12 de junho de 2019 Felipe

A única coisa em que Niki Lauda estava errado

Tem umas duas semanas que Niki Lauda morreu. Quem gosta ou acompanha o automobilismo sabia que o austríaco foi um de seus grandes nomes, pelos feitos e pela história. Três vezes campeão mundial de Fórmula 1, o acidente quase fatal em Nurburgring, a rivalidade com James Hunt, a sua companhia aérea, a abordagem metódica para as coisas, a sua influência no atual domínio da Mercedes na Fórmula 1.

Lauda fez muita coisa certa na vida, é óbvio. Exceto por uma frase, que li nesse post do Flavio Gomes:

"A felicidade é uma inimiga, ela te enfraquece porque, de repente, você percebe que tem algo a perder"

Eu fiquei pensando demais nela, tentando entender onde me incomodou. Uma chuva de sentimentos conflitantes. Por um lado, é esquisito ver um bom sentimento ser rotulado como uma coisa ruim. Ao mesmo tempo, tenho muita dificuldade com a definição de “felicidade”. Acho que é um estado transitório, e que é arriscado quando colocado como um ponto final, uma linha de chegada. Afinal, o que vem depois?

Vou tentar juntar uma série de pensamentos e referências aqui pra tentar explicar. Pode ser que a gente tenha medo da felicidade. Nossa diva Brené Brown fala em “O Poder da Coragem“, seu especial no Netflix: “Ficamos apavorados ao sentir alegria. Ficamos com tanto medo, que se nos permitimos sentir alegria, algo vai vir e nos arrancar esse sentimento e vamos tomar uma porrada de dor, trauma e perda”. Ou esse tweet maravilhoso do Existential Comics dizendo que uma das coisas mais difíceis de explicar para um alien seria a razão de sabotarmos a nossa própria felicidade porque temos medo de falhar e por isso a gente nem pensa em tentar.

Eu entendo isso. É muito mais fácil vestir a capa de vítima, não ser responsável por nossas ações e por suas consequências, mesmo as boas. E vivemos em um mundo que não celebra e nem aceitas falhas. Então é mais fácil não tentar e manter as coisas como estão para não decepcionarmos depois (será que tem a ver com o que falei sobre cavar fundo?).

Ah, mas pode ser uma construção, um caminho e isso tem dois problemas. O primeiro é a jornada em si. Presumimos que ela vai ser cheia de sorrisos, gargalhadas e diversão. E ela passa longe disso. A jornada, qualquer uma que seja, tem muita merda, muito sofrimento e momentos não gostosos.
O segundo é que toda jornada precisa de um final, se não viramos andarilhos sem rumo. E se a felicidade for essa linha de chegada o que vem depois? Viveremos felizes para sempre ou estaremos esperando “a dor, o trauma e a perda”? Se felicidade fosse algo perene, Lauda estaria certo mais uma vez. Porém, o estado de “felicidade” é efêmero. Ninguém consegue viver feliz o tempo todo. E isso dá uma angústia danada.

Lauda poderia estar falando das suas conquistas e do sentimento relacionado. Esportistas em alto nível dizem que mais difícil do que chegar no topo é manter-se lá. Mas a felicidade de conquistar um título é efêmera. No dia seguinte, você precisa acordar e começar tudo de novo, se estiver disposto.

Ter consciência dessa finitude é o que me faz gostar dessa tirinha do Oatmeal. Ele diz que não é feliz e isso não significa que ele seja infeliz. Ele é outras várias coisas: interessado, ocupado, fascinado, mas não feliz. E tudo bem. Talvez a gente devesse buscar outra coisa ao invés da felicidade.

Quem sabe paz? É mais perene, envolver trabalhar o que nos perturba e resolver as coisas que nos incomodam. Meditação pode ajudar, o estoicismo pode ajudar, a mão na massa ajuda. Não significa que seja fácil, afinal a jornada continua sendo aterrorizante e cheia de desafios, independente da linha de chegada.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.