26 de fevereiro de 2021 Felipe

Para d. Rachel

D. Rachel e Tutu em 1985.

“Feche seus olhos e conte até um. Isso é quanto tempo ‘para sempre’ seria”.

Dona Rachel contou até um na noite de domingo, aos 94 anos. Em paz, “como um passarinho”, ela diria. Um alivio para nós e para ela e ainda bem que não foi diferente. Quem viveu a vida de maneira tão enorme, não merecia passar pela fase final do mal de Alzheimer. Até então, enfrentou com uma coragem tremenda.

Foi um privilégio poder realizar essa coragem, ultimamente. Em vários momentos, isso foi o que me faltou para vê-la e para entender a desconexão que a doença traz. “As luzes estão acesas, mas ninguém está lá”. Papai fala que a vida vale pelos bons encontros e agora tenho certeza que precisamos aproveitá-los até o final.

Vovó foi nossa companhia de viagem para Bonito, João Pessoa e Buenos Aires. Juntava as pessoas nos saudosos almoços árabes nas sextas-feiras, era a pianista que dividiu um sem números de execuções d’”O bife”, a única música que sei tocar no piano. Sua casa serviu de apoio e repouso para sua mãe e suas tias já na fase final da vida. Na frente culinária, certa vez D. Rachel quis me convencer de que meu macarrão deveria estar al dente. Não consegui argumentar que o macarrão no caso era um miojo, onde as regras não se aplicam.

Não conheci o vovô Anuar, que morreu três anos antes de eu nascer. Do lado materno, a vovó Teteca morreu subitamente em 1995. Seis anos depois, foi a vez do Pancho. Agora, nos despedimos da D. Rachel. A idade não muda a tristeza e a saudade, a gente só aprende a processar as coisas de outra forma.

Finalmente, esses últimos dias foram importantes para celebrar os bons encontros, as nossas origens e nossos caminhos. Tenho muito orgulho e alegria de ser neto da d. Rachel e do dr. Anuar, do dr. José e da d. Therezinha. Preciso aprender todo dia com a coragem, a resiliência e a vontade de mudar o mundo, cada um da sua forma, que eles tinham. Aprendo todo dia também sendo filho do Léo e da Pilar e irmão da Natália.

Agradeço por isso sempre.

D. Rachel deixa seus seis filhos, nove netos, quatro bisnetos e um legado do tamanho do mundo para passarmos pra frente.

(Eu amo essa foto. Ela e a Natalia em 1985)

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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