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Carregando água na peneira

Há alguns dias, estive em Brasília acompanhando uma reunião de formadores do SESI. No meio da reunião, fui surpreendido por um poema do Manoel de Barros: “O menino que carregava água na peneira“. É ele falando sobre ele mesmo e também sobre criar, sobre imaginar e sobre escrever.

(…)

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

(…)

Fui surpreendido porque não esperava que Manoel aparecesse ali, de maneira tão sensível em uma formação. Ele tem aparecido bem mais na minha terapia ao ponto de eu comentar com a Fátima, minha psicóloga, que vou abrir uma espacinho para ele junto do Prince, do Gilberto Gil e do Dave Matthews no final da frase “para todas as coisas”.

Na hora que ouvi o poema e vi a reação das pessoas, meus olhos ficaram que nem estão agora: marejados. Olhei pra mim também, porque estou tentando carregar mais água na peneira. Estou fazendo isso como uma descoberta, como um processo de cura.

Cura da depressão, se me permitem a licença poética. Cura dos pensamentos horríveis que ocupam a minha cabeça toda vez que leio as notícias, ou quando percebo o quanto maluco tem sido o meu ano de 2024, ou quando entro na corrida imaginária da comparação.

Preciso escrever e criar mais. Parar com os arroubos de autodepreciação – “fui formalmente treinado para isso”- quando alguém me diz que gostou de um texto. O “obrigado” funciona na medida. Porém, fazer essa escrita com mais intenção.

Criei esse blog há 22 anos, muito inspirado por pessoas incríveis que trabalhavam comigo e que eu achava o máximo. Virou meu depósito de registros na transição da adolescência para a vida adulta. Porém, relendo alguns textos bem antigos, eu não tenho a menor ideia do que eu estava falando. Por que esse medo todo de expor os sentimentos?

Carregar água na peneira é também organizar e expressar os sentimentos de uma melhor forma. Um dia, eu vou ler o que escrevi há 20 anos e vai ser legal saber que eu estava lutando contra uma depressão pesada e venci. Sem precisar ficar pensando se estava chorando um coração partido ou era só uma forma bizarra de escrever ficção.

É espalhar as coisas da cabeça nos espaços vazios do caderno, tal qual a água quando passa pelas tramas. Sentir, dar espaço para o novo e tentar achar alguma paz no meio do turbilhão dos dilemas, despropósitos e peraltagens.

 

Baby Steps

A versão 1.2 do Samuel veio com uma nova e importante funcionalidade: andar sozinho.

Ele já caminhava segurando com firmeza os dedos dos adultos. E isso deixou duas atividades matutinas mais divertidas: comprar pão e levar Stella, a whippet, para passar o dia no pet shop. Saímos do prédio, atravessamos a rua, “pouso” o rapaz na calçada seguinte e vamos caminhando lentamente. A mãozinha direita nos meus dedos esquerdos, a mãozinha esquerda apontando os “Cá”(rros), as “Mó”(tos), os “Au-aus” (cachorros, só para manter o padrão da escrita) que passam pela rua e cumprimentando as pessoas, porque Samuel é um boa praça.

Há quase duas semanas, no entanto, ele decidiu que consegue caminhar sem precisar segurar nossos dedos. Sozinho, sai caminhando pela casa com os bracinhos pra cima. “Como um corredor prestes a ganhar a maratona”, disse o Celinho no grupo de whatsapp dos amigos de escola. Um pouco de independência, folga para os braços e coluna dos adultos e confiança no processo. Algo mágico vai proteger sua cabeça das quedas e esbarrões.

Os passeios da manhã continuam seguem o mesmo procedimento, com a diferença que deixo ele caminhar pelo hall e corredor do prédio. Na rua, andar de mãos dadas é imperativo e continuará sendo pelos próximos anos. Mas isso não impede, no entanto, de termos algumas surpresas no caminho.

Outro dia, voltando da padaria, ele ficou encantado com a fonte do prédio da esquina. Parou de andar, apontou para para o topo enquanto falava “áua, áua” e foi se aproximando de mim, pedindo colo para ver a fonte mais de perto.

No dia seguinte, enquanto voltava do pet shop, tentou se desvencilhar da minha mão para dar um rolê no supermercado. Não deixei, ele reclamou e começou a chorar. 30 segundos depois, ficou ainda mais bravo quando peguei ele no colo. Ele queria atravessar a rua caminhando.

Se eu levar em consideração o meu histórico, é provável que ouvirei do Samuel exatamente o que falava para meus pais quando era contrariado aos cinco anos de idade. “Nunca mais vou ao shopping com vocês! Nunca mais saio para tomar sorvete com vocês”.

Um lembrete pra mim mesmo sobre como é desafiador aprender (e ensinar) sobre expressão de sentimentos. Um passinho de cada vez.

 

 

42

– A Resposta à Grande Questão… – disse o Pensador Profundo.

– Sim…!

– …da Vida, o Universo e Tudo Mais… – disse o Pensador Profundo, e fez uma pausa.

– Sim…!

– Quarenta e dois – disse o Pensador Profundo, com uma majestade e uma tranqüilidade infinitas.

Esse trecho veio de um livro que adoro, o “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Esperei 20 anos para usar como tema para o texto de aniversário.

E é isso. Hoje completo 42 anos. Recebi a resposta para a grande questão da vida, o universo e tudo mais. Tal qual o livro, ainda não descobri a pergunta, embora tenho algumas hipóteses.

A Grande Questão envolve olhar pra dentro, ver que a cabeça não está funcionando bem para além do que as ressonâncias conseguem enxergar e assumir que é preciso pedir ajuda. Para tanto, também é importante descer de um pedestal de “arrogância intelectual”, admitir que “tudo sei que nada sei” e que não tenho a solução para todos os problemas, especialmente os da saúde mental.

A Grande Questão envolve olhar para um espelho e ser mais carinhoso e cuidar melhor do que eu vejo. Não sou uma lata velha que não tem mais conserto, é bom aceitar elogios, é fundamental me elogiar. Em outra esfera, colocar limites, não ter medo de ocupar e delimitar espaços. Me posicionar.

Significa calibrar melhor a visão e saber que posso ser tão grande feito o mundo. E largar a escala real – uma pessoa de 1,83m morando em um planeta de 40 mil km de circunferência na sua parte mais larga – como referência para quem eu sou, o que eu quero, o que eu posso.

Sentir ainda mais orgulho das coisas que fiz e aprender com as experiências que tive. E não falo somente da epítome da beleza chamada Samuel, dividir a vida com uma mulher absolutamente incrível que é a Carol ou ter a família que eu tenho, porque isso é fácil. Falo dos dias ruins ou das vezes que me boicotei por achar que não sou digno dessa experiência (e caberia uma imensa caixa de seleção aqui). Olhar para esses casos e fazer de tudo para não passar por isso novamente.

Continuar olhando o mundo com um olhar contemplativo e curioso. Compartilhar o que vejo, o que escuto, o que registro. Ao mesmo tempo, utilizar essa potência criativa como ferramenta para dar ordem no caos dos pensamentos que correm nessa autoestrada maluca dentro da minha cabeça.

E finalmente, a Grande Questão passa por celebrar o amor, o carinho e agradecer por todas as coisas bonitas que escuto hoje e todos os dias. Muitas vezes não é fácil aceitar e acreditar nisso. Estar no lado mais cinzento das coisas é mais confortável, ao mesmo tempo que é bem doloroso. E cansa. Já deu.

42 pode ser a resposta para a grande questão. E pode ser um recomeço.

Que seja bom.