1 de junho de 2021 Felipe

O caminho se faz é caminhando – Parte final – a segunda cirurgia

06/05/2021 - na manhã depois da segunda cirurgia. Foto da Carol Brant.

Epílogo: Por ora, essa é a parte final de todo o processo. Eventualmente, pode ser que pintem uma ou outra atualização. Foi uma alegria poder compartilhar e ter tanta gente para ouvir a história. Escrever é a maneira como organizo meu mundo e foi a melhor forma para contar tudo isso. 🙂

(Terça, 01/06, dia 29)

A segunda cirurgia

No texto anterior, disse que o Dr. Marcelo nos visitou na terça-feira e comentou que iria me operar novamente no dia seguinte, quarta, 5/5, ao meio dia. A ideia era tentar retirar o restinho do tumor. Dessa vez, seria uma cirurgia bem mais rápida, porque já sabiam dos acessos e tinham um conhecimento do procedimento e da cabecinha. Adicionalmente, estaria dormindo durante todo o período.

Existe uma divergência na forma como aceitei esse momento. O ponto pacífico era que quem já tinha lidado com a primeira intervenção, a segunda seria mais fácil. Na minha cabeça dopada, foi uma decisão rápida. “Bora fazer“. Mamãe e Carol discordam. Dizem que eu fiquei uns 30 segundos olhando pra ele e pra elas, até concordar.

A noite de terça pra quarta foi horrível. Cheia de interrupções, porque a cabeça estava tentando descansar, mas em vão. Eu havia dormido muito de tarde, era a final do BBB, era a morte do Paulo Gustavo e não tinha força para dormir, para achar uma posição, sentia calor e frio alternadamente e as perneiras enchiam o saco. Praticamente cochilava e levantava de hora em hora para ir ao banheiro.

E voltei para o bloco cirúrgico de novo na quarta. Nesse ponto, o espírito para a segunda cirurgia era bem diferente do espírito da primeira. Eu sabia que meu corpo aguentaria, eu sabia o que iria acontecer, mesmo que de forma grosseira. A única grande diferença era o sono absurdo e o corte já existente na cabeça. Fiquei um bom tempo cochilando na sala de pré-cirurgia, esperando alguém me chamar. Não precisava fazer sala, não estava preocupado com o pró-pé rasgado. Eu só queria operar.

Entrei junto com o Dr. Marcelo na sala de operação, deitei na maca e lembro de reencontrar a neurofisiologista da primeira intervenção.

– Ei, Felipe! Lembra de mim? Eu estava na cirurgia da segunda-feira.
– Lembro sim, Taís. Aliás, você me deixou falando sozinho na segunda!
– Mas hoje estarei aqui o tempo inteiro.
– Que bom. A sala me parece mais vazia hoje.
– Não, não. Logo enche de novo!

Verdade ou mentira, jamais saberei, porque apaguei completamente. Só lembro de alguém falando: “Felipe, são 20h30. Sua cirurgia acabou e vamos te devolver pro CTI“. Durou bem mais do que o planejado, o que foi um sinal de que tudo havia corrido bem. A cirurgia em si acabou antes das 20h e saí para o CTI nessa meia hora depois.

Eu poderia escrever bastante sobre essa maravilha chamada anestesia geral e não lembrar de absolutamente nada do processo. Nada. Nessas 20 e tantas horas de procedimento, eu lembro somente de conversas antes da anestesia, o período que fiquei acordado durante a primeira intervenção e as conversas pós-cirúrgicas. Só e nada mais.

De volta ao meu cantinho, vejo Carol e Natália por alguns minutos e volto para outra noite que não entra na lista das melhores que já tive na vida. Era difícil achar posição para dormir, tinha que lidar com alguma dor. De novo, tudo parte do processo. Era muito cedo quando acordo na quinta, com o Dr. Marcelo perguntando qual era meu endereço. Momentos de tensão. Meu cérebro, remexido e com mania de cobrança, deve ter pensado “opa, lá vamos nós de novo“. Podia falar o endereço de São Paulo, o endereço da mamãe ou do papai aqui em BH. Optei pela terceira opção e com sucesso.

Legal, minha irmã mora pertinho de você“, ele respondeu. Pra quem enfrentou outras tantas horas de cirurgia, até que meu cérebro deu conta do recado. Ainda apertei suas mãos com toda a força possível (e eu não tenho a menor ideia do quão forte foi) e, ainda no CTI, também recebi a visita do Dr. Enaldo, chefe da Oncologia no hospital. Ele conversou comigo, tirou alguns sinais e, aparentemente, gostou do que viu.

Não necessariamente nessa ordem, ainda fiz mais exames, esperei a Natália chegar e tive alta para o quarto. Isso envolveu tirar alguns acessos e não havia um catéter central, felizmente, e também retirar a sonda. De novo, não há auto-estima que resista, é obviamente um negócio necessário, porém desconfortável.

Entre inúmeras picadas para saber glicemia, medidas de pressão arterial e medicamentos, foram zero intercorrências até a sexta, quando fiz a quinta ressonância (excelente, de tão cansado que estava), tive alta e fui liberado para me recuperar em casa.

Parece mágica. Fiquei menos de cinco dias no hospital e, finalmente, foi a hora apropriada para poder compartilhar com o mundo o que havia acontecido e tentar falar dos próximos passos.

No final das contas, estima-se que foi uma retirada de muito sucesso, quase completa. Me senti super acolhido, atendido e com suporte do Mater Dei da Av. do Contorno. Um cuidado e preocupação genuínos. Mesmo nos momentos mais sensíveis, as noites mal dormidas, o ardor para fazer xixi por conta da sonda, pude ver como chegar em um bom estado de espírito fez toda a diferença para “enfrentar a onça com serenidade e perseverança”, como disse Natália em uma das mensagens.

Apesar dos avanços e da tecnologia, não saí zero bala ou normal do hospital. Saí bem lento, com muito cansaço e o rosto bem inchado. Reforço, tudo dentro do esperado. Sem sequelas, falando, me movimentando, porém lento.

As duas ou três primeiras noites foram as noites dos sonhos mais loucos. Sonhei com o Grande Prêmio de Long Beach da Fórmula Indy, mas era o mais lento de todos. Os pilotos andavam bem devagar e me encarando: Romain Grosjean, Jimmie Johnson, Josef Newgarden.

Sonhei também que era vizinho do Lewis Hamilton em Londres, e havia uma saída específica da estação de metrô que levava direto para o hall do prédio. A outra saída dava na entrada de um pub e eu tentava fugir dela de todas as formas. Em outra oportunidade, era vizinho da Pocah e que eu chegava no meu apartamento em São Paulo, mas não sabia onde era e nem que eu morava lá.

Aos poucos, os padrões de sono voltam ao normal, assim como as funções fisiológicas, fome, sede e etc. Nesse sentido, a única intercorrência digna de nota foi um episódio de vômito por conta da Dexametasona. Fui ao Dr. Marcelo, troquei o medicamento e o enjôo e as intercorrências passaram.

De vez em quando, ainda rolo as mensagens no whatsapp e me emociono ao ver a preocupação das pessoas. A avalanche de carinho, bons sentimentos e bons desejos que se confirmaram pela quantidade de mensagens bonitas e encorajadoras. Amigos e amigas dos meus pais que eu tinha pouco contato ou pessoas que trabalharam e estudaram comigo e eu não via há anos. Gente que se dispôs a escrever para dizer que eu estava nas suas orações, mentalizações. Essas demonstrações genuínas de amor e carinho não tem preço e não podem ser medidas. Estão todas favoritadas e em algum momento serão compartilhadas.

14/05/2021 e a desistência do curativo.

Outro ponto interessante é perceber como o corpo vai voltando ao normal. O inchaço diminui, o edema no olho também e o curativo começa a ser algo impossível de ficar no lugar, porque o cabelo cresce e não há micropore que resista. Aos poucos, começo a ter mais disposição, consigo ter uma vida mais próxima do normal, embora ainda me sinta muito cansado (terça, 01/06, 14:48) e não consiga emendar muitas tarefas de uma vez só.

No começo, a memória fica bastante afetada. Lembrava de algo para esquecer segundos depois. De qualquer maneira, é absurdamente maravilhoso não sentir mais as “auras convulsivas” e flertar com uma normalidade. Até agora, enquanto o material não volta da biópsia, a recomendação médica é fazer ressonâncias magnéticas regularmente para saber como anda o que sobrou da massa. E as perspectivas são muito favoráveis, o que é uma boa notícia.

Para terminar

Para mim, duas coisas são bem claras: a primeira é entender que eu era o dono do processo. Por mais que eu quisesse, ninguém poderia resolvê-lo por mim. Eu era o principal interessado no assunto, aliás, eu era o assunto. E de maneira coletiva, a forma como encaramos as conversas, consultas e exames, me mostra que esse foi o caminho possível para enfrentar todo o processo. E eu enxergo como a única forma possível.

Se no fim de março, eu tinha dado uma leve surtada e precisei da Natália e da Carol para me acalmarem, acredito que daquela data pra frente, acalmei minha família, amigos e amigas em algum momento. É como disse, em determinado momento, entrei tanto dentro da ideia de operar a cabeça, que a poeira assenta e a vida segue.

Isso tem a ver com outro ponto, que é ser absolutamente humilde, porque todo esse processo foi de muito pouco controle, desde o começo. Era completamente sem sentido querer provar alguma coisa pra alguém, tipo querer acelerar o período do hospital como uma corrida ou como um período de tempo que deveria ser encurtado. Não teve nada de “um dia de CTI? Vou ficar oito horas, vocês vão ver“. O Dr. Marcelo havia dado uma estimativa, que acabou sendo cumprida. Não quis provar que poderia sair antes ou que seria menos chato ou doloroso.

As coisas são o que são. Havia uma avenida de possibilidades e caminhos possíveis. Felizmente, eu passei pelo mais tranquilo. E vejam, a ideia não era ter uma segunda cirurgia, pra começar. Eu simplesmente confiei no processo e vivi um recorte temporal peculiar, porque foi praticamente uma não-semana e que, ao mesmo tempo, talvez tenha sido a mais importante da minha vida.

Vários fatores podem ter contribuído para que eu passasse pelo caminho de uma forma mais tranquila: alimentação, a prática de atividade física (acho que crossfit salva vidas!), o apoio familiar, as caminhadas, a meditação. Pode ter sido só sorte também, mas isso não importa muito.

O importante é agradecer pelo apoio que recebi da família e dos amigos e pelo meu privilégio. Infelizmente, poucas pessoas no Brasil têm a estrutura emocional, financeira e familiar por estar encarando essa jornada. Principalmente, poder usar um hospital de ponta em Belo Horizonte e estar sob os cuidados dos melhores profissionais.

Em casa, tive apoio da família, com mensagens, carinhos, comidinhas, suporte logístico. São coisas que eu poderia dizer que eram regras, mas nesse mundo doido, parecem exceção. E digo com toda a franqueza do mundo, cada mensagem, cada vez que meu nome estava nas orações de alguém, cada demonstração de carinho… tudo isso fez uma diferença danada e mostra que não estamos sozinhos no mundo. Isso não tem preço.

Por ora, o prognóstico é esperar. Já estou sem os pontos, me consultei com um oncologista. Amostras e os blocos de parafina com pedaços do tumor estão sendo analisadas e a indicação de momento é acompanhar com ressonâncias regulares. No devido tempo, é hora de colocar meus planos pra frente, construir uma história, olhar para o que eu fiz e o que eu quero fazer de uma maneira mais bonita e menos cruel.

A todos e todas que me ajudaram, direta ou indiretamente, meu muito obrigado. Transformaram a jornada em algo mais leve e uma bela história para contar. Não desejo que ninguém passe pelo que estou passando, mas saibam que vocês têm um ombro amigo nesse que vos escreve.

 

29 dias depois

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (3)

  1. Rubs

    Ler tudo isso me dá uma emoção danada, seguida de uma alegria indiscritível por poder celebrar a sua vida e a nossa amizade. Não são poucas as lembranças que me geram as lágrimas emocionadas que saem do cantinho do olho agora, enquanto te escrevo, deitada na cama da minha casa há milhares de kms de vc: um amigo que me empresta a blusa de frio pra eu não congelar no quarto sem janelas onde dormimos todos os amigos pós show do Balboa em Tiradentes… as conversas honestas e difíceis sobre como o amor também tem fim… ir junto pro Mineirão! Amigo querido, vamos viver mais muitas coisas porque a vida é esse presente doido. O presente do presente. Amo vc, adoro te ler!

  2. Cecila

    Felipe! Meu coração fica alegre e agradecido com este seu relato! Meu carinho por você é imenso. Você está nas orações que faço pelo seu bem estar e recuperação plena. Um abraço fraterno pra você e sua família querida!

  3. Clara (da Escola da Serra)

    Caro Felipe Cabeça! Que bela história para contar aos filhos, sobrinhos e netos! A história de luta e superação!

    Ano passado fui diagnosticada com câncer de mama, e, em certas passagens, me identifiquei com seu processo. O apoio incondicional de familiares e amigos, para mim, foi o ponto chave para conseguir continuar a busca pela cura.

    Obrigada por compartilhar! Um abraço forte, e sigamos, novamente, em busca dos nossos sonhos e desejos, porque a vida já nos mostrou que, sem eles, não há razão para caminhar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *