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O tempo se faz é vivendo #7 – Amizade

(Nota não relacionada ao texto: é um desafio conviver com um “hiato de tratamento” enquanto aguardo a segunda opinião das minhas lâminas. Tenho ocupado a cabeça com trabalho, a iminente mudança de apartamento, sofrer com o Brasil na Copa e tentar explicar – em vão – para o Samuel que ele pode dormir 14 horas por dia. Ao mesmo tempo, ajuda a tirar da cabeça a ideia de que sou uma bomba-relógio.)

Este é um texto de apreciação. Montei a imagem de ilustração para post com algumas mensagens que recebi nos últimos dias. Todas inesperadas, algumas ainda não respondidas. Eu acho que é preciso uma coragem para mandar uma mensagem, porque não sabemos necessariamente o que vem como resposta. Ou, pior, se vem uma resposta.

Escrevi esse parágrafo e imediatamente me lembrei de quando o querido Miguel Thompson me contou, em agosto de 2020, que estava com um tumor no cérebro. Reforcei meu apoio e, como resposta recebi “Ter amigos como você ajuda muito!”. Trocamos algumas mensagens até o final de março de 2021, quando tive meu primeiro diagnóstico. Escrevi pra ele. A mensagem foi vista e não respondida. Em maio, dias depois da minha cirurgia, escrevi novamente, mas a mensagem não foi lida. Miguel faleceu em 7 de junho daquele ano.

O fato é que receber estas mensagens reforça a ideia de que não estou sozinho na jornada (nunca estive, na real). Ao mesmo tempo, cria uma cobrança (imaginária) de que deveria estar mais presente, de que não estou vendo as pessoas, o tempo está passando, “poxa, tem seis meses que combinei o café com fulano que nunca aconteceu”, sair pra almoçar, etc, como se a vida estivesse simples o suficiente.

Mas sinto que poder compartilhar um pensamento, ainda que dezenas de vezes, ajuda a dissipar um pouco a tensão e a lembrar que existe vida, planos e muita coisa para ser construída. E, até em um aspecto mais filosófico, me dá uma certa esperança nas pessoas, porque reforça a importância da comunidade. Quase uma antítese do discurso vigente de individualismo que tanto tenho visto ultimamente, “eu consigo tudo sozinho e dane-se o resto”. Não é assim que as coisas precisam funcionar.

Não sei como seria se minha irmã e minha tia não ficassem em cima do hospital, em contato com os outros médicos. Se Carol não tivesse nos movimentos de olhar apartamento, de olhar escola e dar suporte e se não tivéssemos uma rede de apoio para cuidar das crianças. A vida estaria exponencialmente mais complicada e solitária.

Ainda bem que eu tenho amigos. Ainda bem que tenho suporte. Me lembrei de “Love’s in Need of Love Today” do Stevie Wonder. O próprio amor tem precisado de amor. E ainda bem que estou rodeado por tanta gente querida.

E acho que deveria comemorar meu aniversário.

 

 

Quando as crianças crescem

(Samuel entra em casa com sua bicicleta de equilíbrio roncando alto. Agora é um motoqueiro.)

Quando a criança cresce, não é somente na altura e no peso.

Ela cresce também quando as palavras erradas ficam certas. “Pocilial” vira “policial”, “enócio” vira “negócio” e “iego” vira “Lego”.

Quando você sai para passear e escuta quatro “por quês” em cinquenta metros de rua.

– Papai, por que a Stella tem orelha?
– Por que a Stella faz xixi?
– Por que aquela criança tem medo da Stella?
– Por que aquele T-Cross é preto?

Quando ela, do nada, dá uma opinião honesta:

– Mamãe, por que você não comprou linguiça esta semana?

E quando pega o violão e faz um show com notas que não existem e letras em inglês imaginário.

Quando esse dia chega, bate um susto. Caramba, ela está crescendo. E bate um pouco de saudade com um alívio ao ver que, além de tudo, a curiosidade também continua sem limites.

Há a porção da ansiedade, porque em breve a irmã mais nova vai começar o seu processo de descobertas. E imagine esta casa daqui a alguns anos, com duas crianças dando 110% de si nas primeiras horas da manhã.

E, mesmo que precise de muita paciência e uma infinita capacidade de argumentação e negociação (sigo firme na ideia de que quem negocia com crianças de dois anos consegue resolver qualquer conflito entre países), no fim das contas tudo corre como o planejado.

O que realmente quero é que minhas crianças continuem abundantes nos porquês e na curiosidade.

O tempo se faz é vivendo #6 – Infelizmente uma não-ficção

(Respira, inspira e não pira)

De vez em quando, tudo o que se espera é o que menos acontece. E exige um tempo de processamento da informação, ainda que tardio.
Na semana retrasada, tive uma consulta com o cirurgião para tirar os pontos. Com dois minutos de consulta, ele jogou a bomba.

– Saiu o resultado da biópsia, você viu?
Não.
– Pois é, seu tumor aumentou de grau.

Assim, desse jeito. Quando ouvi, foi o momento tela azul. Me faltou ar.
Desbloqueei uma sensação nova na vida. É muito doido não conseguir fazer o movimento involuntário mais fundamental da vida, que é respirar e o ar não vir. E tive uma tremenda ânsia de vômito. Sem saber o que fazer, olhei para o lado e perguntei ao doutor:

– O banheiro fica lá fora, não fica?
– Sim, mas pode usar o que tem aqui dentro.

Tinha certeza que eu ia colocar os buchos para fora, mas eu não conseguia fazer nada. Entrei, fiquei olhando e pensando na vida. Era pra ser um dia legal, nosso aniversário de casamento, um dia leve, mas me enganei redondamente. Virou um dia nublado e chuvoso de outono. Eu odeio dias nublados, eu odeio dias chuvosos.

Lembrei desta cena de “Homens de Preto 2”.

 

 

A partir de agora, o protocolo muda dramaticamente. Exige fazer sessões de radioterapia, 30, e de quimioterapia oral, 42. Nada, absolutamente nada do que havia planejado era pra acontecer dessa forma. Invariavelmente, o pensamento do Felipe de dez anos de idade entrando no Hospital João XXIII com um corte na cabeça voltou a aparecer.

“Por que eu?”

Por qual razão Samuel e Maria Tereza precisarão passar por isso? Por que minha família vai passar por isso? E qual é a razão de tudo isso no final das contas? Até agora, 2026 tem sido o ano do improviso, onde todos os planos estão sendo reescritos. Do dia da consulta até hoje, já fiz as sessões de planejamento da radioterapia e o pedido do remédio para o plano e tudo deve começar na semana que vem.

No meio disso tudo, preciso manter os compromissos profissionais, porque é importante manter os combinados e preciso colocar as coisas em movimento, para não ficar parado e não perder a “pulsão da vida”, como disse meu amigo Fabio Mariano. Querer viver, fazer meus projetos, ver meus filhos e sobrinhos crescerem, a Carol realizar seus projetos, ver a família prosperar.

Talvez tão importante quanto, vejo o desafio de não querer ser visto como quem já perdeu. Este tipo de pensamento eu quero longe de mim. Não cortem a minha onda e não me deixem acreditar que eu sou uma bomba-relógio.

Estou entrando em um território completamente novo e desconhecido. O que me acalenta e dá forças é saber que nunca andei só. A torcida, a rede de apoio e carinho é o que vai nos levar além.

Apertem os cintos, porque as coisas saíram fora do planejado, mas fiquem ligados porque muita coisa ainda será feita.

Para terminar, todo dia olhar para o azulejo dado pela minha Tia Eti, com uma gentil lembrança sobre a importância do tempo.

Tetê 0.6

Tetê,

Eu queria começar pedindo desculpas. Existe uma desproporcionalidade imensa entre o quanto eu penso sobre você (todo dia e toda hora) e o quanto eu escrevo sobre você, bem menos do que eu deveria, culpa dessa vida que anda ligeiramente complicada. Uma pena, mas sempre há tempo para registrar e tirar o atraso.

Na última sexta, você fez seis meses. Parece que foi ontem que atravessamos a madrugada para te ver nascer, mas meio ano já se foi.

Juntamos as famílias para celebrarmos seu crescimento e desenvolvimento, compramos um bolinho, uns brigadeiros e cantamos parabéns.

Fiquei emocionado, porque eu ando muito à flor da pele. E muito feliz com seu sorriso. Você é muito bem humorada feito seu irmão, risonha, observadora e divertida.

Algumas pessoas podem argumentar que você é uma “mala véia”, afinal, a primeira coisa que faz quando vê alguém é sorrir. Quase mostra seus dois dentinhos, abre seus olhões azuis e derrete todo mundo ao redor.

Eu fico imaginando como será sua voz, as brincadeiras que vamos fazer e os passeios que vamos dar. Explorar esse mundão junto com a mamãe e seu irmão, que são as melhores companhias para aventuras.

Enquanto isso não acontece, te admiro. Suas bochechas, suas dobras, seu sorriso e a honra que é poder ser seu pai.

Que a gente siga construindo.

Com amor.

O tempo se faz é vivendo #5 – Cabeça aberta

A gente espera que haja linearidade em coisas parecidas quando não há muitas delas na vida. E essa cirurgia não foi diferente.

Eu sabia como seria o procedimento, mas não conhecia os detalhes. Será que eu realmente seria acordado durante a cirurgia? Iria para o quarto antes do bloco? Essas coisas.

Cheguei ao hospital e fui para o quarto. Quando o técnico de enfermagem chegou para me levar, tivemos um diálogo meio “Drácula, morto mas feliz”.

Ele apareceu com o avental na mão e pediu que eu me trocasse.

— Perfeitamente.

Entrei no banheiro, tirei a roupa, coloquei somente o avental e perguntei:

— Coloco para frente ou para trás?

— O anestesista quer que você coloque para frente.

— Tudo bem, mas posso colocar uma cueca? Porque não sei como me sento. Talvez como uma pessoa da família real, sentado de lado para não mostrar as partes.

— Pode colocar.

Voltei ao banheiro e reapareci de cueca.

— Talvez seja melhor tirar a cuec… fica de cueca. Melhor. Põe o short cirúrgico.

— Mas, moço, eu não sei onde ele fica.

(Estava escondido no armário do quarto.)

Finalmente paramentado, me despedi da família e desci com a Carol para o bloco. Fui apresentado ao anestesista.

Me encaminharam para a sala, me despedi da Carol.

E o que eu fiz assim que entrei?

Desandei a falar. Não tão nervoso quanto da primeira vez. Mas acho que é de bom tom quebrar o gelo e criar um mínimo de empatia com quem vai abrir a sua cabeça em breve.

Dei oi para quem cuidaria da neuronavegação, conheci a assistente que trabalha com o cirurgião há vinte anos.

Deitei na maca e meu papo passou a ser com o anestesista.

— Doutor, eu lembro que, da última vez, quando mencionaram o propofol, fiquei muito impressionado. Foi a causa da morte do Michael Jackson.
— O problema é tomar propofol em casa. A crise de opioides nos Estados Unidos é muito grave.

Enquanto isso, ele procurava minhas veias para conseguir acesso.

— Felipe, suas veias são tímidas?

— Eram muito extrovertidas, mas a idade deixou todas mais quietinhas.

— Pois é. Estou com 46 anos e está cada vez mais difícil acharem as minhas. Mas espera aí… achei as suas.

Ele disse que eu começaria a ficar mais relaxado.

— Estou ficando doidão. Deixa eu só lembrar de três coisas aqui. Continuo cruzeirense. Prince é melhor que Michael Jackson e…

Dez horas depois.

— Acorda, Felipe! Onde você mora?

Dei o meu endereço.

— Você é solteiro ou casado?

Em resposta, fiz um grande compêndio da minha vida.

No trajeto entre o bloco e o CTI, ainda consegui discutir a convocação do Neymar para a Copa.
— Não gosto, mas acho que ele fez o certo. Se perder, pelo menos levou. Se ganhar, é porque levou.

Percebi que estava com a mão esquerda enfaixada e com alguma dificuldade de movimento do lado esquerdo do corpo.

— Olha só. Minha mãozinha de Gabigol expulso por gestos obscenos.

Quando meus pais e minha irmã chegaram, ainda brinquei que estava feito meu avô Pancho, que passou horas fazendo costuras imaginárias enquanto se recuperava de uma cirurgia no pescoço.

Acho que herdei dele os olhos claros e o pós-operatório.

O tempo se faz é vivendo #4 – Jerry

(Escrito antes da cirurgia. Reli pra saber se fazia sentido e faz, agora com algumas observações pós-processo)

Jerry Maguire é um dos meus filmes preferidos.

Eu gosto do filme porque fala de esporte, de futebol americano, e de como funciona a relação entre um atleta e seu agente. Para o Felipe de 14 anos (esse filme é de 1996!), curioso e sempre apaixonado por esportes, isso significava muita coisa.

Gosto do filme porque o Maverick de “Top Gun” e o Cole Trickle de “Dias de Trovão” agora é um agente esportivo. Já adulto, percebi que o personagem Jerry Maguire tem um arco dramático e comportamento babaca semelhantes aos dos outros dois e isso é papo pra outro momento.

Foi nele que eu conheci a Renée Zellweger e era impossível evitar uma paixonite platônica, e o Cuba Gooding Jr., que eu queria ser amigo.

E o filme tem seus momentos icônicos: o memorando no começo, o “show me the money” no meio, o desmaio e redenção no final. Passados 30 anos e considerando especialmente o recorte entre 2021 e hoje, estas três partes ainda fazem muito sentido pra mim, porém com um significado mais profundo.

É sobre isso que eu quero falar.

O memorando “The Things We Think and Do Not Say” (“As coisas que a gente pensa mas não fala”) escrito por Jerry no começo do filme e que acarreta em sua demissão. Quanta coragem foi necessária para trazer à tona o que pensava sobre as práticas nocivas do seu trabalho. Quem nunca quis fazer isso?



Eu já, e nunca foi um desejo restrito às relações profissionais. Porém, nunca fiz o tanto quanto deveria. Muitas vezes, para não ferir a régua subjetiva do bom senso, achei que o caminho mais fácil era manter-me longe de mim, evitando o medo de atrapalhar uma amizade, ser visto como grosseiro, parecer desinteressante ou perder a imagem de pessoa legal.

O resultado foi sempre o peso emocional imenso em não conseguir falar quando me senti invisível, não ouvido ou desrespeitado. Agora, velho e barbudo, tenho trabalhado em formas para deixar o caminho mais leve.

Show me the money”. O medo de me posicionar acaba refletindo na segunda passagem: o medo de tocar no tema “dinheiro” nas relações profissionais.

Aos 14 anos, achava que Rod Tidwell estava sendo rude com Jerry ao falar sua única exigência para assinar um contrato: “me mostre a grana”.

Por muitos anos, já inserido no mercado de trabalho, continuava achando meio esquisito quando via pessoas abordando diretamente este tema. Afinal, pensava que o bom relacionamento e a simpatia vinham antes. Demorei mais alguns anos para entender que é possível ser legal, cortês e simpático e também falar sobre dinheiro.

Queria ter sacado isso antes, no entanto. Me pouparia algumas angústias e, quem sabe, teria adiado a chegada de alguns cabelos brancos.


Finalmente, a cena derradeira do filme. Rod Tidwell recebe a bola, marca o touchdown, cai de maneira brusca e desmaia. Após alguns minutos de apreensão no estádio e na casa da sua família, ele acorda e não pede ajuda: pede apenas para curtir o momento. Depois de anos sob o julgamento cruel da imprensa e dos torcedores, Rod finalmente desfruta do carinho.

Fiquei pensando nessa cena e percebi que havia interpretado de maneira muito errada todo o carinho, preocupação e apoio que recebi em 2021, da outra vez que abri a cabeça para tirar o tumor.

Quando eu vi pela primeira vez, eu pensei “é isso aí, Rod Tidwell! Você está passando por esse susto para finalmente ser reconhecido por tudo o que você fez!” e precisou ter essa pancada para conseguir ser visto.

Quando tive o primeiro diagnóstico e as duas cirurgias, pensei que havia achado um caminho. Sempre estava compartilhando, criando, construindo a minha história e não me via reconhecido por isso.

E aí o que aconteceu foi passar pela cirurgia, compartilhar o ocorrido e ser visto e imaginar que aquilo era o que me definia. E somente aquilo me definia.

Transformei aquilo na grande verdade. Num ponto onde a minha apresentação chegava a ser “oi, sou o Felipe, e talvez você não esteja vendo, mas essa cicatriz é porque eu retirei um tumor da cabeça”.

O lance foi perceber que isso é só um detalhe da minha história. Existem as coisas que eu sou, as coisas que eu construí, as coisas que ainda vou fazer. E é isso que me define.

O trabalho terapêutico de olhar para trás fala muito sobre escrever um memorial. E não como uma forma de despedida, mas uma forma de registro e lembrança.

E perceber as relações, as construções da vida e na carreira é o que realmente deixa marcas e me aproxima das pessoas.

Fiz jornalismo, trabalho com treinamento e desenvolvimento. Eu escrevo, eu toco bateria, sou fotógrafo. Gosto de café. Eu sou uma porção de coisas e tenho me sentido longe de mim. Agora é hora de estar perto.

O carinho e a preocupação não apareceram por conta do primeiro ou do segundo caso, sempre estiveram lá.

Ponto pra mim.

O tempo se faz é vivendo #3 – Medo

– Como você está?
– Com medo.

É engraçado ter esse sentimento agora, sendo que lidei de uma forma mais leve com a situação da primeira vez, há cinco anos. Parecia ser mais fácil estar com um tumor cerebral quando tudo era novidade e quando tinha pouco a perder. Agora, lidando de novo, o medo está mais presente, ainda que de forma compartimentada.

Eu não tenho medo da cirurgia e tudo que gravita em torno dela: sondas e cateteres, corte de cabelo, anestesia, ser eventualmente acordado, UTI, etc. Essa é a parte fácil.

Tenho medo das coisas que deram certo da primeira vez darem errado nessa: minha recuperação, sair com as funções cognitivas e intelectuais intactas, os bons resultados da biópsia. E na minha cabeça que cria muitos cenários, como me dizem, significa tempo abreviado. Quase viver o lado “quanto tempo me resta?” que escrevi no primeiro texto.

Aí fico com raiva de mim mesmo por ainda não ter conseguido criar um grande reserva para as pessoas que ficam. E, talvez mais importante, sentir a falta e ser a falta dessas pessoas: filho, filha, esposa, pai, mãe, irmã, sobrinhos e sobrinha, família, amigos.

Não estou falando absolutamente nada quando falo sobre criação de cenários. Isso tem um nome: ansiedade. Há 400 anos, Michel de Montaigne escreveu em “Dos Prognósticos”:

“Ainda assim, restam-nos alguns meios de adivinhação através das estrelas, espíritos, partes do corpo, sonhos e outros, todos exemplos notáveis ​​da curiosidade obstinada da nossa natureza, que se deleita em preocupar-se com o futuro como se não tivesse o suficiente com que lidar no presente.”

É bem isso. Minha preocupação com o futuro não aparece lendo estrelas, horóscopo (sou leonino demais para acreditar nele) ou decifrando meus sonhos. Me preocupo com o futuro vivendo a ansiedade e não o presente de (ou “que é”) estar vivo e rodeado de pessoas incríveis e poder fazer planos.

Também como disse no primeiro texto, fazer planos mora na intersecção entre “para velhice vou” e “quanto tempo tenho?”. Por isso, é praticamente um exercício sentar, mentalizar e quase falar em voz alta sobre a necessidade de viver o dia presente, criar cenários, fazer e executar planos.

Não é (nunca é!) uma virada de chave. É um exercício que parece exigir mais energia quando se está com a cabeça cheia de forma literal e figurativa.

Como disse Luciano de Samóstata, em uma citação do próprio Montaigne:

“Que a mente dos homens seja cega para o que está por vir. Que aqueles que temem possam ter esperança.”

Nota para mim mesmo.


A foto que ilustra o post foi feita em Kazan, Rússia, em agosto de 2019.

Referência textual: “Against Prognostication“, do Austin Kleon.

Essas pessoas

De vez em quando, a sagacidade infantil é tamanha que inviabiliza qualquer correção ou lição ética ou moral.

Outro dia, eu e Samuel íamos embora pra casa, quando no estacionamento, abri primeiro a porta do motorista. Como um raio, ele subiu no banco e começou a brincar no volante, ajustar o retrovisor, mexer nas alavancas.

Nenhum argumento servia para convencê-lo de que eu deveria assumir o assento para irmos pra casa.

Não, eu estou dirigindo! – falava com toda a autoestima e determinação de uma criança de dois anos e oito meses, enquanto passava a mão no volante.

Nesse movimento, sem querer apertou a buzina e o som ecoou no estacionamento vazio.

– Samuel, não pode buzinar!
Mas não fui eu! Foi aquele carro preto! – disse, apontando para um carro estacionado e, após uma breve pausa, completou: – Essas pessoas…

O tempo se faz é vivendo #2 – Oscar

(Habemus data: 2 de junho)

É sábado, são 6h40. Estou com a Maria Tereza no colo, que dorme o sono das justas, como uma criança de quase quatro meses deve dormir. Samuel teve uma noite difícil por conta da gripe.

Eu mesmo fui dormir quase 1h. Passei da hora de ir pra cama pensando na passagem do Oscar Schmidt, que aconteceu na sexta-feira.

Vi suas entrevistas, o discurso no hall da fama da NBA, um compilado de melhores momentos, o Brasil nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Chorei um pouquinho.

Obviamente, fiquei pensando na similaridade dos nossos diagnósticos iniciais de tumores cerebrais: um astrocitoma grau 2; e na enxurrada de notícias que aparecem sobre um tipo de doença específica, especialmente quando acomete alguém importante.

Não precisei ler para pensar sobre a progressão da lesão, porque esse tipo de pensamento é quase cativo na minha cabeça.

De manhã, com minha filha no colo, resolvi pensar nos 15 anos que Oscar viveu entre o diagnóstico e seu falecimento.
Quanta vida e quantos planos cabem nesse período? Qual é a melhor razão para estarmos aqui se não for viver e colocar esses planos pra frente?

(Da série “notas para mim mesmo que serão publicadas”)

O tempo se faz é vivendo

(Tirando da cabeça o que tenho pensado durante a jornada de tirar (de novo!) algo da cabeça)

Desde maio de 2021, todas as vezes que eu saia do tubo da Ressonância Magnética após fazer meus exames de acompanhamento, eu imaginava a cena de abrir a porta e dar de cara com alguém me esperando, só para dizer: “olha, agora deu ruim”. Sempre imaginava, nunca aconteceu. Por um lado, é a minha veia de escritor de ficção imaginando cenas e diálogos. Por outro, é meu corpo dizendo pro corpo estranho que morava no lado direito do meu cérebro: “vá embora e não volte mais”.

Sempre imaginava. Nunca acontecia.

Até a sexta-feira, 13 de fevereiro (a primeira das três do ano), quando a ficção virou não-ficção. O chefe da radiologia do hospital estava me esperando na porta da sala e me perguntou se eu toparia fazer exames complementares no dia seguinte. Afinal, alguma coisa havia crescido ali.

Foi um choque entrar no hospital pensando “para a velhice vou” e sair pensando “nesse tempo que me resta“.

Voltei no dia seguinte, fiz uma espectroscopia e uma RM com perfusão. Depois, na sua sala de comando, o médico me mostrou as imagens e falou que aquele astrocitoma retirado quase em sua totalidade em maio de 2021, do tamanho de um ovo caipira, cresceu de novo. No mesmo lugar, agora do tamanho de uma azeitona preta. Com a diferença que agora ele está mais localizado e delimitado.

Nas semanas seguintes, fiz consultas com o neurocirurgião que me operou e o oncologista que me acompanha. A opinião é unânime, o caminho é como da primeira vez: cirúrgico. Abrir a cabecinha, arrancar aquela azeitona, me recuperar e seguir a vida. Infelizmente, não consideraram a minha ideia de trocar as placas de titânio por dobradiças, de modo que qualquer intervenção futura seja mais simples.

O hospital já deu entrada no pedido de autorização da cirurgia e estamos aguardando os trâmites e burocracias no plano de saúde. Nesse aspecto, meu caso e a minha vida não parecem valer muito, mesmo com pedidos e mais pedidos de celeridade no processo.

Não sei quando ao certo, vou reviver o roteiro, ansiedades e incertezas, algumas já conhecidas. Assim como receber o carinho, apoio e afeto dessa rede de apoio que foi criada da primeira vez e que já está tendo uma importância incrível no processo.

Além desta lentidão e falta de notícias do plano de saúde, o que tem minado meu estado de espírito e a (outra saúde mental) é o quanto eu tenho a perder, apesar de um tumor menor. Cinco anos depois, tenho uma família, uma esposa incrível, o casal de filhos mais sensacionais e a necessidade de vê-los crescer e se desenvolver, junto com a vontade de colocar os meus planos pra frente.

(A parentalidade muda tudo na vida. Tudo. E isso será tema para outras conversas e outros textos.)

Tenho me apoiado nas escritas, reflexões e conversas para processar este turbilhão de coisas. Diferente da primeira vez, quando achei que deveria abrir mão de fazer qualquer plano, agora sei que os planos moram na interseção entre esses dois pensamentos: “para a velhice vou” e “quanto tempo me resta?

Seguimos.