7 de agosto de 2019 Felipe

Bateria, 20

A "verdinha" montada em todo o seu esplendor em um show do Balboa no Hard Rock Cafe.

Queria compartilhar que a minha 37a volta em torno do sol também significa 20 anos tocando bateria. É uma data simbólica e ao mesmo tempo super importante, porque são 20 anos da descoberta da música como uma língua e uma forma de interação. Pra mim, também sempre significou uma forma de me entender, de sonhar e de poder me expressar.

Essa relação começou alguns meses antes do meu aniversário de 17 anos, enquanto conversava com o tio Ângelo, meu padrinho. Eu, inseguro e teimoso até a tampa, disse algo como “se me derem uma bateria, eu aprendo a tocar em poucos meses”. Ele riu. Semanas depois, no meu almoço de aniversário lá no apartamento da Rua República Argentina em BH, rigorosamente um 7 de agosto.

Abro a porta pra receber alguém e do lado de fora estava a Simone, na época namorada e hoje esposa do tio Ângelo, com uma porrada de caixas de papelão da Yamaha. De dentro do apartamento vem ele dizendo “você disse que era fácil aprender a tocar, agora prova isso”. A teimosia vem de família, aparentemente. Dentro das caixas, uma Yamaha Stage Custom, cor verde marina, que está comigo até hoje. Eu, que nunca dou apelido para coisas, sempre chamei ela de “Verdinha”.

Juro que tentei achar as fotos desse dia, mas elas estão guardadas em alguma caixa nesse mesmo apartamento. Ainda posto aqui. Eu chorando na escada, meus amigos com cara de surpresa, a bateria montada de qualquer jeito depois. Era o começo da história.

O primeiro ano foi praticamente gasto para aprender na marra. Obviamente, era muito mais difícil do que eu imaginava, mas a ignorância e a arrogância dos 17 anos não tinham me mostrado isso. Precisou de uma dose de coragem e do acaso pra isso mudar.

O acaso

Ricardo Bizafra, meu primo, estava numa festa num condomínio perto de BH e ouviu um conhecido dizer que precisava de um baterista pra sua banda de pop rock nacional. Aparentemente, o velho e bom Biza tinha a solução:

– Pô, meu primo toca.
– Sério?
– Sério! Toca Rush, Dream Theater, ele é bom demais!

Vejam, eu ouvia Rush e Dream Theater. Tocar era uma história completamente diferente e fantasiosa ainda por cima. Porém, essas falsas credenciais me qualificaram para ser o baterista do Álamo. Estava com a minha primeira banda. Tocávamos música dos anos 80 e 90: Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Barão Vermelho, Skank além de algumas composições do Lelo Schirmer, o vocalista. Éramos cinco moleques, eu sem nenhuma experiência de nada, fazendo música e se divertindo pra caramba. Claro, não demorou muito para os meninos perceberem que eu não tocava nada daquilo e fui procurar aulas de bateria. Era importante, afinal o Álamo seria um grande expoente do rock nacional e o baterista precisava ser bom para justificar isso.

O último show do Álamo, abril de 2001, em BH.

O sonho acabou antes, em abril de 2001 e por diferenças criativas. Não sei como isso funciona nas bandas grandes, porque no Álamo foi bem simples, se não me falha a memória. Um guitarrista tinha um outro show na mesma data, faltou a um ensaio e não foi no nosso no dia. Fim da banda. Fizemos ainda mais um show em setembro, porque “Gatos Pardos”, nosso grande hit, havia sido selecionado para o Sprite Sounds 2, um festival promovido pela Coca Cola. A qualidade da gravação é ruim, mas a música é joia!

Em 2002, fui chamado pelo Lelo para substituir o baterista em um show na sua nova banda. Quando vi, já era o baterista do Venal, a banda do Lelo junto com os irmãos Rafa e Marcelo Poleze. Fizemos 90% dos shows do Venal no mesmo lugar, o Severino’s Pub em Belo Horizonte. Ficamos juntos até o ano seguinte, quando a banda também acabou.

Marcelo Poleze, Lelo Schirmer, eu e Rafa Poleze no Venal.

Pra minha surpresa, os Poleze me chamaram em 2004 pra nova banda deles, o Balboa. O repertório era bastante voltado pro pop com alguma coisinha de funk. Os três anos que ficamos juntos foram os de maior aprendizado. Tocamos para ninguém num domingo a tarde, para 2,5 mil na abertura do Festival de Cinema de Tiradentes em 2006, abrimos show para o Double You no interior de Minas Gerais, fizemos dois shows lindos no Hard Rock Café. Gravamos demo, disco, crescemos muito como banda, como músicos e como pessoas.

Show de lançamento da nossa demo “Pra Sempre Viver”, em 2005.

Tocando com o Balboa no segundo show no Hard Rock Café, em agosto de 2006.

Tocando com o Balboa no segundo show no Hard Rock Café, em agosto de 2006.

Pessoalmente, o Balboa também foi importante para me fazer entender a música como forma de expressão. Mais do que emular o que ouvia nos discos, eu descobri que eu podia – e devia – expressar o que eu sentia e o que queria dizer quando tocava bateria. Era como se eu tivesse o que conversar com o Steve Jordan, Mike Portnoy, Wilson das Neves, Carter Beauford, João Barone, todos aqueles caras que eu ouvia.

Foi a época que eu ouvia Dave Matthews Band de maneira compulsiva e esse caldeirão de coisas também me abriu os olhos para outros sons que eu queria fazer. Acabei saindo da banda em 2007, por discordar de alguns direcionamentos. Olhando pra trás, mudaria a conversa e a forma como isso aconteceu. Fui intransigente e cabeça dura demais. Felizmente, o tempo nos ajuda nessas coisas. Tive a chance de conversar sobre isso com os meninos há pouco tempo e foi uma conversa breve, mas muito importante.

A música me deu a chance de conhecer e aproximar de muita gente. Depois do Balboa, toquei com o Diguinho e o Celinho, amigos de infância, numa banda de blues chamada Batomush. Também fiz muitos sons com o Diego Mancini, uma das melhores pessoas para se ter ao lado na vida, incluindo um palco. Fizemos um sem número de shows junto com a Jennifer Souza, com a Lorena Chaves – sim, já toquei com uma artista que apareceu no “Ídolos”! – , com o Cine Los Angeles, nosso projeto de uma apresentação só. Eu tenho a honra e o orgulho de ter gravado o vídeo que ele fez para ser admitido na Los Angeles College of Music em 2009.

Batomush em janeiro de 2007.

Jenny & The Bottle Trio em março de 2009.

Quando me mudei pra São Paulo, achei que tinha encerrado esse capítulo na minha vida. Já tinha desistido de viver de música, pensava que ia parar de tocar bateria, mas tudo se assentou e, em 2015, voltei a tocar em uma escola de música. As práticas de banda me deram mais pessoas legais e a chance de voltar a tocar o instrumento.

Pra terminar

Nesses 20 anos de relação, eu certamente ganhei mais do que dei. Poderia ter estudado mais e me dedicado mais, poderia ter contribuído mais e ter sofrido menos com as cobranças e expectativas. Talvez tenha me faltado cavar mais fundo, ficar desconfortável com processo de aprender alguma coisa. Essa é outra lição que a vida me deu. Por outro lado, dificilmente teria essas experiências todas se não tivesse feito uma aposta com meu tio e ele ter topado. Possivelmente estaria sonhando até hoje ou vendo um show e pensando “ah se eu tivesse lá, estaria mandando ver” sem a menor ideia do que é “mandar ver”. Que ilusão. 🙂

A gig de hoje é essa deliciosa prática de banda de jazz e beatles. 🙂

Não é preciso tocar um instrumento para gostar de música, mas poder aprender um instrumento e tocar com outras pessoas significaram experiências que transcendem a arte. Aprendi mais sobre mim, sobre conviver com o outro, sobre dividir perrengues e pequenas vitórias num palco. E num fechamento recente na análise, que é preciso muita repetição para ser bom em alguma coisa.

Hoje, completando 37 anos, tenho entendido mais o valor do esforço ao invés da inteligência. Há 20 anos, o menino que sempre estudou o suficiente para poder passar nas provas achava que só o esforço análogo serviria pra música. Ele estava enganado. Ainda bem.

Essa história é minha, mas também é de muita gente. Ângelo, Bizafra, D. Pilar, Leo Fares, Tutu, Lelo, Nicolas, Rômulo, Pedro Henrique, Rafa, Marcelo, Daniel, Chacal, Diguinho, Celinho, Diego, Rapha Mancini, Jennifer Souza, Lorena Chaves, Plauto Covre, Kicko Campos, Dedig, Alex Manzi, Arthur Rezende, Glaydson Benevenuto, Samir Nassif, Luciano, Pedro França, Thiago Ceconi, Carol Balbi, André, Felipe, Tainá, Gustavo, Ian. Todos vocês têm uma contribuição na vida musical desse escriba.

Obrigado (e parabéns pra mim)!

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.