17 de maio de 2021 Felipe

O caminho se faz é caminhando – Parte zero

Mancha na Tomografia, indicada pelo amigo Rodrigo Lanna.

Prefácio

Esta história é longa e ainda está em construção. Aos poucos, as perguntas tornam-se respostas e as coisas ganham mais clareza. Escrever é a forma que eu organizo o meu mundo, e tinha muita coisa represada aqui.

O objetivo é compartilhar com vocês a forma como estou encarando todo o processo, como me cerquei de pessoas e energias boas e, sim, como posso (podemos) aproveitar esses momentos para colocar a vida em perspectiva e valorizar o que realmente importa.

Espero que gostem do relato e que ajude de alguma forma. Sejam pacientes e tenham paciência comigo. Bebam água.

Capítulo Zero

Aos 38 anos e seis meses de vida, eu só tinha feito sutura por três motivos. Aos 21 e depois dos 30, quando precisei arrancar dentes e colocar uma prótese de titânio. Dos 17 pra 18, quando quase virei sócio honorário da Dr. Scholl e fiz todo tipo de solução possível pra resolver um problema grave de unha encravada. Finalmente aos dez, quando levei dois pontos na cabeça porque escorreguei e bati a cabeça em uma árvore na Escola da Serra, enquanto corria de duas meninas que eram apaixonadas por mim (ah, quanta inocência!).

Aliás, no caso do corte na cabeça, eu dei um showzinho com meu bom e velho pai a caminho do João XXIII, o pronto socorro de Belo Horizonte. Lembro de chegar e gritar “Dois milhões de pessoas moram em BH e quem é escolhido para tomar ponto na cabeça? Eu!”

No papel de paciente, essa era a minha experiência com hospitais e similares. Eu não tenho dor de cabeça, mal tomo medicamentos, durmo bem, sou uma pessoa de sorte. Eventualmente aparecia alguma sinusite ou “virose”, mas o procedimento sempre foi o mesmo. Entrava no hospital, resolvia o problema em algumas horas e ia embora medicado pra casa. Sempre uma linha reta. Por isso, fiquei sem entender quando, no comecinho da manhã de 17 de março, a plantonista do Hospital Alvorada me disse: “Felipe, sua tomografia está alterada e por isso vamos te internar”.

Oi?

Vou contextualizar.

No comecinho de fevereiro, tive um mal estar noturno absurdamente esquisito. Estava em Minas, na divisa entre Nova Lima e Itabirito, que tanto me acolheu durante o começo da pandemia no ano passado. No meio da madrugada, do nada, acordei com o estômago revirado, enjoo e ânsia de vômito. Era uma dor completamente nova pra mim.

Ardia, doía, parecia um bolo crescendo dentro da barriga. Não achava nenhuma posição para dormir e, depois de revirar na cama por alguns minutos, a dor passou. Como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.

Acordei com a sensação de ressaca e associei ao churrasco e à cerveja do dia anterior. O Bizafra, meu primo, havia feito uma visita no dia, a gente fez um churrasco, tomamos algumas cervejas e só. Não foi nada fora do extraordinário, mas a dor tinha sido muito viva. Não era sonho ou pesadelo. Tinha sido real. “Voltando pra São Paulo, preciso olhar um gastroenterologista e entender o que está rolando”.

Pra quem nunca teve nada, assusta. Que merda de dor havia sido essa? Por que tive aquilo? Vai aparecer de novo? Preciso me preocupar ou não? A nossa ignorância é tanta e ficamos tão surdos ouvindo as coisas que não importam que eventualmente, largamos as coisas pra lá. Tive uma dificuldade para ir ao banheiro, e eventualmente tudo voltou ao normal. Depois de uns dias, o mal estar sumiu.

Caralho, que susto. Um dia vou ao gastro e resolvo isso.

Porém, do jeito que veio e foi, o “acontecimento” – ainda não achei um termo bom pra isso – resolveu voltar e ficar. Sempre de noite e sempre da mesma forma. Era pegar no sono e o enjoo noturno aparecia. Junto, vinham a ânsia de vômito, um formigamento no braço esquerdo, gosto terroso na boca como bônus, e pensamentos delirantes parecidos com os de febre alta, mas sem febre alta.

É curioso como tenho dificuldade em definir a parte da febre alta. O jeito mais fácil é lembrar de um episódio de febrão que tive quando era novinho e lembrava que delirava imaginando casas pequenas sendo esmagadas por pedras muito grandes. Coisas muito fora de proporção e que assustavam.

Era muito vívido, muito real. Mas nunca demorava. Do mesmo jeito que vinha, ia embora. O sentimento não durava mais do que um minuto, se tanto. Cheguei a comentar com meus pais e havia associado ao stress. Dentro de uma linha do tempo, já estamos no meio de fevereiro, um pouco depois do carnaval. Eu e Carol havíamos viajado para Santo Antônio do Pinhal e tinha tido noites boas, sem dores ou sustos.

Continuava firme de que era stress ou ansiedade. Muita coisa acontecendo no trabalho, vovó Rachel estava mal (e respirou para sempre em 21/02), não estava achando tempo para treinar, D. Pilar considerando desmontar o apartamento na Bela Vista, e ao mesmo tempo que ela achava um novo lugar para morar em Belo Horizonte, eu precisava achar um apartamento em São Paulo. Isso eventualmente se acertou com uma oferta generosa do João Lacerda. Um apartamento do tamanho certo, no local certo, e um problema a menos no meio do caos.

Nada estava normal, nada estava “estável” e ainda assim, ao invés de entender a dualidade e a inconstância que a vida é, eu continuava em um estado de ansiedade. A sensação vinha toda noite, já em um ponto onde eu esperava aparecer. Sempre seguindo um mesmo padrão.

Meu maior medo era não assustar a Carol. Nem precisei me esforçar, porque no sábado, 13/03, tive o mal estar logo antes dela dormir e eu não consegui explicar o que havia acontecido. Na minha cabeça o processo era conhecido, mas como era algo misterioso, tive muita dificuldade em explicar o que havia sentido. Dias depois, tive a pior sensação da vida até agora.

O dia 17 de março foi um dia produtivo, porém difícil. Choveu bastante em São Paulo e era o quinto dia na casa nova. Ainda estava no processo de tirar a cidadania de Moema, afinal havia me tornado um moemer convicto, morando a cinco quarteirões de distância da Carol.

Jantamos, tomamos duas cervejas e antes da meia noite, estávamos deitados para dormir e o mal estar veio. Na minha cabeça foi tudo muito rápido. Só lembro de girar o corpo com o mandíbula travada, gemer alguma coisa para a Carol e apagar completamente.

Apagão total e um período indeterminado de silêncio e paz.

Acordo meia hora depois, super enjoado, querendo ir ao banheiro vomitar. Quando começo a entender a situação, olho pra Carol me segurando na cama e me pedindo para ficar quieto. “Você teve uma convulsão e o Samu está chegando”, ela me disse.

– Amor, eu preciso ir ao banheiro vomitar.
– Vomita no chão, a gente resolve isso depois. Fica quieto!

Ao fundo, eu ouvia o final da ligação e acho que a ambulância apareceu um tempinho depois. Eu estava puto, era a segunda vez que eu ia dormir no apartamento novo e eu tinha começado com esse cartão de visitas.

Fui recobrando os sentidos, o enjoo passava e até a hora que o Samu efetivamente chegou, eu já estava bem. Desci sem assistência, entrei na ambulância e no Hospital Alvorada sem nenhuma assistência. Batia um papo com a equipe de enfermagem como se nada tivesse acontecido.

(Aliás, esse é meu mecanismo de defesa, começo a falar sem freio).

Eu melhorei e estava zerado como em todas as outras vezes que havia sofrido do mal estar. Mas dessa vez, eu tive convulsão. Muito menos assustado do que a Carol, óbvio, mas assustado com o fato de ter convulsionado.

Chegamos, fiz uma batelada de exames de sangue, urina, raio X do tórax (imagino que por conta da Covid) e tomografia computadorizada. E esperamos. Esperamos pra caramba. Na minha parca experiência hospitalar, eu só imaginava que a quinta-feira seria terrível.

Carol entupida de reuniões, o meu dia começaria às 8h, e a gente ali, preso no hospital esperando os resultados dos exames. No processo de espera, tive tempo ainda pra um outro rápido episódio de mal estar, sem convulsão e sem nada.

Até que às 6h, a plantonista nos chama e fala “Felipe, sua tomografia está alterada e por isso vamos te internar”.

Oi? Como assim, moça? Você tá bem? Porque eu tô ótimo. Que mancha é essa que você achou? Checa de novo.

Segundo a plantonista, a teoria era que eu tive um AVC em uma região não eloquente do cérebro e a mancha na tomografia, assim como a convulsão, eram uma cicatriz desse evento. Por um lado, aquilo não fazia o menor sentido pra mim, afinal um AVC sempre foi sinônimo de sequela e eu estava ótimo. Por outro lado, isso fazia sentido porque ajudava a explicar a sequência de eventos que havia ocorrido desde fevereiro.

Mancha na Tomografia, indicada pelo amigo Rodrigo Lanna.

 

 

Mensagem que mandei para o grupo dos meus amigos enquanto esperava um quarto

 

Mensagem que mandei para Dona Pilar quando descobri que seria internado.

Consegui avisar a família, o Marcos, e os amigos mais próximos antes da bateria do telefone morrer.

Super legal, né? A primeira emergência da vida e deixo todo mundo sem notícias. Enquanto eu esperava um quarto, Carol foi nas duas casas e voltou com roupas, carregador do meu telefone e com a notícia de que Natália e Aloízio estavam voando de Belo Horizonte para dar assistência. Quando religuei o telefone, o grupo dos meus amigos tinha um caminhão de mensagens, liguei para o papai e ele disse que nunca esteve tão feliz em falar comigo.

Tratei de tentar tranquilizar todo mundo. Eu era uma compilação de memes ambulante, já medicado e dormindo bem. Assustado com a ideia de ter tido um AVC, mas feliz em estar bem, sem sequelas e vivo.

O resto da quinta e a sexta-feira foram tranquilos. Fiz uma batelada de exames, ultrassom de abdômen e carótida, ecocardiograma e a primeira visita à ressonância magnética.

Uma das experiências mais claustrofóbicas da vida e, como disse no grupo dos meus amigos, é difícil imaginar alguém conseguir ter uma ereção dentro de uma máquina que faz barulhos que misturam um show da banda “Man or Astroman?” com a UVB-76, a rádio espiã russa. A ressonância magnética merece um capítulo próprio, imagino, porque eu acho uma experiência muito desconfortável. E já passei por cinco delas e contando.

E tudo era muito esquisito, porque obviamente havia uma aura de seriedade no meu caso, seja com os cuidados, exames e medicamentos, mas eu me sentia perfeitamente bem. Falando sem dificuldades, coerente igual sempre me senti. Agora, medicado, assistido e sem saber a razão de estar internado em um hospital.

Mas o fato é que acabei recebendo alta no sábado, 20/03. Saí do hospital com o diagnóstico de que eu tive um micro AVC, abscesso ou isquemia em algum momento da vida, e que aquilo havia se tornado um ponto epilético. Poderia investigar fora do hospital e, por isso, começamos a coordenar a vinda para Belo Horizonte. Embarcamos, nós 4, no domingo, 21.

Afinal, toda família tem uma extensa rede de informantes, com a minha não é diferente. Enquanto eu estava no hospital, ligações estavam sendo feitas e opiniões sendo colhidas. O clínico geral da mamãe falou que essa dor de estômago e formigamento eram coisas do cérebro mesmo. Papai estava em contato constante com o Dr. Paulo Caramelli, neurologista que atendeu a vovó na fase final da vida. E ele foi enfático: “pode ser muita coisa. Até tumoral“.

Opinião compartilhada por um médico amigo da minha tia. “Uma mancha desse tamanho é um tumor ou sinal de uso extenso de drogas“. Eu ri desse diagnóstico. Caretinha que sou, na pior das hipóteses, “uso extenso de drogas” significaria ter bebido alguma vodka ou cachaça de qualidade duvidosa. Eu poderia rir dessa pessoa.

Ou de mim.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (8)

  1. Leleo

    Cacete, que relato! Tava curioso pra saber dos bastidores, principalmente contado por você!

  2. Cida Lacerda

    Felipe, te amo muito. Te admiro cada dia mais e sinto imensa alegria em conviver e compartilhar nossas vidas, sobrinho porreta!

  3. Opa.
    Que susto, hein! Cliquei no tweet sobre o cara “animado” na ressonância e quase acordei os meninos aqui em casa ! hahaha
    Voltando ao assunto, tá tudo plenamente bem encaminhado. Afinal, você tá contando aqui e com a qualidade textual habitual. Pode ter certeza que as palavras-chave vão acabar servindo de orientação para quem porventura buscar pelo assunto.
    Quando eu tive câncer de testículo em 2014, as reações foram idênticas às da sua situação (de “tranquilidade”) e da esposa e da família (buscando informação de tudo quanto é lado). Eu li um relato no site Papo de Homem, que batia exatamente com as orientações que eu estava recebendo, me deixou mais tranquilo. Cheguei até a escrever um pouco no blog, mas não tenho disciplina pra isso… Mesmo assim, recebi muitas mensagens desde então, de homens passando por situações semelhantes. Foi gratificante também servir para ajudá-los de alguma maneira.
    Abraço e muita saúde aí!

  4. Ana Paula Aragoni Gomes

    Fe, você sempre foi muito bom com as palavras!
    Esse relato rico em detalhes, parece história de filme!
    Não consigo imaginar o tamanho susto e angústia que você, Carol e toda a família passaram…
    Espero que você se recupere totalmente logo!
    Beijos,
    Ana Gomes

  5. Maria Célua

    Não conheço Felipe, mas conheço Pilar! Apenas um capítulo e reconheço um homem divertido, objetivo e, essencialmente de bom coração. Imerso em um cenário de dúvidas sobre sua saúde e, sintomas de mal estar “gástrico”, consegue ser amável, engraçado e inspirador. Filho de uma mulher determinada, Felipe herdou de sua mãe a sensibilidade de seguir, sem ignorar suas vivencias.

  6. Walter Romano

    Que intenso saber o início dessa jornada através da sua lente. Feliz de ler sabendo que você está se recuperando bem. ❤️

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