12 de fevereiro de 2021 Felipe

Quem controla o processo criativo?

Morris Day e Prince

Antes de começarmos, quero que vocês apreciem a melhor música feita pelo Prince. Não estou falando de “Purple Rain”, ou “Kiss”, nem “When Doves Cry”. Estou falando de “777-9311”. Ela é a prova de que o processo criativo é lindo e também te prega algumas peças.

 

No começo dos anos 1980, Prince aproveitou uma cláusula em seu contrato com a Warner Records, que o permitia recrutar e produzir artistas para a gravadora, para criar dois grupos: The Time, um grupo de funk, soul e R&B e o Vanity 6, um trio vocal feminino. Foi uma saída encontrada para dar vazão à sua produção criativa, dando espaço para outros gêneros e experimentos.

(Na década de 1990, a propriedade criativa foi tema central da longa batalha judicial entre Prince e a própria Warner Records. Ele queria gravar mais discos do que o seu contrato permitia e também queria ser dono das gravações originais. Foi daí que surgiu a história onde ele muda de nome, sendo chamado de “O Artista”, “o artista que foi conhecido por Prince”, um símbolo etc. Mas isso é outra história)

Nas duas bandas, Prince fazia tudo: composição, arranjos, letras. Além disso, gravava todos os instrumentos. As bandas não tinham nenhuma liberdade, só eram obrigadas a executar no palco o que já estava pronto.

Um dos frutos dessa produção foi “777-9311”. A primeira vez que ouvi falar dela foi nesse vídeo da baterista Pocket Queen, onde ela fala de cinco músicas que mudaram seu estilo de tocar. Não sabia quem era The Time ou o Morris Day, o líder da banda. Nem imaginava que era fruto da cabeça do Prince.

Linn LM-1

É uma música grandiosa, extravagante e diferente do trabalho do Prince até então. Começa com um groove de bateria altamente complicado, feito em uma drum machine Linn LM-1 (foto ao lado). A história é que a programação da bateria foi feita por David Garibaldi, baterista do Tower of Power, mas deu algum problema e deixaram do jeito que ficou. Bateristas ao redor do mundo sofrem para tocar. A música também tem uma linha de baixo absolutamente incrível, camadas de instrumentos e um grande solo de guitarra.

Talvez seja uma das melhores músicas compostas e executadas por Prince, mas que está no catálogo de outra banda. Ainda assim, serviu de experimentação para seu próximo álbum e que foi sua obra prima, “Purple Rain”.

Mas há o outro lado. O desconforto dos músicos do The Time era fato conhecido. Sem liberdade criativa, e obrigados a tocar exatamente o que havia sido composto e gravado, a única saída era fazer o melhor show possível. E eles fizeram isso sendo o ato de abertura dos shows do Prince em 1981. “O único poder que tínhamos eram os 45 minutos em cima do palco, porque era uma ditadura onde o Prince controlava tudo“, disse certa vez o guitarrista Jesse Johnson.

A tensão chegou em um ponto sem retorno. Prince chegou a afirmar que o The Time era a única banda que ele tinha medo, em um clássico caso da criatura ganhando do criador. Na turnê de “1999”, o disco anterior ao “Purple Rain”, o The Time foi retirado dos shows. A história seguiu em formato de “Y”. Enquanto a banda eventualmente perdeu potência, Prince virou o artista que conhecemos.

Gosto dessa história porque fiquei apaixonado pela música e tenho lido bastante sobre a vida do Prince. Não posso falar absolutamente nada sobre o processo criativo de uma das pessoas mais criativas do mundo, mas com o olhar de hoje, certamente havia espaço para os dois lados no mercado. No entanto, não acho produtivo sentar-se em cima de uma ideia, sem dar margem para ela andar por si só, criar ramificações e gerar coisas novas. E o grande pulo do processo criativo é a capacidade de sempre ir atrás da “próxima coisa nova”, a capacidade de gerar inovação.

Paradoxalmente, isso foi o que Prince fez durante a sua vida toda.

 

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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