Há 20 anos, uma “mudança” de rumo

5 de fevereiro de 2026
Posted in Trabalho
5 de fevereiro de 2026 Felipe

Há 20 anos, uma “mudança” de rumo

No processo de pesquisar e falar sobre o futuro do trabalho e o desenvolvimento de habilidades sob a ótica da educação corporativa, resolvi olhar para trás para entender como, pelo menos dentro da minha experiência, a forma como trabalhamos mudou, assim como o modo que eu interpreto o trabalho.

Em 2026, fazem 20 anos do que julgava ser uma derivação da minha carreira: quando me tornei Analista de Marketing na Labtest Diagnóstica. Algo bem diferente dos quatro anos de trabalho que tinha até então, onde atuei em agências digitais, primeiro como programador HTML e depois como gerente de projetos. Agora, estava no segmento de Análises Clínicas, um lugar onde o meu pacote de habilidades técnicas adquiridas no trabalho ou sozinho não compunha o negócio da organização. (No meio disso, um curto período na redação de uma revista sobre cavalos mangalarga-marchador, mas isso é outra história)

As coisas eram mais simples e, ao mesmo tempo, mais complicadas.

Carreira

A primeira reflexão é o meu imaginário de um alinhamento imperativo entre trajetória profissional, construção de carreira e relação com a formação acadêmica. À época, escrevi aqui no blog que ia “finalmente trabalhar com algo totalmente voltado para minha formação. Agora sou responsável pela comunicação interna e institucional de uma empresa“. Ou seja, recém-saído da faculdade de jornalismo, eu não estava em uma redação, mas ao menos estava trabalhando com comunicação interna. HTML e Gestão de Projetos não seriam úteis em um contexto onde eu iria basicamente escrever.

O objetivo era ter tempo de casa e ascender na hierarquia. Tudo bem você ir para outra organização, desde que você seja promovido. A escolha que fiz na faculdade deve me acompanhar pelo resto da vida.

Lembro das caras de espanto quando uma colega, farmacêutica, disse que iria pedir demissão porque havia passado em um concurso público totalmente fora da sua formação acadêmica. Eu não imaginava que isso era algo possível. Anos depois, já morando em São Paulo, não fiquei espantado quando um primo, engenheiro, resolveu largar a carreira em uma montadora, voltar para sua cidade no interior do Rio Grande do Sul e começar a trabalhar em outro segmento. Hoje, entendo que a carreira pode ser fundamentada na ideia de portfólios (como explicado nesta matéria da HR Dive).

Não há linearidade na contradição que eu mesmo criei. Escolhi jornalismo porque queria ser jornalista esportivo. Comecei a trabalhar em agência porque fui um autodidata na criação de sites (queria ter um backup do incrível Felipe’s World, meu primeiro site pessoal, hospedado no saudoso Geocities). No entanto, após concluir a minha monografia em julho de 2005, eu deveria, mas resolvi não buscar uma vaga em redações porque já estava inserido no mercado das agências.

Obviamente, eu não imaginava que um dos primeiros projetos que estive envolvido na Labtest foi o desenho do novo site. Ou seja, as habilidades e conhecimentos que tinha (e que julgava desnecessários!) foram importantes. E não pelo fato de saber como o código funcionava e sim por estar familiarizado com as etapas do processo de desenvolvimento, com os termos e boas práticas.

Isso deveria ter sido um chamado para mudar a concepção que eu tinha de que habilidades e conhecimentos ficam em caixas definidas e que não se misturavam. Dessa forma, qualquer coisa que tivesse uma mínima menção ou referência à programação deveria estar restrita às pessoas de TI.

Quando na verdade, é possível (e desejado?) poder empilhar habilidades e colocá-las para trabalhar em conjunto. Antes, tinha a impressão de que os conhecimentos ficavam restritos aos seus silos organizacionais e que havia poucas trocas entre áreas e entre diferentes segmentos. Quase como uma antítese da exploração e um reforço da separação entre “interesses pessoais” e “interesses profissionais”, pensava que se eu quisesse saber sobre turbidimetria, eu deveria perguntar para alguém e com alguma razão profissional específica, não por mera curiosidade.

(Fato curioso: também em 2006, nos Estados Unidos, a consultoria IDEO levou um grupo de médicos para ver como as equipes de pit-stop da Nascar trabalham. O objetivo era entender e aprender como as equipes de um segmento totalmente diferente do médico se preparam para um trabalho coordenado e sob pressão).

A força das habilidades humanas

Cresci em uma família onde conversas, questionamentos e divergências sempre estiveram presentes na mesa do jantar. A escola onde fiz o ensino fundamental estimulava a criatividade e o pensamento crítico, o que me fez pensar que esta era a normalidade.

Parte do time e grandes referências para esse que vos escreve: Vinicius Maia e Paula Basques em 2008.

Me senti em casa quando vi todas estas trocas acontecendo no ambiente de trabalho. E não falo especificamente do período na Labtest, mas também nas agências que trabalhei anteriormente. Na Labtest, a experiência foi mais legal por conta da diversidade das cabeças pensantes: técnicas, farmacêuticas, RH, Marketing, pesquisadoras…

E coisas legais acontecem quando juntamos o conhecimento técnico com estas habilidades. Do ponto de vista da comunicação e marketing, foi um espaço seguro para inovação, para propor ideias, ser respeitado e ouvido, mesmo sendo a voz menos experiente da sala.

Pude estar do outro lado do balcão na criação de produtos de comunicação/marketing como uma área exclusiva para revendedores e um jornal para a família dos colaboradores. Ou, quem diria, usar todo o meu conhecimento sobre as nuances do automobilismo para sugerir a modalidade como o tema da Convenção de Vendas da organização.

Sendo empurrado na dinâmica da Convenção de Vendas 2008.

Edição 3 do Jornal Mais.

A tecnologia

Ao longo deste tempo, o que percebi de forma mais acentuada foi a mudança em nossa relação com as habilidades técnicas em detrimento das habilidades humanas. Especialmente quando falamos das tecnologias digitais. Elas existiam como meio, mas não atravessavam todas as dimensões do trabalho. A mudança da nossa relação é fruto de um cenário maior: a ampliação do acesso à internet, o lançamento e popularização dos smartphones e suas soluções, digitalização dos serviços, etc.

Do ponto de vista da comunicação e do marketing digitais, as estratégias foram se tornando mais complexas à medida que mais canais e mais vozes passaram a surgir (e desaparecer) ao longo do tempo. É interessante notar que até 2007, um bom website era suficiente para resolver grande parte das demandas.

A mudança que mais me assusta é a que vem acontecendo nos últimos três anos com a Inteligência Artificial. Eu não me lembro de outra tecnologia que, em tão pouco tempo, tenha alterado com tanta profundidade a forma como trabalhamos e como nos relacionamos com o conhecimento e com nossas habilidades. Talvez o Napster, restrito ao mercado fonográfico, seja um paralelo possível: de uma hora para outra, a lógica de consumo de música mudou e isso trouxe um impacto imenso para os artistas e para a indústria. O que estamos vendo com a IA tem um alcance ainda maior, porque afeta indústrias, negócios e pessoas.

O motivo mais específico do susto é perceber que estamos usando a tecnologia para ampliar capacidades e ao mesmo tempo confiando a ela as nossas habilidades que sempre foram centrais e que me fazem admirar as pessoas: criatividade, argumentação, interpretação… É mais um caso de uso de tecnologia sem intencionalidade clara, como se a ferramenta substituísse o esforço de pensar. Fico assustado com essa substituição. Continuo firme no mantra de que, independentemente da tecnologia, as habilidades humanas, repertórios e nuances continuarão sendo importantes e de grande valia. E todo segmento de negócio e indústria se beneficia das interações entre pessoas.

Fim

Olhar para trás serviu como uma forma de aguçar a curiosidade para o futuro. O processo de escrever este texto me fez lembrar da vitalidade e do olhar fresco que temos no começo da carreira, inclusive fazendo anotações e relendo postagens sobre os primeiríssimos anos de vida profissional. Ao mesmo tempo que minha carreira acompanha um cenário de grandes mudanças e implementações tecnológicas mais acentuadas, percebo que esta dinâmica de mudanças tende a ser ainda maior quanto mais avançamos nesta estrada.

Vejo isso com um misto de curiosidade e apreensão. Como será o trabalho daqui pra frente? Ele será de fato menos linear e mais baseado em portfólios?

Quais são as tecnologias que vão aparecer e quais serão seus impactos em nossas relações? Quando faço esse questionamento, sempre lembro das 41 perguntas do LM Sacasas sobre tecnologia, fundamentais para balizarmos nossas experiências e adoções tecnológicas.

Espero que as habilidades humanas ainda ocupem um espaço relevante em nossas formações e relações e que a gente siga confiando e aguçando para entendermos este mundo complexo.

Mais do que isso, como será o trabalho e o mercado de trabalho quando Samuel e Maria Tereza começarem a trabalhar.

Para fechar de fato, deixo um convite. No link abaixo, coloquei algumas perguntas sobre carreira e habilidades. O meu objetivo é saber qual é a sua percepção em relação aos temas abordados neste texto. Será ótimo ouvir diferentes vozes e compartilhar experiências!

Link para o Formulário

 

(Agradeço os comentários e apontamentos da Paula Basques, Stella Lobo, Fabio Mariano, Walter Romano e Natália Menhem)

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