(Escrito antes da cirurgia. Reli pra saber se fazia sentido e faz, agora com algumas observações pós-processo)
Jerry Maguire é um dos meus filmes preferidos.
Eu gosto do filme porque fala de esporte, de futebol americano, e de como funciona a relação entre um atleta e seu agente. Para o Felipe de 14 anos (esse filme é de 1996!), curioso e sempre apaixonado por esportes, isso significava muita coisa.
Gosto do filme porque o Maverick de “Top Gun” e o Cole Trickle de “Dias de Trovão” agora é um agente esportivo. Já adulto, percebi que o personagem Jerry Maguire tem um arco dramático e comportamento babaca semelhantes aos dos outros dois e isso é papo pra outro momento.
Foi nele que eu conheci a Renée Zellweger e era impossível evitar uma paixonite platônica, e o Cuba Gooding Jr., que eu queria ser amigo.
E o filme tem seus momentos icônicos: o memorando no começo, o “show me the money” no meio, o desmaio e redenção no final. Passados 30 anos e considerando especialmente o recorte entre 2021 e hoje, estas três partes ainda fazem muito sentido pra mim, porém com um significado mais profundo.
É sobre isso que eu quero falar.
O memorando “The Things We Think and Do Not Say” (“As coisas que a gente pensa mas não fala”) escrito por Jerry no começo do filme e que acarreta em sua demissão. Quanta coragem foi necessária para trazer à tona o que pensava sobre as práticas nocivas do seu trabalho. Quem nunca quis fazer isso?
Eu já, e nunca foi um desejo restrito às relações profissionais. Porém, nunca fiz o tanto quanto deveria. Muitas vezes, para não ferir a régua subjetiva do bom senso, achei que o caminho mais fácil era manter-me longe de mim, evitando o medo de atrapalhar uma amizade, ser visto como grosseiro, parecer desinteressante ou perder a imagem de pessoa legal.
O resultado foi sempre o peso emocional imenso em não conseguir falar quando me senti invisível, não ouvido ou desrespeitado. Agora, velho e barbudo, tenho trabalhado em formas para deixar o caminho mais leve.
“Show me the money”. O medo de me posicionar acaba refletindo na segunda passagem: o medo de tocar no tema “dinheiro” nas relações profissionais.
Aos 14 anos, achava que Rod Tidwell estava sendo rude com Jerry ao falar sua única exigência para assinar um contrato: “me mostre a grana”.
Por muitos anos, já inserido no mercado de trabalho, continuava achando meio esquisito quando via pessoas abordando diretamente este tema. Afinal, pensava que o bom relacionamento e a simpatia vinham antes. Demorei mais alguns anos para entender que é possível ser legal, cortês e simpático e também falar sobre dinheiro.
Queria ter sacado isso antes, no entanto. Me pouparia algumas angústias e, quem sabe, teria adiado a chegada de alguns cabelos brancos.
Finalmente, a cena derradeira do filme. Rod Tidwell recebe a bola, marca o touchdown, cai de maneira brusca e desmaia. Após alguns minutos de apreensão no estádio e na casa da sua família, ele acorda e não pede ajuda: pede apenas para curtir o momento. Depois de anos sob o julgamento cruel da imprensa e dos torcedores, Rod finalmente desfruta do carinho.
Fiquei pensando nessa cena e percebi que havia interpretado de maneira muito errada todo o carinho, preocupação e apoio que recebi em 2021, da outra vez que abri a cabeça para tirar o tumor.
Quando eu vi pela primeira vez, eu pensei “é isso aí, Rod Tidwell! Você está passando por esse susto para finalmente ser reconhecido por tudo o que você fez!” e precisou ter essa pancada para conseguir ser visto.
Quando tive o primeiro diagnóstico e as duas cirurgias, pensei que havia achado um caminho. Sempre estava compartilhando, criando, construindo a minha história e não me via reconhecido por isso.
E aí o que aconteceu foi passar pela cirurgia, compartilhar o ocorrido e ser visto e imaginar que aquilo era o que me definia. E somente aquilo me definia.
Transformei aquilo na grande verdade. Num ponto onde a minha apresentação chegava a ser “oi, sou o Felipe, e talvez você não esteja vendo, mas essa cicatriz é porque eu retirei um tumor da cabeça”.
O lance foi perceber que isso é só um detalhe da minha história. Existem as coisas que eu sou, as coisas que eu construí, as coisas que ainda vou fazer. E é isso que me define.
O trabalho terapêutico de olhar para trás fala muito sobre escrever um memorial. E não como uma forma de despedida, mas uma forma de registro e lembrança.
E perceber as relações, as construções da vida e na carreira é o que realmente deixa marcas e me aproxima das pessoas.
Fiz jornalismo, trabalho com treinamento e desenvolvimento. Eu escrevo, eu toco bateria, sou fotógrafo. Gosto de café. Eu sou uma porção de coisas e tenho me sentido longe de mim. Agora é hora de estar perto.
O carinho e a preocupação não apareceram por conta do primeiro ou do segundo caso, sempre estiveram lá.
Ponto pra mim.
Marcos
É isso, meu amigo, você é muitas coisas. E eu tenho orgulho de fazer parte de uma pequena parte da sua história. S2
Walter Romano Curi
Bravo! Obrigado por existir ❤️
Aparecida Lacerda
Te amo e admiro desde sempre!
“Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora”
Cleuza Repulho
Se depois de mais uma cirurgia vc escreveu e reescreveu tem meu respeito, pq amor e admiração já tem faz tempo. Seguimosss
Carlos Eduardo
Felipe, mais uma grande qualidade sua, sem contar o dom da escrita: gostar do filme Jerry Maguire. Foi esse filme que me fez trabalhar com atletas!!