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Cabeça

Tenha conversas difíceis (ou: Retrospectiva 2017)

O post é sobre meu 2017, mas eu queria começar com um contexto.

Eu gosto bastante do trabalho do artista plástico Andy Leek. Ele é autor do “Notes for Strangers”, colando seus cartazes com frases otimistas por Londres. Vale a pena seguir tanto a hashtag quanto o próprio Andy no Instagram. Aposto que vocês vão se identificar com várias rapidamente. Eu me identifiquei com essa:

"Conversas difíceis salvam relacionamentos" - Andy Leek/You Pretty City

“Conversas difíceis salvam relacionamentos” – Andy Leek/You Pretty City

Conversas difíceis salvam relacionamentos. Isso define o meu ano. E assumir as conversas difíceis fez 2017 ser o melhor ano que tive até agora. E eu explico a razão.

Eu sempre tive muita dificuldade em ter conversas difíceis. Vejam, eu acho que não existe uma régua universal para o que é “fácil” e o que é “difícil”. Depende de cada um. Pra mim, “difícil” era qualquer conversa que fosse causar um ligeiro conflito, que fosse contrariar a outra pessoa (e quanto mais próxima, mais complicado) ou que eu precisasse falar “não”. Cada vez que isso acontecia, eu vivia um cerco viking de Paris dentro de mim. Por fora, eu aparentava tranquilidade.

Mas muito disso é ruim. Muito ruim. Não querer contrariar as pessoas acaba tendo um preço alto. Você acaba se distanciando de quem você é e se molda pelos outros. E, mais grave, ao longo do tempo, o ato de não se expressar cria um abismo tão grande entre você e os outros que a única ponte possível vai ser uma conversa difícil. Foi isso que aconteceu comigo.

Saibam, pessoas, que vários anos de silêncio e passividade acumulados podem colocar vários relacionamentos em risco. Isso é péssimo. No entanto, se expressar, ter conversas adultas difíceis, sem medo de entrar em conflito, podem resolver a situação.

Comecei tendo uma comigo mesmo. Depois de anos protelando, comecei a fazer análise. De quebra, comecei a visitar um psiquiatra também. Eu tenho 35 anos de coisas para falar e resolver comigo mesmo e a análise tem sido um alento nisso. Alguns dias absolutamente horríveis. Ainda me meço muito pela régua dos outros e acho que preciso sempre trazer assuntos incríveis ou ter conclusões maravilhosas em toda sessão. Ou exatamente porque essas conclusões maravilhosas tem o efeito inverso. Os cortes lacanianos me deixam pensativo por semanas. No entanto, o resultado no final é maravilhoso. Me entender melhor e entender as coisas que me angustiam faz com que eu entenda e me relacione melhor com os outros.

O psiquiatra tem sido importante também, porém em um curto prazo. Descobri que faço parte dos 4,4% da população que sofre de depressão e, embora leve, tinha (ou tem) me atrapalhado de vez em quando. E o remédio foi super importante no começo do tratamento.

Depois disso, aos poucos, estou tendo conversas difíceis com aqueles que estão a minha volta e dividem a vida comigo. Não é fácil, porque a gente não vira a chave de uma hora pra outra. “Não falei nada durante anos, agora vou falar tudo, se preparem”. Não é assim que funciona. Mas uma mudança de postura faz uma diferença danada. Como o próprio Andy Leek diz, “intenções claras simplificam as coisas”. Nesse ponto, a idade ajuda, porque o drama diminui, a maturidade aumenta e as conversas são para expor e resolver coisas e não só para tumultuar. Demorou, mas entendi que, eventualmente, precisamos entrar em conflito para chegar na solução.

É um processo que está longe de terminar. Aliás, eu espero que não termine, porque se conhecer melhor e ser uma pessoa melhor (principalmente) para mim e para os outros está sendo recompensador. Isso significa relações mais transparentes, tranquilidade de espírito, mais clareza para ver as coisas.

O que acaba refletindo nas outras coisas do meu ano. Eu gravei a bateria de uma música do disco “Somos Instantes” do Raphael Mancini, fui para o SXSW pela segunda vez, me perdi (e me encontrei) em Buenos Aires, virei padrinho da minha prima, celebrei um casamento, conheci Abu Dhabi e trabalhei na WorldSkills novamente e vi a Olívia ser mãe. Continuei fotografando como gosto, fiz música com gente muito boa e descobri que o Crossfit realmente vicia e faz bem pra cabeça.

Finalmente, depois de um 2016 complicado, eu e o Marcos aproveitamos esse ano para conhecer mais pessoas, novos modos de trabalho e acredito que estamos colocando a 42formas nos trilhos.

É, 2017 foi longe de ser um ano fácil, mas foi um ano do caralho.

Pode vir, 2018!

Olívia, a mãe

Olívia pariu ontem. Montamos três ninhos, a Carol morreu de cuidados, mas a cã resolveu parir em cima da nossa cama às 4h da manhã.

Nossos olhos assustados não foram páreo para os 15 mil anos de evolução canina. Ela tirou de letra.

São três machos e duas fêmeas, todos lindos e saudáveis.

E foi mais uma experiência pra deixar 2017 único.

A volta de Abu Dhabi

Eu e a WorldSkills no deserto

Do embarque em São Paulo até o jantar de confraternização, foram 12 dias peculiares em Abu Dhabi.

E depois da saga do Visto de Entrada para os Emirados Árabes, fica fácil imaginar a minha felicidade quando meu passaporte foi carimbado e entrei no país. Felicidade ainda maior quando revi todos os meus amigos da WorldSkills logo que cheguei no centro de convenções. Todos, sem exceção, me deram abraços afetuosos. Esse que vos escreve tem o coração mole e isso conta demais.

O fato é que eu pude aproveitar muito mais a WorldSkills Abu Dhabi 2017. Também acho que minhas habilidades foram mais aproveitadas também. Já ter feito uma Competição no lado mais tenso possível, o de Comitê Organizador, deixa as coisas mais fáceis, isso é verdade. Mas, outras coisas ajudam: a experiência, a maturidade, a pressão menor exatamente por estar do outro lado da moeda.

No time de Comunicação, trabalhei com um grupo absolutamente sensacional de pessoas, de todas as partes do mundo: Da Nova Zelândia ao Canadá, passando por Austrália, África do Sul, Namíbia, Alemanha e Estados Unidos. Todos nós trabalhando nos Emirados Árabes Unidos. É a prova fundamental de que diversidade e multiculturalismo eliminam os pontos cegos no ambiente de trabalho.

Fazer esse evento no Oriente Médio é também uma prova prática do multiculturalismo. Abu Dhabi é uma cidade única, peculiar. No seu calor, na sua umidade, na comida, no povo. Eu não esperava nada de lá, somente o desconhecido. Voltei impressionado, com muitas pontas soltas de pensamentos que serão unidas e compartilhadas em breve.

Pra terminar, eu queria falar, de novo, dos que dividiram esses dias comigo. Acho que são essas pessoas que fazem esse evento ser tão legal. Foi muito bom poder rever a turma que trabalhou em 2015, foi ótimo conhecer uma turma nova, dividir um assento do ônibus, uma cerveja depois do trabalho, ou um café no meio da labuta. Até ficar desconfortável com o idioma e saber me virar com isso acaba sendo bom. Pra quem vive em uma luta de espadas com a autoestima, dá um orgulho danado saber que quem eu sou e o que eu faço me dão essas oportunidades.

Andar pra frente, né. É importante. 🙂

WorldSkills Abu Dhabi 2017

Dada a situação, esse post só poderia começar com esse vídeo do Galvão Bueno. E eu já explico.

Em maio desse ano, fui selecionado para fazer parte do time do Secretariado Estendido da WorldSkills Abu Dhabi 2017. Ia fazer parte do time de comunicação e teria novamente a chance de trabalhar na WorldSkills Competition. Para quem não sabe, fiz parte da equipe de comunicação da WorldSkills São Paulo 2015 e foi, de longe, uma das melhores experiências profissionais que já tive.

O problema é que o meu visto para os Emirados Árabes não foi aprovado da primeira vez. Foram duas semanas sem notícias – e de prática intensa do estoicismo – até me ligarem dizendo “olha, Felipe, tentamos, mas não conseguimos. Infelizmente você não vai poder participar”.

“Vai perder, vai ganhar, vai perder, vai ganhar. Perdeu”.

Paciência. A vida é assim, a 42formas tá cheia de coisa nesse fim de ano. As férias com a Carol vão ter que esperar. O jogo seguiu normalmente até a terça-feira dessa semana. Celular no silencioso, duas chamadas não atendidas e eu dou a sorte de pegar o telefone na terceira chamada. Era da WorldSkills International, a organizadora-mor da Competição. “Felipe, seu visto foi aprovado. Quando você pode vir?”.

Ganhou! Michael Phelps na batida de mão!

Só digo o seguinte, se eu havia dito que a viagem para Buenos Aires havia sido a mais sem juízo de todas, bom, essa aqui tá ganhando de longe. Tudo resolvido em quatro dias.

Agora estou aqui, na sala de embarque do Terminal 3 de Guarulhos. Morrendo de medo, com a ansiedade batendo recordes, cheio de expectativas, querendo corresponder a todas elas, querendo viver de novo a Competição.

Respirar fundo ajuda. O carinho da Carol ajuda. O apoio da família ajuda. Serão 15 dias divertidíssimos, é isso que preciso pensar.

Vai dar certo.

E eu pensei uma coisa. Hoje seria o aniversário de 101 anos do meu avô paterno, o Anuar. Filho de libaneses, nascido em Barbacena. Eu não o conheci. E aí, lembrei de um verso da música “Be” do rapper Common e fiz o meu próprio contexto.

“Explored the world to return to where my soul begun”

No dia do aniversário do meu avô, eu estou, de certa forma, voltando às origens de onde vim. Pelo menos para a mesma região.

É isso mesmo, vai dar certo.

Sobre preocupar e gostar

Post altamente modificado depois de conversas e releituras. Deixei a primeira parte como estava e construí o resto depois. Me pareceu o correto.

Há pouco mais de um mês, eu comecei a fazer terapia. Só essa decisão já daria um post. Fui para resolver algumas coisas que eu tenho na cabeça: inseguranças, angústias e questionamentos. Depois de cinco sessões e a ida pro divã, a impressão que eu tenho é que entrei em um túnel super apertado e fui parar numa câmara gigante, cheia de coisas para serem observadas e ligadas. Isso tudo também dão posts. Talvez esse seja o primeiro deles.

Nessas ligações e livres associações, comecei a pensar numa coisa interessante: uma equação complicada quando misturamos empatia, preocupação com os que nos rodeiam e como entendemos que a vida deve ser.

Na primeira versão desse post, eu pensei o seguinte:
Quando pensamos nas pessoas que mais gostamos e nas decisões que elas tomam em suas vidas, é natural que a gente não concorde com todas elas. Aí ou a gente se preocupa ou tenta mudar aquilo, baseado nas nossas afirmações. Ficar preocupado já é um problema, porque te desgasta, te cansa, te faz pensar nas soluções para aquela situação. E aí, fiquei pensando: quantas dessas preocupações são legítimas? Digo, as outras pessoas sabem/se importam com as suas preocupações em relação às decisões de vida delas?

Por outro lado, o quanto “gostar” não está relacionado à “se preocupar”? Esse me parece ser o maior desafio. Entender que não se preocupar com as decisões não significa não gostar. Tem um quê de livre arbítrio e resiliência aí, imagino. Mas é inócuo se preocupar se a pessoa dorme cedo/tarde, quais as decisões que ela tomou para a sua carreira, o que ela vai comer hoje, mas se ela está feliz, se isso não mexe na nossa vida, não faz sentido se preocupar. E isso não significa que você não tem carinho por essa pessoa. Talvez esses sejam os dois limites: felicidade e interferência em nossas vidas. Não dá para apoiar um relacionamento abusivo, algum comportamento que coloque a vida do outro em risco ou decisões que efetivamente nos sejam invasivos. Até que se atinja esse ponto, acho que é possível manter a separação.

Não tô dizendo que é fácil. Um nível mínimo de humanidade nos faz cuidadosos com quem gostamos e isso traz a preocupação, mas tentar furar essa bolha pode ser um exercício interessante de empatia e de tentar enxergar diferentes visões de mundo. E mais importante, pode ser um caminho para entendermos os nossos próprios dilemas e prioridades e acharmos (se for possível) a nossa própria felicidade.

Porém…

Depois de alguma reflexão, vi que isso tudo é muito egoísta. É importante pensarmos em nosso bem estar, em nossa felicidade. Mas enquanto espécie, só chegamos até aqui porque nos preocupamos um com os outros. Aliás, trabalhar em conjunto e viver em sociedade foi o que acelerou a nossa evolução. Talvez, essa preocupação é sinal de empatia, de que nos vemos no outro e que o seu bem estar também é o nosso bem estar.

Talvez, o que a gente precise é de um pouco mais de atenção e saber ouvir. Estamos tão preocupados com nós mesmos que deixamos de prestar atenção na resposta que vem de um “tudo bem?”. Aliás, na maioria das vezes não estamos nem perguntando se está realmente tudo bem, só cumprimos uma formalidade para receber outra de volta. É valioso quando o “tudo bem” vira um “vai melhorar” ou “estamos caminhando”. Sinal de que a pessoa do outro lado tem empatia com a gente.

Delimitar “espaços” tem sido um dos meus maiores questionamentos na vida. O que devo fazer e falar para ter o meu espaço respeitado e respeitar o do outros? Uma análise rasteira me fez escrever a primeira parte desse post. A conclusão de fato passa por se preocupar com o outro, mas sem “cagar regra” na vida deles. (E eu juro que não queria usar esse termo, mas ele é perfeito).

Como achar esse balanço? Bom, eu ainda não sei ao certo, mas acho que um dia chegaremos lá.

Trilha do post:

Ano XV

Só para não passar em branco, este distinto espaço completa 15 anos hoje. É uma relação de amor e ódio, de apego e desapego, mas que cumpre um papel ainda muito importante na minha vida.

Sigamos. 🙂

Sobre perder e se encontrar em Buenos Aires

(Escrito no voo Gol 7681, Aeroparque-Guarulhos, do lado de um argentino que me acordou tentando recostar a poltrona dele. Ele apertou o botão da minha, o sacana).

Tinha ido à Buenos Aires uma única vez, em 2003*. Eu, que lembro de tudo, tenho poucas lembranças dessa viagem. Sei que era a primeira vez que viajava para fora do Brasil e achei tudo uma maravilha.

Agora, escrevo esse post voltando de lá, numa viagem que pode entrar na categoria das viagens sem juízo. Minha mãe viajou a trabalho para lá, me ofereceu a passagem, arrumei na terça pra viajar na sexta-feira cedo. “Compra com milhas ou dinheiro?” Milhas. “Mas, mãe, meu o caixa não está recomposto por conta da viagem pros Estados Unidos”, não tem problema, dividimos o hotel. Então vamos. Curiosamente, foi a primeira vez que viajei com d. Pilar, só eu e ela. Foi uma das melhores descobertas da vida. Tudo sem pressa, no nosso ritmo. Conversas adultas. A relação com minha família sempre foi boa e tem melhorado com a idade.

A companheira de viagem

Comprei 1.400 pesos na quinta-feira no Aeroporto de Confins, voltando de uma reunião em BH. Desbloqueei o cartão no caminho pra Guarulhos, me esqueci do seguro-viagem. Dedos cruzados pra não escorregar e torcer o pé, feito a moça no McDonald’s da rua Florida, ontem. Sou fluente em portunhol, então vai dar certo. Já deu, estou voltando. Não fui passado pra trás, conversei política com o motorista de esquerda do Uber, ouvimos o taxista de direita bradar contra os imigrantes e Cristina Kirchner.

Comemos os maiores pedaços de carne de nossas vidas em Puerto Madero e a comida do Francis Mallmann no Patagonia Sur, em La Boca. Nunca vi tantos dígitos no valor de uma conta, mas foram proporcionais à experiência e à oportunidade.

Em três dias, além de Puerto Madero e Boca, fomos pra Recoleta, Retiro e Palermo. Só no domingo foram 21km. Saímos do hotel, fomos à Floraris Genérica, depois até o Malba, que só abria ao meio dia. Mamãe pega um táxi, volta pro hotel e vai para o aeroporto. Eu caminho até Palermo. “Felipe, você precisa voltar, sua reserva caiu e você precisa achar um lugar pra dormir”. Deliberadamente fui a pé, mais quatro quilômetros. Queria pensar, ver a cidade, me perder. Pego minhas coisas, atravesso a 9 de julho, vou pro hotel novo. Deixo as coisas e torno a andar.

Preciso achar um adaptador de tomada, esqueci o meu no Brasil e se a gente reclama das nossas tomadas de três pinos, imagina o quanto xinguei a tomada que parece o padrão americano porém em um ângulo de 45º. Sou fluente em portunhol, já disse. Chego na loja:

“Tienes adaptador de tomada?”
“Quieres hacer una llamada?”

Não, rapaz, tomada. To-ma-da. Faço o gesto de colocar alguma coisa na parede e fico pensando “como assim, tomada não é tomada”. Não é. tomada é enchufe, me disse o tradutor do Google. Checo no Google Imagens se enchufe é tomada. É. Consigo um adaptador de enchufe na terceira tentativa. O mais chinês deles. Resolvido isso, voltei ao Malba, vi Tarsila do Amaral, vi a exposição da General Idea e poderia ter pegado uma linha reta de volta pro hotel, mas fiz um L, só para andar na Avenida Santa Fé e entrar no Ateeneo, o teatro que virou livraria.

Atheneo

Floraris Generica

Eu, que já enxerguei na Rua Galvão Bueno lá na Liberdade, a Rua XV de Novembro de Barbacena, consegui ver várias cidades em Buenos Aires: Madrid, Paris, Lisboa, um pouco de São Paulo e até um pouco de Ipanema e Leblon nos prédios colados da Avenida del Libertador e no cheiro de gás. Ou o Morro do Papagaio, lá em BH, nas favelas que margeiam as autopistas. Buenos Aires parece viver nesse paradoxo da arquitetura e sofisticação europeia com todas as características da nossa América Latina: a pobreza, a desigualdade e a inflação.

Achava que meus 1.400 pesos me fariam o Rei da Salsicha de Palermo. Ledo engano. A cidade está cara e mesmo na conversão mais otimista, 1 real para 5 pesos, as coisas não melhoram. Pagamos 30 pesos em uma garrafa de 600 ml de Coca Cola. Um jantar para duas pessoas em um restaurante descoladinho perto do hotel saiu por mil pesos. É preço de São Paulo, um pouco pra cima. Só que a inflação de 70% ao ano é como o pop, não perdoa ninguém. Argentinos e turistas têm sentido isso, imagino.

Mas me diverti, me perdi, me encontrei, pensei e refleti um bocado. Andar nos ajuda a colocar os pensamentos em ordem. Para quem é (ou era) avesso às mudanças e aos riscos, viajar sem juízo foi bom.

Preciso fazer isso mais vezes.

Porta de entrada do CCK

*As notas dessa ida estão no blog. Não linkei por vergonha. Eu era idiota em 2003.

Uma reunião de condomínio é só mais uma reunião

Manuscripts and Archives Division, The New York Public Library.

Eu moro no último andar de um prédio pequeno. São só cinco unidades, sendo que uma delas é um escritório de arquitetura. O bom é que você acaba ficando mais próximo de alguns e acaba encontrando todo mundo chegando ou saindo do prédio, é simples assim. Porém, prédio pequeno também tem aquilo que 105% dos moradores de prédios, sejam grandes ou pequenos, odeiam: síndico e reunião de condomínio.

Pois bem, há algum tempo fui aclamado como síndico. Notem bem a palavra, “aclamado”. Eu não queria, mas o resto do prédio achou que era a minha vez, tudo bem. A demanda é pequena, tudo é, em tese, fácil de resolver.

Até a primeira reunião de condomínio.

Foi nela que percebi que uma reunião de condomínio é como uma reunião de trabalho qualquer. Tem os que chegam no horário, tem os que atrasam. Tem os que prestam atenção, tem os que não estão nem aí. Tem os que querem colaborar, os que não querem. E você tenta navegar no meio disso tudo.

Aqui a gente havia começado bem. Já havíamos feito a prestação de contas, discutimos o problema da TV a Cabo (alô, NET, metade do prédio já mudou pro concorrente) e estávamos avançando na questão das obras quando chegou o atrasado. Não só atrasado, devo dizer. Como em um diagrama de Venn, ele se encaixou em todos grupos que gostam de esculhambar as reuniões.

Como em toda reunião de trabalho, o atrasado segue um protocolo. Depois de quebrar o ritmo do encontro, ele pede desculpas e pede uma recapitulação do que foi falado (e decidido) até então. Ao invés de ouvir para depois falar, ele prefere interromper. E em seguida, não presta atenção em mais nada.

Daí pra frente, amigas e amigos, tudo está maculado para sempre. E, juro, tentei seguir as três regras do Rework sobre reuniões:

  • Coloque um timer para 30 minutos. Quando tocar, acabou a reunião. Ponto.
  • Convide o menor número possível de pessoas (essa era fácil)
  • Nunca faça uma reunião sem uma agenda clara.

Não foi possível. A reunião durou muito mais do que o necessário e demoramos mais tempo para resolver as coisas. Mas resolvemos. Ou acho que resolvemos, porque dois dias depois, a mesma pessoa me interfonou dizendo que “conversamos, conversamos, mas não resolvemos nada”. Me deu vontade de bater a cabeça na parede.

A gente sabe que reuniões são muito chatas, mas se seguirmos as regrinhas acima e tivermos um pouco de boa vontade, o momento pode ser melhor aproveitado. Se você for o organizador da reunião, é importante que você esteja comprometido com o tempo e com o que foi combinado. Se você for um dos convidados, colaborar é importante. E se você chegar atrasado, bem, pelo menos não atrapalhe o encontro. 😉

6/52.

Sobre os acasos

De vez em quando, só o acaso pra gente perceber as coisas.

Estava ontem navegando pelo Google Photos, onde fica o meu backup de fotos do telefone e, mais recentemente, as outras fotos que faço. Em fevereiro de 2014, vejo algumas fotos que fiz à noite na Estação Berrini. Quem me segue no instagram sabe que eu adoro fotos em metrôs, trens e estações. Enfim, eu não tinha percebido que duas delas se complementavam, quem me mostrou isso foi o Google.

A captura de tela do Google

Vi aquilo, soltei um “Ó!”, como se fosse uma grande “Eureka!”. Baixei as duas fotos e resolvi fazer a montagem de forma oficial. Depois do Photoshop e do Lightroom, eis o resultado final:

“O trem” – Nexus 5, Photoshop e Lightroom

Fiquei super orgulhoso.

Sobre um curso de batismo, narrativas e espaço de discussão

Na semana passada, precisei “interromper” minhas férias em Guarajuba, Bahia, para fazer um curso de batismo. Serei padrinho da minha prima e precisei do curso para estar apto à função. Fui para Salvador num sábado e fiquei toda a manhã no Centro Comunitário de uma igreja. Achei simbólico fazer esse curso na cidade que é a minha definição de sincretismo religioso.

A sala estava até cheia, talvez umas 25 pessoas, Algumas super interessadas, outras nem tanto. E o voluntário que dava o curso, percebendo a morosidade da sala, resolveu estimular a discussão dizendo que gostaria de ouvir casos da presença de Deus na vida dos participantes. “Se vocês não contarem, eu falo”.

Todo mundo ficou em silêncio. Então, ele contou que a esposa estava terminando o tratamento contra um câncer de mama. A doença foi descoberta no fim do período de amamentação da segunda filha e ele “resolveu encarar isso na companhia de Deus”. Todo mundo ficou emocionado, naturalmente, imaginando a barra que aquela família enfrentou.

Eis que um cara no fundo da sala levanta a mão, ergue o tom de voz e agradece o voluntário por ter dividido a história com todos nós. Mal deu tempo do voluntário falar alguma coisa e o sujeito continuou. “Não tenho nenhuma dúvida da presença de Deus na minha vida, que é infinita, mas fico me questionando o que estamos fazendo aqui”. Depois do climão, houve uma breve discussão sobre a obrigatoriedade daquele curso ser presencial.

Não consegui deixar de pensar nesse momento do curso. E ele é interessantíssimo pelo viés da comunicação, porque me lembra das inúmeras vezes que estive em sala de aula ou em uma palestra e havia um abismo cognitivo entre o palco e o público.

E o voluntário agiu certo. Uma experiência pessoal é uma boa forma de criar empatia com o público. Porém, ela deve servir para aquecer a discussão e não finalizá-la. Ao contar um caso super pessoal, ele conseguiu criar empatia com a gente, mas não conseguiu criar um momento de troca de ideias. Ninguém iria contar uma experiência que fosse similar àquela, apenas se solidarizar com o sujeito. Um desemprego, um problema menor de saúde, um dilema pessoal não se comparam com aquilo. Era melhor ele começar com estes exemplos “menores”, para estimular e discussão. Se necessário, poderia contar esse caso.

Mas, e a obrigação de estarmos lá? De vez em quando, temos o questionamento certo mas na hora errada. Eu tenho uma preguiça imensa de momentos sem sentido e fico puto quando percebo que meu tempo poderia estar sendo melhor aproveitado. O cara que fez o questionamento tinha os mesmos sentimentos. “Sou professor e não faço chamada em sala de aula. Quem está lá, está verdadeiramente interessado”. Depois disse que era voluntário da Cruz Vermelha e que poderia estar mais próximo de Deus fazendo outra coisa naquele momento. “Estou me sentindo coagido”.

Eu entendo, mesmo. Não me senti “coagido”, porque é uma palavra forte e não era o caso. Mas já cansei de estar em aulas, palestras, reuniões e afins que não tinham o menor sentido, onde acho que meu tempo poderia ser melhor aproveitado. Era o caso do curso? Era. Aposto que metade da sala faria esse curso online, se tivesse essa opção. Eu seria um desses. Mas existe uma questão de propósito. Se o batizado é na igreja católica, você precisa fazer esse curso de padrinhos. É a regra. Estamos ali para cumprir uma formalidade por causa do local do batismo. Ser padrinho ou madrinha vai muito além das obrigações religiosas.

Talvez essa seria uma boa resposta para a “coação”. Ao invés de falar que aquele era o momento para reunir todo mundo e falar sobre Deus, o voluntário poderia dizer que era o momento para conversar sobre este propósito e desafio comum, que é exercer os papéis de padrinho e madrinha no geral. Achar algo além da religião para criar empatia com quem está lá.

Para mim, a lição que ficou desse episódio é que os desafios de engajamento são os mesmos, seja uma sala de aula, um curso de batismo ou um ambiente de treinamento online. Criar empatia, espaços para a troca de ideias e conectar os propósitos não são tarefas fáceis e devem estar sempre nos nossos radares.

4/52