11 de fevereiro de 2020 Felipe

A complexidade nossa de cada dia

Photo by Hao Shaw on Unsplash

Eu ando dando sorte com conversas casuais que se transformam em textos nesse espaço. No meio de dezembro, resolvi fazer uma pesquisa informal no meu instagram e perguntei duas coisas:

  • Você confiaria em uma máquina para tomar grandes decisões por você? Sim ou Não.
  • Se você pudesse escolher a nova chefia, ela deveria ser um robô ou uma pessoa.

Foi um jeito torto de tentar descobrir a opinião das pessoas sobre inteligência artificial, machine learning e futuro do trabalho. Mais ou menos um outro ponto de vista sobre a pesquisa da Oracle sobre futuro do trabalho que escrevi algumas linhas sobre em outubro de 2019.

As respostas foram interessantes. 81% da turma que respondeu não confia na máquina para tomar as grandes decisões e 84% prefere uma chefia humana e não artificial. Algumas pessoas também mandaram mensagens. E sobre as decisões tomadas por máquinas, o ponto de vista da Carol Reine, designer de UX super experiente e parceira de exercícios terríveis no crossfit, me chamou atenção:

“Dependendo do nível da decisão – confio nela (na máquina) me dando informações pra tomada, não a decisão em si.”

Disso, começamos a conversar sobre complexidade e a quantidade de informações que precisamos dar conta atualmente.

“As pessoas acreditam que a vida é um modelo ideal e tudo que não tá ali é erro. Quanto mais globalizado e cheio de opções a gente fica, mais difícil fica a convivência. A minha questão é: o quanto de complexidade as pessoas conseguem carregar?

Essa é uma boa pergunta. Acho que estamos aprendendo a medir e carregar toda essa complexidade. Pra mim, o maior aprendizado tem sido estar aberto às novas ideias. Porque, se tem algo que me impressiona atualmente, é a quantidade de vezes que confrontamos o que damos como garantido. Afinal, “a vida é um modelo ideal e tudo que não tá ali é erro”. (Segundo a Carol, essa premissa está no “How Emotions Are Made” da Lisa Feldman Barrett)

Como diz a Sonja Blignaut nesse artigo, estar aberto é uma forma de navegar nessa complexidade. Já que tudo mudou e nada é como assumimos, devemos cultivar a curiosidade, entender e buscar a diversidade, saber que existem mais ambiguidades e paradoxos. Isso nos ajuda a processar as informações e a tomar decisões melhores para as coisas que realmente importam.

A Carol disse que quer estudar machine learning pra desenvolver um algoritmo que a ajudasse na escolha da roupa do dia, por exemplo. Uma decisão pequena a menos e mais tempo para as decisões grandes. E com uma vantagem: uma máquina programada por você, com o seu viés. Bem mais seguro do que todas as outras decisões que as máquinas tomam pra gente todos os dias. 🙂

Transportei a pergunta da complexidade pra Natália, minha irmã. Eventualmente temos conversas sobre o tema e achei que seria legal ouvir o que ela tem a dizer. A abordagem é parecida. Pra ela, a gente precisa realmente aceitar a complexidade e não simplificá-la. No entanto, o que a gente precisa é simplificar as coisas possíveis para termos tempo para o que o complexo.

“Acho também que quebrar o problema em problemas menores para ações do dia a dia; mas entender que nem tudo se resolve. A complexidade é real”, me disse a Natália. E exatamente por ser real, a gente precisa observar a forma como reagimos à ela, “entender o que nos cansa por falta de conhecimento ou de habilidade”.

Porque com esse excesso todo, a gente precisa ter certeza de que não vamos dar conta de tudo. Mas precisamos acabar com o medo e a ansiedade de perder alguma coisa. Isso é real. Queremos saber todas as notícias, ter opinião formada sobre tudo, conseguir processar e decidir sobre qualquer intervenção na vida. Mas não dá. É preciso descomplicar e isso é um tremendo aprendizado. Pode ser com máquinas, pode ser com uma vida mais simples, pode ser com os dois.

E finalmente, entender que estamos vivendo uma época cheia de mudanças e ao mesmo tempo que é assustador e complexo, também é fascinante. Se adaptar ao mundo “VUCA” – volátil, incerto, complexo e ambíguo – é sinal de que estamos também nos transformando e entendendo o nosso papel dentro desse novo cenário.

Todo dia, de pouco em pouco.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.