2 de maio de 2019 Felipe

A minha carteira de músico

A minha finada (?) carteira de músico.

(Pela milésima vez, estou tentando zerar os rascunhos do blog. Tenham paciência comigo)

Toda vez que preciso pegar meu passaporte sempre acabo passando por um outro pedaço de papel dentro da pastinha de plástico azul com o nome “Documentos”: minha carteira de músico.

Eu tenho três sentimentos sempre que vejo essa carteira: graça, saudosismo e surpresa. Graça ao ver a foto mais sem sentido do mundo, saudosismo porque foi uma época curiosa da minha vida e surpresa por ainda não entender como esse documento te valida como músico. A graça vai fazer sentido no final do post. Vou começar com o saudosismo.

Saudosismo

Entre 2004 e 2008, eu toquei em uma banda de pop chamada Balboa. Foram anos que me deram muita experiência no ofício: seja tocar para zero pessoas numa tarde de domingo ou para três mil na abertura do Festival de Cinema de Tiradentes. Também gravamos um disco, um EP e algumas demos, nos divertimos, passamos raiva, enfim. A minha história com o Balboa também dá um post próprio. O ponto é que tocamos em todo tipo de boteco que vocês podem imaginar em Belo Horizonte e nunca nem ouvíamos falar da obrigatoriedade da carteira de músico.

O Balboa no primeiro show do Hard Rock Cafe, em Belo Horizonte. Julho de 2006.

Porém, em julho de 2006, conseguimos um show importante no finado Hard Rock Cafe. Lá não tinha conversa, a carteira de músico era obrigatória. Eu havia acabado de chegar do meu mochilão na Europa e, se não me engano, durante o tempo que estive fora, o resto da banda já tinha conseguido suas carteiras. No dia que precisei fazer a minha, saí de casa em cima da hora, passei correndo em uma loja de fotografia para fazer a foto 3×4 e atravessei a cidade em desabalada carreira para fazer a prova prática.

Chego na Ordem dos Músicos mais tenso do que quando fui defender a minha monografia. Pra mim, aquela prova era tão importante quanto, sei lá, negociar os termos da Convenção de Genebra. Eu não tinha a menor ideia do que iria acontecer na prova. Não sabia se eu ia precisar ler alguma coisa, se eles pediriam rudimentos ou ritmos que eu não saberia tocar. Me chamam, eu entro. O diálogo foi mais ou menos assim:

– Tudo bem? – perguntou a moça.

Eu tremendo feito vara verde.
– Tudo.

– O que você toca?

– Ah, eu tenho uma banda de pop – eu respondi ainda tremendo. – Toco Jota Quest, Sandra de Sá, Tim Maia…

– Então toca pra gente aí.

Juro, com “Olhos Coloridos” na cabeça, eu devo ter tocado dois compassos do groove mais básico do mundo. No meio, a moça me interrompeu dizendo: “Beleza, tá aprovado!”.

Eu fiquei com uma cara de “é sério? É só isso?”.

Era. Eu havia me tornado um músico profissional, validado por uma prova mequetrefe. Sabem quantas vezes eu precisei desse documento? Uma única vez. Estava embarcando no Aeroporto da Pampulha e esqueci minha carteira de motorista. Por sorte, a carteira da ordem dos músicos estava na mochila. Nunca precisei apresentar em um show, nunca me pediram pra nada.

Surpresa

A partir daqui, entenda isso como uma reflexão. Hoje eu não sei qual é a obrigatoriedade da carteira de músico e nem se ela é necessária para as pessoas se apresentarem. A prova da Ordem dos Músicos nunca serviu como um atestado de proficiência musical ou uma maneira de proteger a sociedade do mau exercício da profissão. Ela era uma forma de fazer reserva de mercado.

Pensem comigo, não sei dizer quais são ou seriam os requisitos técnicos e/ou sociais para ser um músico profissional, mas sei que não cumpria nem metade deles em 2006. E ainda assim, são necessidades diferentes para pessoas diferentes. Se a pessoa vive da música, ela é profissional. Se ela vai ser boa no ofício ou não, aí é outra conversa. Estamos falando de uma arte e profissão que tem elementos objetivos e subjetivos e que permite infinitas maneiras de aprender e se desenvolver.

Tocar meia dúzia de compassos de “Olhos Coloridos” não atestou nada além de conseguir tocar “Olhos Coloridos”. 😉

Graça

Finalmente, a graça. Como disse, chego correndo na loja de fotografia. Segurava um paletó, uma camisa e uma gravata, elementos obrigatórios para a foto da carteira. Em 2006, eu não tinha a menor ideia de como dar um nó de gravata. Coloquei a camisa por cima da camiseta, abotoei só dois ou três botões. Um sujeito que estava lá me ajudou com a gravata. Fiz a foto. O resultado foi esse aí:

A minha finada (?) carteira de músico.

O baterista popular com o cabelo mais desgrenhado do Brasil. 🙂

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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