O ano em que aprendi a criar sentido para as coisas

31 de dezembro de 2020 Felipe

O ano em que aprendi a criar sentido para as coisas

Todo final de ano é a mesma coisa. Venho aqui nesse espaço e escrevo várias linhas sobre meu ano. As coisas boas, as ruins, os desafios, o que quero daqui pro ano seguinte. Para 2020, confesso que estava meio sem vontade de escrever. Cheguei nesse final de ano esgotado, mal consegui escrever as mensagens de boas festas para as pessoas, quiçá terminar esse aqui.

Mas depois pensei que seria importante para a posteridade. Esse blog atingiu a maioridade, tem muita coisa escrita aqui e esse ano não poderia ficar de fora.

Papai, Tutu e eu, no começo do ano.

E enfim, 2020 talvez tenha me provado que o niilismo otimista é uma verdade, ponto. Uma pessoa lerá esse texto e ficará bem puta com isso. Mas é o que é. Em um mundo sem sentido, precisamos achar e criar os nossos sentidos. No meu caso, foi ter a certeza de que consegui andar pra frente, quando tudo parecia ser muito difícil.

Ter essa noção é reconfortante de certa forma, especialmente pra quem sempre gostou de se autossabotar ou de achar que era um “forasteiro” em determinados grupos sociais. Ter a certeza de que andei pra frente em 2020 é ainda mais especial. O ano mais difícil de todos e um ano bem diferente do que eu havia imaginado.

(Acabei de perceber que escrevi a mesma coisa no texto do ano passado. Só que esse “diferente do que havíamos imaginado” foi diferente do que eu havia imaginado no fim de 2019. Ou as coisas mudam rápido ou sou péssimo em fazer previsões de ano novo.)

Grande parte do ano foi de angústia, ansiedade e aflição. Primeiro pela pandemia. E como se não bastasse isso, também existem os perrengues diversos ao nosso redor, sejam os nossos ou os de gente querida. Tem sido complicado entender os dias com a falta de liderança, os mais de 190 mil mortos e vendo gente conhecida – e esclarecida, espero – aglomerando, fazendo festa, ignorando o uso de máscaras. Mas como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

E vejam como é fácil ser seduzido pelas coisas que nos fazem mal. No meu caso, abrir as redes sociais e os portais, doido para consumir a última merda dita pelo presidente ou ver fotos de festinhas e aglomerações de conhecidos.

Mais fácil ainda é pegar todo esse contexto e assumir que a “falta de sentido” significa “desistir das esperanças” ou “largar tudo de lado”. Não, não é. De novo, esse ano foi a oportunidade de dar sentido para as minhas coisas e fazer o que era possível: andar pra frente. Foi difícil, desafiador, estressante, mas estou feliz comigo mesmo.

Profissionalmente, foi um ano recheado de desconfortos, bons e ruins. Fiz duas curadorias lindas para o SESI junto com a d. Pilar e a Cida Lacerda, fiz uma consultoria para um projeto super legal de uma escola de governo, manobramos a 42formas para um caminho mais estratégico, lançamos e pilotamos um produto, o Núcleo de Aprendizagem Ágil, eu e o Diego desenvolvemos um conteúdo incrível sobre mundo complexo e jazz. Fui mestre de cerimônias e moderador de conversas, aprendi bastante.

Quando olho pra trás, dá um orgulho danado. Pude conhecer gente super inteligente, pessoas que colocaram a barra lá em cima e que me assustaram no começo, mas não fugi da responsabilidade. É muita coisa em pouco tempo e é difícil ver o progresso no meio do turbilhão, mas está aí, registrado.

Esse ano não teve muita música. Por motivos óbvios, paramos os ensaios em março, mas continuamos conversando e nos apoiando pelo zoom. Trocamos as aulas de jazz e Beatles por bate-papos ricos sobre gravações. Até arriscamos gravar algumas canções. Mesmo não tocando muito, por conta de uma das curadorias, consegui trazer o baixista Victor Wooten pra falar em um dos seminários e dois dias depois, tive a honra de tocar com ele.

Também treinei pouco crossfit. Ganhei um pouco de peso, perdi força, mas tudo bem. Isso a gente corre atrás na hora que as coisas assentarem.

O que me trouxe sanidade foram os amigos, a família e ocupar a cabeça. Antes da pandemia, teve uma bela viagem em família para Miami no começo do ano. Depois, fiquei meses na minha comuna – o lote com as casas da minha mãe, do meu tio e de um primo – entre Itabirito e Nova Lima. Dei sentido para as coisas lendo, estudando, ficando horas e horas na marcenaria ou fotografando a lua e o céu. No meio tempo, as conversas com amigos, num esforço constante de todas as partes para saber quem estava bem, quem precisava de ajuda. 

E dentro das coisas mais improváveis e menos ortodoxas para uma pandemia, consegui redescobrir o amor. Com a Carol, 2020 começou dividindo o mesmo voo de Belo Horizonte para São Paulo, passou por um aniversário, um bar logo antes do pseudo-lockdown e do desespero começar. Viemos os dois para Minas. Nesse meio tempo, foram dezenas de horas de conversa, centenas de mensagens trocadas e, em maio, sou surpreendido com uma declaração. Deu certo. Desde então, tenho aprendido, crescido e amadurecido a cada dia. Uma sorte danada e uma história linda que merece ser contada com mais calma.

Talvez a Carol não goste de ler sobre o “niilismo otimista”, já tivemos boas conversas sobre esse tema e há uma discordância sobre “achar sentido nas coisas”, mas não tem jeito, foi a minha melhor definição do ano. Conscientemente ou não, foi a forma que achei para cumprir a promessa feita no ano passado: “soar mais como eu mesmo”.

Não estou nem perto de chegar no final desse processo, mas de novo, acho que consegui caminhar ainda mais na direção que acredito.

Feliz ano novo, pessoal!

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.