6 de dezembro de 2019 Felipe

A gagueira

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Ironicamente, tentando vencer o silêncio e o bloqueio.

Eu, fã declarado que sou, fiquei bem feliz quando li esse texto do Austin Kleon sobre gagueira. Traz uma boa reflexão sobre como a gagueira foi útil para pessoas tornarem-se melhores em seus ofícios. Em outro post, Austin fala que seu filho de seis anos gagueja e quando li isso, acabei lembrando da minha própria gagueira e de como foi um grande problema na minha vida, especialmente na infância.

Sim, eu sou gago. E tenho lembranças vivas da terceira ou da quarta série, o desespero quando eu precisava ler qualquer texto. Se você gagueja, sabe do que eu estou falando. A primeira sílaba da primeira palavra parece ser um obstáculo impossível de ser vencido. Se eu passava, ainda tinha todo o resto do texto. Tinha pavor absoluto de palavras que começassem com “S” e “P”, por exemplo. Eu não sei quanto tempo eu ficava lá no “s-s-s-serra” em “Escola da Serra”, devia ser menos de um segundo. Pra mim parecia uma hora. Tão perto e tão longe, mas o suficiente para ser sacaneado pelos colegas.

E acredite, ninguém gosta de parecer um disco arranhado. Ninguém.

A gagueira tem algumas razões para acontecer: ansiedade, baixa auto-estima, o rápido fluxo de pensamentos, em contraste com a relativa imaturidade do sistema fonoarticulatório. Acontece na infância, em alguns casos perdura para a vida toda, em maior ou menor escala.

O problema é que até entendermos todo o processo, vamos buscando formas de escapar, também em maior e menor escala. Na escola, a forma que encontrei foi me recolher e falar menos, especialmente em público. Conviver com um mundo que fala com eloquência é difícil para um gago. Você obviamente não quer se expor, você espera que as pessoas tenham paciência com o seu ritmo, o que não acontece sempre. Eu sei que muita gente não tenta adivinhar a palavra por mal, mas incomoda bastante.

– Pa-pa-pa…

– Pato!

– Patacoada!

– Patada!

A conversa não é uma rodada de Imagem e Ação e é feio invadir o espaço e o tempo das pessoas.

Pra mim, essa limitação trouxe alguns benefícios: aprender a ouvir e buscar sinônimos para as palavras que eu tinha dificuldade. É sobre isso que o Austin Kleon fala em seu post: achar a sua voz, o seu ritmo e também ouvir com mais atenção.

É bem verdade que esse silêncio durou muito tempo, pra ser sincero. Tinha alguns rompantes de falatório, tipo alguns programas de rádio que fiz durante a faculdade, mas no geral, falava pouco. Além do medo de estar falando bobagem, não queria fazer uma pergunta em uma palestra ou durante uma aula e gaguejar. Os traumas da quarta série tinham que ficar na quarta série.

A idade ajudou, a fonoaudiologia também. Hoje, eu não acho que a gagueira esteja curada, mas simplesmente aprendi a conviver com ela. Tem momentos que a frase está montada e represada na cabeça, sem ter como sair pela boca. Quando isso acontece, eu falo rápido demais. Quando acho que vou ficar engastalhado em uma palavra, faço o oposto, coloco vírgulas e pausas completamente fora do lugar. Acho que a segunda saída é mais elegante que a primeira, me ajuda bastante a vencer o medo de falar em público.

Quando estou conversando com outra pessoa que tem a mesma condição, dou espaço e tempo. De novo, se ela resolveu falar e mostrar essa vulnerabilidade, ninguém precisa adivinhar o que vai ser dito ou deixar a pessoa mais ansiosa para completar a frase.

Pra terminar, me me identifiquei também com esse artigo da Darcey Steinke para o The New York Times: “Minha gagueira me transformou em uma escritora melhor“. Não que eu escreva maravilhosamente bem, mas ser gago me ajudou a achar minha voz e entender quem eu sou.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.