6 de janeiro de 2020 Felipe

Sobre referências e manter a nossa cabeça aberta

Estava na labuta em algum dia de dezembro, quando pinga uma mensagem do Diego Mancini no WhatsApp:

“meu velho, pelamor, me diz que você viu isso”. Era o link para o show do Vulfpeck no Madison Square Garden. Pra quem não conhece, o Vulfpeck é uma das melhores bandas de funk (?) da atualidade e esse vídeo é uma prova disso (e que talvez valha como trilha pra sua leitura desse post).

 

Pois bem, uma coisa leva à outra e começamos a conversar sobre essa entrevista recente dada pelo Joe Dart, baixista da banda, especialmente essa pergunta:

Você toca super parecido com o Rocco Prestia (baixista icônico do Tower of Power).

Um dos meus heróis. Quando eu lembro da época de quando comecei a tocar baixo, eu podia ter aprendido usando um dedo, dois dedos, três dedos ou uma palheta. Mas aconteceu do meu primeiro professor ser um baixista que usava dois dedos. O lado ruim disso é que eu não tenho a destreza com três dedos. Eu também não aprendi o slap no estilo do Victor Wooten, eu aprendi no estilo do Flea. Mas o jeito de tocar do Rocco realmente me tocou.

Já emendo com a sabedoria do Diego:

“Isso que ele falou é muito doido. Como o seu professor define o tipo de músico que você vira no futuro. Quando a gente começa, precisamos nos espelhar em algo, no caso, o nosso professor. É muito difícil sair das coisas que você aprendeu na primeira vez que abordou o instrumento. Vejo isso com o baixo. Eu comecei tocando violão, por isso a minha técnica de mão direita é mista (polegar, indicador, médio). Se eu tivesse começado no baixo direto, provavelmente seria técnica de dois dedos. Mas isso virou parte do meu estilo”.

Esse exemplo é universal. Durante a conversa, me peguei pensando nas primeiras vezes que fiz uma atividade. A gente sempre tem uma primeira referência, seja ela consciente ou não. Pode ser a primeira vez que você pensou naquela atividade, pode ser o seu primeiro professor, pode ser um misto dos dois. Lá pros idos de 1996, 1997, eu aprendi HTML sozinho. Mas só em 2001, no meu primeiro trabalho na finada agência Lazo, foi quando realmente me desenvolvi aprendendo com e sendo orientado por pessoas tipo o Fernando Norte e o Matheus Costa. (Talvez tenha sido a minha primeira experiência de aprendizagem social e “cultura de aprendizagem”, vejam só.)

Na bateria, sempre quis “fazer a banda andar”, sem aparecer muito. Uma abordagem rudimentar para o famoso groove. Pode ter sido o meu primeiro contato com a música e a bateria, como disse o Diego. Minhas aulas de bateria com o Glaydson e depois com o Arthur me ajudaram a achar mais técnica do que mudar a minha voz no instrumento. Ainda assim, me espelhei no Arthur para mudar a forma como montava a bateria e fiquei assim por muitos anos.

Existe uma forma de cortar essa amarra?

Independente de qual tenha sido sua primeira referência, manter a cabeça aberta é um desafio real. Porque se a forma como você exerce aquela função faz sentido e funciona, fica desconfortável buscar outros caminhos. Dentro da música, passei por esse desconforto na tal forma como montava meu kit. Agora, navego nesse desconforto tocando jazz. Para o Diego, a evolução musical é, de certa forma, a luta contra as amarras da primeira aula. “Você se tornar um músico completo significa aceitar ser desconfortável e depois conseguir transitar pelo desconforto e aí você pode escolher”.

O Herbie Hancock disse uma vez que “gosta de descobrir novas regras para que possa quebrá-las”. Essa frase vale para qualquer profissão: da música à osteopatia, passando pela arquitetura, engenharia, dança, jornalismo. É super importante se municiar da maior quantidade de informação que você conseguir. Pesquisar, estudar, experimentar, conversar com pessoas relevantes na sua área – famosas ou não -, buscar referências em outras áreas, ter a capacidade de criar conexões, buscar inspiração naquelas pessoas que você gosta e achar sua própria voz.

E quanto mais informação e recursos, melhor. O Diego gosta de fazer essa analogia com ferramentas. “Aquela velha da caixa de ferramenta que só tem uma chave de fenda, saca? Se você só trabalha apertando parafuso Philips tamanho 8, só precisa daquela ferramenta. Mas, vai que alguém te pede uma chave de fenda tamanho 12? Por isso, eu tento mostrar para o meu aluno como um determinado conceito é importante pra um monte de outras coisas, mesmo se nunca for usar aquilo ao vivo.”

Essa analogia é ótima porque confronta a ideia de que devemos “desaprender” as coisas erradas. Isso não existe. “Desaprender” é não saber que aquilo existe, o que te possibilita aprender de novo. Na verdade, precisamos saber as coisas erradas para não utilizá-las. E isso, de novo, remete à necessidade de mantermos a cabeça aberta. Não é fácil, mas é uma prática. E como diz o Victor Wooten (outro baixista que adoro), “praticar é uma forma detalhada de nos convencermos de que podemos fazer isso“.

Obrigado pela conversa, Diego!

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.