2 de junho de 2020 Felipe

O tal processo de reinvenção

MBFreakNo41 - Flickr | CC-BY-2.0

Ahh, Carter Beauford, que homem maravilhoso. O baterista da Dave Matthews Band é uma das maiores influências que esse escriba tem na vida. E outro dia, o Diego – sempre ele – me mandou essa entrevista dele pro Harry Miree.

A piada é óbvia. Esse vídeo maravilhoso só tem dois problemas: só tem 14 minutos e eu não estou nele. Tirando isso, é o tipo de entrevista que eu adoro, sem focar nas coisas específicas: rudimentos, pratos, pele ou técnica. Era um espaço pra falar sobre como manter um olhar fresco sobre o que fazemos todos os dias. Carter conta que ele mantém a mesma paixão pelo instrumento e pela música, mas que sempre tenta trazer um olhar novo pro que faz seja “emulando os seus ídolos” ou “tentando acompanhar o que os novos caras estão fazendo”.

(Ele usa a expressão “cats” pra falar das outras pessoas e eu absolutamente adoro. É super utilizada no mundo do jazz, mas você precisa ser um pra poder usar. Eu não sou)

Isso é muito interessante. Primeiro, não dar nada como garantido. O Carter simplesmente poderia tocar a mesma coisa todas as noites, mas não, sempre ele aparece com algo novo. E se você já ouviu a Dave Matthews Band, sabe que eles tem dezenas de discos ao vivo, então existe material para comparação. Algumas partes e músicas não mudam, mas outras sempre têm uma coisinha diferente.

E mostrando vários exemplos da mesma passagem de “What Would You Say?” ao longo dos anos, Carter fala que embora esteja focado no resto da banda e em entregar a música, seus heróis estão sempre com ele.
Tento pensar o que Billy Cobham, Tony Williams ou Jack deJohnette fariam nesse pedaço da música…

Nesse momento eu pensei que essa afirmação ia contra o que está no meu post sobre o Neil Peart. Lá, contei sobre quando Peart resolveu voltar a estudar com um professor, porque sempre parecia outra pessoa quando tocava jazz. Porém aí veio a conclusão do pensamento do Carter:

“…mas também tento soar feito o Carter Beauford. Todas as coisas que eu escutei, faço com que elas pertençam a mim, de modo que eu tenha alguma coisa pra conversar com aqueles que me ensinaram e fazer a música ser interessante”

É simples e brilhante. Pensa na quantidade de coisas que você já aprendeu e como elas estão na sua caixa de ferramentas. Mais do que isso, pense sobre como você aprendeu e como isso deixou de ser “de alguém” para se transformar em algo seu. Finalmente, como você usa essa caixa de ferramentas para fazer o seu trabalho ou mudar o mundo que te rodeia, em qualquer escala. Porque é isso que conta e é disso que o Carter fala: servir a música, o propósito.

Kobe Bryant disse que roubou todos os movimentos dos grandes jogadores como uma forma de deixá-los orgulhosos e em nome do jogo, algo que era muito maior do que ele. Neil Peart se reinventou e o Carter Beauford se reinventa todas as noites, porque não sobre ele, é sobre a música.

Tem horas que questionar as coisas e achar um novo caminho pro que a gente faz todo dia é desgastante e cansativo, mas a motivação vem quando vemos nossas inspirações se movimentando nesse mesmo processo.

Pra fechar, eu entendo a felicidade do Harry Miree durante a entrevista. Eu passei pela mesma coisa em 2008, antes do show da banda no Rio de Janeiro. O Plauto Covre trabalhava na produção, conseguiu me colocar no finalzinho da passagem de som e no jantar da banda. Pedi uma foto pro Carter, disse que ele era uma inspiração e entreguei uma camisa do Cruzeiro de presente. Meu coração parou por um momento. Não imaginava tamanha gentileza e atenção. Que homem!

Eu e o Carter, antes do show da Dave Matthews Band no Vivo Rio, em outubro de 2008.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.