14 de novembro de 2013 Felipe

Os rótulos do novo tricampeão brasileiro

Torcida do Cruzeiro acompanha o time | Crédito: Washington Alves/VIPCOMM

Este texto foi feito para o Blog Esporte Fino, uma das melhores leituras de esporte na internet. O link original é esse aqui. Fiquei muito feliz com o convite.

Não custa ressaltar, mais uma vez. A referência sagaz de “Maria, Maria” é do brilhante Marco Antônio Astoni.

Recebi o convite do Esporte Fino poucas horas antes do jogo que consolidou o tricampeonato do Cruzeiro. Três ou seis cervejas depois do título, fui até os arquivos do meu blog para pesquisar o que tinha escrito naquele 30 de novembro de 2003, a data do primeiro – e que virou segundo – campeonato do Cruzeiro. Era hora de escrever um novo capítulo.
 
E me lembrei do fim de 2012, quando Celso Roth disse que não treinaria mais o Cruzeiro. Acho que Adilson Batista era quase unanimidade entre a torcida cruzeirense. Nos últimos cinco anos havia sido o único treinador que fizera o time funcionar.
 
Nem sei se chegaram a oferecer um contrato ao Adílson. Se ele recusou, provavelmente era porque queria degustar os bons pratos de alguma outra culinária que não a mineira e apareceu Marcelo Oliveira na lista. Sujeito tranquilo, trabalhador e sem frescuras.
 
Daqui de São Paulo, eu era parte da minoria que apoiava o cara. O bom trabalho no Coritiba era um portfólio bom, e era ideal para um time que estava sendo reconstruído. “Mas a história dele foi feita no rival”, era o principal – e talvez único – argumento contra Marcelo, em uma das maiores provas de como o Argumentum ad hominem é cruel com o ser humano. Esqueça o trabalho, ataque a pessoa. Colocar rótulos faz parte do lado cruel do futebol.
 
E o Marcelo foi lá e fez. Juntou um time com jogadores cheio de rótulos: “refugos”, “velhos”, “bichados”, “promessas”, “jogadores de Série B”, “pratas da casa”, “experientes”, “jogadores de seleção”. E colocou pra jogar. O melhor Cruzeiro que vi em anos tropeçou no começo, mas engrenou. Tropeçou contra o Flamengo na Copa do Brasil, quase ganhou aquele rótulo de cavalo paraguaio, mas se reergueu.
 
E abriu um caminhão de vantagem, suficiente para meus colegas de trabalho começarem a perguntar do Cruzeiro nas conversas durante o cafezinho. E foi humilde o suficiente pra não cair novamente na falácia do “Barcelona das Américas”, ou algo do tipo.
 
Trinta e quatro rodadas depois, o Cruzeiro ganhou mais um rótulo. O time presidido pelo “inexeperiente” Gilvan e comandado pelo “atleticano” Marcelo Oliveira. O time que tem os “refugos” Everton Ribeiro, Egídio e Dagoberto, o “jogador de série B” Ricardo Goulart e o “velho” Borges. E nós, os torcedores “simpatizantes”, “chatos” e “Marias” – Pra ser Maria é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre – também ganhamos esse rótulo.
 
O Cruzeiro ganhou o rótulo de Tricampeão Brasileiro. E esse ninguém vai tirar da gente.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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