30 de abril de 2015 Felipe

1822 e a educação profissional

Olimpíada do Conhecimento 2014. Construção e Edificações. Foto: Leandro Bifano

Disclaimer importantíssimo: O que está nesse post reflete única e somente a minha opinião e não reflete a opinião do Comitê Organizador ou dos meus colegas de trabalho. Posto isso, boa leitura!

Ah, TL;DR!

Terminei 1822 outro dia. Leitura fundamental pra entender muita coisa. De como um momento fundamental da história brasileira foi passada por alto nas minhas aulas de história, de como o o atual estágio das coisas é reflexo do que foi feito 193 anos atrás e como a luta por um país mais igual é longa e continuará árdua.

É meio óbvio afirmar isso, mas tudo isso tem ligação direta com a razão do meu trabalho hoje na comunicação da WorldSkills São Paulo 2015. Permitam-me uma reflexão. Há tempo que reclamamos da falta de mão de obra qualificada no mercado. Precisamos (ou precisávamos) de engenheiros, mas também precisamos de marceneiros, soldadores, profissionais da alvenaria. Mesmo para uma obra ou pintura em nossas casas. Os bons profissionais não tem agenda e cobram caro. “Ah, mas mil reais pra um serviço de pintura?” A vida é dura, jovem. Se quiser, vá lá e faça.

Mas há um problema. Nós, brasileiros, valorizamos o trabalho como adjetivo, mas temos aversão quando é um substantivo. “Fulano é boa pessoa, é trabalhador” é socialmente aceito. Pegar um carrinho de tijolos e subir uma parede, não. Desde que D. João pisou nessas terras, o trabalho duro não é “pra gente”, é sempre “pro outro”. No caso, “o outro” eram os escravos ou as camadas mais pobres da população. O botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que visitou o Brasil entre 1816 e 1820 escreveu:

Madame tem suas escravas — duas, três, seis ou oito, conforme o infeliz esposo abrir a bolsa. Essas criadas negras nunca podem arredar-se da imediata proximidade de sua severa dona. Devem entender-lhe e até interpretar-lhe o olhar. Seria demais exigir que a senhora, fosse ela mulher de um simples vendeiro, se sirva ela mesma de um copo d’água, ainda que o jarro esteja junto dela sobre a mesa. É tão doce poder tiranizar! De cozinhar e lavar, nem se fale: para semelhante trabalho de escravos Deus criou os negros…

Havia uma corrente abolicionista e a favor da criação de uma universidade no Brasil. Dar liberdade para os escravos e expandir o acesso à educação, em todos os níveis, seria a chave pro desenvolvimento do país, diziam. “A educação limitava-se aos níveis mais básicos e a uma minoria muito restrita da população. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever”. Os que tinham acesso faziam a graduação na Europa, na Universidade de Coimbra, por exemplo. Não é preciso dizer que nada disso aconteceu perto da Independência. Ao que parece, desde sempre, mexer no status quo dá um problema danado. Nesse meio tempo, forjamos a mentalidade de que somente a Academia é sinônimo de sucesso, desqualificamos o trabalho manual e seguimos o barco.

Educação é um tema fascinante. E um dos maiores ganhos de estar envolvido em um projeto como a WorldSkills é poder tirar todos os estigmas da educação profissional. Um evento como a Olímpiada do Conhecimento, que tive a chance de ver no ano passado, comprova a nossa diversidade de habilidades e inteligências. Meninos e meninas muito bons em Mecatrônica, ou Cozinha, ou Jardinagem, ou Serviço Social ou… a lista vai e vai.

E comprova também que o acesso à Educação pode mudar vidas. (Segundo o Vox, a educação infelizmente não cura a pobreza, mas eu acho que ajuda bem). Conversei com alguns meninos que representaram o Brasil na WorldSkills e a história é sempre muito parecida: famílias humildes onde os pais indicam a educação profissional como um caminho “pra ser alguém”. O envolvimento com a competição é variado – alguns por aptidão total ao curso, outros porque adoram competir – mas todos são bem sucedidos na escolha que fizeram. E a percepção de que existe um outro caminho diferente da academia é algo que a classe média, em sua grande maioria, não tem. E por isso fazemos tão pouco caso.

Não estou diminuindo a importância das universidades, longe disso. Mas é preciso mudar o paradigma. Existem outras opções igualmente relevantes e “socialmente aceitas”. Já pararam pra pensar que algumas profissões oriundas de cursos técnicos oferecem salários muito maiores do que profissões da graduação? (Aliás, bom título para um e-mail marketing: “Conheça 50 profissões que ganham mais do que Advogados e Jornalistas e não precisam de diploma superior”). Mais a mais, um engenheiro que tem experiência de “chão de fábrica” vai ser um profissional melhor.

Dentro da WorldSkills São Paulo 2015, acho que nosso desafio “são” dois, no final das contas: Tentar colocar a educação profissional na agenda das pessoas e, principalmente, acabar com o preconceito em cima do trabalho. Qualquer trabalho é importante. Qualquer trabalho ajuda a sociedade a se transformar e progredir. Claro, se os abolicionistas tivessem ganhado a discussão em 1822, a história seria diferente e meu trabalho seria muito mais fácil. Estaríamos focados em somente promover uma competição e não tentar quebrar um paradigma. Mas, se no fim dos trabalhos conseguirmos essa quebra, acho que vou considerar a missão como bem sucedida.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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