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Cabeça

Morris Day e Prince
Morris Day e Prince

Quem controla o processo criativo?

Antes de começarmos, quero que vocês apreciem a melhor música feita pelo Prince. Não estou falando de “Purple Rain”, ou “Kiss”, nem “When Doves Cry”. Estou falando de “777-9311”. Ela é a prova de que o processo criativo é lindo e também te prega algumas peças.

 

No começo dos anos 1980, Prince aproveitou uma cláusula em seu contrato com a Warner Records, que o permitia recrutar e produzir artistas para a gravadora, para criar dois grupos: The Time, um grupo de funk, soul e R&B e o Vanity 6, um trio vocal feminino. Foi uma saída encontrada para dar vazão à sua produção criativa, dando espaço para outros gêneros e experimentos.

(Na década de 1990, a propriedade criativa foi tema central da longa batalha judicial entre Prince e a própria Warner Records. Ele queria gravar mais discos do que o seu contrato permitia e também queria ser dono das gravações originais. Foi daí que surgiu a história onde ele muda de nome, sendo chamado de “O Artista”, “o artista que foi conhecido por Prince”, um símbolo etc. Mas isso é outra história)

Nas duas bandas, Prince fazia tudo: composição, arranjos, letras. Além disso, gravava todos os instrumentos. As bandas não tinham nenhuma liberdade, só eram obrigadas a executar no palco o que já estava pronto.

Um dos frutos dessa produção foi “777-9311”. A primeira vez que ouvi falar dela foi nesse vídeo da baterista Pocket Queen, onde ela fala de cinco músicas que mudaram seu estilo de tocar. Não sabia quem era The Time ou o Morris Day, o líder da banda. Nem imaginava que era fruto da cabeça do Prince.

Linn LM-1

É uma música grandiosa, extravagante e diferente do trabalho do Prince até então. Começa com um groove de bateria altamente complicado, feito em uma drum machine Linn LM-1 (foto ao lado). A história é que a programação da bateria foi feita por David Garibaldi, baterista do Tower of Power, mas deu algum problema e deixaram do jeito que ficou. Bateristas ao redor do mundo sofrem para tocar. A música também tem uma linha de baixo absolutamente incrível, camadas de instrumentos e um grande solo de guitarra.

Talvez seja uma das melhores músicas compostas e executadas por Prince, mas que está no catálogo de outra banda. Ainda assim, serviu de experimentação para seu próximo álbum e que foi sua obra prima, “Purple Rain”.

Mas há o outro lado. O desconforto dos músicos do The Time era fato conhecido. Sem liberdade criativa, e obrigados a tocar exatamente o que havia sido composto e gravado, a única saída era fazer o melhor show possível. E eles fizeram isso sendo o ato de abertura dos shows do Prince em 1981. “O único poder que tínhamos eram os 45 minutos em cima do palco, porque era uma ditadura onde o Prince controlava tudo“, disse certa vez o guitarrista Jesse Johnson.

A tensão chegou em um ponto sem retorno. Prince chegou a afirmar que o The Time era a única banda que ele tinha medo, em um clássico caso da criatura ganhando do criador. Na turnê de “1999”, o disco anterior ao “Purple Rain”, o The Time foi retirado dos shows. A história seguiu em formato de “Y”. Enquanto a banda eventualmente perdeu potência, Prince virou o artista que conhecemos.

Gosto dessa história porque fiquei apaixonado pela música e tenho lido bastante sobre a vida do Prince. Não posso falar absolutamente nada sobre o processo criativo de uma das pessoas mais criativas do mundo, mas com o olhar de hoje, certamente havia espaço para os dois lados no mercado. No entanto, não acho produtivo sentar-se em cima de uma ideia, sem dar margem para ela andar por si só, criar ramificações e gerar coisas novas. E o grande pulo do processo criativo é a capacidade de sempre ir atrás da “próxima coisa nova”, a capacidade de gerar inovação.

Paradoxalmente, isso foi o que Prince fez durante a sua vida toda.

 

O ano em que aprendi a criar sentido para as coisas

Todo final de ano é a mesma coisa. Venho aqui nesse espaço e escrevo várias linhas sobre meu ano. As coisas boas, as ruins, os desafios, o que quero daqui pro ano seguinte. Para 2020, confesso que estava meio sem vontade de escrever. Cheguei nesse final de ano esgotado, mal consegui escrever as mensagens de boas festas para as pessoas, quiçá terminar esse aqui.

Mas depois pensei que seria importante para a posteridade. Esse blog atingiu a maioridade, tem muita coisa escrita aqui e esse ano não poderia ficar de fora.

Papai, Tutu e eu, no começo do ano.

E enfim, 2020 talvez tenha me provado que o niilismo otimista é uma verdade, ponto. Uma pessoa lerá esse texto e ficará bem puta com isso. Mas é o que é. Em um mundo sem sentido, precisamos achar e criar os nossos sentidos. No meu caso, foi ter a certeza de que consegui andar pra frente, quando tudo parecia ser muito difícil.

Ter essa noção é reconfortante de certa forma, especialmente pra quem sempre gostou de se autossabotar ou de achar que era um “forasteiro” em determinados grupos sociais. Ter a certeza de que andei pra frente em 2020 é ainda mais especial. O ano mais difícil de todos e um ano bem diferente do que eu havia imaginado.

(Acabei de perceber que escrevi a mesma coisa no texto do ano passado. Só que esse “diferente do que havíamos imaginado” foi diferente do que eu havia imaginado no fim de 2019. Ou as coisas mudam rápido ou sou péssimo em fazer previsões de ano novo.)

Grande parte do ano foi de angústia, ansiedade e aflição. Primeiro pela pandemia. E como se não bastasse isso, também existem os perrengues diversos ao nosso redor, sejam os nossos ou os de gente querida. Tem sido complicado entender os dias com a falta de liderança, os mais de 190 mil mortos e vendo gente conhecida – e esclarecida, espero – aglomerando, fazendo festa, ignorando o uso de máscaras. Mas como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

E vejam como é fácil ser seduzido pelas coisas que nos fazem mal. No meu caso, abrir as redes sociais e os portais, doido para consumir a última merda dita pelo presidente ou ver fotos de festinhas e aglomerações de conhecidos.

Mais fácil ainda é pegar todo esse contexto e assumir que a “falta de sentido” significa “desistir das esperanças” ou “largar tudo de lado”. Não, não é. De novo, esse ano foi a oportunidade de dar sentido para as minhas coisas e fazer o que era possível: andar pra frente. Foi difícil, desafiador, estressante, mas estou feliz comigo mesmo.

Profissionalmente, foi um ano recheado de desconfortos, bons e ruins. Fiz duas curadorias lindas para o SESI junto com a d. Pilar e a Cida Lacerda, fiz uma consultoria para um projeto super legal de uma escola de governo, manobramos a 42formas para um caminho mais estratégico, lançamos e pilotamos um produto, o Núcleo de Aprendizagem Ágil, eu e o Diego desenvolvemos um conteúdo incrível sobre mundo complexo e jazz. Fui mestre de cerimônias e moderador de conversas, aprendi bastante.

Quando olho pra trás, dá um orgulho danado. Pude conhecer gente super inteligente, pessoas que colocaram a barra lá em cima e que me assustaram no começo, mas não fugi da responsabilidade. É muita coisa em pouco tempo e é difícil ver o progresso no meio do turbilhão, mas está aí, registrado.

Esse ano não teve muita música. Por motivos óbvios, paramos os ensaios em março, mas continuamos conversando e nos apoiando pelo zoom. Trocamos as aulas de jazz e Beatles por bate-papos ricos sobre gravações. Até arriscamos gravar algumas canções. Mesmo não tocando muito, por conta de uma das curadorias, consegui trazer o baixista Victor Wooten pra falar em um dos seminários e dois dias depois, tive a honra de tocar com ele.

Também treinei pouco crossfit. Ganhei um pouco de peso, perdi força, mas tudo bem. Isso a gente corre atrás na hora que as coisas assentarem.

O que me trouxe sanidade foram os amigos, a família e ocupar a cabeça. Antes da pandemia, teve uma bela viagem em família para Miami no começo do ano. Depois, fiquei meses na minha comuna – o lote com as casas da minha mãe, do meu tio e de um primo – entre Itabirito e Nova Lima. Dei sentido para as coisas lendo, estudando, ficando horas e horas na marcenaria ou fotografando a lua e o céu. No meio tempo, as conversas com amigos, num esforço constante de todas as partes para saber quem estava bem, quem precisava de ajuda. 

E dentro das coisas mais improváveis e menos ortodoxas para uma pandemia, consegui redescobrir o amor. Com a Carol, 2020 começou dividindo o mesmo voo de Belo Horizonte para São Paulo, passou por um aniversário, um bar logo antes do pseudo-lockdown e do desespero começar. Viemos os dois para Minas. Nesse meio tempo, foram dezenas de horas de conversa, centenas de mensagens trocadas e, em maio, sou surpreendido com uma declaração. Deu certo. Desde então, tenho aprendido, crescido e amadurecido a cada dia. Uma sorte danada e uma história linda que merece ser contada com mais calma.

Talvez a Carol não goste de ler sobre o “niilismo otimista”, já tivemos boas conversas sobre esse tema e há uma discordância sobre “achar sentido nas coisas”, mas não tem jeito, foi a minha melhor definição do ano. Conscientemente ou não, foi a forma que achei para cumprir a promessa feita no ano passado: “soar mais como eu mesmo”.

Não estou nem perto de chegar no final desse processo, mas de novo, acho que consegui caminhar ainda mais na direção que acredito.

Feliz ano novo, pessoal!

As tábuas e onde eu aprendo na internet

Outro dia, o Conrado Schlochauer compilou a lista das 10 ferramentas que ele mais usa para aprender. Fez parte da pesquisa anual da Jane Hart sobre as ferramentas mais utilizadas para isso. A seleção do conrado é super interessante e eu compartilho várias das ferramentas, especialmente o Google, Twitter, Kindle e Whatsapp.

(E antes do tema desse post, um pequeno caso sobre o Whatsapp. Estou na reta final de uma consultoria e ontem, uma pergunta do outro consultor sobre um fluxo virou uma discussão riquíssima sobre processos, metodologia e abordagem entre nós dois e o cliente. A gente aprende MUITO ali, sem dúvidas.)

Voltando ao caso, se não estou enganado, essas são as minhas tábuas 10 até 15. Elas foram feitas com diversas madeiras que outrora foram móveis e pisos da casa do meu tio: peroba, ipê, algumas chapas de pinus que comprei.


Junto com a orientação do meu tio, colocar a mão na massa, a tentativa e o erro e as experiências anteriores, usei outras três tecnologias que uso para aprender: instagram, youtube e reddit.

(Há três anos, falei que os dois últimos eram locais “improváveis” para aprender algo. Admito que foi um título caça-cliques. A gente aprende horrores ali).

No caso dessas tábuas, o instagram foi fundamental para a parte criativa do processo. Quando educamos o algoritmo, o resultado é ótimo. Comecei a seguir perfis de marceneiros e pessoas que fazem tábuas e além dessas referências, chequei alguns vídeos sobre “como fazer”. Dentro do meu processo de aprendizado, tenho percebido como estou mais tolerante ao IGTV, mesmo com seus problemas de navegação e na telinha pequena do telefone.

Por isso, pra outras referências sobre construção e informações mais detalhadas, acabo recorrendo ao youtube. Além de checar meus makers favoritos, Jimmy diResta, Bob Clagett, Chris Salomone, busquei vídeos para resolver algumas dúvidas sobre a primeira camada de óleo mineral, o quanto devo lixar e qual lixa usar, e como fazer detalhes e acabamento usando uma tupia.

No Reddit, dentro de uma thread dedicada às tábuas de carne, achei a receita para fazer a mistura de cera de abelha e óleo mineral que usei para finalizar o trabalho. Aliás, essa pasta pode ser utilizada em qualquer utensílio de madeira que você usa na cozinha. Basta derreter uma parte da cera para três de óleo e esperar esfriar. Fiz isso em banho-maria. 🙂

Falando das tábuas, é certo que existem centenas de oportunidades para melhoria e o próximo lote sairá melhor do que esse. E sobre as ferramentas, é muito interessante entender e aprender as coisas com pessoas interessadas feito nós. Algumas das referências eram profissionais, gente que vive de fazer tábua pra viver. Porém muitas delas vieram de gente feito eu, alguém curioso, não necessariamente especialista no tema, mas que busca os caminhos do processo de aprendizagem.

 

MBFreakNo41 - Flickr | CC-BY-2.0
MBFreakNo41 - Flickr | CC-BY-2.0

O tal processo de reinvenção

Ahh, Carter Beauford, que homem maravilhoso. O baterista da Dave Matthews Band é uma das maiores influências que esse escriba tem na vida. E outro dia, o Diego – sempre ele – me mandou essa entrevista dele pro Harry Miree.

A piada é óbvia. Esse vídeo maravilhoso só tem dois problemas: só tem 14 minutos e eu não estou nele. Tirando isso, é o tipo de entrevista que eu adoro, sem focar nas coisas específicas: rudimentos, pratos, pele ou técnica. Era um espaço pra falar sobre como manter um olhar fresco sobre o que fazemos todos os dias. Carter conta que ele mantém a mesma paixão pelo instrumento e pela música, mas que sempre tenta trazer um olhar novo pro que faz seja “emulando os seus ídolos” ou “tentando acompanhar o que os novos caras estão fazendo”.

(Ele usa a expressão “cats” pra falar das outras pessoas e eu absolutamente adoro. É super utilizada no mundo do jazz, mas você precisa ser um pra poder usar. Eu não sou)

Isso é muito interessante. Primeiro, não dar nada como garantido. O Carter simplesmente poderia tocar a mesma coisa todas as noites, mas não, sempre ele aparece com algo novo. E se você já ouviu a Dave Matthews Band, sabe que eles tem dezenas de discos ao vivo, então existe material para comparação. Algumas partes e músicas não mudam, mas outras sempre têm uma coisinha diferente.

E mostrando vários exemplos da mesma passagem de “What Would You Say?” ao longo dos anos, Carter fala que embora esteja focado no resto da banda e em entregar a música, seus heróis estão sempre com ele.
Tento pensar o que Billy Cobham, Tony Williams ou Jack deJohnette fariam nesse pedaço da música…

Nesse momento eu pensei que essa afirmação ia contra o que está no meu post sobre o Neil Peart. Lá, contei sobre quando Peart resolveu voltar a estudar com um professor, porque sempre parecia outra pessoa quando tocava jazz. Porém aí veio a conclusão do pensamento do Carter:

“…mas também tento soar feito o Carter Beauford. Todas as coisas que eu escutei, faço com que elas pertençam a mim, de modo que eu tenha alguma coisa pra conversar com aqueles que me ensinaram e fazer a música ser interessante”

É simples e brilhante. Pensa na quantidade de coisas que você já aprendeu e como elas estão na sua caixa de ferramentas. Mais do que isso, pense sobre como você aprendeu e como isso deixou de ser “de alguém” para se transformar em algo seu. Finalmente, como você usa essa caixa de ferramentas para fazer o seu trabalho ou mudar o mundo que te rodeia, em qualquer escala. Porque é isso que conta e é disso que o Carter fala: servir a música, o propósito.

Kobe Bryant disse que roubou todos os movimentos dos grandes jogadores como uma forma de deixá-los orgulhosos e em nome do jogo, algo que era muito maior do que ele. Neil Peart se reinventou e o Carter Beauford se reinventa todas as noites, porque não sobre ele, é sobre a música.

Tem horas que questionar as coisas e achar um novo caminho pro que a gente faz todo dia é desgastante e cansativo, mas a motivação vem quando vemos nossas inspirações se movimentando nesse mesmo processo.

Pra fechar, eu entendo a felicidade do Harry Miree durante a entrevista. Eu passei pela mesma coisa em 2008, antes do show da banda no Rio de Janeiro. O Plauto Covre trabalhava na produção, conseguiu me colocar no finalzinho da passagem de som e no jantar da banda. Pedi uma foto pro Carter, disse que ele era uma inspiração e entreguei uma camisa do Cruzeiro de presente. Meu coração parou por um momento. Não imaginava tamanha gentileza e atenção. Que homem!

Eu e o Carter, antes do show da Dave Matthews Band no Vivo Rio, em outubro de 2008.

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air
Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

Sobre demônios e ar fresco

Com mais carinho, terminei a leitura do Keep Going, o último livro do Austin Kleon. Nessa entrevista durante o SXSW 2019, Austin explica porque ele resolveu escrever o livro. Basicamente, foi a forma que ele encontrou para manter-se produtivo e criativo durante os tempos difíceis.

Os capítulos do livro fizeram muito sentido pra mim e recomendo bastante a leitura. Eu gosto do jeito que o Austin escreve, cheio de referências e curadoria. O conteúdo faz sentido para todo mundo que tem um ofício, do ramo “criativo” ou não. No entanto, o capítulo que ressoou de maneira especial é a foto que ilustra esse post.

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

 

Os demônios odeiam ar fresco. E é irônico eu escrever sobre isso, especialmente porque eu fiz essa foto acima. Claramente, ar fresco é o que mais tenho nesse período de auto-isolamento. Vim para o condomínio perto de Belo Horizonte onde minha mãe, um tio e um primo tem casa dentro do mesmo lote. Um condomínio dentro do condomínio, com gente, espaço e ar livre. Ainda assim, os demônios costumam dar a sua graça.

Os demônios que o Austin faz referência no texto são tanto aqueles que moram dentro da nossa cabeça, nossos medos, expectativas e ansiedades, quanto os que estão do lado de fora, “as pessoas que querem nos controlar através do medo e da desinformação – as empresas, os marketeiros, os políticos – nos querem conectados em nossos telefones e assistindo TV, porque querem nos vender a sua visão de mundo”. Tem horas que é difícil manter distância, afinal:

– É difícil conviver com o demônio.
– Ele se esforça muito para ser legal.
– Eu te fiz um chá.
– Eu não pedi chá.

Nesses quase 50 dias de auto-isolamento, já vi um pouco de todos eles. O tempo elástico e a falta de interferências no dia a dia faz com que a gente revisite os pensamentos que ficam meio enterrados. Comigo, além das pequenas crises de ansiedade, vieram a falácia da super produtividade, de achar que preciso aprender dezenas de novas coisas, até aquele medo de “como será o mundo e a minha vida depois da pandemia”. Tiveram flashes de questionar escolhas e decisões na vida. Aposto que aconteceu com você também.

Junto, vem a “necessidade” da notícia ruim, de ficar lendo mil horas sobre o coronavírus, o caos na saúde, a falta de perspectiva e como é ruim ter um negacionista como chefe do executivo nacional. Um somatório de coisas que nos faz concluir que o mundo é cruel e não merece ser salvo e de como é sedutor querer ficar pra baixo.

O que tem me salvado é exatamente o ar fresco real e metafórico. Todos nós estamos no mesmo barco, esses sentimentos não vão durar pra sempre. Vivemos na eterna impermanência e tudo bem ser assim. Não estou me cobrando mais um excesso de produtividade, de tentar emular o mundo que a gente tinha antes. Se fico tempo demais olhando pra tela do computador, esperando que a inspiração (ou a transpiração) venha por osmose, eu paro. Dou uma volta ao redor da casa, sento no meu banquinho da reflexão ou faço outra coisa qualquer, em uma espécie de procrastinação produtiva.

(Em outro capítulo, o Austin Kleon diz que a produtividade tem temporadas, mas isso é outro assunto)

Mesmo metaforicamente, tento arejar as ideias. Mando uma mensagem pra alguém, vejo o que as pessoas que eu gosto estão fazendo. Não podemos sair na rua ainda, sentar em um bar ainda, fazer crossfit ainda. Mas podemos dar uma voltinha na rua, buscar referências em outros lugares, trocar ideias.

Os demônios odeiam ar fresco. E não estou dizendo que eles irão morrer de um dia pro outro com a nossa exposição ao ar fresco. Mas entender que eles existem e que também existe uma forma de controlá-los e, de alguma maneira, usá-los ao nosso favor.

Ainda existe muita arte para ser feita nesse mundo.

Photo by Monica Sauro on Unsplash
Photo by Monica Sauro on Unsplash

Playlist(s) do mês

Esse ano, resolvi copiar uma ideia do Bruno Milagres: fazer uma playlist por mês. Aliás, eita pessoa foda para ter boas ideias. Em algum dia do fim do ano passado durante uma cerveja, ele me disse que estava fazendo essas playlists como uma espécie de registro daquele mês.

Comecei a fazer isso também. Sem muitas regras, sem um número mínimo de músicas, sem tema. São as músicas que fizeram sentido para mim no mês. No meu caso, até agora tem a ver com repetição ou lembrança de algum momento. A de abril é essa aqui embaixo:

Se interessar, segue os links para as playlists de janeiro, fevereiro e março. Ah, e tem a minha top 100 da vida também, vinda de um desafio do Rodrigo Borges.

O que aprendi tocando com um ganhador do Grammy

O título pode parecer meio clickbait, mas é verdade. No domingo, eu toquei por uns bons dez minutos com o baixista Victor Wooten, ganhador de cinco Grammys. Foi assustador, foi libertador e foi uma aula, não de música, mas de interação humana.

Essa história começou quando convidamos o Victor Wooten para fechar o Seminário Internacional SESI de Educação. No meio das tratativas, comecei a falar com o Ricardo Sdei, um amigo dele aqui em São Paulo e que estava dando apoio para a agente no processo todo.

Criamos um pequeno vínculo por causa da música e do esporte. E na sexta, durante o evento, o Ricardo me convida pra um encontro com o Victor no seu sítio.

“Aparece lá e leva seus pratos”.

Pois bem. Apareci no domingo em uma das experiências musicais e de aprendizagem mais legais que vivi. Quase um mini-acampamento de baixistas sob a tutela do Victor Wooten. Dúzias de baixistas, alguns guitarristas e bateristas, entre profissionais e não-profissionais para um dia de troca de experiências. No começo, uma sessão de perguntas e respostas, depois uma longuíssima jam.

Dia lindo, lugar ótimo e todo mundo com aquela vergonha de fazer perguntas. Ninguém quer parecer bobo frente ao Victor Wooten. E isso nos rendeu uma leve cutucada. “Fiz uma turnê com o Stanley Clarke e o Marcus Miller e eu os enchi de perguntas. Precisamos fazer o mesmo aqui”.

Porém, a medida que a coisa foi fluindo, fica fácil perceber que ele faz parte daquele grupo de pessoas que não parece ser desse mundo. Falou sobre ética de trabalho, sobre a curiosidade, a vontade de continuar aprendendo, como fazer a diferença no mundo, independente da escala que isso acontece.

Falou bastante também sobre aprendizagem e erro. Ele reforça muito o conceito de música como uma língua e que deveríamos aprender música como aprendemos a nossa primeira língua: sem um conjunto estrito de regras, com estímulo aos erros, com pessoas iniciantes já falando com pessoas fluentes. Sobre o erro, foram duas analogias maravilhosas.

“As pessoas vão ao seu show porque gostam de você. Quem não gosta, não está lá. Então não precisa ter medo de experimentar e errar”.

“Quando você vai ao circo, você quer que o equilibrista atravesse a corda bamba em segurança, mas não sem dificuldades. Essas dificuldades nos conectam”.

Victor também falou das dificuldades e das barreiras que ele enfrentou na carreira, principalmente sendo uma pessoa não-branca nos Estados Unidos dos anos 70 e 80. “Pense que todos os seus ídolos, em qualquer área, tiveram barreiras e precisaram usá-las pra avançar”. Quando embasadas, as histórias de superação são realmente importantes.

Foi um bate-papo super inspirador e que deu o tom pra hora da jam. Victor comandou um dos baixos, enquanto os baixistas se revezavam no outro. Maurício Leite na bateria e Mello Jr na maior parte do tempo na guitarra. Todos, sem exceção, completamente hipnotizados com a oportunidade de tocar com ele. Entrava baixista, saía baixista e os comentários de choque eram os mesmos.

– Estou tremendo!

– Não estou acreditando que toquei com ele.

Mas havia um sentimento maior no processo, bem explicado pelo Nile Rodgers nesse vídeo. O que os grandes artistas fazem quando vêem um mundo perturbado em sua volta? Eles fazem com que você se sinta melhor. Era isso que o Victor Wooten fazia. Não era um sentimento de intimidação. Ali, éramos todos iguais conversando música.

E permitam compartilhar agora a minha experiência. Na sexta-feira, o Ricardo contou pro Victor que eu era baterista. “É, mas eu sou um baterista ruim”, respondi. Victor dá uma risada e coloca os dedos no ouvido. Ele não tem tempo pra essas besteiras. Depois, quando nos despedimos, disse que meu groove era bom. Imediatamente pensei que havia ido longe demais, mas tudo bem. Pago análise pra isso.

Corta pro domingo, levo meus pratos, empresto pro Maurício Leite, que está segurando o groove como ninguém. Eu tô hipnotizado com tudo que está acontecendo e resignado de que eu não ia tocar. Entendam, ninguém tinha negado a minha participação, eu que estava colocando essa barreira. Eu estava bloqueando tudo que ouvi na sexta e no dia sobre errar, se expor e tudo mais. Eu não ia tocar. Mas aí…

Aí o Victor Wooten olha pra mim, e aponta com os olhos pra bateria. Eu faço aquele “não” tímido com a cabeça, tento sinalizar que sou canhoto e a bateria está montada pra destros. O Maurício insiste: “a gente inverte pra você”, o Victor insiste. Era a última música. Fui. Na bateria montada para destros, depois de sei lá quantos anos.

“Só espero não derrubar nada”. O resultado tá ai:

Depois que eu sentei pra tocar, tudo aconteceu de maneira muito instintiva. Fiz o que sei fazer de melhor no instrumento, conversei com o vocabulário que tenho. Do meu lado, no mesmo lugar que já estiveram o Nicolas, o Diego, o Rafa e hoje estão o Luciano e o Murillo, está o Victor Wooten, o cara que eu cresci ouvindo e que me inspira todos os dias. Junto com a gente, o Mello Jr. e o Ricardo Sdei. Um vive de música, o outro tem uma relação parecida comigo com ela. Dezenas de pessoas fodas no ofício da música estão assistindo e essa foi uma das poucas vezes na vida que não senti nada parecido com medo, “provação” ou julgamento. Eu só curti.

É óbvio que há um senso de responsabilidade em não atrapalhar a música, em dividir aquele momento com um dos meus ídolos. Mas nada daquilo foi pressão. Foi uma celebração.

E que bom que pude aproveitar isso. Mesmo se eu errasse uma, duas ou 122 notas, pior seria voltar pra casa com a frustração de querer ter tocado, mas ter me bloqueado naquilo. Pode parecer bobo, mas terminei o dia como uma pessoa melhor e com um sentimento de respeito ainda maior pela música.

São os encontros que a vida proporciona.

 

 

Photo by Hao Shaw on Unsplash
Photo by Hao Shaw on Unsplash

A complexidade nossa de cada dia

Eu ando dando sorte com conversas casuais que se transformam em textos nesse espaço. No meio de dezembro, resolvi fazer uma pesquisa informal no meu instagram e perguntei duas coisas:

  • Você confiaria em uma máquina para tomar grandes decisões por você? Sim ou Não.
  • Se você pudesse escolher a nova chefia, ela deveria ser um robô ou uma pessoa.

Foi um jeito torto de tentar descobrir a opinião das pessoas sobre inteligência artificial, machine learning e futuro do trabalho. Mais ou menos um outro ponto de vista sobre a pesquisa da Oracle sobre futuro do trabalho que escrevi algumas linhas sobre em outubro de 2019.

As respostas foram interessantes. 81% da turma que respondeu não confia na máquina para tomar as grandes decisões e 84% prefere uma chefia humana e não artificial. Algumas pessoas também mandaram mensagens. E sobre as decisões tomadas por máquinas, o ponto de vista da Carol Reine, designer de UX super experiente e parceira de exercícios terríveis no crossfit, me chamou atenção:

“Dependendo do nível da decisão – confio nela (na máquina) me dando informações pra tomada, não a decisão em si.”

Disso, começamos a conversar sobre complexidade e a quantidade de informações que precisamos dar conta atualmente.

“As pessoas acreditam que a vida é um modelo ideal e tudo que não tá ali é erro. Quanto mais globalizado e cheio de opções a gente fica, mais difícil fica a convivência. A minha questão é: o quanto de complexidade as pessoas conseguem carregar?

Essa é uma boa pergunta. Acho que estamos aprendendo a medir e carregar toda essa complexidade. Pra mim, o maior aprendizado tem sido estar aberto às novas ideias. Porque, se tem algo que me impressiona atualmente, é a quantidade de vezes que confrontamos o que damos como garantido. Afinal, “a vida é um modelo ideal e tudo que não tá ali é erro”. (Segundo a Carol, essa é a premissa combatida pela Lisa Feldman Barrett no “How Emotions Are Made”)

Como diz a Sonja Blignaut nesse artigo, estar aberto é uma forma de navegar nessa complexidade. Já que tudo mudou e nada é como assumimos, devemos cultivar a curiosidade, entender e buscar a diversidade, saber que existem mais ambiguidades e paradoxos. Isso nos ajuda a processar as informações e a tomar decisões melhores para as coisas que realmente importam.

A Carol disse que quer estudar machine learning pra desenvolver um algoritmo que a ajudasse na escolha da roupa do dia, por exemplo. Uma decisão pequena a menos e mais tempo para as decisões grandes. E com uma vantagem: uma máquina programada por você, com o seu viés. Bem mais seguro do que todas as outras decisões que as máquinas tomam pra gente todos os dias. 🙂

Transportei a pergunta da complexidade pra Natália, minha irmã. Eventualmente temos conversas sobre o tema e achei que seria legal ouvir o que ela tem a dizer. A abordagem é parecida. Pra ela, a gente precisa realmente aceitar a complexidade e não simplificá-la. No entanto, o que a gente precisa é simplificar as coisas possíveis para termos tempo para o que o complexo.

“Acho também que quebrar o problema em problemas menores para ações do dia a dia; mas entender que nem tudo se resolve. A complexidade é real”, me disse a Natália. E exatamente por ser real, a gente precisa observar a forma como reagimos à ela, “entender o que nos cansa por falta de conhecimento ou de habilidade”.

Porque com esse excesso todo, a gente precisa ter certeza de que não vamos dar conta de tudo. Mas precisamos acabar com o medo e a ansiedade de perder alguma coisa. Isso é real. Queremos saber todas as notícias, ter opinião formada sobre tudo, conseguir processar e decidir sobre qualquer intervenção na vida. Mas não dá. É preciso descomplicar e isso é um tremendo aprendizado. Pode ser com máquinas, pode ser com uma vida mais simples, pode ser com os dois.

E finalmente, entender que estamos vivendo uma época cheia de mudanças e ao mesmo tempo que é assustador e complexo, também é fascinante. Se adaptar ao mundo “VUCA” – volátil, incerto, complexo e ambíguo – é sinal de que estamos também nos transformando e entendendo o nosso papel dentro desse novo cenário.

Todo dia, de pouco em pouco.

Neil Peart em Setembro de 1979. (Foto: Fin Costello/Redferns)
Neil Peart em Setembro de 1979. (Foto: Fin Costello/Redferns)

Neil Peart sabia o que era aprender pra vida toda

A sexta-feira terminou com a notícia da morte do Neil Peart, baterista do Rush, aos 67 anos. Pegou muita gente de surpresa, porque ninguém (ou poucas pessoas) sabia(m) que ele lutava contra um glioblastoma, um agressivo câncer no cérebro.

Peart foi ídolo e mentor de toda uma geração de músicos, em maior e menor escala. Todos nós tentamos tocar “YYZ” em algum momento da vida, mesmo que mal e porcamente. Para o público em geral, Neil Peart era o baterista com o instrumento gigante e o “Tom Sawyer” era a música da abertura de MacGyver. Essa foi a primeira vez que escutei Rush, inclusive.

E na história de vida de Neil Peart, além da força para encarar a morte da primeira filha e da primeira esposa, existe um outro ponto que me chamou atenção: a capacidade de se reinventar também como músico. Ele sabia da importância de aprender durante toda a vida.

Em 1992, Peart foi chamado para acompanhar a Buddy Rich Big Band em um show em homenagem ao lendário baterista de jazz que dava nome ao conjunto. Ele topou, porém se deparou com dois problemas: o pouco tempo de ensaio e a percepção que ele tinha aprendido um arranjo diferente do tocado pelo resto da banda. “Eu cheguei no que seria o primeiro solo de bateria só pra perceber que a banda continuava tocando”, ele escreveu certa vez.

Obviamente, a performance não foi lá essas coisas e mesmo em 1994, em uma gravação em estúdio -são condições mais controladas – Peart achava que estava “imitando” alguém e não tocando propriamente o estilo. Como diz o Duke Ellington, “it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing“, ou na minha tradução livre, “não significa nada, se você não tem a levada”. 😉

O fato é que para isso não acontecer de novo, Neil Peart decidiu estudar. Um dos bateristas mais técnicos e precisos do mundo, aclamado dezenas de vezes como o melhor de todos os tempos, decidiu começar de novo. Criar novas regras, ter outras ferramentas. Primeiro com Fredie Grubner, lendário baterista e professor de jazz, e depois com Peter Erskine, outro mestre do jazz-fusion.

Neil Peart e Peter Erskine

Quando eu estacionei em frente à casa do Peter e entrei com as baquetas na mão, tive que rir de mim mesmo. Eu era aquele estudante de 13 anos novamente (…) e é claro que eu deveria me sentir assim. Não há sentido em ter aulas se não for para se render ao professor.

É um longo relato, incrível e de uma relação completamente honesta entre mestre e aprendiz, os dois sendo super capazes no que fazem. Neil Peart pegou os aprendizados do jazz e transpôs para a sua música. Recriou sua técnica, redefiniu seu senso de tempo, ganhou um estilo de tocar mais fluido. É preciso muita humildade pra desconstruir – ou seria reconstruir? – o que foi construído, mas as recompensas costumam valer o esforço.

 

“O que é um mestre se não um estudante-mestre? Existe uma responsabilidade em nós de continuar melhorando” – Neil Peart.