28 de janeiro de 2014 Felipe

“Amor, você nunca acha nada”

Eu nunca fui bom em achar as coisas, nunca. Desde pequeno tenho dificuldade em achar o que me pedem. Se Carol sofre com isso hoje, Mamãe e Natália sofreram no passado. Porém, sempre que penso nesse problema como uma exclusividade minha, me lembro do caso a seguir.

Londres, maio de 2006. Havia acabado de chegar na cidade para a turnê europeia. Fui recepcionado pelo Gui em Paddington e nem fomos pra casa (ou pro bar). Ele precisava voltar até a casa de um amigo de longa data, para terminar o conserto de um computador. Pegamos um táxi e paramos em frente à Cavalaria Real, em Knightsbridge. “Esse lugar é chique”, disse o Gui. E parecia mesmo.

Ernest era um alemão judeu, já com seus sessenta e tantos anos. Reza a lenda que ele foi salvo do campo de concentração pelos Aliados, que pararam o trem onde ele e a irmã estavam. Foi para os Estados Unidos, trabalhou na indústria tabagista, casou-se com uma advogada e ao se aposentar, abriu um restaurante/loja de dieta mediterrânea em Londres. Morava em um belíssimo casarão em Knightsbridge. Gui havia trabalhado no restaurante em sua primeira morada no Reino Unido e ficou amigo de Ernest.

Então estávamos lá. Fui apresentado ao Ernest. “Ah, você deve ser o amigo que o Gui havia falado. Deve estar cansado de comer comida de avião, quer alguma coisa?”, perguntou. Eu estava com fome, mas ainda lembrava do sanduíche de atum e ovo que havia comigo no voo do Porto até Londres. Ernest, de uma gentileza incrível, desceu com chá com leite e umas torradas de patê com um picles em cima. Enquanto comia, observava a conversa dos dois.

Ok, Ernest. Preciso do CD de instalação do Windows para a gente acabar o serviço.

Claro, Gui, está aqui – E ele começa a procurar em um armário em cima da mesa. Revira, abre gavetas, resmunga. Parte pra um gaveteiro maior, perto da porta. Abre uma gaveta, mexe nela, revira algumas coisas. Ele fazia do mesmo jeito que eu faço, olhando sem olhar de fato. Óbvio, não acha nada. Desiste e chama a esposa. “Amor, pode descer aqui?”

A esposa desce, vai ao mesmo gaveteiro onde Ernest procurava e em quatro segundos, talvez menos, acha o bendito CD. Coloca nas mãos do sujeito – desolado – olha pra cima em seguida, com aquele olhar de piedade, saindo da sala. Apesar da extrema ironia da ação, me senti muito próximo do pobre anfitrião. Era a mesma cara que minha mãe fazia quando eu não achava alguma coisa.

É a mesma cara que a Carol faz hoje. Mas nem me preocupo muito. Depois de ver isso, sempre lembro que a culpa não é só minha. Deve ser de todos os homens do mundo. 😉

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comment (1)

  1. Rodrigo Medeiros

    Angélica fez a mesma cara que a Carol e sua mãe.
    Estava procurando o varal de peças pequenas, na lavanderia. Não achei de primeira, antes de pedir ajuda procurei novamente em toda a área, sem sucesso. Sai amaldiçoando a faxineira quando minha esposa passa por mim com um sorriso cínico e as sobrancelhas levantadas. 1 minutos depois ela volta da lavanderia e me entrega o varal.

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