Por que vocês fazem isso comigo?

4 de novembro de 2026
4 de novembro de 2026 Felipe

Por que vocês fazem isso comigo?

Sete companheiros de viagem embarcaram no aeroporto de Aberdeen, na Escócia, e pousaram em Heathrow, Londres. Viraram seis quando Lucas pegou um táxi pra casa. Minutos depois, nos tornamos cinco quando Paulo trocou de terminal para pegar seu voo para São Paulo. Seguimos, os cinco, até um hotel perto da estação Victoria para a última noite em Londres.

Como eu seria o último a ir embora no domingo, a única coisa que queria saber ao chegar no hotel era se haveria a possibilidade de um late check out.

O recepcionista não pareceu muito animado ao nos receber. Com economia de gestos, nos entregou as chaves e deu as orientações do quarto e eu aproveitei e lancei a pergunta:

— Amigo, por favor, eu conseguiria um late check-outamanhã?

“Não“, foi a sua resposta, fria como um dia de inverno na Sibéria.

No máximo da solicitude mineira, resolvi partir pro plano B e perguntar se pelo menos teria um lugar para eu deixar as malas e circular com mais facilidade pela cidade ao longo do dia:

— Ah, é porque meu voo amanhã é às 9h20 da noite, por isso eu queria…

— Não tem late check-out.

“Deixa eu terminar a pergunta antes de você responder“, interrompi o sujeito, no que pra mim foi a maior de todas as grosserias. não digo ele ter me cortado, mas eu ter feito essa interrupção. “Eu queria saber se posso pelo menos deixar as malas na recepção até a hora de ir embora“.

“Sim, pode“, foi sua resposta, seca como um dia no deserto do Saara. Aparentemente, eu ainda havia sido muito cortês, mesmo com a interrupção.

Subimos por uma escada íngreme até nossos quartos, que ficavam no terceiro andar. No térreo, o elevador quebrado tinha aviso passivo-agressivo colado na porta: “Sim, o elevador está quebrado. E sim, já chamamos o conserto.” Mais tarde, Leléo descobriu que aquele aviso estava ali há uns três meses.

Deixamos as malas, descemos para jantar e no meio da refeição, eu, Gabriel e Bizafra percebemos que havíamos esquecido a chave dentro do quarto. Quando voltamos, Biza foi até o recepcionista para comunicar o ocorrido:

— Amigo, temos um problema. Esquecemos a chave dentro do quarto.

O recepcionista olhou fixamente para ele e fez a pergunta improvável:

— Por que vocês fazem isso comigo?

Biza ficou olhando para ele, sem saber exatamente o que responder.

— A gente simplesmente esqueceu.

— Quem foi que esqueceu?

Ele não queria resolver o problema. Ele só queria saber quem seria o culpado por obrigá-lo a subir os três andares de escada íngreme com a chave reserva. E, como bônus, ficar cansado e suado.

“Esquecemos nós três. A vida é essa“, foi a resposta do Biza. O homem pegou a chave reserva e subiu os andares, junto com seu ódio por aquele triunvirato de turistas brasileiros.

Em uma cidade turística, deve ser ótimo trabalhar com gente quando não se gosta de gente.

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