Um dos pontos altos da viagem foi em Aberdeen, quando fizemos uma excursão pela região para conhecer algumas destilarias, cidades e uma tanoaria.
Foi um passeio que quase não fui. Na noite anterior, tive uma crise de ansiedade. Acordei às 2h, quase saí para dar uma volta na rua, dormi mal e porcamente. Na manhã do passeio, fui com eles até o ponto de encontro da van. Me despedi e já estava caminhando de volta para o hotel quando pensei:
“Passar o dia sozinho vai ser pior”. Dei meia-volta e entrei na van.
Valeu o passeio.
Passamos pelas cidades de Ballater e Tomintoul. Em Ballater, eu e Gabriel entramos rapidinho na igreja só para ficar em silêncio e sentir o cheiro da madeira. Ao longo do caminho, paisagens com ovelhas, vaquinhas cabeludas e casinhas dignas de fundo de tela do Windows XP. Vendo as casinhas arrumadinhas, pensei como deve ser a vida de um escocês nos confins do país. Sei que as gramas, sempre lindinhas, quase te convencem de que são mais verdes do lado de lá.

O ponto é que em determinado momento, passamos pela Speyside Cooperage, uma tanoaria (aprendi uma palavra nova!) que fornece barris para as destilarias da região. A fábrica oferece uma visita guiada e foi nessa visita que duas coisas curiosas aconteceram.

Entrada da Speyside Cooperage.
Vimos os aprendizes trabalhando na manutenção de alguns barris. A pessoa que conduzia a visita nos explicou que isso faz parte do programa de formação , que tem duração de quatro anos, período em que eles recebiam por barril produzido. Basicamente, o trabalho é identificar o dano em um barril e fazer os ajustes necessários, em uma função que tem um monte de força bruta envolvida. Em seguida, mandam o barril consertado para o professor/mestre avaliar o trabalho.
Ao final do período de formação, os aprendizes tornam-se mestres tanoeiros. É um bom trabalho, segundo a nossa guia, contando que um empregado conseguiu comprar até um Porsche.
- Aprendizes trabalhando na Speyside.
- Aprendizes trabalhando na Speyside.
- Aprendizes trabalhando na Speyside.
- Detalhe da planta da Speyside.
O primeiro espanto veio na hora das dúvidas. Vendo aquela quantidade de homens trabalhando, resolvi perguntar para a guia:
– As mulheres também podem fazer barris?
– Claro que podem! – me disse orgulhosa. “Inclusive, temos três mulheres que fazem barris na Escócia”.
Não me contive na resposta: “Nossa, que tantão”, assim, em bom português.
O segundo espanto veio um pouco mais adiante, já no final da visita.
Como contei antes, os aprendizes produzem os barris e, ao terminar cada trabalho, encaminham o que fizeram para que o mestre avalie o resultado.
Em determinado momento, encontramos uma tampa de barril com uma inscrição que não consegui fotografar, mas fiz questão de registrar em um desenho: “TOP JOB?”. Assim, em letras garrafais.

A reprodução do feedback. Tenho certeza que o Gabriel vai ficar feliz com minha capacidade de desenho.
Minha interpretação foi a seguinte: o aprendiz deve ter terminado a tampa, considerado aquele seu melhor trabalho até então e enviado a peça para avaliação. O mestre, ao examiná-la, escreveu “Top job?”, tipo tem certeza de que esse foi o seu melhor trabalho?
Não sei se foi bem isso, mas foi o que imaginei diante daquela inscrição.
Fiquei pensando: se esse é o processo de aprendizagem e feedback, imagina o custo de saúde mental para conseguir comprar um Porsche.
Pelo menos saímos com um belo registro de lá.





Lucia Fares
Que história ótima! E ainda aprendi o significado de Tanoeiro.
Gabriel Albuquerque
Sensacional!! Hahahah