31 de dezembro de 2019 Felipe

Sobre achar a nossa voz

Eu queria achar um conceito ou uma frase pra tentar explicar o que foi o meu 2019. Entre a Segunda Lei da Termodinâmica e “É uma trajetória baixa pra um horizonte distante” do treinador de crossfit Chuck Carswell, achei essa do Miles Davis:

“Cara, de vez em quando, demoramos muito para soarmos como nós mesmos”

Essa frase é genial, porque ela resume os outros dois conceitos que eu tinha imaginado pra esse texto. O meu ano de 2019 reuniu a desordem e a entropia máxima da Segunda Lei da Termodinâmica e o entendimento de que as coisas têm tempos certos para acontecerem. Foi o ano de conversas difíceis, que significaram rupturas imensas, recomeços e que me fizeram cavar fundo. Precisei buscar coisas que estavam escondidas dentro de mim e precisei me acostumar com lugares novos e situações diferentes.

“Porque quando você acaba nesse mundo, você sabe que o próximo é pra você”. Eu também adoro esse verso de Walt Grace’s Submarine Test, January 1967 do John Mayer. No dia a dia, o mundo que vivi por 12 anos se acabou. No trabalho, precisei me adaptar a situações novas. E é fácil dizer que tudo foi horrível e difícil, porque fazer o papel de vítima é sempre cômodo. Só que também fui responsável por essas decisões e, por isso, tive que crescer junto com a ocasião.

Nesse processo, caminhei pra achar minha voz. Profissionalmente, comecei a plantar muitas sementinhas que espero colher no futuro. Não foi um ano fácil para a 42formas, apesar de todo o esforço e trabalho. Nesses momentos, a maturidade pra entender os caminhos e os pontos de melhora foi fundamental. E acho que demos mais uns passos pra chegar onde queremos nos posicionar.

Ainda assim, produzi bastante. Fui mais uma vez pra Austin, tive a honra de dividir o palco no SXSW EDU com a D. Pilar – quem diria que eu iria conseguir trabalhar com minha mãe um dia – , falei sobre aprendizagem social, mediei painéis e discussões. Tive a alegria de poder rever os amigos da WorldSkills em Kazan e trabalhar num evento que eu sou completamente apaixonado. Conheci e conectei gente, comecei a ser reconhecido pelo trabalho que faço. O processo de sair da casca é assustador e fascinante ao mesmo tempo.

Mantive a minha sanidade com crossfit, música e análise. Esse tripé me segurou em grande parte do ano, entre as dores e as delícias do recomeço de uma vida. Todo mundo deveria fazer análise, por mais desconfortável que seja. Os tempos lógicos de Lacan ainda me pregam peças, fico super incomodado com as eventuais sessões de 15 minutos, mas cada chacoalhada me ajudou a chegar em conclusões interessantes. Entendo que não é um processo para se sentir em casa, mas me sinto mais seguro cada vez que entro e saio da sala da Dra. Sílvia.

A música é outra eterna forma de achar a minha própria voz. As artes são como línguas e muitas vezes a gente tem dificuldade de se expressar nela. Como escrevi mais cedo nesse ano, a música têm sido uma outra forma maravilhosa de expressão e conexão. Seja com meus amigos da prática de banda, seja com a reaproximação com os meninos do Balboa em Belo Horizonte, depois de mais de dez anos fora da banda.

Finalmente, o crossfit e as pessoas do crossfit. Esse foi um ano de desconforto na maioria do tempo. Ficava incomodado com a conjuntura da vida, com problemas pontuais de trabalho, com a vontade de fazer algo novo. E poder frequentar o Vila Madá além da hora do treino foi uma das soluções para aplacar um pouco desse incômodo.

Foram incontáveis as vezes que chegava pra treinar querendo explodir o mundo e, passada uma hora, as coisas estavam mais claras na cabeça. Também foram incontáveis as tardes que passei trabalhando lá, só para poder sair um pouco de casa. Ou as vezes que enrolava para ir embora só pra terminar de colocar as ideias no lugar. Entre treinos, cervejas, almoços e caminhadas pro metrô, pude conhecer muita gente legal, que quero manter por perto o quanto for possível.

Esse ano terminou completamente diferente do que eu havia imaginado. No processo de achar a minha voz, precisei me expor mais, mostrar as vulnerabilidades, achar ordem no caos. É uma jornada pessoal e que o único interessado sou eu. Mas não conseguiria sem pedir ajuda e desabafar. Por isso, eu sempre repito que a minha sorte é ser rodeado de pessoas ótimas. Família, amigos e amigas, meus professores, gente que me ajuda a ser melhor a cada dia.

Foi o ano mais desafiador da minha vida e que bom que tenho a maturidade pra enxergar dessa forma. Eu demorei pra entender o processo de achar a minha voz, agora é caminhar cada vez mais “soar como eu mesmo”. Tal qual o Miles Davis, espero um dia compor meu Kind of Blue.

Feliz 2020!

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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