O tempo se faz é vivendo #3 – Medo

4 de maio de 2026
4 de maio de 2026 Felipe

O tempo se faz é vivendo #3 – Medo

– Como você está?
– Com medo.

É engraçado ter esse sentimento agora, sendo que lidei de uma forma mais leve com a situação da primeira vez, há cinco anos. Parecia ser mais fácil estar com um tumor cerebral quando tudo era novidade e quando tinha pouco a perder. Agora, lidando de novo, o medo está mais presente, ainda que de forma compartimentada.

Eu não tenho medo da cirurgia e tudo que gravita em torno dela: sondas e cateteres, corte de cabelo, anestesia, ser eventualmente acordado, UTI, etc. Essa é a parte fácil.

Tenho medo das coisas que deram certo da primeira vez darem errado nessa: minha recuperação, sair com as funções cognitivas e intelectuais intactas, os bons resultados da biópsia. E na minha cabeça que cria muitos cenários, como me dizem, significa tempo abreviado. Quase viver o lado “quanto tempo me resta?” que escrevi no primeiro texto.

Aí fico com raiva de mim mesmo por ainda não ter conseguido criar um grande reserva para as pessoas que ficam. E, talvez mais importante, sentir a falta e ser a falta dessas pessoas: filho, filha, esposa, pai, mãe, irmã, sobrinhos e sobrinha, família, amigos.

Não estou falando absolutamente nada quando falo sobre criação de cenários. Isso tem um nome: ansiedade. Há 400 anos, Michel de Montaigne escreveu em “Dos Prognósticos”:

“Ainda assim, restam-nos alguns meios de adivinhação através das estrelas, espíritos, partes do corpo, sonhos e outros, todos exemplos notáveis ​​da curiosidade obstinada da nossa natureza, que se deleita em preocupar-se com o futuro como se não tivesse o suficiente com que lidar no presente.”

É bem isso. Minha preocupação com o futuro não aparece lendo estrelas, horóscopo (sou leonino demais para acreditar nele) ou decifrando meus sonhos. Me preocupo com o futuro vivendo a ansiedade e não o presente de (ou “que é”) estar vivo e rodeado de pessoas incríveis e poder fazer planos.

Também como disse no primeiro texto, fazer planos mora na intersecção entre “para velhice vou” e “quanto tempo tenho?”. Por isso, é praticamente um exercício sentar, mentalizar e quase falar em voz alta sobre a necessidade de viver o dia presente, criar cenários, fazer e executar planos.

Não é (nunca é!) uma virada de chave. É um exercício que parece exigir mais energia quando se está com a cabeça cheia de forma literal e figurativa.

Como disse Luciano de Samóstata, em uma citação do próprio Montaigne:

“Que a mente dos homens seja cega para o que está por vir. Que aqueles que temem possam ter esperança.”

Nota para mim mesmo.


A foto que ilustra o post foi feita em Kazan, Rússia, em agosto de 2019.

Referência textual: “Against Prognostication“, do Austin Kleon.

Comments (11)

  1. Leticia Chamoun

    Receba meu abraço apertado e toda a minha energia positiva! Meus pensamentos dizem que vc ja venceu!

  2. Leleo

    Você é foda, cabeça! Tamo junto, e que a gente, um dia, lide juntos com o futuro que nos anseia hoje.

  3. José Lacerda Almeida Silva

    Felipe, vc é uma pessoa ímpar. Uma família maravilhosa, e com certeza já deu tudo certo. Lindos textos.
    Um beijo no ❤️

  4. Salete

    Felipe, suas reflexões, tensões, medo e coragem, iluminam minha vida e os roteiros que dela fazem parte.
    Tamo juntos.
    Te amo e te admiro,
    Tia Salete

  5. Gabriel Albuquerque

    Você é foda, Felipe. A vida é uma aventura grandiosa, sobretudo em sua companhia. Vamos juntos! Para o infinito e além! Escreva mais! E desenhe! E toque música!

    • Fabio Mariano

      Gosto de pensar o quanto você pensa e o quanto de vida tem nisso tudo. Pensar no tempo que resta é dificil, mas pode ser criativo. Pensar na velhice pode ser criativo, mas é difícil. Portanto, bora viver o agora e comemorar o depois com todos nós aos seu lado. Dará tudo certo!

  6. Aparecida Lacerda

    Te amo agora e sempre, seja lá o que nossa ansiedade der conta de entender o sempre.

  7. Marcinha

    Eu só tenho uma coisa a dizer: o destino não nos reservou coisas tão incríveis pra tirá-las da gente!
    Já deu certo desde sempre, vai continuar dando e você ainda terá muita história pra contar e textos pra escrever!
    Conte com a gente sempre!
    😘

  8. José Roberto Marzullo

    Felipe, como eu aprendo com você. Estamos em momentos diferentes não tenho tanto futuro, é sobre isto que tenho pensado: como viver o que ainda resta, pensar mais no agora?

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