(a imagem que ilustra o post é pra dizer que está tudo bem)
Em alguns aspectos, minha vida é conectada com a do Bizafra.
E não digo isso apenas pelo fato de sermos primos, com idades parecidas e termos crescidos próximos, passado algumas férias juntos. Vai muito além disso e eu trago duas evidências:
- Há 25 anos, foi ele quem fez a ponte para que eu tivesse a minha primeira banda, o Álamo. Um mundo e um canal de expressão se abriram a partir do primeiro ensaio e nunca se fecharam.
- Há sete anos, fui formalmente apresentado à sua amiga em um café em uma tarde de domingo. A amiga era a Carol. O café virou um casamento que gerou um casal de crianças e uma cachorra.
Há duas semanas, fomos companheiros de viagem. E eu fiquei muito impressionado com sua mentalidade de produção. Organizou todas as passagens, passeios e deslocamentos; arrumava e desarrumava sua mala com precisão. Algo bem diferente da minha, que só foi reorganizada no último dia de viagem.
Toda essa abertura para trazer o que importa. Há dez dias, ele salvou minha vida.
“Felipe, você teve uma convulsão”, foi o que ouvi dele quando abri os olhos e me vi rodeado de gente no Terminal 1 do Aeroporto de Guarulhos.
Merda. De novo?
Meu voo de Londres havia pousado às 4h30. Fiz todos os procedimentos: troca de terminal, despacho de mala, tomar um café superfaturado, Raio X, até achar um cantinho para começar a escrever e esperar meu voo para Belo Horizonte, que sairia às 10h.
Bizafra chegou em Guarulhos às 6h30 e, por uma dessas coincidências que não são coincidências, conseguiu trocar seu voo para o mesmo que o meu. Quando chegou à sala de embarque, tomamos café da manhã e ficamos enrolando até a hora do voo. Perto da hora do embarque, senti um formigamento no lado esquerdo do corpo.
A minha primeira reação foi tomar o meu anticonvulsivante, que deveria ter tomado algumas horas antes. Engoli os comprimidos, as coisas estabilizaram e resolvemos descer para o portão de embarque.
Enquanto descíamos as escadas, ouvi um forte zumbido no ouvido esquerdo e apaguei. Pronto. Havia acabado de ter a segunda convulsão da vida.
Quando abri os olhos, cercado pela equipe médica do aeroporto e por outras pessoas. Bizafra conta que eu estava começando a descer as escadas, quando comecei a rir. No platô, eu travei o corpo e caí duro. Ele conseguiu amortecer um pouco a queda e pedir ajuda. Três médicas que estavam no vôo nos ajudaram.
Do aeroporto, fui levado para um hospital em Guarulhos. Meu primeiro pensamento (e que acredito ter sido compartilhado) foi lembrar que a primeira convulsão, em março de 2021, tinha sido o começo de toda a minha jornada oncológica até aqui.
Depois de tantos progressos, de estar próximo de levar uma vida relativamente normal, seria tudo aquilo o começo de novo?
A primeira tomografia foi tranquilizadora. Não havia nenhum indício oncológico e nem sangramento decorrente da queda amortecida.
Na madrugada de segunda pra terça, fui transferido para o hospital onde trabalha a equipe oncológica que me atende. Não sem uma dose de emoção. Havia acabado de sair do leito para a maca de transporte e o enfermeiro não a havia travado corretamente. Quase ganhei uma fratura de presente.
Depois, o próprio trajeto entre Guarulhos e o Itaim Bibi foi feito em desabalada carreira. Cada curva era emocionante e, se pilotam assim com um paciente estabilizado, imaginem com um em risco?
Os próximos dias foram recheados de exames e muita cautela. Um ecocardiograma, três eletroencefalogramas, exames de sangue, mais uma tomografia de crânio, face, tórax e abdome. Com direito a ouvir de quem estava na sala: “Felipe, você pode ficar mais embaixo da maca, por favor? Não conseguimos captar sua cabeça inteira“.
Sou cabeçudo de fato, nota-se. E ganhei uma revisão completa de 44 anos e que me exigiu paciência, tentando controlar a ansiedade para voltar pra casa e me recuperar desse susto.
Bizafra conseguiu ir embora na terça de manhã e fiquei bastante feliz em saber que ele chegou em casa e vestiu roupas limpas.
Ao longo da semana, tive o apoio do Tio Ângelo e da Bia. Dona Pilar também voou de BH para São Paulo para ficar no hospital. Fábio, Fred, Pedrinho, Cleuza, Cesar, Angela e Marcos me visitaram para encher este escriba de carinho.
A alta veio no sábado, com a conclusão de que o escape convulsivo pode ter acontecido pela viagem, pelo cansaço, pelo sono picado e a dose do anticonvulsivante estava baixa. Me mantiveram em observação para ver como eu toleraria o aumento da dose. Tudo correu bem e a vida segue.
Nesse ínterim, tento me superar do susto e lidar com a coleção de limitações temporárias: não posso ficar sozinho e não posso dirigir, o que pra mim é um preço muito alto. Fico naquela sensação de que dei alguns passos para trás quando estava caminhando pra frente. (Num drama barato, até pensei em fazer uma camiseta com a palavra “inválido” em letras garrafais).
Ao longo desses dias tenho pensado nos “e se”…
E se eu estivesse muito longe de casa? E se eu estivesse sozinho? E se fosse no meio do lance das escadas?
Mais importante: E se o Biza não estivesse lá?
Tudo teria sido bem diferente, mais difícil e realmente dramático. O legal é que deu certo e as coisas têm dado certo. Nas coincidências que não são coincidências, se tem alguém lá em cima cuidando de mim, essa pessoa tem feito um bom trabalho e me protegido.
Sigamos assim, com mais uma história pra contar e mais um registro para quem me acompanha.
(Para fechar, uma foto linda do Bizafra para embelezar o texto.)

Pilar
Essa foi a melhor forma de você entender oque passou. Você escreve leve e profundo ao mesmo tempo. Te amo!
Julia
Viva este primo-presente
Rachel Mello
Primos são nossos irmãos lateralizados, por vezes até melhorados. Salve Bizafra, as viagens, as sincronicidades e o aconchego. Não dirigir e não poder fica só para mim seriam um presente! Curta!
Estevan Paiva
Não o conheço, mas já amo o Bizafra!
Fabio
Essa sua forma tão leve de escrever sobre os sustos, os afetos, o cotidiano é um respiro.
Luciana Pordeus
Que susto, Felipe! Que bom saber que tudo terminou bem. Seu texto toca pela delicadeza, pelo afeto e pela forma tão bonita de transformar um momento difícil em gratidão. ❤️
MARIA DE FATIMA ALMEIDA E ALBUQUERQUE
… e no meio do caos essa celebracao do amor…
Gabriel Albuquerque
Uma fortuna de vivências. Portais e mais portais. Muito bom estar contigo nessa aventura, Phelps!!
Obrigado
Ricardo
“Um susto” é pouco. Uma sequência de sustos! Eu aprendi muito com esse episódio também, Cabeça. Fiquei um pouco impressionado com minha calma pra resolver a situação, lembrar dos básicos (colocar de lado, não por a mão na boca), assinar as papeladas, lidar com mil perguntas e tudo o mais. Mas era o carinho envolvido ali que fez eu não deixar a bola cair de jeito nenhum. E a certeza de que estamos juntos nessa aí e de que o carinho é recíproco. Vamo que vamo.