3 de maio de 2020 Felipe

Sobre demônios e ar fresco

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

Com mais carinho, terminei a leitura do Keep Going, o último livro do Austin Kleon. Nessa entrevista durante o SXSW 2019, Austin explica porque ele resolveu escrever o livro. Basicamente, foi a forma que ele encontrou para manter-se produtivo e criativo durante os tempos difíceis.

Os capítulos do livro fizeram muito sentido pra mim e recomendo bastante a leitura. Eu gosto do jeito que o Austin escreve, cheio de referências e curadoria. O conteúdo faz sentido para todo mundo que tem um ofício, do ramo “criativo” ou não. No entanto, o capítulo que ressoou de maneira especial é a foto que ilustra esse post.

Capítulo 9 do livro do Austin Kleon: Demons Hate Fresh Air

 

Os demônios odeiam ar fresco. E é irônico eu escrever sobre isso, especialmente porque eu fiz essa foto acima. Claramente, ar fresco é o que mais tenho nesse período de auto-isolamento. Vim para o condomínio perto de Belo Horizonte onde minha mãe, um tio e um primo tem casa dentro do mesmo lote. Um condomínio dentro do condomínio, com gente, espaço e ar livre. Ainda assim, os demônios costumam dar a sua graça.

Os demônios que o Austin faz referência no texto são tanto aqueles que moram dentro da nossa cabeça, nossos medos, expectativas e ansiedades, quanto os que estão do lado de fora, “as pessoas que querem nos controlar através do medo e da desinformação – as empresas, os marketeiros, os políticos – nos querem conectados em nossos telefones e assistindo TV, porque querem nos vender a sua visão de mundo”. Tem horas que é difícil manter distância, afinal:

– É difícil conviver com o demônio.
– Ele se esforça muito para ser legal.
– Eu te fiz um chá.
– Eu não pedi chá.

Nesses quase 50 dias de auto-isolamento, já vi um pouco de todos eles. O tempo elástico e a falta de interferências no dia a dia faz com que a gente revisite os pensamentos que ficam meio enterrados. Comigo, além das pequenas crises de ansiedade, vieram a falácia da super produtividade, de achar que preciso aprender dezenas de novas coisas, até aquele medo de “como será o mundo e a minha vida depois da pandemia”. Tiveram flashes de questionar escolhas e decisões na vida. Aposto que aconteceu com você também.

Junto, vem a “necessidade” da notícia ruim, de ficar lendo mil horas sobre o coronavírus, o caos na saúde, a falta de perspectiva e como é ruim ter um negacionista como chefe do executivo nacional. Um somatório de coisas que nos faz concluir que o mundo é cruel e não merece ser salvo e de como é sedutor querer ficar pra baixo.

O que tem me salvado é exatamente o ar fresco real e metafórico. Todos nós estamos no mesmo barco, esses sentimentos não vão durar pra sempre. Vivemos na eterna impermanência e tudo bem ser assim. Não estou me cobrando mais um excesso de produtividade, de tentar emular o mundo que a gente tinha antes. Se fico tempo demais olhando pra tela do computador, esperando que a inspiração (ou a transpiração) venha por osmose, eu paro. Dou uma volta ao redor da casa, sento no meu banquinho da reflexão ou faço outra coisa qualquer, em uma espécie de procrastinação produtiva.

(Em outro capítulo, o Austin Kleon diz que a produtividade tem temporadas, mas isso é outro assunto)

Mesmo metaforicamente, tento arejar as ideias. Mando uma mensagem pra alguém, vejo o que as pessoas que eu gosto estão fazendo. Não podemos sair na rua ainda, sentar em um bar ainda, fazer crossfit ainda. Mas podemos dar uma voltinha na rua, buscar referências em outros lugares, trocar ideias.

Os demônios odeiam ar fresco. E não estou dizendo que eles irão morrer de um dia pro outro com a nossa exposição ao ar fresco. Mas entender que eles existem e que também existe uma forma de controlá-los e, de alguma maneira, usá-los ao nosso favor.

Ainda existe muita arte para ser feita nesse mundo.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.