Ieiel, 3

24 de agosto de 2026
Posted in Samuel
24 de agosto de 2026 Felipe

Ieiel, 3

O cara mais legal do mundo completou três anos no final de semana.

E se eu pudesse arriscar, diria que esse terço de vida foi o mais cheio das descobertas. E cheio das conversas também.

Ele mudou de status na casa, o filho único virou irmão mais velho e tem descoberto como compartimentar suas emoções, com o ciúme e a perda de espaço se confundindo com o amor pela sua Quiquinha. Fica feliz quando contamos, eu e sua mãe, que nós nos tornamos pai e mãe no dia que ele nasceu. E dá gostosas gargalhadas quando falamos o quanto ela falava “aí, filho!” a cada giro dado na barriga por conta da sua movimentação.

Navegou entre a desconfiança, o medo e a curiosidade com a minha cirurgia. Para ele, não fez muito sentido o médico cortar metade do meu cabelo para depois eu ter que pedir ao vovô Léo para cortar o resto. Semanas depois da cirurgia, no caminho para a aula de natação, perguntou “quando eu ia voltar para o hospital”.

– Acho que não vou precisar tão cedo, filho.
– O que o médico disse? Você “tá” tomando os remedinhos?
– Sim, estou.
– Então tá bom.

Ele tem gostado de meios de transporte, pedindo para que eu contasse pela centésima vez de quando nosso carro caiu na vala na estrada de terra, correndo atrás de tratores e todos os tipos de caminhão na cidade, além de fuscas e motos. Transformou sua bicicleta de equilíbrio em uma moto, inclusive. Só admite ser chamado de “motoqueilo”. Tentei andar de ônibus com ele, mas ainda não tive sucesso.

O construtor de Legos, que pega os meus kits emprestados para trocar pneus dos carros, fazer a nave viajar pelo espaço sideral e fazer o astronauta dar carona para uma motorista.

Ele não sabe, mas muitas das suas observações são cheias de humor. Um caso mais antigo: dobrando a esquina de casa, vimos um homem fazendo xixi na rua, “escondido” atrás do carro.

— Olha só, filho, o moço fazendo xixi na rua.
— Ele pôs o 🐤 pra fora?
— Pôs.
— Que “glosseilo”.

Ou, mais recentemente, perguntou qual era a marca do purificador de água.

– É Philips.
– Philips…
– Igual o nome do papai, né, filho?
– Não, igual uma ferramenta: chave philips.

E, no meio disso tudo, vamos aprendendo juntos a lidar com os rompantes e vontades que vêm junto com o desenvolvimento de uma criança de três anos. Os “não quero”, “não vou” e afins e que muitas vezes torram a paciência do pai. Fico péssimo com isso, afinal, já deveria ter sacado como lidar com estes momentos, e não é tão fácil como imaginava.

No sábado, na hora do parabéns, só consegui cantar até o “nesta data queri…”. Um filme passou na cabeça pelo que eu tenho passado, pelo que ele passou no começo da vida, pelo rapaz que ele está se tornando, pela alegria que é ser seu pai.

Ô sorte.

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