Aos mestres tanoeiros, um Porsche

27 de outubro de 2026
27 de outubro de 2026 Felipe

Aos mestres tanoeiros, um Porsche

Um dos pontos altos da viagem foi em Aberdeen, quando fizemos uma excursão pela região para conhecer algumas destilarias, cidades e uma tanoaria.

Foi um passeio que quase não fui. Na noite anterior, tive uma crise de ansiedade. Acordei às 2h, quase saí para dar uma volta na rua, dormi mal e porcamente. Na manhã do passeio, fui com eles até o ponto de encontro da van. Me despedi e já estava caminhando de volta para o hotel quando pensei:

“Passar o dia sozinho vai ser pior”. Dei meia-volta e entrei na van.

Valeu o passeio.

Passamos pelas cidades de Ballater e Tomintoul. Em Ballater, eu e Gabriel entramos rapidinho na igreja só para ficar em silêncio e sentir o cheiro da madeira. Ao longo do caminho, paisagens com ovelhas, vaquinhas cabeludas e casinhas dignas de fundo de tela do Windows XP. Vendo as casinhas arrumadinhas, pensei como deve ser a vida de um escocês nos confins do país. Sei que as gramas, sempre lindinhas, quase te convencem de que são mais verdes do lado de lá.

O ponto é que em determinado momento, passamos pela Speyside Cooperage, uma tanoaria (aprendi uma palavra nova!) que fornece barris para as destilarias da região. A fábrica oferece uma visita guiada e foi nessa visita que duas coisas curiosas aconteceram.

Entrada da Speyside Cooperage.

Vimos os aprendizes trabalhando na manutenção de alguns barris. A pessoa que conduzia a visita nos explicou que isso faz parte do programa de formação , que tem duração de quatro anos, período em que eles recebiam por barril produzido. Basicamente, o trabalho é identificar o dano em um barril e fazer os ajustes necessários, em uma função que tem um monte de força bruta envolvida. Em seguida, mandam o barril consertado para o professor/mestre avaliar o trabalho.

Ao final do período de formação, os aprendizes tornam-se mestres tanoeiros. É um bom trabalho, segundo a nossa guia, contando que um empregado conseguiu comprar até um Porsche.

O primeiro espanto veio na hora das dúvidas. Vendo aquela quantidade de homens trabalhando, resolvi perguntar para a guia:

– As mulheres também podem fazer barris?

– Claro que podem! – me disse orgulhosa. “Inclusive, temos três mulheres que fazem barris na Escócia”.

Não me contive na resposta: “Nossa, que tantão”, assim, em bom português.

O segundo espanto veio um pouco mais adiante, já no final da visita.

Como contei antes, os aprendizes produzem os barris e, ao terminar cada trabalho, encaminham o que fizeram para que o mestre avalie o resultado.

Em determinado momento, encontramos uma tampa de barril com uma inscrição que não consegui fotografar, mas fiz questão de registrar em um desenho: “TOP JOB?”. Assim, em letras garrafais.

A reprodução do feedback. Tenho certeza que o Gabriel vai ficar feliz com minha capacidade de desenho.

Minha interpretação foi a seguinte: o aprendiz deve ter terminado a tampa, considerado aquele seu melhor trabalho até então e enviado a peça para avaliação. O mestre, ao examiná-la, escreveu “Top job?”, tipo tem certeza de que esse foi o seu melhor trabalho?

Não sei se foi bem isso, mas foi o que imaginei diante daquela inscrição.

Fiquei pensando: se esse é o processo de aprendizagem e feedback, imagina o custo de saúde mental para conseguir comprar um Porsche.

Pelo menos saímos com um belo registro de lá.

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