até Palermo. “Felipe, você precisa voltar, sua reserva caiu e você precisa achar um lugar pra dormir”. Deliberadamente fui a pé, mais quatro quilômetros. Queria pensar, ver a cidade, me perder. Pego minhas coisas, atravesso a 9 de julho, vou pro hotel novo. Deixo as coisas e torno a andar.

Preciso achar um adaptador de tomada, esqueci o meu no Brasil e se a gente reclama das nossas tomadas de três pinos, imagina o quanto xinguei a tomada que parece o padrão americano porém em um ângulo de 45º. Sou fluente em portunhol, já disse. Chego na loja:

“Tienes adaptador de tomada?”
“Quieres hacer una llamada?”

Não, rapaz, tomada. To-ma-da. Faço o gesto de colocar alguma coisa na parede e fico pensando “como assim, tomada não é tomada”. Não é. tomada é enchufe, me disse o tradutor do Google. Checo no Google Imagens se enchufe é tomada. É. Consigo um adaptador de enchufe na terceira tentativa. O mais chinês deles. Resolvido isso, voltei ao Malba, vi Tarsila do Amaral, vi a exposição da General Idea e poderia ter pegado uma linha reta de volta pro hotel, mas fiz um L, só para andar na Avenida Santa Fé e entrar no Ateeneo, o teatro que virou livraria.

Atheneo

Floraris Generica

Eu, que já enxerguei na Rua Galvão Bueno lá na Liberdade, a Rua XV de Novembro de Barbacena, consegui ver várias cidades em Buenos Aires: Madrid, Paris, Lisboa, um pouco de São Paulo e até um pouco de Ipanema e Leblon nos prédios colados da Avenida del Libertador e no cheiro de gás. Ou o Morro do Papagaio, lá em BH, nas favelas que margeiam as autopistas. Buenos Aires parece viver nesse paradoxo da arquitetura e sofisticação europeia com todas as características da nossa América Latina: a pobreza, a desigualdade e a inflação.

Achava que meus 1.400 pesos me fariam o Rei da Salsicha de Palermo. Ledo engano. A cidade está cara e mesmo na conversão mais otimista, 1 real para 5 pesos, as coisas não melhoram. Pagamos 30 pesos em uma garrafa de 600 ml de Coca Cola. Um jantar para duas pessoas em um restaurante descoladinho perto do hotel saiu por mil pesos. É preço de São Paulo, um pouco pra cima. Só que a inflação de 70% ao ano é como o pop, não perdoa ninguém. Argentinos e turistas têm sentido isso, imagino.

Mas me diverti, me perdi, me encontrei, pensei e refleti um bocado. Andar nos ajuda a colocar os pensamentos em ordem. Para quem é (ou era) avesso às mudanças e aos riscos, viajar sem juízo foi bom.

Preciso fazer isso mais vezes.

Porta de entrada do CCK

*As notas dessa ida estão no blog. Não linkei por vergonha. Eu era idiota em 2003.

Uma reunião de condomínio é só mais uma reunião

Manuscripts and Archives Division, The New York Public Library.

Eu moro no último andar de um prédio pequeno. São só cinco unidades, sendo que uma delas é um escritório de arquitetura. O bom é que você acaba ficando mais próximo de alguns e acaba encontrando todo mundo chegando ou saindo do prédio, é simples assim. Porém, prédio pequeno também tem aquilo que 105% dos moradores de prédios, sejam grandes ou pequenos, odeiam: síndico e reunião de condomínio.

Pois bem, há algum tempo fui aclamado como síndico. Notem bem a palavra, “aclamado”. Eu não queria, mas o resto do prédio achou que era a minha vez, tudo bem. A demanda é pequena, tudo é, em tese, fácil de resolver.

Até a primeira reunião de condomínio.

Foi nela que percebi que uma reunião de condomínio é como uma reunião de trabalho qualquer. Tem os que chegam no horário, tem os que atrasam. Tem os que prestam atenção, tem os que não estão nem aí. Tem os que querem colaborar, os que não querem. E você tenta navegar no meio disso tudo.

Aqui a gente havia começado bem. Já havíamos feito a prestação de contas, discutimos o problema da TV a Cabo (alô, NET, metade do prédio já mudou pro concorrente) e estávamos avançando na questão das obras quando chegou o atrasado. Não só atrasado, devo dizer. Como em um diagrama de Venn, ele se encaixou em todos grupos que gostam de esculhambar as reuniões.

Como em toda reunião de trabalho, o atrasado segue um protocolo. Depois de quebrar o ritmo do encontro, ele pede desculpas e pede uma recapitulação do que foi falado (e decidido) até então. Ao invés de ouvir para depois falar, ele prefere interromper. E em seguida, não presta atenção em mais nada.

Daí pra frente, amigas e amigos, tudo está maculado para sempre. E, juro, tentei seguir as três regras do Rework sobre reuniões:

  • Coloque um timer para 30 minutos. Quando tocar, acabou a reunião. Ponto.
  • Convide o menor número possível de pessoas (essa era fácil)
  • Nunca faça uma reunião sem uma agenda clara.

Não foi possível. A reunião durou muito mais do que o necessário e demoramos mais tempo para resolver as coisas. Mas resolvemos. Ou acho que resolvemos, porque dois dias depois, a mesma pessoa me interfonou dizendo que “conversamos, conversamos, mas não resolvemos nada”. Me deu vontade de bater a cabeça na parede.

A gente sabe que reuniões são muito chatas, mas se seguirmos as regrinhas acima e tivermos um pouco de boa vontade, o momento pode ser melhor aproveitado. Se você for o organizador da reunião, é importante que você esteja comprometido com o tempo e com o que foi combinado. Se você for um dos convidados, colaborar é importante. E se você chegar atrasado, bem, pelo menos não atrapalhe o encontro. 😉

6/52.

Sobre os acasos

De vez em quando, só o acaso pra gente perceber as coisas.

Estava ontem navegando pelo Google Photos, onde fica o meu backup de fotos do telefone e, mais recentemente, as outras fotos que faço. Em fevereiro de 2014, vejo algumas fotos que fiz à noite na Estação Berrini. Quem me segue no instagram sabe que eu adoro fotos em metrôs, trens e estações. Enfim, eu não tinha percebido que duas delas se complementavam, quem me mostrou isso foi o Google.

A captura de tela do Google

Vi aquilo, soltei um “Ó!”, como se fosse uma grande “Eureka!”. Baixei as duas fotos e resolvi fazer a montagem de forma oficial. Depois do Photoshop e do Lightroom, eis o resultado final:

“O trem” – Nexus 5, Photoshop e Lightroom

Fiquei super orgulhoso.

Sobre um curso de batismo, narrativas e espaço de discussão

Na semana passada, precisei “interromper” minhas férias em Guarajuba, Bahia, para fazer um curso de batismo. Serei padrinho da minha prima e precisei do curso para estar apto à função. Fui para Salvador num sábado e fiquei toda a manhã no Centro Comunitário de uma igreja. Achei simbólico fazer esse curso na cidade que é a minha definição de sincretismo religioso.

A sala estava até cheia, talvez umas 25 pessoas, Algumas super interessadas, outras nem tanto. E o voluntário que dava o curso, percebendo a morosidade da sala, resolveu estimular a discussão dizendo que gostaria de ouvir casos da presença de Deus na vida dos participantes. “Se vocês não contarem, eu falo”.

Todo mundo ficou em silêncio. Então, ele contou que a esposa estava terminando o tratamento contra um câncer de mama. A doença foi descoberta no fim do período de amamentação da segunda filha e ele “resolveu encarar isso na companhia de Deus”. Todo mundo ficou emocionado, naturalmente, imaginando a barra que aquela família enfrentou.

Eis que um cara no fundo da sala levanta a mão, ergue o tom de voz e agradece o voluntário por ter dividido a história com todos nós. Mal deu tempo do voluntário falar alguma coisa e o sujeito continuou. “Não tenho nenhuma dúvida da presença de Deus na minha vida, que é infinita, mas fico me questionando o que estamos fazendo aqui”. Depois do climão, houve uma breve discussão sobre a obrigatoriedade daquele curso ser presencial.

Não consegui deixar de pensar nesse momento do curso. E ele é interessantíssimo pelo viés da comunicação, porque me lembra das inúmeras vezes que estive em sala de aula ou em uma palestra e havia um abismo cognitivo entre o palco e o público.

E o voluntário agiu certo. Uma experiência pessoal é uma boa forma de criar empatia com o público. Porém, ela deve servir para aquecer a discussão e não finalizá-la. Ao contar um caso super pessoal, ele conseguiu criar empatia com a gente, mas não conseguiu criar um momento de troca de ideias. Ninguém iria contar uma experiência que fosse similar àquela, apenas se solidarizar com o sujeito. Um desemprego, um problema menor de saúde, um dilema pessoal não se comparam com aquilo. Era melhor ele começar com estes exemplos “menores”, para estimular e discussão. Se necessário, poderia contar esse caso.

Mas, e a obrigação de estarmos lá? De vez em quando, temos o questionamento certo mas na hora errada. Eu tenho uma preguiça imensa de momentos sem sentido e fico puto quando percebo que meu tempo poderia estar sendo melhor aproveitado. O cara que fez o questionamento tinha os mesmos sentimentos. “Sou professor e não faço chamada em sala de aula. Quem está lá, está verdadeiramente interessado”. Depois disse que era voluntário da Cruz Vermelha e que poderia estar mais próximo de Deus fazendo outra coisa naquele momento. “Estou me sentindo coagido”.

Eu entendo, mesmo. Não me senti “coagido”, porque é uma palavra forte e não era o caso. Mas já cansei de estar em aulas, palestras, reuniões e afins que não tinham o menor sentido, onde acho que meu tempo poderia ser melhor aproveitado. Era o caso do curso? Era. Aposto que metade da sala faria esse curso online, se tivesse essa opção. Eu seria um desses. Mas existe uma questão de propósito. Se o batizado é na igreja católica, você precisa fazer esse curso de padrinhos. É a regra. Estamos ali para cumprir uma formalidade por causa do local do batismo. Ser padrinho ou madrinha vai muito além das obrigações religiosas.

Talvez essa seria uma boa resposta para a “coação”. Ao invés de falar que aquele era o momento para reunir todo mundo e falar sobre Deus, o voluntário poderia dizer que era o momento para conversar sobre este propósito e desafio comum, que é exercer os papéis de padrinho e madrinha no geral. Achar algo além da religião para criar empatia com quem está lá.

Para mim, a lição que ficou desse episódio é que os desafios de engajamento são os mesmos, seja uma sala de aula, um curso de batismo ou um ambiente de treinamento online. Criar empatia, espaços para a troca de ideias e conectar os propósitos não são tarefas fáceis e devem estar sempre nos nossos radares.

4/52

Os sites mais improváveis para você aprender alguma coisa

Irma and Paul Milstein Division of United States History, Local History and Genealogy, The New York Public Library. (1887 - 1964). Washington Square Retrieved from http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47e2-c2e9-a3d9-e040-e00a18064a99

Uma das coisas maravilhosas da internet, além das listas do Spotify, das fotos de lontra e a imensa quantidade de brigas sem sentido que você pode entrar, é a facilidade para aprender coisas novas. E muito além das plataformas estabelecidas, como o Lynda ou o Coursera, tenho percebido que fóruns, o Youtube e sites como o Quora e o Reddit são excelentes espaços para aprender e descobrir mais coisas.

Não acho que há uma rivalidade aí, entre os MOOCs e esses sites, uma vez que os propósitos de aprendizado são diferentes. Digamos que eu queira aprender a utilizar o Adobe Premiere. Faz mais sentido eu buscar uma aula no Lynda, que irá trazer um conteúdo completo sobre o Premiere. Agora, se é para resolver uma dúvida pontual, que apareceu na hora, não penso duas vezes, vou buscar ajuda em outros sites.

Agora, quer ver como funciona essa busca “on-demand”? Outro dia, fui fazer uma gravação em um cliente e enquanto montava e ligava os equipamentos, percebi que um dos microfones que peguei com um amigo não estava sincronizado com o receptor. Tive aquele leve momento de pânico, afinal meu amigo não atendia e achar o manual no site estava fora de cogitação. Recorri ao YouTube para aprender a fazer essa sincronização. Dezenas de vídeos ofereciam a solução, desde um oficial da marca até aqueles feitos pelas pessoas normais, feito eu e você. Precisei de alguns minutos para resolver meu problema.

O YouTube é ótimo não só para resolver os pepinos que aparecem na hora, mas também para outros aprendizados. Um bom exemplo é o Kurgesagt, canal alemão com animações sobre assuntos “complexos”. Esse vídeo sobre a Teoria do Falso Vácuo, por exemplo, foi a melhor aula que eu já tive sobre o assunto.

Os fóruns também são excelentes porque tratam de assuntos de nicho. Você está conversando com pessoas feito você, que passaram pelos mesmos problemas e acharam as soluções. Pode ser para um problema no seu DVD, pode ser para você descobrir qual é o melhor bluetooth para o rádio do seu carro.

O Quora é perigoso e viciante feito a Wikipedia, Kerbal Space Program, Coca-Cola gelada e sorvete. Uma vez lá dentro é difícil sair. Pra quem não conhece, o site é um Yahoo! Respostas altamente qualificado. Num nível absurdo, tipo o Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, respondendo sobre o ensino de xadrez para crianças. É incrível ver a quantidade de conhecimento que rola por lá, especialmente em tópicos específicos, como Aviação. Um dos pontos legais é que os próprios usuários fazem a moderação do conteúdo, avaliando a qualidade das respostas. (Aliás, recomendo essa discussão sobre o sentido da vida).

FInalmente, o Reddit, o site onde os próprios usuários também votam a qualidade dos comentários e é repositório para todo tipo de assunto que você imagina. Um dos pontos altos pra mim são os AMA, ou Ask Me Anything, onde pessoas abrem espaço para que os outros usuários perguntem qualquer coisa. Muito legal, né?

Pontos para se observar

Seja qual for a plataforma, eu acho que precisamos ficar atentos a dois pontos. O primeiro é a curadoria. Com essa quantidade infinita de conteúdo, é importante você descobrir os assuntos que te interessam e como gerenciar estes interesses. O Quora, por exemplo, oferece um e-mail com os assuntos que você acompanha.

O segundo é a colaboração. Todas estas plataformas têm conteúdo gerado por gente como a gente. É bacana ter uma postura proativa e colaborar com os assuntos que você conhece e pode ajudar na discussão. Dessa forma, todo mundo saí ganhando e o conhecimento é compartilhado.

E você? Gosta de aprender de qual forma?

3/52

A Filosofia e nossos empregos automatizados

A gente fala muito sobre as habilidades que as crianças e jovens precisarão ter para ingressar no mercado de trabalho no futuro. Com a automatização das funções e com os empregos que serão tomados por robôs e afins, muito da discussão sobre formação gira em torno do reforço em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A esperança é que essas disciplinas deem a formação para arrumar um emprego no futuro.

Nessa situação onde a qualificação técnica vai deixar de ser uma vantagem competitiva, o conhecimento de disciplinas transversais será necessário para responder às perguntas que não estão no Google: Quais são as ramificações éticas da automação? Quais são as consequências políticas do desemprego em massa? Como a gente deve distribuir a riqueza em uma sociedade cada vez mais digital.

Segundo esta matéria do The Guardian, a resposta está na filosofia. “Com a automação dos empregos e o conhecimento sendo desvalorizado, os humanos precisam redescobrir o pensamento flexível” e só a filosofia pode ajudar nisso.

O centro da história é Michael D. Higgins, presidente da Irlanda. Em 2013, no pós-crise financeira, Higgins lançou um debate nacional sobre o que a Irlanda valorizava como sociedade. O resultado foi a inclusão da Filosofia no currículo escolar, como matéria optativa para estudantes de 12 a 16 anos.

“A Filosofia na sala de aula oferece um caminho para uma sociedade humanista e vibrante democraticamente”- Michael D. Higgins

Ajudando o povo de humanas a fazer miçanga

É um questionamento interessante, porque oferece um contraponto ao dogma de que só as matérias da área de exatas são necessárias para a formação das pessoas e da força de trabalho. A visão que a área de humanas traz para a mesa pode nos ajudar a compreender outras nuances do mundo e, porque não, transformam-se num diferencial de formação. A gente podia falar de outras disciplinas que não somente a filosofia, mas esse é o exemplo do texto e vamos ficar nele.

No entanto, existem algumas barreiras que precisam ser derrubadas. A primeira é a visão de que a filosofia é algo difícil de ser ensinado e isso depende tanto dos educadores, que precisam ver sentido na disciplina, quanto de alguns filósofos, que ainda acham que o objeto de estudo ainda está restrito às suas salas.

Outro ponto é que a filosofia requer tudo o que não estamos vendo atualmente: que estejamos abertos ao diálogo, a ponderar diferentes pontos de vistas e nossos próprios dogmas na construção de algo comum. Esses dois pontos conversam quando vemos crenças do tipo: “A inteligência de uma sociedade é medida pela quantidade de prêmios Nobel”, algo que o Alexandre Garcia disse em 2011, por exemplo. Não, não é assim. É preciso que a sociedade entenda que as disciplinas de humanas são tão importantes quanto às de exatas ou biológicas e essa troca e transversalidade de conhecimentos é que fazem a “régua da inteligência” de uma sociedade.

No entanto, como o próprio texto do The Guardian fala, pensar e o desejo de entender as coisas não vem de maneira natural. É preciso estimular esses questionamentos e pensamentos de maneira estruturada para se ter sucesso. Na época dos 140 caracteres, das “não-verdades” e das afirmativas rasas, esse seja um dos desafios: entender que é preciso um tempo para articular pensamentos e ponderar pontos de vistas distintos. O outro é formar educadores e espaços que estimulem essa prática.

Talvez isso não vai trazer os empregos de volta ou criar novos postos de trabalho, mas pode criar uma casca e um pensamento crítico contra julgamentos sem sentido além de nos ajudar a questionar o que damos por garantido. E só temos a ganhar com isso.

2/52

Sobre o fetiche da inteligência

Há algum tempo, a newsletter do Quartz veio com esse link do The Atlantic. A chamada, em uma tradução literal, seria algo como: Meritocracias são lugares horríveis para ser menos do que inteligente. A inteligência não deve ditar o valor de um indivíduo.

Antes de ler a matéria, fui na onda do título, “A guerra contra as pessoas estúpidas”, e já achei incrível, tipo “sim, estamos lutando contra as pessoas estúpidas, elas estão por aí o tempo todo nos atrapalhando”. Mas é exatamente o contrário. É sobre como o mercado de trabalho e a economia estão sendo cruéis com as pessoas “não-inteligentes”. Como o próprio texto afirma, “cada vez mais, a sociedade americana confunde inteligência com valor humano”. Basicamente, o texto aborda a forma como a sociedade americana (e vou estender a discussão para a nossa) é fetichista em relação à inteligência e conquistas acadêmicas. Há um desejo por pessoas com QI alto, altas notas no SAT (o “ENEM dos Estados Unidos”) e, por consequência, “espertas” para absolutamente qualquer função, até mesmo aquelas que não ficaram mais complicadas ao longo dos anos. O texto é longo, de certa forma complexo e traz alguns questionamentos interessantes.

Primeiro, dados os diferentes tipos de inteligência, seja espacial, cinestésica, interpessoal e afins, como você consegue formar pessoas no tipo desejado pelo mercado de trabalho? Depois, como acomodar todo mundo em um cenário onde a automação e os apps estão acabando com os empregos. Saiba que seu emprego está em risco se você dirige veículos para transportar cargas ou é o meio para outras pessoas fazerem compras, reservarem mesas. Só nos Estados Unidos, 15 milhões de vagas irão sumir.

Investimento em treinamento e desenvolvimento das pessoas dentro das empresas seria um caminho, assim como o apoio à educação profissional, que garante qualificação e opção de carreira. (Já falei extensivamente sobre isso nesses posts: Tem talento, mas tem muito trabalho também, 1822 e a educação profissional e Sobre a WorldSkills).

Porém, uma das maneiras mais eficientes de resolver esse problema seria garantir acesso e oportunidade de desenvolvimento para todos, desde a infância. Esta é uma causa nobre, cheia de boas intenções e que, em tese, resolveria parte da dissonância. Mas, antes de entrar na parte acadêmica, passa por dois pontos fundamentais: redução da pobreza e desigualdade social e programas estruturados de educação na primeira infância.

A educação na primeira infância, se feita do jeito certo – e para as crianças pobres quase nunca é – pode, em grande parte, superar quaisquer déficits emocionais e cognitivos que a pobreza e outras circunstâncias impõem nos primeiros anos de vida.

Infelizmente, se estes dois desafios são complicadíssimos de se resolver nos Estados Unidos, o que dizer no Brasil? O teto dos gastos públicos, que congelam investimentos na educação e na saúde por 20 anos e os cortes em programas sociais significarão duas coisas: o aumento da desigualdade social e a piora da educação pública. E aí, um adendo. No domingo assisti ao documentário “O Começo da Vida”, que eu recomendo fortemente, inclusive. Interessante para discutir o papel dos pais e mães nas inúmeras tarefas que envolvem a criação de um bebê. E discute-se a autonomia da criança, o seu acesso à educação, diferentes pontos de vista sobre o seu desenvolvimento. Em determinado momento, percebe-se como a desigualdade social e a pobreza são cruéis com as crianças. Como você garante a educação “do jeito certo” na primeira infância em uma família que não tem acesso a saneamento básico? Ou, como no caso do documentário, como resolver o déficit de uma menina de 10, 12 anos e que cuida dos dois irmãos menores? Crianças em famílias pobres não tem tempo de brincar, não tem tempo de criar um mundo à sua volta. Se elas precisam ser altamente estimuladas entre zero e três anos de idade, é seguro dizer que as crianças pobres já largam com ampla desvantagem em relação às outras.

E enquanto não resolvermos esses problemas estruturais, continuaremos fazendo o de sempre. Na ilusão de que a meritocracia e as oportunidades iguais existem, pescamos as exceções dentro do mar do ensino público e/ou da população pobre e tratamos como o todo. Basta você se esforçar e superar suas dificuldades que tudo se resolve. Não é assim. Enquanto uma criança pobre se destaca, milhares perdem a sua chance, talvez simplesmente porque a chance nunca chegou de fato para elas. Quando cada dólar investido na educação na primeira infância traz sete dólares de retorno para toda a sociedade, talvez a briga contra as pessoas estúpidas tenha que ser, na verdade, a guerra contra a falta de oportunidades e contra a falta de condições básicas. Em médio prazo, essa guerra vai fazer as pessoas menos estúpidas, vai ajudar as universidades na formação correta dos seus alunos e vai ajudar o mercado de trabalho a achar as pessoas “inteligentes” que tanto querem.

1/52.

flw vlw 2016

Demorei um tempo vendo o que foi o meu 2016 antes de começar a escrever e fazer essa reflexão. Tem gente que não gosta dessas reflexões, acha uma bobagem. Eu discordo, já disse mil vezes. Fins de ano são ritos de passagem pra mim e acho muito importante a gente ver o que acertamos, erramos e passamos. Acaba servindo de aprendizado, né?

E 2016 foi um ano bom?

giphy_02

Depende. Não fiquei doente, me cerquei de pessoas ótimas, conheci gente nova, me reaproximei de amigos e amigas que andavam afastados, pude ir ao SXSW e me descobrir lá, trabalhei direitinho e dentro do que consegui. Ouvi muita música e descobri muitos artistas novos. Eu e o Caio fizemos QUARENTA E SETE edições do Ainda Sem Nome. Acho que melhorei um pouquinho mais como fotógrafo. Então pessoalmente – ou no lado produtivo da coisa – foi um ano bom.

Mas 2016 foi um ano merda por causa do golpe, da cassação da Dilma, desse discurso maquiado da “não-política”, pela quantidade de gente bacana que morreu, pela descrença das pessoas em relação ao mundo hoje. E fiquei impressionado como cada notícia ruim, cada pequena contrariedade foi me minando. Não sei se é a idade, mas antigamente eu achava que essas coisas não me afetariam (tanto). Hoje afetam. E nesse ano em especial, bagunçaram muito a cabeça, que ficou se questionando se a gente tem controle das coisas de fato, se a vida pode ser mais simples, qual é o sentido de tudo. Não é fácil.

Não é fácil, mas a gente tem que se virar de alguma forma. Simplesmente dar as costas e não ligar pra isso não adianta. Não vou parar de prestar atenção nas coisas que me rodeiam, mas eu posso tomar conta dos sentimentos e de como esses fatores todos me afetam. E aí, pra um 2017 sem tantos sustos, a solução talvez seja…

giphy_01

… ter menos medo e mais amor. Ou transformar o medo em amor. Vamos tentar fazer esse ser nosso mantra. Não tenho o controle de tudo, mas pelo menos isso eu posso tentar controlar.

A gente se vê ali em 2017.

Fiz esse post escutando essa música em loop.

“Walk that line, torn apart
Spend your whole life trying
Ride that train, free your heart
It’s midnight up in Harlem”