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Cabeça

Neil Peart em Setembro de 1979. (Foto: Fin Costello/Redferns)
Neil Peart em Setembro de 1979. (Foto: Fin Costello/Redferns)

Neil Peart sabia o que era aprender pra vida toda

A sexta-feira terminou com a notícia da morte do Neil Peart, baterista do Rush, aos 67 anos. Pegou muita gente de surpresa, porque ninguém (ou poucas pessoas) sabia(m) que ele lutava contra um glioblastoma, um agressivo câncer no cérebro.

Peart foi ídolo e mentor de toda uma geração de músicos, em maior e menor escala. Todos nós tentamos tocar “YYZ” em algum momento da vida, mesmo que mal e porcamente. Para o público em geral, Neil Peart era o baterista com o instrumento gigante e o “Tom Sawyer” era a música da abertura de MacGyver. Essa foi a primeira vez que escutei Rush, inclusive.

E na história de vida de Neil Peart, além da força para encarar a morte da primeira filha e da primeira esposa, existe um outro ponto que me chamou atenção: a capacidade de se reinventar também como músico. Ele sabia da importância de aprender durante toda a vida.

Em 1992, Peart foi chamado para acompanhar a Buddy Rich Big Band em um show em homenagem ao lendário baterista de jazz que dava nome ao conjunto. Ele topou, porém se deparou com dois problemas: o pouco tempo de ensaio e a percepção que ele tinha aprendido um arranjo diferente do tocado pelo resto da banda. “Eu cheguei no que seria o primeiro solo de bateria só pra perceber que a banda continuava tocando”, ele escreveu certa vez.

Obviamente, a performance não foi lá essas coisas e mesmo em 1994, em uma gravação em estúdio -são condições mais controladas – Peart achava que estava “imitando” alguém e não tocando propriamente o estilo. Como diz o Duke Ellington, “it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing“, ou na minha tradução livre, “não significa nada, se você não tem a levada”. 😉

O fato é que para isso não acontecer de novo, Neil Peart decidiu estudar. Um dos bateristas mais técnicos e precisos do mundo, aclamado dezenas de vezes como o melhor de todos os tempos, decidiu começar de novo. Criar novas regras, ter outras ferramentas. Primeiro com Fredie Grubner, lendário baterista e professor de jazz, e depois com Peter Erskine, outro mestre do jazz-fusion.

Neil Peart e Peter Erskine

Quando eu estacionei em frente à casa do Peter e entrei com as baquetas na mão, tive que rir de mim mesmo. Eu era aquele estudante de 13 anos novamente (…) e é claro que eu deveria me sentir assim. Não há sentido em ter aulas se não for para se render ao professor.

É um longo relato, incrível e de uma relação completamente honesta entre mestre e aprendiz, os dois sendo super capazes no que fazem. Neil Peart pegou os aprendizados do jazz e transpôs para a sua música. Recriou sua técnica, redefiniu seu senso de tempo, ganhou um estilo de tocar mais fluido. É preciso muita humildade pra desconstruir – ou seria reconstruir? – o que foi construído, mas as recompensas costumam valer o esforço.

 

“O que é um mestre se não um estudante-mestre? Existe uma responsabilidade em nós de continuar melhorando” – Neil Peart.

 

Sobre referências e manter a nossa cabeça aberta

Estava na labuta em algum dia de dezembro, quando pinga uma mensagem do Diego Mancini no WhatsApp:

“meu velho, pelamor, me diz que você viu isso”. Era o link para o show do Vulfpeck no Madison Square Garden. Pra quem não conhece, o Vulfpeck é uma das melhores bandas de funk (?) da atualidade e esse vídeo é uma prova disso (e que talvez valha como trilha pra sua leitura desse post).

 

Pois bem, uma coisa leva à outra e começamos a conversar sobre essa entrevista recente dada pelo Joe Dart, baixista da banda, especialmente essa pergunta:

Você toca super parecido com o Rocco Prestia (baixista icônico do Tower of Power).

Um dos meus heróis. Quando eu lembro da época de quando comecei a tocar baixo, eu podia ter aprendido usando um dedo, dois dedos, três dedos ou uma palheta. Mas aconteceu do meu primeiro professor ser um baixista que usava dois dedos. O lado ruim disso é que eu não tenho a destreza com três dedos. Eu também não aprendi o slap no estilo do Victor Wooten, eu aprendi no estilo do Flea. Mas o jeito de tocar do Rocco realmente me tocou.

Já emendo com a sabedoria do Diego:

“Isso que ele falou é muito doido. Como o seu professor define o tipo de músico que você vira no futuro. Quando a gente começa, precisamos nos espelhar em algo, no caso, o nosso professor. É muito difícil sair das coisas que você aprendeu na primeira vez que abordou o instrumento. Vejo isso com o baixo. Eu comecei tocando violão, por isso a minha técnica de mão direita é mista (polegar, indicador, médio). Se eu tivesse começado no baixo direto, provavelmente seria técnica de dois dedos. Mas isso virou parte do meu estilo”.

Esse exemplo é universal. Durante a conversa, me peguei pensando nas primeiras vezes que fiz uma atividade. A gente sempre tem uma primeira referência, seja ela consciente ou não. Pode ser a primeira vez que você pensou naquela atividade, pode ser o seu primeiro professor, pode ser um misto dos dois. Lá pros idos de 1996, 1997, eu aprendi HTML sozinho. Mas só em 2001, no meu primeiro trabalho na finada agência Lazo, foi quando realmente me desenvolvi aprendendo com e sendo orientado por pessoas tipo o Fernando Norte e o Matheus Costa. (Talvez tenha sido a minha primeira experiência de aprendizagem social e “cultura de aprendizagem”, vejam só.)

Na bateria, sempre quis “fazer a banda andar”, sem aparecer muito. Uma abordagem rudimentar para o famoso groove. Pode ter sido o meu primeiro contato com a música e a bateria, como disse o Diego. Minhas aulas de bateria com o Glaydson e depois com o Arthur me ajudaram a achar mais técnica do que mudar a minha voz no instrumento. Ainda assim, me espelhei no Arthur para mudar a forma como montava a bateria e fiquei assim por muitos anos.

Existe uma forma de cortar essa amarra?

Independente de qual tenha sido sua primeira referência, manter a cabeça aberta é um desafio real. Porque se a forma como você exerce aquela função faz sentido e funciona, fica desconfortável buscar outros caminhos. Dentro da música, passei por esse desconforto na tal forma como montava meu kit. Agora, navego nesse desconforto tocando jazz. Para o Diego, a evolução musical é, de certa forma, a luta contra as amarras da primeira aula. “Você se tornar um músico completo significa aceitar ser desconfortável e depois conseguir transitar pelo desconforto e aí você pode escolher”.

O Herbie Hancock disse uma vez que “gosta de descobrir novas regras para que possa quebrá-las”. Essa frase vale para qualquer profissão: da música à osteopatia, passando pela arquitetura, engenharia, dança, jornalismo. É super importante se municiar da maior quantidade de informação que você conseguir. Pesquisar, estudar, experimentar, conversar com pessoas relevantes na sua área – famosas ou não -, buscar referências em outras áreas, ter a capacidade de criar conexões, buscar inspiração naquelas pessoas que você gosta e achar sua própria voz.

E quanto mais informação e recursos, melhor. O Diego gosta de fazer essa analogia com ferramentas. “Aquela velha da caixa de ferramenta que só tem uma chave de fenda, saca? Se você só trabalha apertando parafuso Philips tamanho 8, só precisa daquela ferramenta. Mas, vai que alguém te pede uma chave de fenda tamanho 12? Por isso, eu tento mostrar para o meu aluno como um determinado conceito é importante pra um monte de outras coisas, mesmo se nunca for usar aquilo ao vivo.”

Essa analogia é ótima porque confronta a ideia de que devemos “desaprender” as coisas erradas. Isso não existe. “Desaprender” é não saber que aquilo existe, o que te possibilita aprender de novo. Na verdade, precisamos saber as coisas erradas para não utilizá-las. E isso, de novo, remete à necessidade de mantermos a cabeça aberta. Não é fácil, mas é uma prática. E como diz o Victor Wooten (outro baixista que adoro), “praticar é uma forma detalhada de nos convencermos de que podemos fazer isso“.

Obrigado pela conversa, Diego!

Sobre achar a nossa voz

Eu queria achar um conceito ou uma frase pra tentar explicar o que foi o meu 2019. Entre a Segunda Lei da Termodinâmica e “É uma trajetória baixa pra um horizonte distante” do treinador de crossfit Chuck Carswell, achei essa do Miles Davis:

“Cara, de vez em quando, demoramos muito para soarmos como nós mesmos”

Essa frase é genial, porque ela resume os outros dois conceitos que eu tinha imaginado pra esse texto. O meu ano de 2019 reuniu a desordem e a entropia máxima da Segunda Lei da Termodinâmica e o entendimento de que as coisas têm tempos certos para acontecerem. Foi o ano de conversas difíceis, que significaram rupturas imensas, recomeços e que me fizeram cavar fundo. Precisei buscar coisas que estavam escondidas dentro de mim e precisei me acostumar com lugares novos e situações diferentes.

“Porque quando você acaba nesse mundo, você sabe que o próximo é pra você”. Eu também adoro esse verso de Walt Grace’s Submarine Test, January 1967 do John Mayer. No dia a dia, o mundo que vivi por 12 anos se acabou. No trabalho, precisei me adaptar a situações novas. E é fácil dizer que tudo foi horrível e difícil, porque fazer o papel de vítima é sempre cômodo. Só que também fui responsável por essas decisões e, por isso, tive que crescer junto com a ocasião.

Nesse processo, caminhei pra achar minha voz. Profissionalmente, comecei a plantar muitas sementinhas que espero colher no futuro. Não foi um ano fácil para a 42formas, apesar de todo o esforço e trabalho. Nesses momentos, a maturidade pra entender os caminhos e os pontos de melhora foi fundamental. E acho que demos mais uns passos pra chegar onde queremos nos posicionar.

Ainda assim, produzi bastante. Fui mais uma vez pra Austin, tive a honra de dividir o palco no SXSW EDU com a D. Pilar – quem diria que eu iria conseguir trabalhar com minha mãe um dia – , falei sobre aprendizagem social, mediei painéis e discussões. Tive a alegria de poder rever os amigos da WorldSkills em Kazan e trabalhar num evento que eu sou completamente apaixonado. Conheci e conectei gente, comecei a ser reconhecido pelo trabalho que faço. O processo de sair da casca é assustador e fascinante ao mesmo tempo.

Mantive a minha sanidade com crossfit, música e análise. Esse tripé me segurou em grande parte do ano, entre as dores e as delícias do recomeço de uma vida. Todo mundo deveria fazer análise, por mais desconfortável que seja. Os tempos lógicos de Lacan ainda me pregam peças, fico super incomodado com as eventuais sessões de 15 minutos, mas cada chacoalhada me ajudou a chegar em conclusões interessantes. Entendo que não é um processo para se sentir em casa, mas me sinto mais seguro cada vez que entro e saio da sala da Dra. Sílvia.

A música é outra eterna forma de achar a minha própria voz. As artes são como línguas e muitas vezes a gente tem dificuldade de se expressar nela. Como escrevi mais cedo nesse ano, a música têm sido uma outra forma maravilhosa de expressão e conexão. Seja com meus amigos da prática de banda, seja com a reaproximação com os meninos do Balboa em Belo Horizonte, depois de mais de dez anos fora da banda.

Finalmente, o crossfit e as pessoas do crossfit. Esse foi um ano de desconforto na maioria do tempo. Ficava incomodado com a conjuntura da vida, com problemas pontuais de trabalho, com a vontade de fazer algo novo. E poder frequentar o Vila Madá além da hora do treino foi uma das soluções para aplacar um pouco desse incômodo.

Foram incontáveis as vezes que chegava pra treinar querendo explodir o mundo e, passada uma hora, as coisas estavam mais claras na cabeça. Também foram incontáveis as tardes que passei trabalhando lá, só para poder sair um pouco de casa. Ou as vezes que enrolava para ir embora só pra terminar de colocar as ideias no lugar. Entre treinos, cervejas, almoços e caminhadas pro metrô, pude conhecer muita gente legal, que quero manter por perto o quanto for possível.

Esse ano terminou completamente diferente do que eu havia imaginado. No processo de achar a minha voz, precisei me expor mais, mostrar as vulnerabilidades, achar ordem no caos. É uma jornada pessoal e que o único interessado sou eu. Mas não conseguiria sem pedir ajuda e desabafar. Por isso, eu sempre repito que a minha sorte é ser rodeado de pessoas ótimas. Família, amigos e amigas, meus professores, gente que me ajuda a ser melhor a cada dia.

Foi o ano mais desafiador da minha vida e que bom que tenho a maturidade pra enxergar dessa forma. Eu demorei pra entender o processo de achar a minha voz, agora é caminhar cada vez mais “soar como eu mesmo”. Tal qual o Miles Davis, espero um dia compor meu Kind of Blue.

Feliz 2020!

Photo by Lee Campbell on Unsplash
Photo by Lee Campbell on Unsplash

A gagueira

Ironicamente, tentando vencer o silêncio e o bloqueio.

Eu, fã declarado que sou, fiquei bem feliz quando li esse texto do Austin Kleon sobre gagueira. Traz uma boa reflexão sobre como a gagueira foi útil para pessoas tornarem-se melhores em seus ofícios. Em outro post, Austin fala que seu filho de seis anos gagueja e quando li isso, acabei lembrando da minha própria gagueira e de como foi um grande problema na minha vida, especialmente na infância.

Sim, eu sou gago. E tenho lembranças vivas da terceira ou da quarta série, o desespero quando eu precisava ler qualquer texto. Se você gagueja, sabe do que eu estou falando. A primeira sílaba da primeira palavra parece ser um obstáculo impossível de ser vencido. Se eu passava, ainda tinha todo o resto do texto. Tinha pavor absoluto de palavras que começassem com “S” e “P”, por exemplo. Eu não sei quanto tempo eu ficava lá no “s-s-s-serra” em “Escola da Serra”, devia ser menos de um segundo. Pra mim parecia uma hora. Tão perto e tão longe, mas o suficiente para ser sacaneado pelos colegas.

E acredite, ninguém gosta de parecer um disco arranhado. Ninguém.

A gagueira tem algumas razões para acontecer: ansiedade, baixa auto-estima, o rápido fluxo de pensamentos, em contraste com a relativa imaturidade do sistema fonoarticulatório. Acontece na infância, em alguns casos perdura para a vida toda, em maior ou menor escala.

O problema é que até entendermos todo o processo, vamos buscando formas de escapar, também em maior e menor escala. Na escola, a forma que encontrei foi me recolher e falar menos, especialmente em público. Conviver com um mundo que fala com eloquência é difícil para um gago. Você obviamente não quer se expor, você espera que as pessoas tenham paciência com o seu ritmo, o que não acontece sempre. Eu sei que muita gente não tenta adivinhar a palavra por mal, mas incomoda bastante.

– Pa-pa-pa…

– Pato!

– Patacoada!

– Patada!

A conversa não é uma rodada de Imagem e Ação e é feio invadir o espaço e o tempo das pessoas.

Pra mim, essa limitação trouxe alguns benefícios: aprender a ouvir e buscar sinônimos para as palavras que eu tinha dificuldade. É sobre isso que o Austin Kleon fala em seu post: achar a sua voz, o seu ritmo e também ouvir com mais atenção.

É bem verdade que esse silêncio durou muito tempo, pra ser sincero. Tinha alguns rompantes de falatório, tipo alguns programas de rádio que fiz durante a faculdade, mas no geral, falava pouco. Além do medo de estar falando bobagem, não queria fazer uma pergunta em uma palestra ou durante uma aula e gaguejar. Os traumas da quarta série tinham que ficar na quarta série.

A idade ajudou, a fonoaudiologia também. Hoje, eu não acho que a gagueira esteja curada, mas simplesmente aprendi a conviver com ela. Tem momentos que a frase está montada e represada na cabeça, sem ter como sair pela boca. Quando isso acontece, eu falo rápido demais. Quando acho que vou ficar engastalhado em uma palavra, faço o oposto, coloco vírgulas e pausas completamente fora do lugar. Acho que a segunda saída é mais elegante que a primeira, me ajuda bastante a vencer o medo de falar em público.

Quando estou conversando com outra pessoa que tem a mesma condição, dou espaço e tempo. De novo, se ela resolveu falar e mostrar essa vulnerabilidade, ninguém precisa adivinhar o que vai ser dito ou deixar a pessoa mais ansiosa para completar a frase.

Pra terminar, me me identifiquei também com esse artigo da Darcey Steinke para o The New York Times: “Minha gagueira me transformou em uma escritora melhor“. Não que eu escreva maravilhosamente bem, mas ser gago me ajudou a achar minha voz e entender quem eu sou.

From Russia with Love – Parte 4 – As pessoas e o trabalho

Essa foi a minha terceira WorldSkills, a segunda sendo membro do Secretariado Estendido e pra mim, foi a melhor delas. Diferente de Abu Dhabi, já estava adaptado ao fuso horário, cheguei uns dois dias antes no local da competição e principalmente, estava em paz comigo mesmo. A experiência costuma ser uma coisa linda.

Novamente, é possível tirar várias lições dessa estrutura da WorldSkills, que sai de 21 para mais de 150 pessoas durante a competição. E como fazer isso da melhor forma possível?

Do lado da WorldSkills, imagino que seja um misto de planejamento e confiança. Esse processo começa uns oito meses antes da competição em si, com um processo seletivo. Você preenche um formulário falando da sua experiência, o que faz e quais funções gostaria de exercer. Nisso, são mais quatro meses até a definição das pessoas e das funções. Ou seja, você chega sabendo o que vai fazer. No entanto, é importante ter em mente que eventos são voláteis, incertos e tudo pode mudar.

Por isso, do lado de quem chega para ajudar, existem algumas regras de ouro. A primeira delas é ser uma pessoa legal. É um evento gigantesco e de tiro curto, vamos ficar juntos pouco mais de 10 dias e uma atitude positiva é fundamental. Ninguém tem tempo para melindres ou cara fechada.

(Pausa para um caso que se relaciona)

O Diego Mancini tem uma ótima história sobre quando estudava na Los Angeles College of Music e teve uma aula com o produtor do Lionel Richie. Ele foi perguntado sobre qual era o processo de escolha dos músicos para a turnê. E a seleção final era baseada em quem era mais gente boa e fácil de lidar. A justificativa foi algo como: “Nós já sabemos que as pessoas são boas no que elas fazem. Como vamos ficar juntos muito tempo, manter um clima bom é importante”.

(Pronto)

Esse ano, o time de Comunicação e Marketing estava maior, com vários amigos de outros carnavais e muita gente nova se juntando ao bonde. Esse é oficialmente um time de duas pessoas na WorldSkills International: Crispin Thorold, o diretor e Shawna Bourke, a gerente-sênior. Correndo o risco de errar os números, mas vamos lá, Em Kazan, fomos umas 40 pessoas de pelo menos 13 países. São várias funções: coordenação do escritório, coordenação da equipe de vídeo, coordenação do time de fotógrafos e tagueamento das fotos, redes sociais, imprensa, apoio para os patrocinadores e membros da WorldSkills, apoio à imprensa internacional, etc. São culturas, histórias e expectativas diferentes e você precisa entender isso, por isso é importante não complicar as relações.

A segunda regra de ouro é confiar no processo. As coisas mudam rápido, porque um evento desse exige ações rápidas. Então pode ser que você mude de função no meio do caminho, pode ser que você precise fazer algo que não planejava e isso faz parte do jogo.

Em Kazan, fiz um pouco de tudo, entre coisas que gosto e as coisas que tenho medo. Fiz um rabisco do planejamento de redes sociais do evento, a cobertura do programa de conferências, pude contribuir com algumas ideias e conceitos para alguns vídeos e, o mais legal, estar no Winner’s Circle, para onde os medalhistas vão para serem fotografados.

Os bastidores do Winner’s Circle.

O Winner’s Circle é a prova da sintonia no trabalho em equipe. Além do registro em si, essas fotos vão logo para as redes sociais da WorldSkills. O processo funciona dessa forma: os medalhistas eram recebidos pela Lisa Frizzell na saída do palco e conduzidos até o backdrop. Ali, o Jacob garantia a animação dos medalhistas, que eram fotografados pelo Himal Reece, cuja câmera estava conectada no meu computador. Eu editava, exportava a foto para uma pasta compartilhada com o time de redes sociais, comandado pela Jennifer Early, que publicava a foto.

Ainda vou escrever sobre o programa de conferências, que abordou alguns temas super relevantes, especialmente inclusão e diversidade e como as profissões e o ensino técnico e profissional podem ser agentes contra o aquecimento global. Nota: foi a primeira vez que ouvi falar do termo green skills. Eu e a Hayley Uffelman, nos dividimos entre as diversas sessões simultâneas para garantir fotos e tweets. Correria e conteúdo ao mesmo tempo.

Programa de Conferências da WorldSkills.

Um dos pontos altos foi a sessão com o astronauta Scott Kelly e o cosmonauta Sergei Krikalev, conduzida pela jornalista Lyse Doucet. Pensamos as coisas mais modernas e tecnológicas quando falamos da exploração espacial, mas os dois fizeram questão de reforçar que na Estação Espacial Internacional, você precisa das habilidades das profissões mais “triviais” como encanador e eletricista.  Além das habilidades sociais que tanto falamos: resolução de problemas, trabalho em equipe e criatividade. De quebra, ainda consegui uma foto com o Scott Kelly.

O astronauta Scott Kelly e eu. 🙂

Por outro lado, precisei acompanhar o tour de imprensa pelo evento e fazer a distribuição de credenciais para as cerimônias de abertura e encerramento. São dois momentos tensos e onde você precisa dizer “não” com alguma frequência. E vocês sabem como eu odeio dizer “não”. De novo, é sempre uma questão de confiar no processo. Quando vi, estava tirando um cameraman de uma área proibida pra ele pela alça da mochila durante o tour.

Parte do tour com a imprensa. Momento de grande tensão nos preparativos da competição.

A terceira regra é estar aberto para conhecer pessoas. E quem está dizendo isso é uma pessoa introspectiva. No final de tudo, poder participar de um evento feito a WorldSkills é poder conhecer gente legal e aprender com elas.

Eu que tanto falo sobre aprendizagem social na 42formas, pude ver – de novo – como isso funciona na prática. Passa por um senso geral de companheirismo e transparência na equipe. É desejável que você fale o que está sentindo, se está tudo bem, se você precisa de algum suporte. Junte isso com a experiência que as pessoas trazem. Tem gente com seis, sete competições nas costas, como a Lisa Frizzell e o Maurice Hillier (dois ídolos desse que vos escreve) e tem gente que chegou agora para a sua primeira competição: Jennifer, Séan e Hayley, por exemplo. O que podemos aprender com essas pessoas e quais práticas a gente consegue levar pro nosso dia a dia e pro nosso trabalho? O bom que esses aprendizados podem acontecer tanto no escritório como nas cervejas após o expediente.

A gente costuma brincar que as competições são como colônias de férias, onde as pessoas se veem após um longo período e colocam as conversas em dia, se divertem, criam vínculos. Dessa vez, como estávamos hospedados no centro da cidade, pudemos beber e comer fora do Skill Out, o happy hour da competição, com roupas de “civis”, o que ajuda a desconectar dos dias longos de trabalho.

Parte do time de comunicação e marketing após a Cerimônia de Encerramento.

O mesmo pub de estimação, mas do lado de fora. 🙂

Dan, Lisa, Maurice e eu no lugar que servia sorvete vegano e café etíope.

Uma das várias cervejas no nosso pub de estimação.

Esgotamos todos os recursos dos vizinhos, a Triple IPA do bar de cervejas locais e o sorvete vegano de chocolate do café próximo ao hotel são bons exemplos, enquanto falávamos sobre trabalho, música, vida, política. É um grupo de pessoas que eu sou muito feliz de poder conhecer e dividir horas de trabalho e diversão juntos.

Desde 2015, a WorldSkills me ganhou no “oi”. Em 2019, continua me ganhando no “oi” e com a troca. Deixo um pouco de mim lá, ganho um tanto de volta.

A mesquita de Kul Sharif dentro do Kremlin de Kazan.
A mesquita de Kul Sharif dentro do Kremlin de Kazan.

From Russia with love – Parte 3 – Kazan

Eu fico impressionado como a gente tem uma visão limitada da história. Antes da viagem fiz uma pesquisa porca sobre Kazan, só pra definir além de “a cidade onde o Brasil foi eliminado pela Bélgica”. Eu ia ficar 15 dias por lá, não queria parecer um completo idiota, mas não adiantou muito. Precisei chegar lá para saber mais.

Cheguei no começo da tarde do dia 15 de agosto, e como estava dispensado do trabalho, aproveitei para dar uma volta nos arredores do hotel. Ele ficava na área central, com uma saída pra Baumann, uma rua fechada para carros e super próximo do Kremlin de Kazan. Estar no centro da cidade faz uma diferença incrível no seu convívio com a cidade e com as pessoas.

Rua Baumann, em Kazan.

Centro de Kazan

Pois bem, o reconhecimento também tinha como objetivo achar o box de crossfit que, em tese, era próximo do hotel. Falhei nessa busca, porque o box já não ficava mais lá. Pelo menos, tive o primeiro contato com o Kremlin e a maravilhosa mesquita de Kul Sharif. Além da mesquita, a torre Söyembikä e a Catedral da Anunciação ficam dentro do Kremlin, que também é a sede do governo local. Nos dias seguintes, passei por lá mais umas três vezes.

A mesquita de Kul Sharif dentro do Kremlin de Kazan.

A Catedral da Anunciação

Uma dessas vezes foi durante a excursão dos Competidores. Nosso guia e sua voz de trovão gritando “number 44“, o número do nosso ônibus, conseguiu matar um pouco da minha ignorância. Descobri que Kazan, a capital da República do Tartastão, foi anexada à Rússia por Ivan, o “Terrível”, em 1552. Era o fim da guerra de mais de cem anos entre o Canato de Kazan e os Moscovitas. A catedral de São Basílio, em Moscou, foi erguida para celebrar esse feito.

Todos atentos ao guia e sua voz de trovão.

(Nota: também descobri que “Terrível” não é a alcunha correta para o Ivan. Quem nos contou isso foi Carolina, a attaché que salvou nossa vida durante a excursão. Se ela não tivesse conosco quando chegamos na Vila dos competidores, o ponto de encontro, possivelmente estaríamos morando lá até hoje.

Bem rapidamente, ela nos disse que a alcunha mais apropriada seria “aterrorizador”. Ivan era temido na época, mas ficou doido no final da sua vida e matou os filhos. Seu legado ficou manchado.)

Enfim, Kazan tem 1,5 milhão de habitantes, fala-se tártaro e é 50% muçulmana e 50% cristã-ortodoxa. É um dos raros exemplos de interação entre religiões e vemos mesquitas e igrejas espalhadas por toda a cidade. Além disso, é a sede do ministério da agricultura da Rússia, uma forma do governo russo dar importância e também garantir sua influência na região.

É uma cidade que tem mais de mil anos, passou uma série de conflitos, fica às margens do Rio Volga, um dos mais importantes da Rússia. Pra mim, que nasceu numa cidade de apenas 121 anos, toda essa quantidade de história é meio absurda. É preciso um tempo para entender e processar tudo.

Detalhe do centro antigo de Kazan.

Ministério da Agricultura em Kazan.

Parte de Moscou vista da Catedral do Cristo Salvador.
Parte de Moscou vista da Catedral do Cristo Salvador.

From Russia with love – Parte 2 – Moscou

Com tanta coisa acontecendo dos lados de cá, tive pouco tempo para fazer uma pesquisa mais estruturada sobre as coisas que poderia fazer nesses dois dias de Moscou. Mas se tratando de Rússia, quem tem o Fabrício Vitorino como amigo, tem tudo. Ele é a pessoa de confiança para assuntos relacionados ao país, a história, a cultura e se você não acredita nisso, é só dar uma olhada no seu twitter. O Fabrício fez uma lista de atrações que eu deveria ver e eu juro que tentei cumprir à risca.

Aliás, quando descobri que estava indo para a WorldSkills, perguntei pro Fabrício se eu conseguiria aprender russo em 139 dias. A resposta não foi tão otimista. E nesses dias de viagem, foram dezenas de mensagens trocadas e muitas aulas sobre o que eu estava conhecendo. 🙂

Chegando em Moscou, as primeiras coisas que fiz foram trocar dinheiro e comprar um chip de telefone. Até pensei em usar somente o wi-fi, mas como estava receoso em relação às variáveis do deslocamento até o hostel e da cidade em si, achei que essa compra fazia sentido.

Sabia que precisava pegar o trem expresso do aeroporto Sheremetievo até a estação Belorusskaya e de lá, um metrô até a estação Kitay-Gorod com uma baldeação no meio. Uma vez que o trem chegou na cidade, segui a multidão de pessoas e cheguei na estação. Já havia baixado o app do metrô – tem alfabeto latino – consegui comprar a passagem, me locomover entre as baldeações e deu tudo certo.

Uma historinha sobre o metrô

Algumas linhas sobre o metrô. Pra começar, o metrô de Moscou é uma perdição. Sistema gigante, com algumas estações super fundas, porque também foram construídas para servirem de abrigos nucleares, e todas absolutamente lindas. Esse link mostra as 20 estações mais bonitas. É difícil descrever a beleza e os detalhes nas colunas, paredes, teto e piso.

Eu passei em algumas delas, mas digo que é difícil fazer fotos legais. Já estava causando disrupção suficiente no sistema fazendo absolutamente tudo o que me deixa puto no metrô de São Paulo: ficar parado na porta que iria abrir, andar nas estações e parar bruscamente, seja procurando o caminho ou completamente embasbacado pela beleza das plataformas, fiquei até do lado esquerdo da escada rolante (blasfêmia-mor!) e elas são várias e gigantes.

Plataforma da estação Biblioteka Imeni Lenina – Библиотека имени Ленина

As baldeações entre as estações me lembrou as de Paris e Londres, de certa forma. São sistemas antigos, com passagens estreitas, cheias de curvas e muitas vezes não-óbvias. Procurem no mapa abaixo a estação Biblioteka Imeni Lenina – próxima das 7h se a linha circular fosse um relógio – e percebam as baldeações em diamante. Eu precisei de um tempinho para entender como trocaria de linha ali. 🙂

Além disso, algumas estações, tipo a minha Kitay-Gorod, chegam a ter 14 saídas. Saí pelo lado errado e precisei andar uns bons dez minutos na rua. Acontece.

Mapa do metrô de Moscou.

(Voltamos)

Como falei no post anterior, a caminhada para encontrar a Lisa Frizzell me proporcionou o primeiro momento “uau!” da viagem. A Praça Vermelha logo na minha frente trouxe um misto de sensações. Somos insignificantes perto do tamanho das edificações e o que aquele lugar significa para a história.

Joguei pra alguma gaveta escondida da memória a relevância de Moscou pra história. E quando lembrei do pouco que sei da história da Rússia e de Moscou, fica fácil entender porque tudo ali, os prédios, as praças, as avenidas, as estátuas, são amplos e imponentes. São afirmações de poder.

Moscou já foi a capital de um império, o significado-mor de uma ideologia. Os russos já enfrentaram um sem número de conflitos, guerras e invasões e precisam mostrar seu poderio. Toda hora você cruza com uma estátua de três metros de alguém: de Lênin até Dostoiévski passando por Marx. Os símbolos comunistas estão todos ali, especialmente no VDNKh (fala-se vêdénrrá), parque criado para celebrar a potência econômica da União Soviética. São pavilhões para países e indústrias do ex-bloco, além de fontes maravilhosas e restaurantes. Tudo é muito pujante.

Sobre as guerras, fiquei impressionado com o Museu da Grande Guerra Patriótica, como os russos chamam a 2ª Guerra Mundial e o Museu da Guerra Patriótica de 1812, contra Napoleão.

No primeiro, um outro momento “uau” da viagem. Ao sair da estação, você vê um parque imenso e lá no final, um monumento e o museu, gigantes. Esse museu nos ajuda a (re)lembrar quem ganhou a guerra na europa: os russos. Foram três anos de batalha, cercos em São Petesburgo e Volgogrado e 26 milhões de russos mortos. Não fosse o encontro do Exército dos Estados Unidos com o Exército Vermelho às margens do Rio Reno, tema de exposição temporária no museu, talvez os camaradas só parassem em Lisboa.

Hall dos Comandantes

Hall da lembrança e da tristeza

A escadaria e o monumento

Outro lugar que me emocionou bastante foi o Museu dos Cosmonautas, vizinho ao VDNKh. Primeiro, pelo Monumento aos Conquistadores do Espaço, de 107 metros de altura, todo em titânio, com um foguete em seu ponto mais alto. Na base, representações dos homens e mulheres que participaram do programa espacial russo, além da cadela Laika, o primeiro animal a orbitar a Terra. Depois, pela chance de ver o outro lado da história da exploração espacial, incluindo um módulo da Soyuz.

Museu dos Cosmonautas Visto da saída da estação VDNKh

Museu dos Cosmonautas

Esses dois dias só foram possíveis com a listinha feita pelo Fabrício. Ainda consegui visitar o Mausoléu do Lênin, os jardins do Kremlin, a Catedral do Cristo Salvador e o parque Gorki. Me senti muito afortunado pela oportunidade de estar do outro lado do mundo, numa cidade cheia de símbolos. É fruto do meu trabalho, do que construí, e é fruto também do apoio da família. Só pensava como o Leo e a Pilar estariam pirando se estivessem ali. Tentei conhecer o máximo da cidade também para ter história pra contar pra eles.

Antes de voltar pro hostel, fechar a mala e partir cedo no dia seguinte, ainda fiz uma última visita à Praça Vermelha, para poder fotografar a arquitetura iluminada. Belíssima, mesmo com a montagem de uma mega estrutura para um evento no centro da praça.

 

A catedral de São Basílio.

E o evento que estavam montando ao lado da catedral…

Na sala de embarque, todo aquele medo tinha ido embora e parecia algo quase infantil. Os dois dias na cidade valeram demais e serviram como o período de aclimatação ideal para Kazan e a WorldSkills. O trabalho duro e a diversão iam começar pra valer agora.

A placa do Aeroporto Sheremetievo na estação de trem do aeroporto.
A placa do Aeroporto Sheremetievo na estação de trem do aeroporto.

From Russia with love – Parte 1 – Medo

Prólogo

Em agosto, tive a chance de participar da WorldSkills Kazan 2019. Foi a minha terceira experiência na WorldSkills Competition, a maior competição de educação profissional do mundo. Primeiro, fui parte do Comitê Organizador na edição de São Paulo, em 2015, e parte do Secretariado Estendido na WorldSkills Abu Dhabi 2017, trabalhando no time de comunicação e marketing. Fiz parte desse mesmo time em Kazan.

Essa foi a 45ª edição da competição, a primeira na Rússia, e a maior até agora. Mais de 1.300 competidores de 63 países e regiões membros da WorldSkills, competindo em 56 modalidades.

Permitam-me explicar esse termo pouco familiar, o tal “Secretariado Estendido”. A competição é organizada pela WorldSkills International, uma entidade sem fins lucrativos, em parceria com o representante no país que irá sediar o evento. No Brasil, por exemplo, foi o SENAI. Apenas para termos de comparação, a WorldSkills seria a FIFA na Copa do Mundo ou o COI nos Jogos Olímpicos. Entre as competições, a organização tem cerca de 20 pessoas em seu quadro fixo, chamado de secretariado. Durante o evento, esse número sobe para mais de 150, quando pessoas são selecionadas para estender esse quadro – daí o nome – e trabalhar para a competição em diferentes frentes: Pode ser no apoio à competição, aos membros da WorldSkills, na área de comunicação e marketing ou na parte de patrocínios e programa de conferência.

São pessoas do mundo todo e com experiências diferentes. É uma divertida mistura de histórias, sotaques e habilidades, uma das coisas mais valiosas dessa oportunidade. Vou falar um pouco mais sobre o trabalho e o dia a dia na terceira parte desse post.

Antes, queria começar as memórias da Rússia com uma reflexão sobre medo e desafio. 🙂

 

Parte 1 – O medo

Quando a Jane Scott entrou em contato comigo para falar de passagens aéreas, uma das perguntas foi quantos dias eu queria ficar na Rússia antes ou depois da competição. Depois seria inviável, porque teria o casamento do Leléo e da Nika, meus primos, em Lisboa. Mas poderia chegar alguns dias antes e conhecer Moscou e São Petesburgo por minha conta. Só que eu titubeei demais para responder essa pergunta. Com medo, disse que queria ficar só dois dias.

(Nota paralela: o cargo oficial da Jane é assistente financeira e de operações. Pra mim, ela é a fada onipresente resolvedora de todos os problemas. Nada, absolutamente nada, fica sem solução pra ela. É incrível!)

Voltando. Pra fora, estava com medo de Moscou e da Rússia, “do idioma e das coisas que a gente vê sobre lá”. Eu que tanto falo sobre pensamento crítico, estava replicando uma bobagem dessas. Na verdade, eu estava com medo de mim mesmo e do “novo”. De vez em quando, deixo os pensamentos que me atormentavam há muito tempo darem as caras: o medo das mudanças e do novo. Não estava preocupado com Kazan e a competição, mas sim com a grande surpresa que seria Moscou. Imaginava que não conseguiria resolver as coisas triviais: a imigração, sair do aeroporto e chegar até o centro, andar de metrô, chegar no hostel. Era muita coisa para sobreviver em dois dias. Será que eu daria conta?

A praça vermelha e a Catedral de São Bas

E é engraçado quando a gente simplesmente passa por essas coisas sem perceber. Quando vi, estava no hostel e já me preparando para encontrar com a Lisa Frizzell, amiga da WorldSkills. No caminho, precisei do primeiro momento “uau!” da viagem – o encontro casual com a Praça Vermelha, a muralha do Kremlin e a Catedral de São Basílio – pra ter a certeza que o medo tinha sido um sentimento bobo.

Eu poderia ter pedido para chegar antes e ter sido mais corajoso. Agora era tarde, tinha só dois dias na cidade e decidi usar essa coragem pra aproveitar Moscou da melhor forma possível. Deu certo.

A "verdinha" montada em todo o seu esplendor em um show do Balboa no Hard Rock Cafe.
A "verdinha" montada em todo o seu esplendor em um show do Balboa no Hard Rock Cafe.

Bateria, 20

Queria compartilhar que a minha 37a volta em torno do sol também significa 20 anos tocando bateria. É uma data simbólica e ao mesmo tempo super importante, porque são 20 anos da descoberta da música como uma língua e uma forma de interação. Pra mim, também sempre significou uma forma de me entender, de sonhar e de poder me expressar.

Essa relação começou alguns meses antes do meu aniversário de 17 anos, enquanto conversava com o tio Ângelo, meu padrinho. Eu, inseguro e teimoso até a tampa, disse algo como “se me derem uma bateria, eu aprendo a tocar em poucos meses”. Ele riu. Semanas depois, no meu almoço de aniversário lá no apartamento da Rua República Argentina em BH, rigorosamente um 7 de agosto.

Abro a porta pra receber alguém e do lado de fora estava a Simone, na época namorada e hoje esposa do tio Ângelo, com uma porrada de caixas de papelão da Yamaha. De dentro do apartamento vem ele dizendo “você disse que era fácil aprender a tocar, agora prova isso”. A teimosia vem de família, aparentemente. Dentro das caixas, uma Yamaha Stage Custom, cor verde marina, que está comigo até hoje. Eu, que nunca dou apelido para coisas, sempre chamei ela de “Verdinha”.

Juro que tentei achar as fotos desse dia, mas elas estão guardadas em alguma caixa nesse mesmo apartamento. Ainda posto aqui. Eu chorando na escada, meus amigos com cara de surpresa, a bateria montada de qualquer jeito depois. Era o começo da história.

O primeiro ano foi praticamente gasto para aprender na marra. Obviamente, era muito mais difícil do que eu imaginava, mas a ignorância e a arrogância dos 17 anos não tinham me mostrado isso. Precisou de uma dose de coragem e do acaso pra isso mudar.

O acaso

Ricardo Bizafra, meu primo, estava numa festa num condomínio perto de BH e ouviu um conhecido dizer que precisava de um baterista pra sua banda de pop rock nacional. Aparentemente, o velho e bom Biza tinha a solução:

– Pô, meu primo toca.
– Sério?
– Sério! Toca Rush, Dream Theater, ele é bom demais!

Vejam, eu ouvia Rush e Dream Theater. Tocar era uma história completamente diferente e fantasiosa ainda por cima. Porém, essas falsas credenciais me qualificaram para ser o baterista do Álamo. Estava com a minha primeira banda. Tocávamos música dos anos 80 e 90: Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Barão Vermelho, Skank além de algumas composições do Lelo Schirmer, o vocalista. Éramos cinco moleques, eu sem nenhuma experiência de nada, fazendo música e se divertindo pra caramba. Claro, não demorou muito para os meninos perceberem que eu não tocava nada daquilo e fui procurar aulas de bateria. Era importante, afinal o Álamo seria um grande expoente do rock nacional e o baterista precisava ser bom para justificar isso.

O último show do Álamo, abril de 2001, em BH.

O sonho acabou antes, em abril de 2001 e por diferenças criativas. Não sei como isso funciona nas bandas grandes, porque no Álamo foi bem simples, se não me falha a memória. Um guitarrista tinha um outro show na mesma data, faltou a um ensaio e não foi no nosso no dia. Fim da banda. Fizemos ainda mais um show em setembro, porque “Gatos Pardos”, nosso grande hit, havia sido selecionado para o Sprite Sounds 2, um festival promovido pela Coca Cola. A qualidade da gravação é ruim, mas a música é joia!

Em 2002, fui chamado pelo Lelo para substituir o baterista em um show na sua nova banda. Quando vi, já era o baterista do Venal, a banda do Lelo junto com os irmãos Rafa e Marcelo Poleze. Fizemos 90% dos shows do Venal no mesmo lugar, o Severino’s Pub em Belo Horizonte. Ficamos juntos até o ano seguinte, quando a banda também acabou.

Marcelo Poleze, Lelo Schirmer, eu e Rafa Poleze no Venal.

Pra minha surpresa, os Poleze me chamaram em 2004 pra nova banda deles, o Balboa. O repertório era bastante voltado pro pop com alguma coisinha de funk. Os três anos que ficamos juntos foram os de maior aprendizado. Tocamos para ninguém num domingo a tarde, para 2,5 mil na abertura do Festival de Cinema de Tiradentes em 2006, abrimos show para o Double You no interior de Minas Gerais, fizemos dois shows lindos no Hard Rock Café. Gravamos demo, disco, crescemos muito como banda, como músicos e como pessoas.

Show de lançamento da nossa demo “Pra Sempre Viver”, em 2005.

Tocando com o Balboa no segundo show no Hard Rock Café, em agosto de 2006.

Tocando com o Balboa no segundo show no Hard Rock Café, em agosto de 2006.

Pessoalmente, o Balboa também foi importante para me fazer entender a música como forma de expressão. Mais do que emular o que ouvia nos discos, eu descobri que eu podia – e devia – expressar o que eu sentia e o que queria dizer quando tocava bateria. Era como se eu tivesse o que conversar com o Steve Jordan, Mike Portnoy, Wilson das Neves, Carter Beauford, João Barone, todos aqueles caras que eu ouvia.

Foi a época que eu ouvia Dave Matthews Band de maneira compulsiva e esse caldeirão de coisas também me abriu os olhos para outros sons que eu queria fazer. Acabei saindo da banda em 2007, por discordar de alguns direcionamentos. Olhando pra trás, mudaria a conversa e a forma como isso aconteceu. Fui intransigente e cabeça dura demais. Felizmente, o tempo nos ajuda nessas coisas. Tive a chance de conversar sobre isso com os meninos há pouco tempo e foi uma conversa breve, mas muito importante.

A música me deu a chance de conhecer e aproximar de muita gente. Depois do Balboa, toquei com o Diguinho e o Celinho, amigos de infância, numa banda de blues chamada Batomush. Também fiz muitos sons com o Diego Mancini, uma das melhores pessoas para se ter ao lado na vida, incluindo um palco. Fizemos um sem número de shows junto com a Jennifer Souza, com a Lorena Chaves – sim, já toquei com uma artista que apareceu no “Ídolos”! – , com o Cine Los Angeles, nosso projeto de uma apresentação só. Eu tenho a honra e o orgulho de ter gravado o vídeo que ele fez para ser admitido na Los Angeles College of Music em 2009.

Batomush em janeiro de 2007.

Jenny & The Bottle Trio em março de 2009.

Quando me mudei pra São Paulo, achei que tinha encerrado esse capítulo na minha vida. Já tinha desistido de viver de música, pensava que ia parar de tocar bateria, mas tudo se assentou e, em 2015, voltei a tocar em uma escola de música. As práticas de banda me deram mais pessoas legais e a chance de voltar a tocar o instrumento.

Pra terminar

Nesses 20 anos de relação, eu certamente ganhei mais do que dei. Poderia ter estudado mais e me dedicado mais, poderia ter contribuído mais e ter sofrido menos com as cobranças e expectativas. Talvez tenha me faltado cavar mais fundo, ficar desconfortável com processo de aprender alguma coisa. Essa é outra lição que a vida me deu. Por outro lado, dificilmente teria essas experiências todas se não tivesse feito uma aposta com meu tio e ele ter topado. Possivelmente estaria sonhando até hoje ou vendo um show e pensando “ah se eu tivesse lá, estaria mandando ver” sem a menor ideia do que é “mandar ver”. Que ilusão. 🙂

A gig de hoje é essa deliciosa prática de banda de jazz e beatles. 🙂

Não é preciso tocar um instrumento para gostar de música, mas poder aprender um instrumento e tocar com outras pessoas significaram experiências que transcendem a arte. Aprendi mais sobre mim, sobre conviver com o outro, sobre dividir perrengues e pequenas vitórias num palco. E num fechamento recente na análise, que é preciso muita repetição para ser bom em alguma coisa.

Hoje, completando 37 anos, tenho entendido mais o valor do esforço ao invés da inteligência. Há 20 anos, o menino que sempre estudou o suficiente para poder passar nas provas achava que só o esforço análogo serviria pra música. Ele estava enganado. Ainda bem.

Essa história é minha, mas também é de muita gente. Ângelo, Bizafra, D. Pilar, Leo Fares, Tutu, Lelo, Nicolas, Rômulo, Pedro Henrique, Rafa, Marcelo, Daniel, Chacal, Diguinho, Celinho, Diego, Rapha Mancini, Jennifer Souza, Lorena Chaves, Plauto Covre, Kicko Campos, Dedig, Alex Manzi, Arthur Rezende, Glaydson Benevenuto, Samir Nassif, Luciano, Pedro França, Thiago Ceconi, Carol Balbi, André, Felipe, Tainá, Gustavo, Ian. Todos vocês têm uma contribuição na vida musical desse escriba.

Obrigado (e parabéns pra mim)!

Bandeja 02 - Pinho 51 x 32cm
Bandeja 02 - Pinho 51 x 32cm

Bandeja #2

Graças à um convite de última hora, a bandeja número 2 está pronta. Comecei esse projeto no primeiro final de semana de maio. Pra quem não se lembra, a minha primeira incursão na marcenaria foi também com uma bandeja. Foi super divertido, uma oportunidade incrível de aprendizagem e, por isso, achei que esse projeto seria mais rápido. Como diria Fausto Silva, “errou!

No primeiro final de semana, consegui grosseiramente fazer as laterais e o fundo. Deixei tudo separadinho na oficina do meu tio pra terminar em um outro momento. Achava que iria demorar e fiquei feliz que a oportunidade apareceu antes. Foi legal pra ver que as coisas levam tempo e como somos facilmente enganados pelo Youtube. Vamos lá.

Como pouco sei sobre marcenaria, as chances para aprender algo novo estão do meu lado. Seja no processo, seja nas técnicas. É sempre bom reforçar que diferente dos vídeos que vemos, poucos projetos são obras do acaso. É preciso gastar tempo planejando a construção, escolhendo a madeira, planejando os cortes e medidas e trabalhando o material. Tal qual no meu dia a dia profissional, um planejamento bem feito visa diminuir os percalços no meio do caminho.

Óbvio que não estamos imunes a eles e eu vou dar um exemplo. Essa bandeja tem as laterais unidas usando “box joint“, esse encaixe de dentinhos. Meu tio precisou de quase um dia para ajustar o novo gabarito. Eu precisei errar pouco, porque qualquer milímetro faria diferença no encaixe final. (e fez)

Ajuste no gabarito do box joint.

Modelo de box joint.

Mesma coisa para a alça, que foi feita na furadeira de mesa, usando a ponta Forstner, que faz um furo largo e circular. Três ou quatro desses bem-feitos fazem 90% do trabalho. Você só precisa acertar com a serra tico-tico. Em tese, porque ainda me falta habilidade, tanto para essa ponta quanto para a serra.  🙂

Processo de furos da alça da bandeja.

Naturalmente, errei um bocado. Mexi na largura e comprimento no meio do projeto, precisei lixar, cortar e aparar para cobrir a falta de traquejo supracitada. No sábado de manhã, quando vi que o fundo estava menor do que as bordas, pensei em transformar tudo em uma grande fogueira e dar o trabalho por encerrado.

E aí, a ajuda de um tutor experiente acaba fazendo a diferença. O tio Ângelo sugeriu correções simples e que funcionaram muito bem. Precisei voltar para o gabarito do box joint e voltei a gastar um bom tempo lixando, mas deu tudo certo.

Aliás, falando nisso, desconfie quando seu youtuber preferido faz pouco caso do trabalho braçal. No caso de vídeos sobre marcenaria é ouvir algo como “Ah, aí eu montei, dei uma lixada e encerei”. Turma, “dar uma lixada” dá trabalho, demora e é chato pra caramba, mas é necessário para que fique bonito.

“Dar uma lixada”.

O resultado é esse aí embaixo. Tem algumas falhas, eu posso dizer que alças quase simétricas são minha marca registrada e estou super feliz com o produto final. Além de continuar aprendendo algo novo, a marcenaria é uma aula de expectativas e humildade. Cheguei querendo terminar a bandeja em um dia e aproveitar os outros para fazer qualquer outra coisa. Saí pensando que é melhor fazer um pouquinho a cada dia.

Melhor assim. 🙂

Bandeja 02 – Pinho 51 x 32cm

Bônus: tem até um mini timelapse.