13 de abril de 2019 Felipe

Cave fundo (Ou: O que o crossfit me ensinou sobre persistir)

Esse que vos escreve fazendo um squat clean durante o 19.2. Foto de Francine Piovesan.

Vou acelerar a história. Há 16 bilhões de anos aconteceu o Big Bang, há 4,5 bilhões de anos a Terra começou a ser formada e em um dia em outubro de 2016, vi que havia uma academia e um pneu de trator naquele lugar na porta de casa que outrora havíamos feito aulas de boxe. “Pneus de trator em academia significam uma coisa”, pensei. Parei o carro, desci a rua, e confirmei o que imaginava. Era um box de crossfit. Resolvemos dar uma chance.

O ponto é que, dois anos e pouco depois, estamos lá firmes e fortes. Sem antes quebrar a cara. Eu era daqueles que fazia pouco caso do Crossfit, zoava o fato dos praticantes tornarem-se pessoas de uma conversa só. Lembro de passar perto de outro box vizinho ao nosso e ver um pessoal correndo segurando as famosas med balls, aquelas bolas de couro com areia e que pesam uns 10 quilos. “Se alguém me mandar fazer isso, vou dizer ‘nem fodendo’ e saio desse lugar”. No dia seguinte, estava correndo e fazendo a mesma coisa.

Eu poderia falar muito sobre as pessoas que dividem o box e os exercícios comigo: têm múltiplos assuntos, são camaradas e se ajudam. E se por um acaso falam de um tema só, é compreensível. Eu não imaginava que iria aprender técnicas de subida de corda ou movimentos de levantamento de peso olímpico depois dos 30. Eu falo de lifelong learning, aprender durante toda a vida, mas não percebo quando estou fazendo. Casa de ferreiro, espeto de pau. As relações humanas e a aprendizagem no Crossfit serão motivos para um outro post.

Vou falar da outra coisa que aprendi no Crossfit Vila Madá: cavar fundo. Persistir em alguma coisa, ir em um lugar que eu nunca tinha ido antes e tentar achar alguma calma lá. Pra isso, vou roubar a definição da Jennifer Gonzalez, que encerrou o SXSW EDU esse ano.

“Quando estamos fazendo alguma coisa que vale a pena, mas que é difícil, quase sempre vamos chegar num ponto onde a gente quer desistir. Chega disso, vamos voltar pra onde estavámos antes, porque isso está difícil demais”. Segundo ela, essa é aquela hora que somos testados e que nos obriga a buscar algo dentro de nós que não sabíamos que estava lá. É quando cavamos fundo. Essa parte começa em 39:20. Continuo depois do vídeo.

(Antes de mais nada, méritos pra Jennifer. Ela conseguiu falar sobre crossfit no fechamento de uma palestra sobre as razões que levam as escolas a prosperarem).

Caraminholas

Mas o ponto importante começa quando ela fala do seu treinador, Steven. A pessoa mais doce do mundo fora dos exercícios e que dá tudo quando está dentro deles. Lá no Vila Madá, vejo isso no Conrado, no Lucas, na Brunna, na Marina, na Letícia, na Carol, no Ítalo, a lista é longa. Possivelmente o Steven ficaria no chinelo quando o assunto é se entregar e ter o controle da situação.

Porque eu, cético e cabeça dura como sempre fui, fazia pouco caso dessas conversas sobre força de vontade, controle mental e etc. Porque muitas vezes isso é vendido como “basta você querer e tudo acontece”, sem considerar as variáveis externas. Não é isso.

No crossfit, muitas vezes o que passa na sua cabeça acaba sendo o maior limitante do quão longe você consegue ir. Percebam, não estou falando em olhar uma barra com 150kg e falar “eu consigo subir isso acima da minha cabeça”. Eu não sou forte o suficiente para isso. Estou falando de olhar um exercício de 20 minutos com cargas aceitáveis e não querer desistir no meio. É saber qual é o ritmo necessário para chegar até o final. Numa boa, isso faz parte de uma jornada de autoconhecimento e precisei entender isso praticando um esporte.

O meu exemplo esportivo recente

Durante o Open, tive dois momentos que me mostraram como estou aprendendo a cavar fundo e achar esses lugares sombrios. Para quem não conhece o esporte, o Open é a primeira fase do Crossfit Games e tem esse nome porque é… aberto para todos os praticantes. É uma forma ótima de você se desafiar e saber como está.

O primeiro momento aconteceu durante o 19.2, um exercício que era dividido em cinco partes. Achei que ficaria no meio da terceira, cheguei no finalzinho da quarta. Cada vez que avançava, entendia que estava chegando em um lugar fundo.

O segundo momento foi no 19.5, o último do Open. Nele, eu repeti o exercício sabendo que era uma má ideia. Ia doer, ia me deixar enjoado, são movimentos que não gosto. Mas exatamente por saber disso tudo, consegui avançar mais do que o meu objetivo.

Pra terminar

Acho que somos programados para querer desistir no meio das coisas difíceis. Acontece comigo regularmente, especialmente com as várias distrações do mundo moderno. Esse texto é um exemplo. Porém, precisamos ficar confortáveis com o cavar fundo para fazer as coisas avançarem.

Conseguir transpor esse conhecimento para fora do crossfit tem me ajudado bastante. Mudanças não são simples. As de comportamento então, são duas vezes mais complexas. Deslizes acontecem. Eu ainda desisto no meio de um exercício e no meio de um texto. Mas faz parte

É preciso persistir até para cavar fundo e visitar nossos lugares sombrios, não é?

 

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.