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Cabeça

A única coisa em que Niki Lauda estava errado

Tem umas duas semanas que Niki Lauda morreu. Quem gosta ou acompanha o automobilismo sabia que o austríaco foi um de seus grandes nomes, pelos feitos e pela história. Três vezes campeão mundial de Fórmula 1, o acidente quase fatal em Nurburgring, a rivalidade com James Hunt, a sua companhia aérea, a abordagem metódica para as coisas, a sua influência no atual domínio da Mercedes na Fórmula 1.

Lauda fez muita coisa certa na vida, é óbvio. Exceto por uma frase, que li nesse post do Flavio Gomes:

"A felicidade é uma inimiga, ela te enfraquece porque, de repente, você percebe que tem algo a perder"

Eu fiquei pensando demais nela, tentando entender onde me incomodou. Uma chuva de sentimentos conflitantes. Por um lado, é esquisito ver um bom sentimento ser rotulado como uma coisa ruim. Ao mesmo tempo, tenho muita dificuldade com a definição de “felicidade”. Acho que é um estado transitório, e que é arriscado quando colocado como um ponto final, uma linha de chegada. Afinal, o que vem depois?

Vou tentar juntar uma série de pensamentos e referências aqui pra tentar explicar. Pode ser que a gente tenha medo da felicidade. Nossa diva Brené Brown fala em “O Poder da Coragem“, seu especial no Netflix: “Ficamos apavorados ao sentir alegria. Ficamos com tanto medo, que se nos permitimos sentir alegria, algo vai vir e nos arrancar esse sentimento e vamos tomar uma porrada de dor, trauma e perda”. Ou esse tweet maravilhoso do Existential Comics dizendo que uma das coisas mais difíceis de explicar para um alien seria a razão de sabotarmos a nossa própria felicidade porque temos medo de falhar e por isso a gente nem pensa em tentar.

Eu entendo isso. É muito mais fácil vestir a capa de vítima, não ser responsável por nossas ações e por suas consequências, mesmo as boas. E vivemos em um mundo que não celebra e nem aceitas falhas. Então é mais fácil não tentar e manter as coisas como estão para não decepcionarmos depois (será que tem a ver com o que falei sobre cavar fundo?).

Ah, mas pode ser uma construção, um caminho e isso tem dois problemas. O primeiro é a jornada em si. Presumimos que ela vai ser cheia de sorrisos, gargalhadas e diversão. E ela passa longe disso. A jornada, qualquer uma que seja, tem muita merda, muito sofrimento e momentos não gostosos.
O segundo é que toda jornada precisa de um final, se não viramos andarilhos sem rumo. E se a felicidade for essa linha de chegada o que vem depois? Viveremos felizes para sempre ou estaremos esperando “a dor, o trauma e a perda”? Se felicidade fosse algo perene, Lauda estaria certo mais uma vez. Porém, o estado de “felicidade” é efêmero. Ninguém consegue viver feliz o tempo todo. E isso dá uma angústia danada.

Lauda poderia estar falando das suas conquistas e do sentimento relacionado. Esportistas em alto nível dizem que mais difícil do que chegar no topo é manter-se lá. Mas a felicidade de conquistar um título é efêmera. No dia seguinte, você precisa acordar e começar tudo de novo, se estiver disposto.

Ter consciência dessa finitude é o que me faz gostar dessa tirinha do Oatmeal. Ele diz que não é feliz e isso não significa que ele seja infeliz. Ele é outras várias coisas: interessado, ocupado, fascinado, mas não feliz. E tudo bem. Talvez a gente devesse buscar outra coisa ao invés da felicidade.

Quem sabe paz? É mais perene, envolver trabalhar o que nos perturba e resolver as coisas que nos incomodam. Meditação pode ajudar, o estoicismo pode ajudar, a mão na massa ajuda. Não significa que seja fácil, afinal a jornada continua sendo aterrorizante e cheia de desafios, independente da linha de chegada.

A minha finada (?) carteira de músico.
A minha finada (?) carteira de músico.

A minha carteira de músico

(Pela milésima vez, estou tentando zerar os rascunhos do blog. Tenham paciência comigo)

Toda vez que preciso pegar meu passaporte sempre acabo passando por um outro pedaço de papel dentro da pastinha de plástico azul com o nome “Documentos”: minha carteira de músico.

Eu tenho três sentimentos sempre que vejo essa carteira: graça, saudosismo e surpresa. Graça ao ver a foto mais sem sentido do mundo, saudosismo porque foi uma época curiosa da minha vida e surpresa por ainda não entender como esse documento te valida como músico. A graça vai fazer sentido no final do post. Vou começar com o saudosismo.

Saudosismo

Entre 2004 e 2008, eu toquei em uma banda de pop chamada Balboa. Foram anos que me deram muita experiência no ofício: seja tocar para zero pessoas numa tarde de domingo ou para três mil na abertura do Festival de Cinema de Tiradentes. Também gravamos um disco, um EP e algumas demos, nos divertimos, passamos raiva, enfim. A minha história com o Balboa também dá um post próprio. O ponto é que tocamos em todo tipo de boteco que vocês podem imaginar em Belo Horizonte e nunca nem ouvíamos falar da obrigatoriedade da carteira de músico.

O Balboa no primeiro show do Hard Rock Cafe, em Belo Horizonte. Julho de 2006.

Porém, em julho de 2006, conseguimos um show importante no finado Hard Rock Cafe. Lá não tinha conversa, a carteira de músico era obrigatória. Eu havia acabado de chegar do meu mochilão na Europa e, se não me engano, durante o tempo que estive fora, o resto da banda já tinha conseguido suas carteiras. No dia que precisei fazer a minha, saí de casa em cima da hora, passei correndo em uma loja de fotografia para fazer a foto 3×4 e atravessei a cidade em desabalada carreira para fazer a prova prática.

Chego na Ordem dos Músicos mais tenso do que quando fui defender a minha monografia. Pra mim, aquela prova era tão importante quanto, sei lá, negociar os termos da Convenção de Genebra. Eu não tinha a menor ideia do que iria acontecer na prova. Não sabia se eu ia precisar ler alguma coisa, se eles pediriam rudimentos ou ritmos que eu não saberia tocar. Me chamam, eu entro. O diálogo foi mais ou menos assim:

– Tudo bem? – perguntou a moça.

Eu tremendo feito vara verde.
– Tudo.

– O que você toca?

– Ah, eu tenho uma banda de pop – eu respondi ainda tremendo. – Toco Jota Quest, Sandra de Sá, Tim Maia…

– Então toca pra gente aí.

Juro, com “Olhos Coloridos” na cabeça, eu devo ter tocado dois compassos do groove mais básico do mundo. No meio, a moça me interrompeu dizendo: “Beleza, tá aprovado!”.

Eu fiquei com uma cara de “é sério? É só isso?”.

Era. Eu havia me tornado um músico profissional, validado por uma prova mequetrefe. Sabem quantas vezes eu precisei desse documento? Uma única vez. Estava embarcando no Aeroporto da Pampulha e esqueci minha carteira de motorista. Por sorte, a carteira da ordem dos músicos estava na mochila. Nunca precisei apresentar em um show, nunca me pediram pra nada.

Surpresa

A partir daqui, entenda isso como uma reflexão. Hoje eu não sei qual é a obrigatoriedade da carteira de músico e nem se ela é necessária para as pessoas se apresentarem. A prova da Ordem dos Músicos nunca serviu como um atestado de proficiência musical ou uma maneira de proteger a sociedade do mau exercício da profissão. Ela era uma forma de fazer reserva de mercado.

Pensem comigo, não sei dizer quais são ou seriam os requisitos técnicos e/ou sociais para ser um músico profissional, mas sei que não cumpria nem metade deles em 2006. E ainda assim, são necessidades diferentes para pessoas diferentes. Se a pessoa vive da música, ela é profissional. Se ela vai ser boa no ofício ou não, aí é outra conversa. Estamos falando de uma arte e profissão que tem elementos objetivos e subjetivos e que permite infinitas maneiras de aprender e se desenvolver.

Tocar meia dúzia de compassos de “Olhos Coloridos” não atestou nada além de conseguir tocar “Olhos Coloridos”. 😉

Graça

Finalmente, a graça. Como disse, chego correndo na loja de fotografia. Segurava um paletó, uma camisa e uma gravata, elementos obrigatórios para a foto da carteira. Em 2006, eu não tinha a menor ideia de como dar um nó de gravata. Coloquei a camisa por cima da camiseta, abotoei só dois ou três botões. Um sujeito que estava lá me ajudou com a gravata. Fiz a foto. O resultado foi esse aí:

A minha finada (?) carteira de músico.

O baterista popular com o cabelo mais desgrenhado do Brasil. 🙂

Esse que vos escreve fazendo um squat clean durante o 19.2. Foto de Francine Piovesan.
Esse que vos escreve fazendo um squat clean durante o 19.2. Foto de Francine Piovesan.

Cave fundo (Ou: O que o crossfit me ensinou sobre persistir)

Vou acelerar a história. Há 16 bilhões de anos aconteceu o Big Bang, há 4,5 bilhões de anos a Terra começou a ser formada e em um dia em outubro de 2016, vi que havia uma academia e um pneu de trator naquele lugar na porta de casa que outrora havíamos feito aulas de boxe. “Pneus de trator em academia significam uma coisa”, pensei. Parei o carro, desci a rua, e confirmei o que imaginava. Era um box de crossfit. Resolvemos dar uma chance.

O ponto é que, dois anos e pouco depois, estamos lá firmes e fortes. Sem antes quebrar a cara. Eu era daqueles que fazia pouco caso do Crossfit, zoava o fato dos praticantes tornarem-se pessoas de uma conversa só. Lembro de passar perto de outro box vizinho ao nosso e ver um pessoal correndo segurando as famosas med balls, aquelas bolas de couro com areia e que pesam uns 10 quilos. “Se alguém me mandar fazer isso, vou dizer ‘nem fodendo’ e saio desse lugar”. No dia seguinte, estava correndo e fazendo a mesma coisa.

Eu poderia falar muito sobre as pessoas que dividem o box e os exercícios comigo: têm múltiplos assuntos, são camaradas e se ajudam. E se por um acaso falam de um tema só, é compreensível. Eu não imaginava que iria aprender técnicas de subida de corda ou movimentos de levantamento de peso olímpico depois dos 30. Eu falo de lifelong learning, aprender durante toda a vida, mas não percebo quando estou fazendo. Casa de ferreiro, espeto de pau. As relações humanas e a aprendizagem no Crossfit serão motivos para um outro post.

Vou falar da outra coisa que aprendi no Crossfit Vila Madá: cavar fundo. Persistir em alguma coisa, ir em um lugar que eu nunca tinha ido antes e tentar achar alguma calma lá. Pra isso, vou roubar a definição da Jennifer Gonzalez, que encerrou o SXSW EDU esse ano.

“Quando estamos fazendo alguma coisa que vale a pena, mas que é difícil, quase sempre vamos chegar num ponto onde a gente quer desistir. Chega disso, vamos voltar pra onde estavámos antes, porque isso está difícil demais”. Segundo ela, essa é aquela hora que somos testados e que nos obriga a buscar algo dentro de nós que não sabíamos que estava lá. É quando cavamos fundo. Essa parte começa em 39:20. Continuo depois do vídeo.

(Antes de mais nada, méritos pra Jennifer. Ela conseguiu falar sobre crossfit no fechamento de uma palestra sobre as razões que levam as escolas a prosperarem).

Caraminholas

Mas o ponto importante começa quando ela fala do seu treinador, Steven. A pessoa mais doce do mundo fora dos exercícios e que dá tudo quando está dentro deles. Lá no Vila Madá, vejo isso no Conrado, no Lucas, na Brunna, na Marina, na Letícia, na Carol, no Ítalo, a lista é longa. Possivelmente o Steven ficaria no chinelo quando o assunto é se entregar e ter o controle da situação.

Porque eu, cético e cabeça dura como sempre fui, fazia pouco caso dessas conversas sobre força de vontade, controle mental e etc. Porque muitas vezes isso é vendido como “basta você querer e tudo acontece”, sem considerar as variáveis externas. Não é isso.

No crossfit, muitas vezes o que passa na sua cabeça acaba sendo o maior limitante do quão longe você consegue ir. Percebam, não estou falando em olhar uma barra com 150kg e falar “eu consigo subir isso acima da minha cabeça”. Eu não sou forte o suficiente para isso. Estou falando de olhar um exercício de 20 minutos com cargas aceitáveis e não querer desistir no meio. É saber qual é o ritmo necessário para chegar até o final. Numa boa, isso faz parte de uma jornada de autoconhecimento e precisei entender isso praticando um esporte.

O meu exemplo esportivo recente

Durante o Open, tive dois momentos que me mostraram como estou aprendendo a cavar fundo e achar esses lugares sombrios. Para quem não conhece o esporte, o Open é a primeira fase do Crossfit Games e tem esse nome porque é… aberto para todos os praticantes. É uma forma ótima de você se desafiar e saber como está.

O primeiro momento aconteceu durante o 19.2, um exercício que era dividido em cinco partes. Achei que ficaria no meio da terceira, cheguei no finalzinho da quarta. Cada vez que avançava, entendia que estava chegando em um lugar fundo.

O segundo momento foi no 19.5, o último do Open. Nele, eu repeti o exercício sabendo que era uma má ideia. Ia doer, ia me deixar enjoado, são movimentos que não gosto. Mas exatamente por saber disso tudo, consegui avançar mais do que o meu objetivo.

Pra terminar

Acho que somos programados para querer desistir no meio das coisas difíceis. Acontece comigo regularmente, especialmente com as várias distrações do mundo moderno. Esse texto é um exemplo. Porém, precisamos ficar confortáveis com o cavar fundo para fazer as coisas avançarem.

Conseguir transpor esse conhecimento para fora do crossfit tem me ajudado bastante. Mudanças não são simples. As de comportamento então, são duas vezes mais complexas. Deslizes acontecem. Eu ainda desisto no meio de um exercício e no meio de um texto. Mas faz parte

É preciso persistir até para cavar fundo e visitar nossos lugares sombrios, não é?

 

Pilar, João Paulo, Cleuza e eu durante o nosso painel.
Pilar, João Paulo, Cleuza e eu durante o nosso painel.

Sobre pertencimento, autoconfiança, Austin e SXSW

Esse é um post sobre o que vi e vivi no SXSW esse ano. Na semana que vem, vou publicar algumas coisas no blog da 42formas sobre os aprendizados, tendências e afins.


Esse texto demorou pra sair. Fui e voltei nele diversas vezes, tentando ser justo comigo mesmo nos sentimentos todos que passei nos dias em Austin. Vou para lá desde 2016, é meu quarto ano seguido de SXSW EDU e SXSW Interactive e essa foi a experiência mais rica por larga vantagem.

Todo ano, Austin me dá um presente abstrato. Em 2019, eu ainda não consegui definir se o presente foi “pertencimento” ou “autoconfiança”. Eu estava lá inteiro, de corpo e alma, e acreditando que estava fazendo o melhor trabalho possível. O Marcos não pode ir, eu ia apresentar um painel com a D. Pilar e a Cleuza, iria moderar uma conversa sobre educação e aprendizagem na Casa Brasil. Sem querer (ou sem perceber), joguei a barra das expectativas lá pra cima. Sem perceber, eu consegui atingir essas expectativas. Vamos lá:

Foram nove transmissões ao vivo no youtube, mais uma boa quantidade de postagens nas redes sociais (obrigado, Studio!). Mais do que as métricas de redes sociais, acho que o mais relevante foi conseguir mostrar um pouco do que estava vendo e conseguir pessoas pra ajudar nessa conversa: Miguel Thompson, Cleuza Repulho, d. Pilar, Edu Valladares, Babi Olivier e Nelsinho Santos. Cada um com seu ponto de vista e vivências do SXSW.

Pilar, João Paulo, Cleuza e eu durante o nosso painel.

A nossa sessão foi um sucesso. Cleuza e Pilar, com a ajuda do João Paulo Connolly na tradução consecutiva, conseguiram falar sobre as políticas de educação pública no Brasil. A sala não estava cheia, mas o objetivo era entregar o melhor conteúdo possível para quem estava lá. Foi a nossa contribuição sobre experiência e diversidade para um evento que eu tenho um carinho enorme. O bônus era não passar mal no palco. Consegui as duas coisas. Toda essa experiência merece um post próprio, mas dividir um palco com minha mãe foi uma coisa incrível.

Eu, Marcelo Gluz, Conrado Schlochauer e Vahid Sherafat.

A mediação na Casa Brasil foi uma das coisas mais legais que eu tive a chance de fazer. Eu, Marcelo Gluz, Vahid Sherafat e Conrado Schlochauer conversamos sobre educação, aprendizagem e edtechs (ou learntechs, como o Conrado gosta de falar). Mais do que isso, como discutir esses assuntos pensando no Brasil e nas imensas diferenças sociais e culturais que temos. Teve bom público, que contribuiu com boas perguntas. Cada vez mais tenho a certeza de quero facilitar conversas, mediar discussões e conectar ideias. Fica bem mais fácil quando você divide o momento com gente inteligente.

Depois de quatro anos, eu aprendi a conversar com desconhecidos, juntar gente que não se conhece, saber como a dinâmica dessas relações funcionam lá em Austin. É mais um passo no processo de libertação de umas afirmações doidas que coloco na cabeça: “sou tímido”, “não sei falar em público”, “vou falar bobagem”.

Quanta besteira. Quem me viu dançando “Proud Mary” no palco do Pete’s não ia acreditar nessas coisas, como eu não acreditaria que eu poderia subir nesse palco. Estava dançando com amigos e amigas, a banda possivelmente viu e perguntou quem sabia a coreografia da música. Aparentemente, só eu. E pelas metades. Mas fui lá mostrar e a Juliana Wallauer fez o favor de registrar. 🙂

Falando em amigos e amigas, eis aqui o presente concreto de Austin em 2019: as pessoas incríveis que conheci. Em um cenário onde você fica sozinho e cercado de gente ao mesmo tempo, as pessoas que te cercam são super importantes para te ajudar a entender aquela massa de conteúdo, trazer uma nova perspectiva pro que foi visto no dia ou simplesmente falar bobagem bebendo qualquer coisa no fim do dia.

No entanto, Austin nunca é um passeio no parque. Do mesmo jeito que eu ganho coisas da cidade e do festival, acabo deixando um pouco de mim lá. Varias sessões e situações pareciam ser feitos pros meus dilemas e questionamentos: como o mundo chegou nesse ponto, o isolamento social e a proximidade digital, essa mania de usar a régua dos outros. Fiquei no fio da navalha emocional, encerrei a última live antes da hora porque o choro já passava da garganta.

Talvez seja uma coisa boba falar de choro, mas essa emoção tem a ver com a relação que estabeleci com o festival. Todo ano é assim, intenso, e acho que tudo bem. A in-ten-si-da-de de 2019 pode ter sido maior por conta de tudo que escrevi acima, pelo alívio de ter conseguido entregar o proposto, por ter conhecido e conectado um tanto de gente, tentar absorver tudo o que vi e ouvi.

E, pra terminar, de todas as pessoas queridas que estavam lá, uma em especial me deixou particularmente feliz: o Diego Mancini. Além de ser um dos músicos mais talentosos que conheço, ele é um grande amigo, um dos melhores. Tocamos juntos quando eu ainda morava em BH, e ele foi um dos responsáveis pelo fato da Carol estar na minha vida. Em 2009, juntou coragem e foi estudar na Los Angeles Music Academy, eu me mudei pra São Paulo no ano seguinte e cada um seguiu sua história e seus perrengues.

Diego estava lá para tocar com a Fernanda Takai. Logo antes do show, me deu um abraço super apertado e falou que tava muito orgulhoso de mim, porque viu todo pedacinho da construção que me levou pra lá. Eu não consegui dizer nada, só que estava orgulhoso dele também. Os olhos estavam marejados e o soluço já tava pronto. Por teimosia e ignorância, eu tinha certeza que ficaríamos com os pés enraizados no chão de minério de ferro de Belo Horizonte. Por pertencimento e autoconfiança, olha onde a gente tava se abraçando agora.

Cada jornada é pessoal e eu acho que Austin foi mais um degrau pra onde quero estar, pro que acredito e para a minha realização. Mas essa jornada não seria possível sem muita gente, em especial a Carol, pelo apoio incondicional na vida e o Marcos, por segurar os projetos da 42formas durante a viagem.

Seguimos!

Qual é a sua?

Esse ano eu escrevi muito pouco aqui. Tem uns posts espaçados, tem vários outros pedaços de texto morando na aba “Rascunhos”: sobre a vida, sobre política, sobre trabalho. Um bando de coisas que ficaram pela metade na correria da vida. Em alguns momentos, comecei a escrever só pra não perder a ideia, em outros, me perdia na ideia e achava melhor continuar depois. Mas na maioria das vezes, eu achava que o material estava uma bosta, que as pessoas não iam gostar, que seria exposição gratuita.

É difícil saber o que essa “correria da vida” significa. Pode ser que estamos sendo engolidos pelo cotidiano, pode ser desculpa para não sair de casa. Pode ser a desculpa para algo abstrato. No meu caso, um pouco de tudo. A abstração foi tentar entender “qual é a minha?”

Não raro, minhas sessões de análise em 2018 foram para tentar entender porque me meço pela régua dos outros, porque vejo tudo o que eu faço pelo olhar dos outros e o quanto isso me impediu de andar pra frente.

É a segunda temporada daquela história das conversas difíceis que falei no fim do ano passado. Descobrir “qual é a minha” está sendo uma conversa difícil e que tem trazido alguns avanços.

Passa por correr um pouco de risco, ser mais seguro das escolhas e mostrar mais o meu trabalho, dentro e fora da 42formas. Pra mim, isso vem com uma dose de egoísmo, do tipo “não interessa o que os outros pensem, eu fui lá e fiz”.

E fiz coisas, sem dúvida nenhuma. Em 2018, eu:

Participei pela primeira vez do Crossfit Open. Cinco semanas de exercícios do capiroto. Mais do que me expor em uma “competição” ainda tive que juntar coragem e fazer o 18.3 em Austin. Eu que nunca tinha pisado num box sem ser o Vila Madá, precisei achar um box fora do Brasil. Era mais importante enfrentar esse medo do que não fazer um dos exercícios.

Fiquei em último no ranking masculino do meu box e também na rabeira do quadro mundial, mas não teve a menor importância. Descobri que praticar esse esporte tem sido fundamental para entender como minha cabeça funciona. De quebra, conheci pessoas incríveis e que sempre estão dispostas a ajudar.

Consegui colocar uma palestra no SXSW. Depois de três anos participando, juntei coragem, pessoas boas do meu lado e consegui aprovar a minha proposta de painel. Pra quem morria de medo de se expor, tá aí uma vitória.

Entendi a minha relação com o Instagram. E com quem eu sou, no geral. Foi onde comecei a entender como dou excessiva importância para o olhar do outro sobre mim mesmo. Coloquei as coisas nas caixinhas, entendi que a comparação é a ladra da alegria e que é possível ser menos duro com nós mesmos.

Fui mestre de cerimônias no Roadsec. Resolvi ser o cara de humanas num evento de hacking e segurança da informação. Eu não tenho nem palavras para agradecer a confiança da turma da Flipside no meu trabalho. Foi uma experiência super divertida e completamente fora da zona de conforto e que estou louco para fazer de novo.

A 42formas cresceu e venci alguns medos. Tivemos um terceiro par de mãos na firma, primeiro com o Caco, depois com a Isa. Entregamos alguns projetos super legais, passamos outros perrengues e eu superei o medo de cobrir o Marcos durante sua licença paternidade. Cada um é um e isso não significa que um seja melhor do que o outro. Demorei para sacar isso, estava cheio de medos e achando que o mundo ia acabar durante esse período. Quando vi, já estava acontecendo e não doeu.

A música me trouxe muitos aprendizados além da música em si. Sobre mim, sobre as dinâmicas de grupo, sobre feedbacks.

Eu me redescobri em 2018, tenho aprendido a olhar pra dentro e também tenho a certeza de que eu não ando só. A gente é também a soma das pessoas que estão ao nosso redor e que nos dão a chance de aprender com elas. Esse ano foi uma prova disso também.

Sei que 2019 não vai ser um ano fácil. A conjuntura do país vai pedir muita calma e uma dose de fé, mas não dá pra perder as esperanças e desistir. Eu quero fazer o melhor possível, saber fato qual é a minha. Acho que vou conseguir.

Feliz ano novo!

(Perdão pela falta de links e fotos. Escrever no celular não é fácil!)

A comparação é a ladra da alegria.
A comparação é a ladra da alegria.

A comparação é a ladra da alegria e outras coisas sobre redes sociais

(Lembrei que preciso terminar meu post sobre a crise da meia idade, mas vai ficar pra depois)

Já era tarde da noite ontem quando o Bruno Milagres me marcou nesse vídeo do Casey Neistat comentando a “polêmica” participação do Elon Musk no podcast do Joe Rogan. Polêmica porque no final da entrevista, Rogan e Musk acendem um baseado e, nossa, que absurdo dois homens adultos fumarem maconha na Califórnia, um estado onde isso é legal. Enfim, o ponto do vídeo não é esse.

O ponto do vídeo é o momento onde os dois falam sobre as redes sociais e como o Instagram nos faz mais tristes. Não poderia concordar mais. Afinal, eu mesmo fiquei dois meses fora do instagram, expliquei as razões aqui. Voltei depois de muita análise e uma conversa com o próprio Bruno sobre “fotos de gente feito eu e você”. Aliás, ele resumiu esse post inteiro em uma frase: “Pensa bem, se o Elon não tem autoestima suficiente pra lidar bem com isso no Instagram, imagina eu”.

No vídeo, o Casey destaca duas frases levantadas por Rogan e Musk: “A comparação é a ladra da alegria” e “Felicidade é igual Realidade menos Expectativa”. Eu não consegui ser conciso feito o Bruno e, por isso, quero falar um pouco sobre esses trechos.

A comparação é a ladra da alegria

A comparação é a ladra da alegria

A comparação é a ladra da alegria.

No meu texto, eu havia falado sobre essa primeira frase. Você compara o seu todo com a fração dos outros. No Instagram, parte das pessoas mostra uma fração qualquer do seu dia: pode ser a foto do cachorro, uma ida à praia, uma conquista no trabalho, uma foto de viagem. Parte vai querer mostrar a sua melhor fração e mostrar que a vida é muito mais legal do que realmente é. Cabe a cada um de nós fazer o filtro.

E eu não tenho uma resposta clara pra isso ainda. Como também disse o Bruno, não ficar se comparando é a parte fundamental do processo, mas é quase anti-natural. Assim, nesse tempo fora, eu consegui ajustar a minha base de comparação. E, enfim, esse ajuste talvez tenha muito mais a ver com a análise do que necessariamente com a rede social em si. Não cabe me comparar com fotógrafos profissionais, com viajantes profissionais ou pessoas que levam o crossfit muito mais a sério do que eu, por exemplo. Jogar a barra lá em cima rouba a minha alegria de estar na plataforma e, pior, roubava um pouco também na vida real.

Felicidade é igual Realidade menos Expectativa

Felicidade é igual realidade menos expectativa

Felicidade é igual Realidade menos Expectativa

Essa frase é mais complexa. Estamos falando de qual realidade, da nossa ou da que vemos no feed? Sendo a nossa – porque é difícil identificar a realidade alheia – seria mais fácil colocar as nossas expectativas lá embaixo, de modo que a gente sempre esteja satisfeito. Porém, como diz o Calvin, “de vez em quando não esperamos nada e ainda assim é muita coisa”.

Falando sério, não devemos criar as expectativas do instagram em cima da nossa realidade. Especialmente com as métricas de aceitação, tipo achar que uma foto vai viralizar, trazer milhares de likes e seguidores e você vai mudar sua vida do dia pra noite. Ou pior, que aquela pequena fração de sucesso e realidade resolva os seus problemas do dia a dia.

Isso não vai acontecer.

Aí entra também um mea-culpa do Casey sobre o papel dos influenciadores tanto na comparação quanto na equação da felicidade. Algo do tipo: “foi mal, a gente transforma o nosso cotidiano em um negócio muito mais legal do que de fato é e você sofre com isso. Não era a intenção”. É a intenção, claro. Como falei no outro post, a partir do momento que um “influenciador digital” ou “criador de conteúdo” publica suas fotos e te ensina a fazer uma linguagem parecida, ele quer que você mude a sua base de comparação e suas expectativas em relação à realidade. E na maioria das vezes, você sabe que isso não vai dar certo. Mas continua insistindo.

Finalmente, há também o efeito da caixa de comentários como massagem no ego. Os comentários acabam sendo uma régua bastante cruel. Primeiro, um comentário “vale” mais do que uma curtida e serve para validar aquele estilo de vida. “Aaaa vcs ahazam demais! Mdd”, “Num guento essa família linda”, “Relationship goals”. Esses são exemplos de comentários em um post de um influenciador digital viajando com a namorada. 90% das pessoas que comentam não devem conhecer o casal. Elas só projetam a sua expectativa e realidade naquela foto.

Por isso, o grande lance é saber que o Instagram pode ser um excelente escape, desde que você não leve muito daquilo ali a sério. Valorize as coisas que você aprende, as histórias incríveis que são compartilhadas, a pequena vitória daquela pessoa que você gosta. Porém, não meça a sua vida e a sua realidade com 99,5% do conteúdo produzido por influenciadores, a turma fitness e perfis de viajantes. E mais importante, se você gosta do seu conteúdo e sente-se feliz em compartilhar, vai fundo! É a melhor maneira de achar o equilíbrio na equação e na comparação. 🙂

 

Vídeo inteiro do Casey:

 

Porque dei um tempo do Instagram

Não era segredo pra ninguém que o instagram era a minha rede social preferida. Escrevi sobre a rede algumas vezes aqui no blog, falamos outras tantas no Ainda Sem Nome. Toda edição da newsletter da 42formas terminava com alguma sugestão de conta para seguir na rede social.

Era. Hoje completo pouco mais de uma semana que eu suspendi a minha conta na rede social. Em linhas gerais, há um bom tempo, o Instagram vinha me fazendo mais mal do que bem e superficialmente já seria uma boa razão para dar um tempo. Mas dá para “cavar” um pouco mais. Tem a ver comigo e tem a ver com a rede social em si.

Sobre esse que vos escreve, uma das dores e das delícias da análise é buscar entender quem sou. Estou longe da resposta, naturalmente, e nesse meio tempo me sinto como um cavalo sendo guiado por uma cenourinha que não tem rumo. E essa falta de rumo é guiada pela ansiedade e pela aprovação social. Tenho me sentido cada vez mais o cidadão médio, sem opinião ou conhecimento aprofundado. E fico me cobrando em saber sobre tudo, ser uma pessoa interessante, achar que preciso ter opinião sobre tudo. É assim desde que me entendo por gente e é algo completamente irracional.

Seja nos assuntos do trabalho ou do meu interesse, é óbvio que não vou saber sobre tudo, é óbvio que existem pessoas que sabem mais do que eu. Estou atrás desse objetivo impossível e que acaba me travando. Quando a ansiedade chegava em níveis extremos, a solução era afogar as mágoas em um aplicativo de fotos com rolagem infinita, a oitava maravilha do mundo para a procrastinação e um dos apocalipses para a auto-estima.

Já faz algum tempo que o Instagram deixou de ser uma rede social de fotos para ser uma rede de estilo de vida. O espaço perfeito para “você comparar o seu todo com uma fração dos outros”, como disse o
Cory Richards em sua keynote no SXSW de 2017. Eu ficava horas lá, me comparando, perdido nas sugestões que o algoritmo me dava na aba “Explorar”: fotografia, crossfit, bateria e churrasco. Fotos que eu não vou fazer, performances que eu não vou ter, grooves impossíveis de tocar e eu ainda não tenho uma churrasqueira. Torrando a bateria do telefone, procrastinando as tarefas do dia e deixando de postar as fotos que eu gostava e sim aquelas que eu achava que os outros iriam gostar.

Não sei qual foi o papel do instagram na proliferação dos “influenciadores digitais”. Mas agora todo mundo quer ser, todo mundo quer direcionar seu feed pra ganhar likes, motivar pessoas e ganhar uma grana com isso. Justo, mas não vai ser pra todo mundo.

O fim da picada foi um desses perfis de viagem que eu comecei a seguir por causa de uma promoção. As fotos são bonitas, o cara dá um workshop sobre como deixar o seu feed bonito (para ser um influenciador digital), tudo lindo. Esse perfil publicou um post com “9 dicas para fazer boas fotos de viagem”. Achei legal, imaginei que seria um bom post pra minha mãe, por exemplo, que viaja bastante. Só duas das nove dicas eram úteis: “siga a regra dos terços” (básica da fotografia) e “veja os locais mais famosos do seu destino para não fazer fotos iguais”. O resto eram dicas do tipo “combine as roupas com as locações”. Ou seja, não eram dicas para você fazer boas fotos e se lembrar da sua viagem. Eram dicas para você fazer fotos para bombar no Instagram. Eu não quero jogar esse jogo, então me afastei. Lembrei bastante da edição #132 do Ainda Sem Nome, onde eu e o Caio falamos sobre o mal que as redes sociais causam nas pessoas. Achei que eu nunca seria “vítima” disso, mas cá estou eu. 🙂

Nessa semana sem instagram fui muito mais produtivo, focado e fiz a bateria do telefone durar muito mais. Pode ser que tenha a ver com o quadro de kanban que fiz aqui no escritório e que também foi assunto da edição 132 do podcast, mas foi a vida sem instagram mesmo.

Não estou dizendo que você deva fazer o mesmo ou que vou ficar fora pra sempre. Provavelmente não, mas primeiro preciso ressignificar uma série de coisas na minha vida. Depois eu volto.

Finalmente, se você lê em inglês, recomendo esse post do Eric Kim sobre o assunto.

Atualização 1 (04/09/2018): Voltei. Vamos ver o quanto tempo dura.

SXSW 2018 (e sobre as mudanças)

Eu sempre fico pensando se conseguimos perceber as nossas mudanças ou só nos damos conta quando as pessoas falam conosco. E eu realmente não tenho respostas pra isso. Do meu lado, preciso parar para olhar que mudei. De repente é um “Ó! Não acredito que fiz isso”.

Esse parágrafo pode parecer fora de contexto, especialmente falando do SXSW, mas não se enganem. Tem tudo a ver. Essa terceira vez em Austin me mostrou que eu estou mudando, chegando mais perto daquilo que eu gostaria de ser.

E tem a ver com exposição controlada ou não ter medo de mostrar o quem eu sou e o que eu faço. Em 2018, eu e o Marcos encaramos essa ida como um investimento de fato. Estar em Austin foi um investimento para a marca, foi um investimento e uma oportunidade de crescimento pessoal. Foi um plano ambicioso, pelo menos do ponto de vista de cobertura e conteúdo do evento. E foi um ponto de alerta: não dá para abraçar o mundo com quatro braços. Fomos até o nosso máximo, até a bateria acabar. Fizemos 10 transmissões ao vivo e mais seis vídeos com resumos do dia, além de twitter e instagram stories. Além das anotações e fotos. Além do material que vai ser compilado e que vamos utilizar ao longo do ano. Além dos projetos que deixamos em São Paulo. Vamos publicar muita coisa sobre o que vimos no SXSW, fiquem ligados.

Esse foi o ano mais produtivo para conhecer pessoas. Muitas iniciativas legais, muitas conversas boas, muita gente interessante. E para isso, tivemos que nos desdobrar. E, por várias vezes, eu precisei enfrentar reuniões sozinho. Eu achava que não era capaz de fazer isso. Pois sou e não acho que fiz feio. Fiz reuniões em português e inglês, conheci gente em português e inglês, foi um estouro total. Obviamente, negócios e projetos não são fechados em uma reunião somente, mas foi reconfortante ver como evoluí nesse sentido.

18.3 foi pra conta. Eu e o Jeremy Thiel, head coach do Crossfit Central.

Também encarei a experiência de ir a um box de crossfit no exterior. (Sim, eu faço crossfit!) Tudo para fazer o 18.3, um dos exercícios do Open, que é a classificatória para o Crossfit Games. É óbvio que não vou participar do mundial, mas levar a sério o esporte e perder a vergonha eram os objetivos principais. Agendei minha ida ao Crossfit Central, conheci pessoas incríveis lá e fiz o workout. Fiz mal, mas fiz.

Também resolvi sair da zona de conforto conhecendo outras áreas de Austin. Saí dos limites do centro – O Rio Colorado ao sul e a I-35 à leste. Fomos até à South Congress comer comida mexicana, fomos até a East 7th conhecer um restaurante, ouvir a banda do motorista do Uber que nos pegou no aeroporto e, em outro dia, ouvir música country.

Pessoas dançando ao som de uma banda de música country.

Country no White Horse

Para terminar, eu queria fazer dois agradecimentos públicos, já que essa aventura só foi possível por conta de duas pessoas: Carol e Caco. Cada um na sua frente.

A Carol é a pessoa mais incrível para a logística de casa continuar fluindo. Sacrificou parte do seu tempo para tomar conta de Olívia e Amora, nossa dupla dinâmica de whippets, me deu tranquilidade quando as coisas apertaram. Parceria e amor fazem parte disso tudo e tudo é lindo dessa forma.

Se a gente fizesse uma analogia com a Apollo 11, o Caco seria o nosso Michael Collins. O cara que ficou na base, garantindo que os projetos em São Paulo continuassem correndo da melhor forma possível e que nada ficasse descoberto. Não que eu e o Marcos sejamos Neil Armstrong e Buzz Aldrin, mas conseguiram entender, né?

Austin que nos aguarde em 2019!

"Conversas difíceis salvam relacionamentos" - Andy Leek/You Pretty City
"Conversas difíceis salvam relacionamentos" - Andy Leek/You Pretty City

Tenha conversas difíceis (ou: Retrospectiva 2017)

O post é sobre meu 2017, mas eu queria começar com um contexto.

Eu gosto bastante do trabalho do artista plástico Andy Leek. Ele é autor do “Notes for Strangers”, colando seus cartazes com frases otimistas por Londres. Vale a pena seguir tanto a hashtag quanto o próprio Andy no Instagram. Aposto que vocês vão se identificar com várias rapidamente. Eu me identifiquei com essa:

"Conversas difíceis salvam relacionamentos" - Andy Leek/You Pretty City

“Conversas difíceis salvam relacionamentos” – Andy Leek/You Pretty City

Conversas difíceis salvam relacionamentos. Isso define o meu ano. E assumir as conversas difíceis fez 2017 ser o melhor ano que tive até agora. E eu explico a razão.

Eu sempre tive muita dificuldade em ter conversas difíceis. Vejam, eu acho que não existe uma régua universal para o que é “fácil” e o que é “difícil”. Depende de cada um. Pra mim, “difícil” era qualquer conversa que fosse causar um ligeiro conflito, que fosse contrariar a outra pessoa (e quanto mais próxima, mais complicado) ou que eu precisasse falar “não”. Cada vez que isso acontecia, eu vivia um cerco viking de Paris dentro de mim. Por fora, eu aparentava tranquilidade.

Mas muito disso é ruim. Muito ruim. Não querer contrariar as pessoas acaba tendo um preço alto. Você acaba se distanciando de quem você é e se molda pelos outros. E, mais grave, ao longo do tempo, o ato de não se expressar cria um abismo tão grande entre você e os outros que a única ponte possível vai ser uma conversa difícil. Foi isso que aconteceu comigo.

Saibam, pessoas, que vários anos de silêncio e passividade acumulados podem colocar vários relacionamentos em risco. Isso é péssimo. No entanto, se expressar, ter conversas adultas difíceis, sem medo de entrar em conflito, podem resolver a situação.

Comecei tendo uma comigo mesmo. Depois de anos protelando, comecei a fazer análise. De quebra, comecei a visitar um psiquiatra também. Eu tenho 35 anos de coisas para falar e resolver comigo mesmo e a análise tem sido um alento nisso. Alguns dias absolutamente horríveis. Ainda me meço muito pela régua dos outros e acho que preciso sempre trazer assuntos incríveis ou ter conclusões maravilhosas em toda sessão. Ou exatamente porque essas conclusões maravilhosas tem o efeito inverso. Os cortes lacanianos me deixam pensativo por semanas. No entanto, o resultado no final é maravilhoso. Me entender melhor e entender as coisas que me angustiam faz com que eu entenda e me relacione melhor com os outros.

O psiquiatra tem sido importante também, porém em um curto prazo. Descobri que faço parte dos 4,4% da população que sofre de depressão e, embora leve, tinha (ou tem) me atrapalhado de vez em quando. E o remédio foi super importante no começo do tratamento.

Depois disso, aos poucos, estou tendo conversas difíceis com aqueles que estão a minha volta e dividem a vida comigo. Não é fácil, porque a gente não vira a chave de uma hora pra outra. “Não falei nada durante anos, agora vou falar tudo, se preparem”. Não é assim que funciona. Mas uma mudança de postura faz uma diferença danada. Como o próprio Andy Leek diz, “intenções claras simplificam as coisas”. Nesse ponto, a idade ajuda, porque o drama diminui, a maturidade aumenta e as conversas são para expor e resolver coisas e não só para tumultuar. Demorou, mas entendi que, eventualmente, precisamos entrar em conflito para chegar na solução.

É um processo que está longe de terminar. Aliás, eu espero que não termine, porque se conhecer melhor e ser uma pessoa melhor (principalmente) para mim e para os outros está sendo recompensador. Isso significa relações mais transparentes, tranquilidade de espírito, mais clareza para ver as coisas.

O que acaba refletindo nas outras coisas do meu ano. Eu gravei a bateria de uma música do disco “Somos Instantes” do Raphael Mancini, fui para o SXSW pela segunda vez, me perdi (e me encontrei) em Buenos Aires, virei padrinho da minha prima, celebrei um casamento, conheci Abu Dhabi e trabalhei na WorldSkills novamente e vi a Olívia ser mãe. Continuei fotografando como gosto, fiz música com gente muito boa e descobri que o Crossfit realmente vicia e faz bem pra cabeça.

Finalmente, depois de um 2016 complicado, eu e o Marcos aproveitamos esse ano para conhecer mais pessoas, novos modos de trabalho e acredito que estamos colocando a 42formas nos trilhos.

É, 2017 foi longe de ser um ano fácil, mas foi um ano do caralho.

Pode vir, 2018!

Olívia, a mãe

Olívia pariu ontem. Montamos três ninhos, a Carol morreu de cuidados, mas a cã resolveu parir em cima da nossa cama às 4h da manhã.

Nossos olhos assustados não foram páreo para os 15 mil anos de evolução canina. Ela tirou de letra.

São três machos e duas fêmeas, todos lindos e saudáveis.

E foi mais uma experiência pra deixar 2017 único.