13 de janeiro de 2017 Felipe

A Filosofia e nossos empregos automatizados

A gente fala muito sobre as habilidades que as crianças e jovens precisarão ter para ingressar no mercado de trabalho no futuro. Com a automatização das funções e com os empregos que serão tomados por robôs e afins, muito da discussão sobre formação gira em torno do reforço em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A esperança é que essas disciplinas deem a formação para arrumar um emprego no futuro.

Nessa situação onde a qualificação técnica vai deixar de ser uma vantagem competitiva, o conhecimento de disciplinas transversais será necessário para responder às perguntas que não estão no Google: Quais são as ramificações éticas da automação? Quais são as consequências políticas do desemprego em massa? Como a gente deve distribuir a riqueza em uma sociedade cada vez mais digital.

Segundo esta matéria do The Guardian, a resposta está na filosofia. “Com a automação dos empregos e o conhecimento sendo desvalorizado, os humanos precisam redescobrir o pensamento flexível” e só a filosofia pode ajudar nisso.

O centro da história é Michael D. Higgins, presidente da Irlanda. Em 2013, no pós-crise financeira, Higgins lançou um debate nacional sobre o que a Irlanda valorizava como sociedade. O resultado foi a inclusão da Filosofia no currículo escolar, como matéria optativa para estudantes de 12 a 16 anos.

“A Filosofia na sala de aula oferece um caminho para uma sociedade humanista e vibrante democraticamente”- Michael D. Higgins

Ajudando o povo de humanas a fazer miçanga

É um questionamento interessante, porque oferece um contraponto ao dogma de que só as matérias da área de exatas são necessárias para a formação das pessoas e da força de trabalho. A visão que a área de humanas traz para a mesa pode nos ajudar a compreender outras nuances do mundo e, porque não, transformam-se num diferencial de formação. A gente podia falar de outras disciplinas que não somente a filosofia, mas esse é o exemplo do texto e vamos ficar nele.

No entanto, existem algumas barreiras que precisam ser derrubadas. A primeira é a visão de que a filosofia é algo difícil de ser ensinado e isso depende tanto dos educadores, que precisam ver sentido na disciplina, quanto de alguns filósofos, que ainda acham que o objeto de estudo ainda está restrito às suas salas.

Outro ponto é que a filosofia requer tudo o que não estamos vendo atualmente: que estejamos abertos ao diálogo, a ponderar diferentes pontos de vistas e nossos próprios dogmas na construção de algo comum. Esses dois pontos conversam quando vemos crenças do tipo: “A inteligência de uma sociedade é medida pela quantidade de prêmios Nobel”, algo que o Alexandre Garcia disse em 2011, por exemplo. Não, não é assim. É preciso que a sociedade entenda que as disciplinas de humanas são tão importantes quanto às de exatas ou biológicas e essa troca e transversalidade de conhecimentos é que fazem a “régua da inteligência” de uma sociedade.

No entanto, como o próprio texto do The Guardian fala, pensar e o desejo de entender as coisas não vem de maneira natural. É preciso estimular esses questionamentos e pensamentos de maneira estruturada para se ter sucesso. Na época dos 140 caracteres, das “não-verdades” e das afirmativas rasas, esse seja um dos desafios: entender que é preciso um tempo para articular pensamentos e ponderar pontos de vistas distintos. O outro é formar educadores e espaços que estimulem essa prática.

Talvez isso não vai trazer os empregos de volta ou criar novos postos de trabalho, mas pode criar uma casca e um pensamento crítico contra julgamentos sem sentido além de nos ajudar a questionar o que damos por garantido. E só temos a ganhar com isso.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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