O tempo se faz é vivendo #5 – Cabeça aberta

11 de junho de 2026
11 de junho de 2026 Felipe

O tempo se faz é vivendo #5 – Cabeça aberta

A gente espera que haja linearidade em coisas parecidas quando não há muitas delas na vida. E essa cirurgia não foi diferente.

Eu sabia como seria o procedimento, mas não conhecia os detalhes. Será que eu realmente seria acordado durante a cirurgia? Iria para o quarto antes do bloco? Essas coisas.

Cheguei ao hospital e fui para o quarto. Quando o técnico de enfermagem chegou para me levar, tivemos um diálogo meio “Drácula, morto mas feliz”.

Ele apareceu com o avental na mão e pediu que eu me trocasse.

— Perfeitamente.

Entrei no banheiro, tirei a roupa, coloquei somente o avental e perguntei:

— Coloco para frente ou para trás?

— O anestesista quer que você coloque para frente.

— Tudo bem, mas posso colocar uma cueca? Porque não sei como me sento. Talvez como uma pessoa da família real, sentado de lado para não mostrar as partes.

— Pode colocar.

Voltei ao banheiro e reapareci de cueca.

— Talvez seja melhor tirar a cuec… fica de cueca. Melhor. Põe o short cirúrgico.

— Mas, moço, eu não sei onde ele fica.

(Estava escondido no armário do quarto.)

Finalmente paramentado, me despedi da família e desci com a Carol para o bloco. Fui apresentado ao anestesista.

Me encaminharam para a sala, me despedi da Carol.

E o que eu fiz assim que entrei?

Desandei a falar. Não tão nervoso quanto da primeira vez. Mas acho que é de bom tom quebrar o gelo e criar um mínimo de empatia com quem vai abrir a sua cabeça em breve.

Dei oi para quem cuidaria da neuronavegação, conheci a assistente que trabalha com o cirurgião há vinte anos.

Deitei na maca e meu papo passou a ser com o anestesista.

— Doutor, eu lembro que, da última vez, quando mencionaram o propofol, fiquei muito impressionado. Foi a causa da morte do Michael Jackson.
— O problema é tomar propofol em casa. A crise de opioides nos Estados Unidos é muito grave.

Enquanto isso, ele procurava minhas veias para conseguir acesso.

— Felipe, suas veias são tímidas?

— Eram muito extrovertidas, mas a idade deixou todas mais quietinhas.

— Pois é. Estou com 46 anos e está cada vez mais difícil acharem as minhas. Mas espera aí… achei as suas.

Ele disse que eu começaria a ficar mais relaxado.

— Estou ficando doidão. Deixa eu só lembrar de três coisas aqui. Continuo cruzeirense. Prince é melhor que Michael Jackson e…

Dez horas depois.

— Acorda, Felipe! Onde você mora?

Dei o meu endereço.

— Você é solteiro ou casado?

Em resposta, fiz um grande compêndio da minha vida.

No trajeto entre o bloco e o CTI, ainda consegui discutir a convocação do Neymar para a Copa.
— Não gosto, mas acho que ele fez o certo. Se perder, pelo menos levou. Se ganhar, é porque levou.

Percebi que estava com a mão esquerda enfaixada e com alguma dificuldade de movimento do lado esquerdo do corpo.

— Olha só. Minha mãozinha de Gabigol expulso por gestos obscenos.

Quando meus pais e minha irmã chegaram, ainda brinquei que estava feito meu avô Pancho, que passou horas fazendo costuras imaginárias enquanto se recuperava de uma cirurgia no pescoço.

Acho que herdei dele os olhos claros e o pós-operatório.

Comments (3)

  1. Paula Basques

    Não me canso de dizer: seus textos são muito especiais. Esse me emocionou e me divertiu às 7h30 de um dia que tá mais pra “e agora, José?

  2. Rejane

    Felipe, adorei sua crônica!! Vc é muito bom nisso. Se ainda não pensou nisso, Sugiro explorar essa possibilidade, profissionalmente. Vai bombar!!!

    Sigo acompanhando sua recuperação e torcendo para você retomar seus projetos que tenho certeza, serão de sucessos!!

    Beijos

  3. Walter Romano

    Belo texto, meu querido. Parece que o sistema operacional 3.0 aguçou ainda mais sua capacidade de escrever crônicas. Sigo curioso pela terceira coisa que você lembraria antes que o propofol te abençoasse com o melhor sono do mundo. Abração!

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