20 de maio de 2021 Felipe

O caminho se faz é caminhando – Parte dois

“24/03/2021 – 20:45

Pessoal, boa noite! Imagino que vocês saibam porque estão aqui.

Há cerca de um mês, comecei a ter uns enjoos noturnos, que evoluíram pra uma convulsão na semana passada. Fiquei uns dias internados no hospital Alvorada em São Paulo, onde fiz uma batelada de exames. Tive alta no sábado e vim pra BH dar prosseguimento à investigação.

Ontem eu tive uma consulta com o neurologista de confiança da família. E o diagnóstico é de que estou com um tumor glial de baixo grau. Como se alocou em uma região pouco eloquente, eu não tenho nenhuma sequela. Além disso, ele é altamente operável, tem limites definidos e baixa taxa de crescimento.

Hoje conversamos com um neurocirurgião para fazer a avaliação da operação e próximos passos. Aparentemente, é possível fazer a dissecção total do tumor, mas como é do lado direito do cérebro e eu sou canhoto, nessa cirurgia preciso ser acordado em alguns momentos para ir “guiando” os médicos em relação às áreas afetadas. Na sexta, teremos uma reunião com outro neurocirurgião. A cirurgia deve acontecer nas próximas semanas.

Criamos o grupo para centralizar e facilitar as informações. Estou, – estamos – obviamente assustados, mas com muita confiança de que dará tudo certo.

Agradeço demais pelas mensagens de carinho e apoio. É muito bom contar com essa rede de afeto.

Vamos em frente, porque ainda há muita arte pra ser criada no mundo!”

Essa foi a primeira mensagem no grupo de Whatsapp que criamos para dar notícias para as pessoas. Batizamos de “FelipeCabeça – notícias”, acompanhado de uma foto minha aos quatro anos de idade, no melhor estilo motorista de ônibus. Até então, a ideia era contar para algumas pessoas e ir espalhando os fatos gradualmente. Quando vimos, já éramos 90 (o pico foi de 141), com muitos amigas e amigos da Escola da Serra, muitos amigos e amigas dos meus pais e da minha irmã, além dos familiares. Foi a forma que encontramos para poder espalhar a notícia e ter alguma forma de controle da narrativa. A ideia nunca foi espalhar a notícia por espalhar a notícia, sem ter o mínimo de respostas, porque eram várias, e que fomos descobrindo ao longo do caminho.

Também era a forma de processar a quantidade de informações e ir me acostumando com a ideia. Já tinha gasto muito tempo de análise desconstruindo meu papel de vítima, de “coitado de mim, que sou uma pessoa boa mas o mundo não me ajuda” e entender causas e consequências. Do alto de todo o meu privilégio, sou o único responsável pelas minhas decisões, escolhas e consequências. Compreender isso é de uma humildade e coragem tremendas e me ajudou muito em todo o processo.

Até o dia da cirurgia em si, foquei as minhas energias em duas coisas. A primeira, no processo de entender o que era o procedimento, quais os pontos mais relevantes, a estrutura necessária para isso e, claro, decidir pelo profissional que iria abrir essa cabecinha. O segundo ponto e acho que mais importante, era entender os sinais, o que estava acontecendo e aproveitar a oportunidade para recalibrar as minhas réguas, valores e expectativas. Basicamente entender o meu lugar no mundo, porque as coisas estavam muito descalibradas. Vou começar pela segunda parte.

Na noite do diagnóstico, eu lembro de ter comentado com meus pais e com a Natália algo do tipo: “sinto que eu sempre precisava provar alguma coisa para vocês”. Eu realmente achava isso, venho de uma família muito forte e não é segredo o quanto aprendo com eles. E somos muito sortudos em sermos bem livres para poder escolhermos nossos caminhos profissionais e fazer nossa história. Lentamente, percebi os presentes que a vida me deu. Leo Fares e d. Pilar nos criaram em estruturas muito claras e muito bonitas: sobre ética, relacionamentos e valores.

Ainda assim, sempre me coloquei numa posição muito cruel comigo. Eu sempre fui “cagão” de certa forma, nunca tinha me posicionado, uma dificuldade tremenda em falar “não” e ficava com medo de mostrar meu trabalho. Sei que era uma pessoa boa e não passo os outros pra trás. Era mais fácil me passar pra trás, me boicotar pra cacete e apagar o fato de que tenho criado uma massa de trabalho digna de nota. Eu acreditava viver abaixo do radar. Não valorizava o fato que tenho construído uma massa de trabalho digna de reconhecimento. Ainda assim, a ideia de fazer um grupo era quase risível pra mim, afinal de contas, estamos todos ocupados e ninguém vai ter tempo pra isso.

Outro ponto que não me ajudava é o meio de trabalho e contatos onde estou inserido. Sou metade da organização, preciso mostrar o meu trabalho no Linkedin e nas redes sociais, locais onde o diálogo simplesmente não existe. As pessoas só querem falar e não querem escutar, ninguém quer criar espaços para conversas. Em 2018, fiquei em um lugar muito ruim no Instagram, saí da plataforma e demorei um tempo para me situar e voltar. Até hoje, ainda faço um trabalho constante para não entrar de novo no loop horroroso da comparação e que só contribui para a intoxicação digital.

(Talvez seja tema para outro post, mas as redes sociais – todas elas – estão fundamentalmente quebradas. Não acreditem em influenciadores digitais, não acreditem em “top voices” e afins.)

De repente, tomo uma porrada desse porte. Automaticamente, aparece uma bifurcação na estrada, com uma questão do tipo “o que é importante nas redes sociais?” e não tem coisa importante pra resolver, na real. Eu virei a chave muito rápido para algumas coisas, especialmente olhar para feeds do Linkedin e Instagram e começar a entender e achar que tal postagem “é espuma”, “isso aqui é uma reclamação boba”, “isso aqui não vale tanto a pena”. Ou seja, filtrar o que é barulho do que é sinal. Ao mesmo tempo, comecei a me olhar com mais gentileza e valorizar a liberdade de carreira e as lições aprendidas ao longo do caminho. E ficou fácil entender que “não tem corrida pra correr, ou mal para desfazer ou mudar o que não precisa ser mudado”.

Existe a minha carreira ligeiramente pouco ortodoxa, da WB2 até a 42formas, passando pela Lazo, Addx, Labtest, Ciatech e WorldSkills, as pessoas que conheci, os trabalhos que fiz. Não passei ninguém pra trás, seguindo princípios e valores muito claros aprendidos com meu pai e minha mãe. Isso não apaga os percalços, os erros e os aprendizados, a “maturidade tardia” e talvez seja motivo para outro post, mas ter a liberdade para construir o próprio caminho é um enorme privilégio, muito bonito.

O que também foi de grande valia foi estender as mãos e aceitar ajuda. Se reconectar de alguma forma com a minha parca espiritualidade, lembrar das coisas que me fizeram bem, buscar caminhos para a maturidade emocional. E uma celebração para os “acidentes felizes” do caminho. Uma reunião de trabalho e que virou uma conversa rica sobre meditação e nossa existência, as longas caminhadas e fotos das caminhadas com a Tutu, as longas conversas e reflexões com a Carol e as aulas de meditação com a Helena.

Na tentativa louca de tentar controlar um mundo sem controle, não vemos como os ciclos se fecham e as coisas fazem sentido de alguma forma. De repente, o “grupo onde ninguém vai falar nada porque estamos todos ocupados” começa a ser recheado com mensagens bonitas, de gente que eu nem era tão próximo, e falando de coisas boas de mim, desejando uma boa recuperação, mentalizando coisas boas.

Isso mudou o jogo, isso mudou a abordagem sobre como eu iria encarar a situação e querer sair melhor do que entrei, se fosse possível. Flerta com a autoajuda e é a verdade. A única lição possível era entender que eu mereço sim me curar disso, e criar ferramentas e recursos para conseguir passar por isso. Ninguém vai resolver o meu problema, ninguém vai ser operado no meu lugar. Até queria, mas ninguém vai decidir quem vai operar por mim.

E uma vez que a poeira se assenta, a gente… vive. Eu trabalhei, fiz reunião, dei palestra, caminhei pra caramba e tinha dias que eu esquecia o que tinha na cabeça. Com o passar dos dias, me colocava em um lugar melhor do que estava no começo do processo. O medo passa. De verdade, o medo passa. 

Agora, sobre a primeira parte. Certa vez, fiz uma analogia pobre logo quando comecei a fazer análise, onde disse algo do tipo “vou entrar num túnel e não sei o que vai sair”. Mentira. Não demora muito e eu começo a entender os gatilhos, padrões de pensamento e novas formas de pensar. A análise te dá ferramentas para criar novos padrões, mais maturidade, mais inteligência emocional. Com algum tempo você sabe exatamente o que tem no túnel e como não cair nas mesmas armadilhas.

No entanto, a analogia funciona bem pra neurocirurgia, porque é um procedimento bem mais complexo e com muito mais fatores em jogo. Um dos pontos de atenção levantados foi o fato de eu ser canhoto e o tumor estar do lado direito do cérebro. Havia um risco de afetar a minha fala e a minha linguagem e deixar algumas sequelas. Formalmente, tínhamos várias perguntas:

  • Essa cirurgia poderia acontecer em Belo Horizonte? (Sim)
  • Qual era a necessidade/importância de existir uma máquina de ressonância magnética na sala? (Nenhuma)
  • É imperativo olhar fora do Brasil? (Não)
  • Quem são as pessoas mais capacitadas para lidar com isso? (Várias)

Tudo ficava mais “confuso” porque não era um procedimento comum. Se fosse a retirada de uma vesícula, ou outra cirurgia mais fácil, os processos seriam mais simples. Mas não era o caso. Eu não conhecia absolutamente ninguém que havia tido um caso parecido com o meu. Consultamos três neurocirurgiões: o Dr. Marcelo Vilela e o Dr. Rodrigo Faleiro, aqui de Belo Horizonte e o Dr. Paulo Niemeyer Filho, do Rio de Janeiro. Tive uma conversa com um médico do Sírio Libanês, em São Paulo. Também mandei e-mail para a universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, mas era completamente inviável do ponto de vista financeiro.

Aqui, um ponto de extrema ajuda foi contar com a presença do tio Ângelo, meu tio/padrinho, estudando muito sobre o tema e dando dicas e trazendo luz para questões importantes. Eu gosto de falar que ele é uma “pessoa renascentista” (ou Polímata, “aquele que aprendeu muito”) e trouxe muita clareza para pontos relevantes.

De cara, todos os médicos nos deixaram muito tranquilos com o fato de não precisarmos ter urgência para a operação. Provavelmente, o tumor havia crescido ao longo de muitos anos. Provavelmente, dois meses não trariam grande diferença no meu quadro. Com certeza, uma sintonia fina entre o meu quadro e a pandemia (infinita) da Covid deveria ser ajustada. Poderíamos esperar, um dos médicos disse que até seis meses, mas eu não tinha cabeça, nem condição pra isso. Eu queria resolver de alguma forma para voltar à vida “normal”, ou algo próxima dela.

A cada consulta com os médicos, ganhamos mais entendimento do procedimento e do processo.  Seria uma cirurgia longa, possivelmente de 12 horas, e eu precisaria estar acordado em parte dela para fazer a monitorização de partes do meu cérebro e evitar comprometer linguagem ou fala, embora uma sequela temporária não estivesse fora de cogitação. Cheguei a fazer uma consulta com a neuropsicóloga da equipe do Dr. Rodrigo para descobrir a dominância do cérebro sobre linguagem e fala e também se eu já tinha alguma sequela. Descobri um QI alto e que a memória estava levemente comprometida.

O tweet da decisão veio com uma fumaça branca de um conclave papal

Decidi pelo Dr. Marcelo Vilela depois de muita reflexão. De novo, sou privilegiado em poder escolher um dos melhores médicos do Brasil, ter o apoio da família e confiar no processo de que daria tudo certo. Batemos o martelo da data, 03/05, fiz exames de risco cirúrgico, pré-anestésico e uma outra ressonância para a monitorização do cérebro. A essa altura, já não tinha medo de como seria o procedimento, estava quase curioso.

Mentira, tinha vários medos, mas eles não eram tão relevantes comparados ao esforço e preparação que havia colocado até a chegada do momento.

Estava sendo gentil comigo, e isso faz uma diferença danada.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (3)

  1. Pat Gresta

    Deu tudo certo! Você continua escrevendo lindamente, como sempre fez! Textos que amo ler há tempos. Já parou pra pensar que a gente se conhece há 20 anos, Cab’s? Nada acontece por acaso. Tudo tem uma razão de ser. Ressignificar a vida, dando valor ao que verdadeiramente importa, tendo um olhar mais gentil e amoroso com você mesmo,valorizando o que construiu até aqui e com o apoio e suporte de uma rede de amor nessa sua fase da vida, me faz ter certeza que você terá um futuro lindo pela frente. Adorocê! Siga sua caminhada! ❤🤗😘

  2. Isabel

    Felipe, passei por algo parecido – de longe – que me assustou bastante. Mas logo entrei no processo de auto cura de quem quer viver. É por aí. Parabéns pela lucidez e gentileza em nos informar sobre o processo. Beijo Grande

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