11 de janeiro de 2020 Felipe

Neil Peart sabia o que era aprender pra vida toda

Neil Peart em Setembro de 1979. (Foto: Fin Costello/Redferns)

A sexta-feira terminou com a notícia da morte do Neil Peart, baterista do Rush, aos 67 anos. Pegou muita gente de surpresa, porque ninguém (ou poucas pessoas) sabia(m) que ele lutava contra um glioblastoma, um agressivo câncer no cérebro.

Peart foi ídolo e mentor de toda uma geração de músicos, em maior e menor escala. Todos nós tentamos tocar “YYZ” em algum momento da vida, mesmo que mal e porcamente. Para o público em geral, Neil Peart era o baterista com o instrumento gigante e o “Tom Sawyer” era a música da abertura de MacGyver. Essa foi a primeira vez que escutei Rush, inclusive.

E na história de vida de Neil Peart, além da força para encarar a morte da primeira filha e da primeira esposa, existe um outro ponto que me chamou atenção: a capacidade de se reinventar também como músico. Ele sabia da importância de aprender durante toda a vida.

Em 1992, Peart foi chamado para acompanhar a Buddy Rich Big Band em um show em homenagem ao lendário baterista de jazz que dava nome ao conjunto. Ele topou, porém se deparou com dois problemas: o pouco tempo de ensaio e a percepção que ele tinha aprendido um arranjo diferente do tocado pelo resto da banda. “Eu cheguei no que seria o primeiro solo de bateria só pra perceber que a banda continuava tocando”, ele escreveu certa vez.

Obviamente, a performance não foi lá essas coisas e mesmo em 1994, em uma gravação em estúdio -são condições mais controladas – Peart achava que estava “imitando” alguém e não tocando propriamente o estilo. Como diz o Duke Ellington, “it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing“, ou na minha tradução livre, “não significa nada, se você não tem a levada”. 😉

O fato é que para isso não acontecer de novo, Neil Peart decidiu estudar. Um dos bateristas mais técnicos e precisos do mundo, aclamado dezenas de vezes como o melhor de todos os tempos, decidiu começar de novo. Criar novas regras, ter outras ferramentas. Primeiro com Fredie Grubner, lendário baterista e professor de jazz, e depois com Peter Erskine, outro mestre do jazz-fusion.

Neil Peart e Peter Erskine

Quando eu estacionei em frente à casa do Peter e entrei com as baquetas na mão, tive que rir de mim mesmo. Eu era aquele estudante de 13 anos novamente (…) e é claro que eu deveria me sentir assim. Não há sentido em ter aulas se não for para se render ao professor.

É um longo relato, incrível e de uma relação completamente honesta entre mestre e aprendiz, os dois sendo super capazes no que fazem. Neil Peart pegou os aprendizados do jazz e transpôs para a sua música. Recriou sua técnica, redefiniu seu senso de tempo, ganhou um estilo de tocar mais fluido. É preciso muita humildade pra desconstruir – ou seria reconstruir? – o que foi construído, mas as recompensas costumam valer o esforço.

 

“O que é um mestre se não um estudante-mestre? Existe uma responsabilidade em nós de continuar melhorando” – Neil Peart.

 

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.