Uma reunião de condomínio é só mais uma reunião

Manuscripts and Archives Division, The New York Public Library.

Eu moro no último andar de um prédio pequeno. São só cinco unidades, sendo que uma delas é um escritório de arquitetura. O bom é que você acaba ficando mais próximo de alguns e acaba encontrando todo mundo chegando ou saindo do prédio, é simples assim. Porém, prédio pequeno também tem aquilo que 105% dos moradores de prédios, sejam grandes ou pequenos, odeiam: síndico e reunião de condomínio.

Pois bem, há algum tempo fui aclamado como síndico. Notem bem a palavra, “aclamado”. Eu não queria, mas o resto do prédio achou que era a minha vez, tudo bem. A demanda é pequena, tudo é, em tese, fácil de resolver.

Até a primeira reunião de condomínio.

Foi nela que percebi que uma reunião de condomínio é como uma reunião de trabalho qualquer. Tem os que chegam no horário, tem os que atrasam. Tem os que prestam atenção, tem os que não estão nem aí. Tem os que querem colaborar, os que não querem. E você tenta navegar no meio disso tudo.

Aqui a gente havia começado bem. Já havíamos feito a prestação de contas, discutimos o problema da TV a Cabo (alô, NET, metade do prédio já mudou pro concorrente) e estávamos avançando na questão das obras quando chegou o atrasado. Não só atrasado, devo dizer. Como em um diagrama de Venn, ele se encaixou em todos grupos que gostam de esculhambar as reuniões.

Como em toda reunião de trabalho, o atrasado segue um protocolo. Depois de quebrar o ritmo do encontro, ele pede desculpas e pede uma recapitulação do que foi falado (e decidido) até então. Ao invés de ouvir para depois falar, ele prefere interromper. E em seguida, não presta atenção em mais nada.

Daí pra frente, amigas e amigos, tudo está maculado para sempre. E, juro, tentei seguir as três regras do Rework sobre reuniões:

  • Coloque um timer para 30 minutos. Quando tocar, acabou a reunião. Ponto.
  • Convide o menor número possível de pessoas (essa era fácil)
  • Nunca faça uma reunião sem uma agenda clara.

Não foi possível. A reunião durou muito mais do que o necessário e demoramos mais tempo para resolver as coisas. Mas resolvemos. Ou acho que resolvemos, porque dois dias depois, a mesma pessoa me interfonou dizendo que “conversamos, conversamos, mas não resolvemos nada”. Me deu vontade de bater a cabeça na parede.

A gente sabe que reuniões são muito chatas, mas se seguirmos as regrinhas acima e tivermos um pouco de boa vontade, o momento pode ser melhor aproveitado. Se você for o organizador da reunião, é importante que você esteja comprometido com o tempo e com o que foi combinado. Se você for um dos convidados, colaborar é importante. E se você chegar atrasado, bem, pelo menos não atrapalhe o encontro. 😉

6/52.

Sobre os acasos

De vez em quando, só o acaso pra gente perceber as coisas.

Estava ontem navegando pelo Google Photos, onde fica o meu backup de fotos do telefone e, mais recentemente, as outras fotos que faço. Em fevereiro de 2014, vejo algumas fotos que fiz à noite na Estação Berrini. Quem me segue no instagram sabe que eu adoro fotos em metrôs, trens e estações. Enfim, eu não tinha percebido que duas delas se complementavam, quem me mostrou isso foi o Google.

A captura de tela do Google

Vi aquilo, soltei um “Ó!”, como se fosse uma grande “Eureka!”. Baixei as duas fotos e resolvi fazer a montagem de forma oficial. Depois do Photoshop e do Lightroom, eis o resultado final:

“O trem” – Nexus 5, Photoshop e Lightroom

Fiquei super orgulhoso.

Sobre um curso de batismo, narrativas e espaço de discussão

Na semana passada, precisei “interromper” minhas férias em Guarajuba, Bahia, para fazer um curso de batismo. Serei padrinho da minha prima e precisei do curso para estar apto à função. Fui para Salvador num sábado e fiquei toda a manhã no Centro Comunitário de uma igreja. Achei simbólico fazer esse curso na cidade que é a minha definição de sincretismo religioso.

A sala estava até cheia, talvez umas 25 pessoas, Algumas super interessadas, outras nem tanto. E o voluntário que dava o curso, percebendo a morosidade da sala, resolveu estimular a discussão dizendo que gostaria de ouvir casos da presença de Deus na vida dos participantes. “Se vocês não contarem, eu falo”.

Todo mundo ficou em silêncio. Então, ele contou que a esposa estava terminando o tratamento contra um câncer de mama. A doença foi descoberta no fim do período de amamentação da segunda filha e ele “resolveu encarar isso na companhia de Deus”. Todo mundo ficou emocionado, naturalmente, imaginando a barra que aquela família enfrentou.

Eis que um cara no fundo da sala levanta a mão, ergue o tom de voz e agradece o voluntário por ter dividido a história com todos nós. Mal deu tempo do voluntário falar alguma coisa e o sujeito continuou. “Não tenho nenhuma dúvida da presença de Deus na minha vida, que é infinita, mas fico me questionando o que estamos fazendo aqui”. Depois do climão, houve uma breve discussão sobre a obrigatoriedade daquele curso ser presencial.

Não consegui deixar de pensar nesse momento do curso. E ele é interessantíssimo pelo viés da comunicação, porque me lembra das inúmeras vezes que estive em sala de aula ou em uma palestra e havia um abismo cognitivo entre o palco e o público.

E o voluntário agiu certo. Uma experiência pessoal é uma boa forma de criar empatia com o público. Porém, ela deve servir para aquecer a discussão e não finalizá-la. Ao contar um caso super pessoal, ele conseguiu criar empatia com a gente, mas não conseguiu criar um momento de troca de ideias. Ninguém iria contar uma experiência que fosse similar àquela, apenas se solidarizar com o sujeito. Um desemprego, um problema menor de saúde, um dilema pessoal não se comparam com aquilo. Era melhor ele começar com estes exemplos “menores”, para estimular e discussão. Se necessário, poderia contar esse caso.

Mas, e a obrigação de estarmos lá? De vez em quando, temos o questionamento certo mas na hora errada. Eu tenho uma preguiça imensa de momentos sem sentido e fico puto quando percebo que meu tempo poderia estar sendo melhor aproveitado. O cara que fez o questionamento tinha os mesmos sentimentos. “Sou professor e não faço chamada em sala de aula. Quem está lá, está verdadeiramente interessado”. Depois disse que era voluntário da Cruz Vermelha e que poderia estar mais próximo de Deus fazendo outra coisa naquele momento. “Estou me sentindo coagido”.

Eu entendo, mesmo. Não me senti “coagido”, porque é uma palavra forte e não era o caso. Mas já cansei de estar em aulas, palestras, reuniões e afins que não tinham o menor sentido, onde acho que meu tempo poderia ser melhor aproveitado. Era o caso do curso? Era. Aposto que metade da sala faria esse curso online, se tivesse essa opção. Eu seria um desses. Mas existe uma questão de propósito. Se o batizado é na igreja católica, você precisa fazer esse curso de padrinhos. É a regra. Estamos ali para cumprir uma formalidade por causa do local do batismo. Ser padrinho ou madrinha vai muito além das obrigações religiosas.

Talvez essa seria uma boa resposta para a “coação”. Ao invés de falar que aquele era o momento para reunir todo mundo e falar sobre Deus, o voluntário poderia dizer que era o momento para conversar sobre este propósito e desafio comum, que é exercer os papéis de padrinho e madrinha no geral. Achar algo além da religião para criar empatia com quem está lá.

Para mim, a lição que ficou desse episódio é que os desafios de engajamento são os mesmos, seja uma sala de aula, um curso de batismo ou um ambiente de treinamento online. Criar empatia, espaços para a troca de ideias e conectar os propósitos não são tarefas fáceis e devem estar sempre nos nossos radares.

4/52

Os sites mais improváveis para você aprender alguma coisa

Irma and Paul Milstein Division of United States History, Local History and Genealogy, The New York Public Library. (1887 - 1964). Washington Square Retrieved from http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47e2-c2e9-a3d9-e040-e00a18064a99

Uma das coisas maravilhosas da internet, além das listas do Spotify, das fotos de lontra e a imensa quantidade de brigas sem sentido que você pode entrar, é a facilidade para aprender coisas novas. E muito além das plataformas estabelecidas, como o Lynda ou o Coursera, tenho percebido que fóruns, o Youtube e sites como o Quora e o Reddit são excelentes espaços para aprender e descobrir mais coisas.

Não acho que há uma rivalidade aí, entre os MOOCs e esses sites, uma vez que os propósitos de aprendizado são diferentes. Digamos que eu queira aprender a utilizar o Adobe Premiere. Faz mais sentido eu buscar uma aula no Lynda, que irá trazer um conteúdo completo sobre o Premiere. Agora, se é para resolver uma dúvida pontual, que apareceu na hora, não penso duas vezes, vou buscar ajuda em outros sites.

Agora, quer ver como funciona essa busca “on-demand”? Outro dia, fui fazer uma gravação em um cliente e enquanto montava e ligava os equipamentos, percebi que um dos microfones que peguei com um amigo não estava sincronizado com o receptor. Tive aquele leve momento de pânico, afinal meu amigo não atendia e achar o manual no site estava fora de cogitação. Recorri ao YouTube para aprender a fazer essa sincronização. Dezenas de vídeos ofereciam a solução, desde um oficial da marca até aqueles feitos pelas pessoas normais, feito eu e você. Precisei de alguns minutos para resolver meu problema.

O YouTube é ótimo não só para resolver os pepinos que aparecem na hora, mas também para outros aprendizados. Um bom exemplo é o Kurgesagt, canal alemão com animações sobre assuntos “complexos”. Esse vídeo sobre a Teoria do Falso Vácuo, por exemplo, foi a melhor aula que eu já tive sobre o assunto.

Os fóruns também são excelentes porque tratam de assuntos de nicho. Você está conversando com pessoas feito você, que passaram pelos mesmos problemas e acharam as soluções. Pode ser para um problema no seu DVD, pode ser para você descobrir qual é o melhor bluetooth para o rádio do seu carro.

O Quora é perigoso e viciante feito a Wikipedia, Kerbal Space Program, Coca-Cola gelada e sorvete. Uma vez lá dentro é difícil sair. Pra quem não conhece, o site é um Yahoo! Respostas altamente qualificado. Num nível absurdo, tipo o Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, respondendo sobre o ensino de xadrez para crianças. É incrível ver a quantidade de conhecimento que rola por lá, especialmente em tópicos específicos, como Aviação. Um dos pontos legais é que os próprios usuários fazem a moderação do conteúdo, avaliando a qualidade das respostas. (Aliás, recomendo essa discussão sobre o sentido da vida).

FInalmente, o Reddit, o site onde os próprios usuários também votam a qualidade dos comentários e é repositório para todo tipo de assunto que você imagina. Um dos pontos altos pra mim são os AMA, ou Ask Me Anything, onde pessoas abrem espaço para que os outros usuários perguntem qualquer coisa. Muito legal, né?

Pontos para se observar

Seja qual for a plataforma, eu acho que precisamos ficar atentos a dois pontos. O primeiro é a curadoria. Com essa quantidade infinita de conteúdo, é importante você descobrir os assuntos que te interessam e como gerenciar estes interesses. O Quora, por exemplo, oferece um e-mail com os assuntos que você acompanha.

O segundo é a colaboração. Todas estas plataformas têm conteúdo gerado por gente como a gente. É bacana ter uma postura proativa e colaborar com os assuntos que você conhece e pode ajudar na discussão. Dessa forma, todo mundo saí ganhando e o conhecimento é compartilhado.

E você? Gosta de aprender de qual forma?

3/52

A Filosofia e nossos empregos automatizados

A gente fala muito sobre as habilidades que as crianças e jovens precisarão ter para ingressar no mercado de trabalho no futuro. Com a automatização das funções e com os empregos que serão tomados por robôs e afins, muito da discussão sobre formação gira em torno do reforço em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A esperança é que essas disciplinas deem a formação para arrumar um emprego no futuro.

Nessa situação onde a qualificação técnica vai deixar de ser uma vantagem competitiva, o conhecimento de disciplinas transversais será necessário para responder às perguntas que não estão no Google: Quais são as ramificações éticas da automação? Quais são as consequências políticas do desemprego em massa? Como a gente deve distribuir a riqueza em uma sociedade cada vez mais digital.

Segundo esta matéria do The Guardian, a resposta está na filosofia. “Com a automação dos empregos e o conhecimento sendo desvalorizado, os humanos precisam redescobrir o pensamento flexível” e só a filosofia pode ajudar nisso.

O centro da história é Michael D. Higgins, presidente da Irlanda. Em 2013, no pós-crise financeira, Higgins lançou um debate nacional sobre o que a Irlanda valorizava como sociedade. O resultado foi a inclusão da Filosofia no currículo escolar, como matéria optativa para estudantes de 12 a 16 anos.

“A Filosofia na sala de aula oferece um caminho para uma sociedade humanista e vibrante democraticamente”- Michael D. Higgins

Ajudando o povo de humanas a fazer miçanga

É um questionamento interessante, porque oferece um contraponto ao dogma de que só as matérias da área de exatas são necessárias para a formação das pessoas e da força de trabalho. A visão que a área de humanas traz para a mesa pode nos ajudar a compreender outras nuances do mundo e, porque não, transformam-se num diferencial de formação. A gente podia falar de outras disciplinas que não somente a filosofia, mas esse é o exemplo do texto e vamos ficar nele.

No entanto, existem algumas barreiras que precisam ser derrubadas. A primeira é a visão de que a filosofia é algo difícil de ser ensinado e isso depende tanto dos educadores, que precisam ver sentido na disciplina, quanto de alguns filósofos, que ainda acham que o objeto de estudo ainda está restrito às suas salas.

Outro ponto é que a filosofia requer tudo o que não estamos vendo atualmente: que estejamos abertos ao diálogo, a ponderar diferentes pontos de vistas e nossos próprios dogmas na construção de algo comum. Esses dois pontos conversam quando vemos crenças do tipo: “A inteligência de uma sociedade é medida pela quantidade de prêmios Nobel”, algo que o Alexandre Garcia disse em 2011, por exemplo. Não, não é assim. É preciso que a sociedade entenda que as disciplinas de humanas são tão importantes quanto às de exatas ou biológicas e essa troca e transversalidade de conhecimentos é que fazem a “régua da inteligência” de uma sociedade.

No entanto, como o próprio texto do The Guardian fala, pensar e o desejo de entender as coisas não vem de maneira natural. É preciso estimular esses questionamentos e pensamentos de maneira estruturada para se ter sucesso. Na época dos 140 caracteres, das “não-verdades” e das afirmativas rasas, esse seja um dos desafios: entender que é preciso um tempo para articular pensamentos e ponderar pontos de vistas distintos. O outro é formar educadores e espaços que estimulem essa prática.

Talvez isso não vai trazer os empregos de volta ou criar novos postos de trabalho, mas pode criar uma casca e um pensamento crítico contra julgamentos sem sentido além de nos ajudar a questionar o que damos por garantido. E só temos a ganhar com isso.

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Sobre o fetiche da inteligência

Há algum tempo, a newsletter do Quartz veio com esse link do The Atlantic. A chamada, em uma tradução literal, seria algo como: Meritocracias são lugares horríveis para ser menos do que inteligente. A inteligência não deve ditar o valor de um indivíduo.

Antes de ler a matéria, fui na onda do título, “A guerra contra as pessoas estúpidas”, e já achei incrível, tipo “sim, estamos lutando contra as pessoas estúpidas, elas estão por aí o tempo todo nos atrapalhando”. Mas é exatamente o contrário. É sobre como o mercado de trabalho e a economia estão sendo cruéis com as pessoas “não-inteligentes”. Como o próprio texto afirma, “cada vez mais, a sociedade americana confunde inteligência com valor humano”. Basicamente, o texto aborda a forma como a sociedade americana (e vou estender a discussão para a nossa) é fetichista em relação à inteligência e conquistas acadêmicas. Há um desejo por pessoas com QI alto, altas notas no SAT (o “ENEM dos Estados Unidos”) e, por consequência, “espertas” para absolutamente qualquer função, até mesmo aquelas que não ficaram mais complicadas ao longo dos anos. O texto é longo, de certa forma complexo e traz alguns questionamentos interessantes.

Primeiro, dados os diferentes tipos de inteligência, seja espacial, cinestésica, interpessoal e afins, como você consegue formar pessoas no tipo desejado pelo mercado de trabalho? Depois, como acomodar todo mundo em um cenário onde a automação e os apps estão acabando com os empregos. Saiba que seu emprego está em risco se você dirige veículos para transportar cargas ou é o meio para outras pessoas fazerem compras, reservarem mesas. Só nos Estados Unidos, 15 milhões de vagas irão sumir.

Investimento em treinamento e desenvolvimento das pessoas dentro das empresas seria um caminho, assim como o apoio à educação profissional, que garante qualificação e opção de carreira. (Já falei extensivamente sobre isso nesses posts: Tem talento, mas tem muito trabalho também, 1822 e a educação profissional e Sobre a WorldSkills).

Porém, uma das maneiras mais eficientes de resolver esse problema seria garantir acesso e oportunidade de desenvolvimento para todos, desde a infância. Esta é uma causa nobre, cheia de boas intenções e que, em tese, resolveria parte da dissonância. Mas, antes de entrar na parte acadêmica, passa por dois pontos fundamentais: redução da pobreza e desigualdade social e programas estruturados de educação na primeira infância.

A educação na primeira infância, se feita do jeito certo – e para as crianças pobres quase nunca é – pode, em grande parte, superar quaisquer déficits emocionais e cognitivos que a pobreza e outras circunstâncias impõem nos primeiros anos de vida.

Infelizmente, se estes dois desafios são complicadíssimos de se resolver nos Estados Unidos, o que dizer no Brasil? O teto dos gastos públicos, que congelam investimentos na educação e na saúde por 20 anos e os cortes em programas sociais significarão duas coisas: o aumento da desigualdade social e a piora da educação pública. E aí, um adendo. No domingo assisti ao documentário “O Começo da Vida”, que eu recomendo fortemente, inclusive. Interessante para discutir o papel dos pais e mães nas inúmeras tarefas que envolvem a criação de um bebê. E discute-se a autonomia da criança, o seu acesso à educação, diferentes pontos de vista sobre o seu desenvolvimento. Em determinado momento, percebe-se como a desigualdade social e a pobreza são cruéis com as crianças. Como você garante a educação “do jeito certo” na primeira infância em uma família que não tem acesso a saneamento básico? Ou, como no caso do documentário, como resolver o déficit de uma menina de 10, 12 anos e que cuida dos dois irmãos menores? Crianças em famílias pobres não tem tempo de brincar, não tem tempo de criar um mundo à sua volta. Se elas precisam ser altamente estimuladas entre zero e três anos de idade, é seguro dizer que as crianças pobres já largam com ampla desvantagem em relação às outras.

E enquanto não resolvermos esses problemas estruturais, continuaremos fazendo o de sempre. Na ilusão de que a meritocracia e as oportunidades iguais existem, pescamos as exceções dentro do mar do ensino público e/ou da população pobre e tratamos como o todo. Basta você se esforçar e superar suas dificuldades que tudo se resolve. Não é assim. Enquanto uma criança pobre se destaca, milhares perdem a sua chance, talvez simplesmente porque a chance nunca chegou de fato para elas. Quando cada dólar investido na educação na primeira infância traz sete dólares de retorno para toda a sociedade, talvez a briga contra as pessoas estúpidas tenha que ser, na verdade, a guerra contra a falta de oportunidades e contra a falta de condições básicas. Em médio prazo, essa guerra vai fazer as pessoas menos estúpidas, vai ajudar as universidades na formação correta dos seus alunos e vai ajudar o mercado de trabalho a achar as pessoas “inteligentes” que tanto querem.

1/52.

flw vlw 2016

Demorei um tempo vendo o que foi o meu 2016 antes de começar a escrever e fazer essa reflexão. Tem gente que não gosta dessas reflexões, acha uma bobagem. Eu discordo, já disse mil vezes. Fins de ano são ritos de passagem pra mim e acho muito importante a gente ver o que acertamos, erramos e passamos. Acaba servindo de aprendizado, né?

E 2016 foi um ano bom?

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Depende. Não fiquei doente, me cerquei de pessoas ótimas, conheci gente nova, me reaproximei de amigos e amigas que andavam afastados, pude ir ao SXSW e me descobrir lá, trabalhei direitinho e dentro do que consegui. Ouvi muita música e descobri muitos artistas novos. Eu e o Caio fizemos QUARENTA E SETE edições do Ainda Sem Nome. Acho que melhorei um pouquinho mais como fotógrafo. Então pessoalmente – ou no lado produtivo da coisa – foi um ano bom.

Mas 2016 foi um ano merda por causa do golpe, da cassação da Dilma, desse discurso maquiado da “não-política”, pela quantidade de gente bacana que morreu, pela descrença das pessoas em relação ao mundo hoje. E fiquei impressionado como cada notícia ruim, cada pequena contrariedade foi me minando. Não sei se é a idade, mas antigamente eu achava que essas coisas não me afetariam (tanto). Hoje afetam. E nesse ano em especial, bagunçaram muito a cabeça, que ficou se questionando se a gente tem controle das coisas de fato, se a vida pode ser mais simples, qual é o sentido de tudo. Não é fácil.

Não é fácil, mas a gente tem que se virar de alguma forma. Simplesmente dar as costas e não ligar pra isso não adianta. Não vou parar de prestar atenção nas coisas que me rodeiam, mas eu posso tomar conta dos sentimentos e de como esses fatores todos me afetam. E aí, pra um 2017 sem tantos sustos, a solução talvez seja…

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… ter menos medo e mais amor. Ou transformar o medo em amor. Vamos tentar fazer esse ser nosso mantra. Não tenho o controle de tudo, mas pelo menos isso eu posso tentar controlar.

A gente se vê ali em 2017.

Fiz esse post escutando essa música em loop.

“Walk that line, torn apart
Spend your whole life trying
Ride that train, free your heart
It’s midnight up in Harlem”

Sobre cozinha e criatividade

Vou começar assim: Eu queria ser amigo do Questlove. O cara é foda. Baterista do Roots, produtor, DJ, amigo de todas as pessoas legais (inclusive o Prince), o “cara do pente no cabelo” tem jeitão de ser uma pessoa interessantíssima. Tornou-se ainda mais quando acabei descobrindo também sua paixão pela comida, através da conta @questlovesfood no Instagram. Tipo, alguém podia dar meu telefone pra ele.

(Nota mental: Como eu adoro esses processos de descoberta! Começa com um post, vai pra um vídeo, uma entrevista e por aí vai. Quando as pessoas são interessantes, essa é uma das coisas mais legais que a gente pode ter na vida.)

Ai certo dia, assisti à essa entrevista no Jimmy Fallon. Quase uma meta-entrevista, já que o The Roots* é a banda do programa. Nela, Questlove fala do “Something to Food About“, o livro que escreveu sobre processo criativo na cozinha. A parte sobre o livro começa aos 2:49.

Eu precisava correr atrás desse livro, porque juntava uma série de referências e assuntos que eu gosto. Acabei comprando no Kindle. Bom porque fica fácil de ler. Ruim porque vou perder as fotos, que parecem maravilhosas. Me interessei pela premissa do Questlove: “Quando converso com músicos, não me interessa a música e sim como ela foi feita. Então eu queria absorver a mesma coisa com chefs”.

“Something to Food About” foi uma das boas leituras do ano. Foram entrevistados dez chefs dos Estados Unidos. Alguns eu conhecia, tipo o Nathan Myhrvold e Ludo Lefebvre. E, embora o foco seja processo criativo na cozinha, é impossível dissociá-lo da vida, do histórico, carreira, visões de mundo e referências de cada chef. Mais do que isso, o microcosmos da gastronomia pode ser usado para diversos exemplos e analogias.

Por exemplo, na questão da aprendizagem. Nathan Myhrvold fala que “uma das mágicas da cozinha é ver que as pessoas descobrem as coisas empiricamente, e grande parte dessas coisas está correta“. Daniel Humm defende que as primeiras memórias que temos são aprendizado “sem a gente perceber que é aprendizado”. E isso não acontece só na cozinha, se a gente prestar bem atenção.

E o Questlove é um bom entrevistador, porque, além da relação esperada entre música e comida, ele consegue abordar questões sociais e culturais com muita tranquilidade. Por exemplo, a relação entre as camadas mais pobres da população e o acesso à alimentação de qualidade e/ou à alta gastronomia. Aliás, este é um ponto interessante. Todos os chefs entrevistados sabem que eles cozinham e falam para uma parcela mínima da população e querem furar esta bolha. Os meios são vários e passam por uma ligação maior com a comunidade onde o restaurante está, o incentivo à produção local e, de certa forma, sobre inclusão e oportunidades.

A verdade é que se eu não tenho um bom relacionamento com o pescador ou o fazendeiro, então eu não sou nada. Eu não sou um mágico. – Ludo Lefebvre

Donald Link quer atacar a pobreza urbana e suas consequências para a cultura do alimento, “Com dez dólares eu faço comida para quatro pessoas, mas a moça ao meu lado no caixa do supermercado gastou com rosquinhas e refrigerante”. Daniel Patterson criou o Loco’l, um fast food com comida de verdade e de qualidade pra todo mundo. Em um mundo cada vez mais exclusivo, dá um alento ver pessoas deste gabarito pensando em todos.

Ryan Roadhouse - Something to Food About

Ryan Roadhouse – Something to Food About

Finalmente, as discussões sobre o processo criativo são deliciosas. As dores e os dilemas também são bem similares às de quem trabalha com criatividade em outros campos. Lidar com as limitações, buscar a simplicidade, pesquisar referências em outras áreas, descobrir quais são as regras fundamentais antes de quebrá-las. A gente vê isso todos os dias em nossos trabalhos e com os chefs não é diferente.

Lefebvre, por exemplo, fez um programa de TV onde cozinhava em qualquer lugar. E não raro, tinha a sua disposição um fogão de quatro bocas e um forno. Ao invés de 12 cozinheiros, somente dois. Quando ele voltava para sua cozinha totalmente equipada, mantinha a eficiência e a simplicidade.

Existe o “perfeito”, existe a “falha” e não há nada no meio. Esta é uma responsabilidade do trabalho criativo. – Daniel Patterson

Sobre as referências em outras áreas, Daniel Humm comentou que seu restaurante recebeu uma crítica positiva de um jornal, mas com uma ressalva: “gostaria que o lugar tivesse um pouco de Miles Davis“. Ele e sua equipe fizeram uma pesquisa sobre a vida do músico e listaram 11 palavras que eram comumente utilizadas para descrevê-lo. Saíram palavras tipo “colaborativo”, “cool“, “reinvenção sem fim”, “de vanguarda”. Para Humm, cada um dos termos era um conceito e cada conceito é uma ideia. Elas foram responsáveis pela guinada no restaurante.

Enfim, “Something to Food About” é um livro delicioso se você gosta de música, criatividade, comida e boas histórias. Sejam juntas ou separadas. Recomendo para dar uma arejada na cabeça e ter novas ideias para o seu processo criativo. 🙂

Ah, esse post foi parcialmente escrito ao som de “Undun”. Pesado, mas providencial.

* Em uma tradução literal seria “o o Roots”. Nunca sei como escrever quando há um artigo em português e um em inglês.

A Indústria da Multa incomoda muito mais do que a Indústria da Morte

Em 2009, quando ainda morava em Belo Horizonte, eu resolvi criar um site chamado Não Sei Estacionar, onde a pessoa podia mandar uma foto dos carros parados em local proibido e/ou imprimir uma multinha para colocar nesses veículos. Por N motivos, nunca consegui fazer andar pra frente como gostaria, mas não é esse o objetivo do post.

O objetivo é dizer que desde aquela época eu ouvia sobre a “Indústria da Multa” estimulada pela BHTrans, a CET de Belo Horizonte. O orgão determinava que cada um dos seus agentes precisava cumprir uma cota de 18 multas por dia. “Nooooossa! 18 multas é multa pra caramba”, eu pensava. Até que eu percebi que estava enganado. Era só andar uns três quarteirões e ver uma meia dúzia de infrações. Ou seja, chegar nas 18 multas não exigia muito esforço e procura. A gente não gosta de seguir as regras e isso é um fato.

Pois bem, a “Indústria da Multa” é um termo que voltou agora nas eleições municipais em São Paulo. Uma hipocrisia alimentada pela candidata Marta Suplicy e pelos candidatos João Dória e Celso Russomanno, tentando arrebanhar eleitores contrários às medidas de redução de velocidade nas vias implementadas pelo prefeito Fernando Haddad. (Inclusive com dados descontextualizados).

A redução da velocidade nas vias urbanas é uma política recomendada pela ONU, já adotada com sucesso em Nova York e Londres. Aqui em São Paulo, as mortes no trânsito caíram em 21% desde a implantação das novas velocidades. São vidas sendo salvas, famílias que sofrerão menos, menos atendimentos nos hospitais, menos pessoas afastadas do seu trabalho. Em troca, precisamos andar um pouco mais devagar, o que significa, inclusive redução de congestionamentos. Eu acho justo.

O que é injusto é transferir a culpa do nosso egoísmo e falta de civilidade para o poder público. Dizer que a redução da velocidade fere o Direito de Ir e Vir, falar os velhos argumentos da “Indústria da Multa”, quando é óbvio que cometemos infrações a torto e a direito, e até ter a audácia de afirmar que “o certo seria educar antes de punir”. Essa afirmativa é quase um paradoxo com aquela outra que gostamos de soltar aos quatro ventos: “O brasileiro só aprende quando doí no bolso”. Quer dizer, a gente só aprende pagando, mas quando falamos de infrações de trânsito, não é educação, mas punição e arrecadação desmedida. Que pensamento confuso.

Não podemos achar normal o trânsito ceifar 43 mil vidas por ano. A solução pra isso passar por várias frentes: melhores vias, mais fiscalização, formação de motoristas, menos carros nas ruas, diversificação dos modais de transporte (aliás, ciclovias melhoram o deslocamento dos carros) e redução de velocidade nas vias. Não aceitar isso é ser egoísta e não pensar na cidade como o espaço comum que dividimos. E o candidato que defende os limites antigos está sendo irresponsável com São Paulo, seus eleitores e cidadãos. Uma boa pergunta para eles é qual seria o número aceitável de mortes por acidentes de trânsito na cidade. Pra mim é zero.

Quando as referências vêm dos lugares mais improváveis

O baterista Benny Greb e o chef de cozinha Daniel Humm.

(Ou: “Como a criatividade permeia as diferentes nossas diferentes atividades”)
(Ou: “Como escrever 857 palavras a partir de um vídeo de bateria”)


(Editado com as valiosas sugestões do Caio, Ceió e Marcos. Obrigado!)

Vocês também têm a impressão de que, eventualmente, as melhores referências vem dos lugares mais improváveis? Tipo, uma referência de arte que pode ser aplicada na nossa vida profissional, ou um artigo sobre música que seria perfeito para o esporte. Esses cruzamentos acontecem direto comigo. De vez em quando eu preciso forçar um pouco, mas é uma atividade que me diverte bastante e ajuda a manter a criatividade em ordem.

Pois bem, outro dia eu cruzei com este vídeo do Benny Greb, um dos bateristas mais criativos que conheço e dono de um groove sensacional. É uma masterclass promovida pelo Drumeo, um canal sobre bateria no YouTube.

Em determinado momento do vídeo, quando perguntado sobre o aspecto mental de tocar bateria, Greb levanta um ponto interessante em sua resposta. Ele fala que há um senso comum entre os bateristas que para ter mais repertório ou fazer viradas mais interessantes você precisa ouvir música e estudar feito um condenado. É claro que são coisas necessárias e importantes, mas, segundo o baterista, é igualmente importante também treinar nossas mentes, fundamentando o argumento ao explicar o que acontece em todos os seus workshops. Ele chama alguém da plateia e pede para a pessoa tocar um groove. 99,9% das vezes, em qualquer lugar do mundo, o groove e as viradas seguem a mesma estrutura.

Veja aí abaixo, a explicação começa aos 50:07. A gente continua a conversa depois do vídeo.

Pois bem, Benny Greb falando deve ter sido mais legal do que eu explicando. E se você viu todo o trecho, certamente prestou atenção no resto do argumento. Como ele disse, é claro que escutar música e estudar são coisas importantes, mas, trocar as afirmações por perguntas é igualmente importante.

“Toda virada deve usar ton-tons e terminar no prato(?)” ou “Toda virada deve ter mais notas do que o groove(?)”

Quando você transforma uma afirmação numa pergunta, sua percepção sobre aquele assunto muda, sem ter necessariamente aprendido adicionado algo novo ao seu repertório. É uma abordagem quase experimental, de não dar nada como garantido e ser curioso sempre. Deve ser o que cientistas fazem, eu imagino, e eu já estava dando o assunto por encerrado.

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Something to Food About – Ahmir Questlove Thompson

Mas aí eu pensei no outro lado, na importância do repertório e do estudo. Ou seja, a quantidade de horas dedicadas ao aperfeiçoamento de uma habilidade, seja de maneira formal ou não. E o quanto elas são importantes para você começar a trocar os pontos finais por interrogações. Na hora lembrei de um livro que estou lendo e adorando, o Something to Food About, do Questlove, também baterista, além de DJ e produtor. O livro é uma coletânea de entrevistas com chefs dos Estados Unidos sobre cozinha e processo criativo. É tão legal que vai merecer um post próprio. De qualquer maneira, um dos chefs, Daniel Humm, faz um comentário interessantíssimo.

“Acho que para qualquer grande artista em qualquer coisa – seja arquitetura, arte, música ou comida – você tem que entender as regras fundamentais antes de quebrá-las”

Ou seja, antes de questionar, você precisa saber o que questionar e isso faz toda a diferença. Meio conflitante, né? Mas acaba fazendo sentido e eu acho que esse é o resumo dessa história toda. O balanço entre o que chamamos de bagagem, repertório, formação e essa capacidade de maquinar as coisas. Principalmente para fugir 1) das limitações impostas pelas afirmações e 2) do perigo da procrastinação.

No primeiro caso, e só para ficar com os meus dramas profissionais, é não conseguir desenvolver coisas relevantes por conta de afirmações tipo:

“Seu conteúdo só será interessante se você tiver uma boa câmera(?)”

“Todo e-learning deve ter uma avaliação no final(?)”

O Instagram está aí para provar que o equipamento é só um meio para a história ser contada. E no caso do e-learning, a Khan Academy não tem uma avaliação no final de cada curso, apenas o propósito da peça sendo cumprido por ela própria.

O segundo caso é um conflito que muita gente tem todos os dias. Consiste em pensar “só posso começar a fazer X quando tiver Y”, onde Y é algo totalmente desnecessário. Por exemplo, eu achava que um podcast só seria possível com um microfone decente e uma super produção. Nas primeiras 40 edições do Ainda Sem Nome eu usei todo o tipo possivel de microfones baratos, até finalmente ter um Blue Yeti. Além disso, eu e o Caio utilizamos aquele período para aprender sobre como fazer podcasts e construir uma audiência que nos acompanhou até o hiato de produção. Passado um ano desde a volta, até hoje lutamos para recuperá-la. 😉

Agora, se eventualmente Y for realmente necessário, acho válido tentar chegar o mais perto possível de X. Pelo menos você vai aprender alguma nova habilidade, o que é sempre bom.

Chega, né? Esse foi só um exemplo de como duas referências, uma da música, outra da gastronomia, podem ser extrapoladas e utilizadas no nosso dia-a-dia. Ok, as duas versam sobre criatividade, mas vem de universos bem diferentes.

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