10 de março de 2020 Felipe

O que aprendi tocando com um ganhador do Grammy

O título pode parecer meio clickbait, mas é verdade. No domingo, eu toquei por uns bons dez minutos com o baixista Victor Wooten, ganhador de cinco Grammys. Foi assustador, foi libertador e foi uma aula, não de música, mas de interação humana.

Essa história começou quando convidamos o Victor Wooten para fechar o Seminário Internacional SESI de Educação. No meio das tratativas, comecei a falar com o Ricardo Sdei, um amigo dele aqui em São Paulo e que estava dando apoio para a agente no processo todo.

Criamos um pequeno vínculo por causa da música e do esporte. E na sexta, durante o evento, o Ricardo me convida pra um encontro com o Victor no seu sítio.

“Aparece lá e leva seus pratos”.

Pois bem. Apareci no domingo em uma das experiências musicais e de aprendizagem mais legais que vivi. Quase um mini-acampamento de baixistas sob a tutela do Victor Wooten. Dúzias de baixistas, alguns guitarristas e bateristas, entre profissionais e não-profissionais para um dia de troca de experiências. No começo, uma sessão de perguntas e respostas, depois uma longuíssima jam.

Dia lindo, lugar ótimo e todo mundo com aquela vergonha de fazer perguntas. Ninguém quer parecer bobo frente ao Victor Wooten. E isso nos rendeu uma leve cutucada. “Fiz uma turnê com o Stanley Clarke e o Marcus Miller e eu os enchi de perguntas. Precisamos fazer o mesmo aqui”.

Porém, a medida que a coisa foi fluindo, fica fácil perceber que ele faz parte daquele grupo de pessoas que não parece ser desse mundo. Falou sobre ética de trabalho, sobre a curiosidade, a vontade de continuar aprendendo, como fazer a diferença no mundo, independente da escala que isso acontece.

Falou bastante também sobre aprendizagem e erro. Ele reforça muito o conceito de música como uma língua e que deveríamos aprender música como aprendemos a nossa primeira língua: sem um conjunto estrito de regras, com estímulo aos erros, com pessoas iniciantes já falando com pessoas fluentes. Sobre o erro, foram duas analogias maravilhosas.

“As pessoas vão ao seu show porque gostam de você. Quem não gosta, não está lá. Então não precisa ter medo de experimentar e errar”.

“Quando você vai ao circo, você quer que o equilibrista atravesse a corda bamba em segurança, mas não sem dificuldades. Essas dificuldades nos conectam”.

Victor também falou das dificuldades e das barreiras que ele enfrentou na carreira, principalmente sendo uma pessoa não-branca nos Estados Unidos dos anos 70 e 80. “Pense que todos os seus ídolos, em qualquer área, tiveram barreiras e precisaram usá-las pra avançar”. Quando embasadas, as histórias de superação são realmente importantes.

Foi um bate-papo super inspirador e que deu o tom pra hora da jam. Victor comandou um dos baixos, enquanto os baixistas se revezavam no outro. Maurício Leite na bateria e Mello Jr na maior parte do tempo na guitarra. Todos, sem exceção, completamente hipnotizados com a oportunidade de tocar com ele. Entrava baixista, saía baixista e os comentários de choque eram os mesmos.

– Estou tremendo!

– Não estou acreditando que toquei com ele.

Mas havia um sentimento maior no processo, bem explicado pelo Nile Rodgers nesse vídeo. O que os grandes artistas fazem quando vêem um mundo perturbado em sua volta? Eles fazem com que você se sinta melhor. Era isso que o Victor Wooten fazia. Não era um sentimento de intimidação. Ali, éramos todos iguais conversando música.

E permitam compartilhar agora a minha experiência. Na sexta-feira, o Ricardo contou pro Victor que eu era baterista. “É, mas eu sou um baterista ruim”, respondi. Victor dá uma risada e coloca os dedos no ouvido. Ele não tem tempo pra essas besteiras. Depois, quando nos despedimos, disse que meu groove era bom. Imediatamente pensei que havia ido longe demais, mas tudo bem. Pago análise pra isso.

Corta pro domingo, levo meus pratos, empresto pro Maurício Leite, que está segurando o groove como ninguém. Eu tô hipnotizado com tudo que está acontecendo e resignado de que eu não ia tocar. Entendam, ninguém tinha negado a minha participação, eu que estava colocando essa barreira. Eu estava bloqueando tudo que ouvi na sexta e no dia sobre errar, se expor e tudo mais. Eu não ia tocar. Mas aí…

Aí o Victor Wooten olha pra mim, e aponta com os olhos pra bateria. Eu faço aquele “não” tímido com a cabeça, tento sinalizar que sou canhoto e a bateria está montada pra destros. O Maurício insiste: “a gente inverte pra você”, o Victor insiste. Era a última música. Fui. Na bateria montada para destros, depois de sei lá quantos anos.

“Só espero não derrubar nada”. O resultado tá ai:

Depois que eu sentei pra tocar, tudo aconteceu de maneira muito instintiva. Fiz o que sei fazer de melhor no instrumento, conversei com o vocabulário que tenho. Do meu lado, no mesmo lugar que já estiveram o Nicolas, o Diego, o Rafa e hoje estão o Luciano e o Murillo, está o Victor Wooten, o cara que eu cresci ouvindo e que me inspira todos os dias. Junto com a gente, o Mello Jr. e o Ricardo Sdei. Um vive de música, o outro tem uma relação parecida comigo com ela. Dezenas de pessoas fodas no ofício da música estão assistindo e essa foi uma das poucas vezes na vida que não senti nada parecido com medo, “provação” ou julgamento. Eu só curti.

É óbvio que há um senso de responsabilidade em não atrapalhar a música, em dividir aquele momento com um dos meus ídolos. Mas nada daquilo foi pressão. Foi uma celebração.

E que bom que pude aproveitar isso. Mesmo se eu errasse uma, duas ou 122 notas, pior seria voltar pra casa com a frustração de querer ter tocado, mas ter me bloqueado naquilo. Pode parecer bobo, mas terminei o dia como uma pessoa melhor e com um sentimento de respeito ainda maior pela música.

São os encontros que a vida proporciona.

 

 

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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