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Jonathan Ferrey/Getty Images
Jonathan Ferrey/Getty Images

A pergunta certa

Acho muito legal quando pessoas boas no que fazem conseguem refletir sobre como fazer melhor. Recentemente, assisti a um episódio do podcast “Calm Down“, feito pelas jornalistas norte-americanas Erin Andrews e Charissa Thomson, com a presença do ex-jogador de futebol americano Richard Sherman. Nesse episódio, Erin falou sobre o que faria diferente na entrevista feita com o jogador há dez anos, e que entrou no panteão das mais icônicas no esporte. 

Mas… do que estamos falando?

Em 19 de janeiro de 2014, o Seattle Seahawks venceu o San Francisco 49ers na final da Conferência Nacional da NFL, carimbando sua passagem para o Super Bowl, a final da competição. O jogo foi decidido no último lance, em uma jogada envolvendo o próprio Richard, que atuava pelo Seattle, e seu adversário Michael Crabtree. Além de ótimos jogadores, os dois tinham uma rixa pregressa e trocaram cutucões na semana que antecedeu a partida.

A entrevista e a repercussão

Como em qualquer praça esportiva, o final do jogo deu início ao fuzuê habitual: bagunça, comemoração e repórteres correndo atrás dos jogadores e comissão técnica para conseguirem entrevistas, reações e histórias. Geralmente, essas entrevistas seguem o mesmo roteiro e têm o mesmo conteúdo em qualquer esporte praticado no planeta Terra: “A equipe unida trouxe um bom resultado”, “Méritos para a torcida por ter nos ajudado”, “Foi um jogo difícil, respeitamos o adversário e conseguimos o resultado positivo”, “agora é erguer a cabeça e trabalhar firme no ano que vem…

Nesse espírito, Erin se aproxima de Richard para entrevistar a pessoa fundamental para o desfecho do jogo. Ela (e todas as pessoas que estavam assistindo) não tinham ideia da fúria do atleta, que precisou de 30 segundos para dar uma entrevista visceral.

Confira abaixo junto com a transcrição em português:

Erin: Richard, deixe eu te perguntar, a última jogada, me descreva ela.

Sherman: Olha, eu sou o melhor defensor desse esporte! Quando você me testa com um recebedor ruim feito o Crabtree, esse é o resultado que você tem! Jamais falem de mim!

Erin: Quem estava falando de você?

Sherman: Crabtree! Não abra sua boca pra falar do melhor! Ou eu vou fechá-la rapidinho! L-O-B*!

Erin: Tudo bem, antes… E Joe, é com você!

(*LOB era a abreviação de Legion of Boom, o apelido dado à linha secundária de defesa do Seattle, onde Sherman atuava)

 

Por dias (e anos), a repercussão da entrevista foi imensa. Menos pela rixa entre Crabtree e Sherman e mais – muito mais – pela reação do atleta, incluindo a ideia de que ele estava puto das calças com a emissora e que foi agressivo e ameaçador com Erin Andrews. E são incontáveis as vezes onde a própria repórter disse que sabia sobre quem Richard estava falando, que a sua expressão não era de medo e sim de surpresa, que ela já conhecia o jogador e que sempre houve muita cordialidade entre os dois.

No entanto, Erin disse que faria uma coisa diferente na entrevista…

O podcast

Pois bem, no episódio em questão do podcast, Charissa pergunta à Erin porque ela tem vontade de refazer a entrevista. A resposta está no ponto do vídeo, junto com a transcrição abaixo.

“Minha primeira pergunta foi horrível: ‘Richard, deixe eu te perguntar, a última jogada, me descreva ela‘. (…) Eu deveria ter falado ‘o que aconteceu?‘ e não ‘me descreva‘. Isso não é nem uma pergunta! (…) Minha cara, e eu disse isso o tempo todo, não era como ‘Oh meu Deus, oh meu Deus, ele está me assustando, estou assustada, esse atleta está gritando comigo‘. Não! Foi ‘isso é incrível, isso nunca aconteceu, as pessoas vão enlouquecer porque isso está acontecendo.’

(…)

Mas, será que ele disse Crabtree? Porque eu sei que foi Crabtree, os locutores sabem que foi Crabtree, mas não quero que o público pense que ele está gritando comigo. Eu sei que ele não está dizendo isso. (…) Mas o que eu deveria ter feito, era não ter virado a fã de esportes e perguntado ‘quem está falando sobre você?’, e sim ‘do que você está falando?’

Achei muito interessante essa reflexão e a preocupação da jornalista com o que importa: a informação. Uma simples troca de perguntas talvez não fizesse diferença no resultado da entrevista e com certeza mudaria toda a sua repercussão. Saem as discussões sobre a visceralidade nas respostas de Sherman e entram as conversas sobre suas diferenças com Michael Crabtree. 

Também nos sentimos mais próximos das pessoas experientes e que são muito boas no que fazem quando elas também avaliam seus erros. No caso específico de Erin Andrews, é uma oportunidade para entendermos quais são os desafios do ofício e também um convite para desenvolvermos uma habilidade que não é exclusiva do jornalismo: a de fazer boas perguntas.

Lembrei deste artigo da Harvard Business Review e também das (várias) vezes que fiz perguntas ruins, seja por medo, por confundir “pergunta” com “vontade de opinar” ou falta de repertório. Trago dois exemplos.

O primeiro, quando ainda trabalhava com comunicação digital, estava desenhando a página de carreiras de uma organização e precisava saber qual era o perfil de profissional desejado pela companhia. Consegui minutos com o principal responsável pelas contratações e deveria ter perguntado a mesmíssima frase escrita na linha de cima: “qual era o perfil de profissional desejado pela companhia?“. Porém, imaginando que eu e ele estávamos alinhados, perguntei “qual tipo de pessoa você deseja contratar?”, o que deu margem para a resposta mais óbvia e que não resolvia meu problema. “As melhores”, ele respondeu e seguiu seu dia atribulado.

O segundo exemplo aconteceu em um evento de trabalho, quando pude entrevistar um dos nossos palestrantes, o professor Mario Sergio Cortella. A excitação e o nervosismo ajudaram a produzir uma pergunta abstrata que ela saiu quase sem verbos, algo do tipo “a importância da gestão do conhecimento… qual é”.

E a lista vai e vai. Nem sempre as circunstâncias ajudam, entrevistas ao vivo, reuniões de negócios e sessões de perguntas e respostas são situações complexas, onde não temos linearidade ou controle da situação. E fazer o exercício mental sobre “o que poderia ter feito diferente” não conserta o que aconteceu, mas dá repertório para situações futuras.

Da próxima vez que precisar fazer um bocado de perguntas, vou lembrar das reflexões da Erin Andrews sobre uma entrevista de 30 segundos. É um bom dever de casa para descobrirmos como fazer o trabalho ainda mais bem feito.

Que ano, 2023!

O grande mote de 2023 começou em dezembro de 2022, quando Carol descobriu que estava grávida e isso mais ou menos delimitou o que foi esse ano, onde estou aprendendo a ser pai, mas também navegando para onde quero estar e o que quero ser. Vou lembrar de 2023 também como um ano de muita troca, onde toquei e descobri sentimentos e emoções novinhas em folha.

Também vou lembrar de um ano de 16 meses. Foram oito meses de 1º de Janeiro até 22 de Agosto, quando o Samuel nasceu, e mais oito meses de 22 de agosto até 31 de dezembro. Aprender a navegar nesse mar de emoções e de descobertas deu elasticidade ao tempo e aprofundou as trocas.

Em março, visitei Austin pela sexta vez e experimentei o SXSW Edu de uma forma nova, como parte do programa de mentores. Me senti corajoso por ter feito a inscrição e me senti honrado em ter sido aceito e fazer parte desse grupo. No dia específico da mentoria, pude conversar com pessoas tão legais, que deu vontade de pedir para trocar de lugar com elas.

Também em março, troquei e toquei com meus amigos da prática de banda, em um show que estava guardado desde o segundo semestre de 2019. Tocamos músicas que sou apaixonado, como “Song for Bilbao” do Pat Metheny (trechinho abaixo) e o medley do disco Abbey Road dos Beatles. Foi um show que teve um espaço muito carinhoso, porque aconteceu no dia seguinte ao do exame de ultrassom onde descobrimos que Carol esperava um menino e que ele tinha uma condição de saúde ainda desconhecida. “Tem um negócio aqui na boca dele que eu não sei o que é“, disse a médica. Não foi fácil juntar forças para tocar e foi muito difícil controlar a emoção em “Carry that Weight” e a frase “Boy, you’re gonna carry that weight / Carry that weight a long time” (“Cara, você vai carregar esse peso / Carregar esse peso por um tempão”).

Em maio, conheci e me apaixonei por Nova York ao lado das duas guias e companhias de viagem mais incríveis. Teve jazz, cachorro quente na porta do museu, muitos passos, uma conexão entre artes e criatividade e a vontade de voltar muitas vezes.

Eu e as mais belas companheiras de viagem

Cheguei de viagem, troquei de mala e visitei Teresina também pela primeira vez. Pude facilitar uma sessão presencial muito legal com as lideranças que fazem parte do Programa de Formação do Centro Lemann e aprendi mais um pouco sobre os desafios, a criatividade e a inventividade na busca por soluções. Relembrando o SXSW, a educação pública nos Estados Unidos e no Brasil são dois mundos bem parecidos e sempre fico pensando em como conectá-los.

Em junho, também troquei ideias em um formato que gosto bastante, o podcast. Fiz uma das primeiras edições d'”A Voz do Conhecimento”, apresentado pelo amigo Caco Ponsirenas. O processo acendeu uma brasinha que tornou-se uma chama: voltar a produzir conteúdo em áudio e isso já está no forno. 🙂

(Sinto que preciso organizar e compartilhar mais as ideias que estão armazenadas na cabeça.)

chegou o dia 22 de agosto e com ele, os outros oito meses do ano. Foi quando percebi sentimentos e emoções que jamais havia sentido. Eu não imaginava o que é estar disposto a fazer qualquer coisa pelo meu filho. Aliás, quando as pessoas falavam isso, imaginava que era uma figura de linguagem. Mas não, isso é muito real. Nas primeiras semanas de Samuel, em meio ao périplo do CTI e alta, percebi que navegava entre o nirvana e o apocalipse. Ou eu podia abraçar todo mundo ou queria ter acesso ao telefone vermelho que controla o arsenal nuclear mundial.

O ponto curioso é que as horas de análise, além dos estudos, falas e práticas sobre habilidades socioemocionais não necessariamente me prepararam para isso. Enfrentar essa realidade – “tudo sei que nada sei sobre minhas emoções” – só foi possível com mais horas de análise e muitas trocas com a rede de apoio que foi formada no nascimento do Samuel.

E foi a rede de apoio que me sustentou nos dois dias mais tensos pós-nascimento: 23 e 24 de agosto. No primeiro, quando percebemos que o quadro era mais grave do que havia sido aventado durante a gestação. No segundo, quando um procedimento agravou o quadro do Samuel e eu fiquei perto de bater em alguém pela primeira vez na vida. (Seria péssimo e ridículo para mim e minha família. Não resolveria o problema e minhas habilidades de luta são similares a de um boneco Lango-Lango).

Ter a liberdade e o espaço para falar desse caldeirão de emoções é o que ajuda a sustentar a vida que quero construir e reforçar os vínculos e relações com as pessoas que amo. Ver o Samuel nascer tem sido a epítome da “mentalidade de crescimento”, não só na minha atuação e função como pai, mas também com o que quero para minha vida e para o que quero construir para mim.

Que ano!

Tecendo criatividade e artes

Somada aos causos coletados nas andanças do trabalho, a paternidade tem me feito pensar sobre o desenvolvimento de uma habilidade trivial: a criatividade. Desde cedo, como podemos entendê-la como algo que pode ser desenvolvida e não como um dom? Quais são os caminhos pra isso, como as escolas podem incentivá-la e como continuar esse desenvolvimento na vida adulta?

(São tantas questões…)

É um tema longo e que não será resolvido em um post. Para começar a conversa, lembrei do primeiro dia completo das férias em Nova York, quando visitamos o Museu Guggenheim. E além do bairro chique, do fato de ser vizinho ao Central Park, do prédio lindo e do acervo, fiquei também atento e impressionado com a exposição “A Year with Children” (“O ano com as crianças”, em tradução literal). É o resultado do programa “Learning Through Arts” (“Aprendendo através das artes”), onde ao longo de 20 semanas, artistas vão para escolas públicas da cidade de Nova York e colaboram com os professores para desenvolver, facilitar e integrar projetos de arte no currículo escolar.

O programa está em sua 52ª edição e envolve estudantes do segundo ao sexto ano, que podem experimentar uma variedade de formas de expressão para responder às questões propostas. Em 2023, uma das questões que serviu para discussão e criação era “Como minha comunidade molda a minha identidade e como minha identidade pode moldar minha comunidade?

De cara, lembrei da minha própria formação. Tive a oportunidade e o privilégio de praticar a criatividade desde pequeno, com estímulos no ambiente familiar e na escola. Em casa, majoritariamente por meio das referências do meu pai e da minha mãe, além do Lego, bateria, fotografia e afins.

O currículo da Escola da Serra – onde fiz grande parte do Ensino Fundamental – dava muito espaço ao teatro, à música e às artes plásticas. Não me lembro das intersecções pedagógicas, porém entendo que os exercícios foram importantes para entender as artes como impulsionadoras da criatividade, seja como ferramenta de refinamento da curiosidade (e a fartura de perguntas do tipo “tá, e como isso funciona?”), entender que existe um processo criativo e, em um aspecto bem pessoal, como elas podem ser ferramentas de expressão das emoções sem o uso das palavras.

Na transição para a vida adulta e para o trabalho, o ponto foi entender que a criatividade vai muito além das artes e das brincadeiras. É uma habilidade importante para uma longa lista de tarefas: da resolução de problemas às conversas difíceis passando por pequenos reparos, inovação e por aí vai. O motor continua sendo o mesmo da época escolar: a curiosidade (ou “tá, e como posso fazer isso de uma forma diferente?“), o processo criativo e as artes como uma forma fundamental de identidade e expressão.

Para isso, penso que os desafios são os mesmos na infância e na vida adulta: como criar espaço para que as pessoas entendam, reconheçam suas emoções e se sintam seguras para expressá-las; como desenvolver o repertório de atividades para que pais e mães, professores, áreas de Treinamento e Desenvolvimento das organizações consigam falar sobre criatividade; como criar momentos para as práticas relacionadas à essa habilidade.

Esse último desafio também é intrínseco. Precisamos sempre nos perguntar como praticar a criatividade em nossas vidas. E a resposta pode estar nas artes. Imaginem quais são as possibilidades de trocas, construções e identidades que moram na pergunta que citei no começo desse texto? “Como minha comunidade molda a minha identidade e como minha identidade pode moldar minha comunidade?” significa ser visto, ouvido e respeitado. No ambiente escolar, significa criar interesse e dar sentido para esse espaço e também criar momentos de conversa. Afinal, as minhas referências não são necessariamente as mesmas das outras pessoas que estão na sala de aula. Ou no ambiente de trabalho, seria muito legal ver ações de aprendizagem corporativa baseadas nas premissas do Learning Through Arts.

Adoraria conhecer e trocar sobre atividades e iniciativas similares aqui no Brasil, podem ser promovidas por museus ou escolas. Mais do que isso, adoraria bater um papo sobre artes, expressão e criatividade e as conexões na infância e vida adulta. Vamos fazer isso acontecer?

 

O dia em que a vida mudou pra sempre

Aproveitando o quarto mesversário do Samuel, deixo algumas linhas sobre o dia no qual a vida mudou para sempre.

Na tarde de 19 de dezembro de 2022, saí da consulta de controle com meu oncologista e fui encontrar Carol e minha mãe na casa da Tutu. Além de reforçar a equipe de apoio para a nova mamãe do pedaço, queria compartilhar as boas notícias da consulta de controle. É muito bom ouvir “você está 1000%”.

Contei isso, apreciei a beleza da duplinha recém-chegada ao mundo, fiquei pensando sobre o meu novo papel de tio. De volta para a casa dos meus sogros, Carol subiu o lance de escadas em direção aos quartos e, em um piscar de olhos, gritou:

“AMOR! AMOR!”

Na minha cabeça, foram uns dez segundos entre ouvir esse grito e subir o lance de escadas correndo. Atrás de mim, Stellinha – a whippet – também subiu correndo em desabalada carreira. Para a Carol, o tempo entre o grito e a minha aparição foi similar ao primeiro verso de “Nothing Compares 2 U”, música escrita por Prince e brilhantemente interpretada pela Sinead O’Connor: “It’s been seven hours and 15 days” (já se passaram sete horas e 15 dias”). O espaço-tempo é realmente elástico.

Durante todo esse (curto? longo?) tempo, eu já imaginava o que estava acontecendo. Ela não gritaria se não fosse nada. Carol segurava um bastãozinho azul e branco. E na primeira linha do display desse bastãozinho, estava escrito “Grávida”. Na segunda linha, “4-5”, as semanas de gestação. Nos abraçamos, choramos e nos beijamos, num misto de susto e felicidade.

Meus sogros foram os primeiros a saber da notícia. Meus pais e Tutu souberam no dia seguinte e, com exceção de um núcleo muito restrito de familiares, amigas e amigos, seguramos a notícia até o começo de fevereiro, em um esforço hercúleo de manter a boca fechada até lá.

Naquele dia, eu consegui imaginar o que seria ser pai, em um exercício baseado em achismo e em parcas evidências. Um ano depois, ainda com achismo e muito mais evidências, vejo que minha imaginação só acertou em três coisas: 1) o Samuel existe em carne e osso; 2) dormir uma noite completa é uma utopia; 3) esse menino é lindo.

De resto, errei em tudo. Ninguém me contou, ou eu não escutei, que ter um filho é um trem difícil. Muito difícil. Não existe receita de bolo, não existe fórmula fácil e é virtualmente impossível achar alguma criança com as mesmas características da sua. Aqui, não estou falando de todo o périplo médico enfrentado pelo Samuel em seu primeiro mês de vida.

Estou falando do dia a dia mesmo, do cotidiano. Os padrões de sono, as dorzinhas que podem ser uma infinidade de coisas, o desafio que é construir um processo de comunicação, aquele que me fez pensar “acho que o Samuel não gosta de mim”, e como as relações mudam e se renovam. O trabalho é absurdamente centrado na mãe, e no lado paterno, as sensações de culpa e impotência andam agarradas nas costas como uma mochila.

Porém todo mundo me contou e eu bem escutei que ser pai é um trem incrivelmente belo. Ajudei a gerar uma vida e ela está se desenvolvendo. Perceber a cor dos olhos, os primeiros movimentos, as conquistas do processo de comunicação (e perceber que ele realmente gosta de mim!), o sorriso matinal. Mais importante, perceber que o amor é um sentimento construído com o tempo e não aparece logo de partida. Assimilar tudo isso dá sentido para a minha vida e ajuda a colocar ordem em um mundo cada vez mais esculhambado.

Ser pai também tem trazido um medo absurdo da finitude. E voltando ao começo do texto, descobrir a gravidez da Carol foi a cereja do bolo de um dia bom do ponto de vista clínico. Desde então, foram mais duas consultas com o mesmo resultado, eu estou “1000%”. Mesmo sendo parte da rotina, ainda fico ansioso e um pouco estressado com todo o processo de fazer uma ressonância magnética do crânio e uma consulta oncológica. Sempre penso no pior. Que bom que tenho me enganado. Toda boa notícia me faz imaginar a quantidade de histórias, casos e experiências que terei acompanhando o crescimento do Samuel.

Eu e Carol fazíamos o tradicional compartilhamento de músicas durante o flerte e começo de namoro. É a infalível tática e conforto de poder se expressar com letras e melodias. E quem diria que a chegada do Samuel iria dar um novo significado para esse trechinho de “So Right”, da Dave Matthews Band.

“Oh so beautiful, and so strange
Oh, it was empty until you came…”

(“Tão lindo e tão estranho,
Era um vazio até você chegar”)

Para Samuel #2

Dentre os registros lindos do nascimento do Samuel feitos pela @natalia_franciscone_fotografia, fiquei vidrado nesses dois, parte do pinball de emoções da sua chegada.

1) No avanço da madrugada, um misto de preocupação e admiração durante o trabalho de parto da @carolbrant. Não havia nada que eu poderia fazer para diminuir as dores e ansiedades das contrações. Ao mesmo tempo, admirava a mulher que conduziu sua gestação com muita leveza e graciosidade.

2) O choro incontido de um primeiro encontro e a alegria em ver que a arte abstrata do ultrassom era muito mais concreta e bonita em carne e osso.

 


(Originalmente publicado no Instagram em 29 de setembro de 2023)