27 de janeiro de 2017 Felipe

Sobre um curso de batismo, narrativas e espaço de discussão

Na semana passada, precisei “interromper” minhas férias em Guarajuba, Bahia, para fazer um curso de batismo. Serei padrinho da minha prima e precisei do curso para estar apto à função. Fui para Salvador num sábado e fiquei toda a manhã no Centro Comunitário de uma igreja. Achei simbólico fazer esse curso na cidade que é a minha definição de sincretismo religioso.

A sala estava até cheia, talvez umas 25 pessoas, Algumas super interessadas, outras nem tanto. E o voluntário que dava o curso, percebendo a morosidade da sala, resolveu estimular a discussão dizendo que gostaria de ouvir casos da presença de Deus na vida dos participantes. “Se vocês não contarem, eu falo”.

Todo mundo ficou em silêncio. Então, ele contou que a esposa estava terminando o tratamento contra um câncer de mama. A doença foi descoberta no fim do período de amamentação da segunda filha e ele “resolveu encarar isso na companhia de Deus”. Todo mundo ficou emocionado, naturalmente, imaginando a barra que aquela família enfrentou.

Eis que um cara no fundo da sala levanta a mão, ergue o tom de voz e agradece o voluntário por ter dividido a história com todos nós. Mal deu tempo do voluntário falar alguma coisa e o sujeito continuou. “Não tenho nenhuma dúvida da presença de Deus na minha vida, que é infinita, mas fico me questionando o que estamos fazendo aqui”. Depois do climão, houve uma breve discussão sobre a obrigatoriedade daquele curso ser presencial.

Não consegui deixar de pensar nesse momento do curso. E ele é interessantíssimo pelo viés da comunicação, porque me lembra das inúmeras vezes que estive em sala de aula ou em uma palestra e havia um abismo cognitivo entre o palco e o público.

E o voluntário agiu certo. Uma experiência pessoal é uma boa forma de criar empatia com o público. Porém, ela deve servir para aquecer a discussão e não finalizá-la. Ao contar um caso super pessoal, ele conseguiu criar empatia com a gente, mas não conseguiu criar um momento de troca de ideias. Ninguém iria contar uma experiência que fosse similar àquela, apenas se solidarizar com o sujeito. Um desemprego, um problema menor de saúde, um dilema pessoal não se comparam com aquilo. Era melhor ele começar com estes exemplos “menores”, para estimular e discussão. Se necessário, poderia contar esse caso.

Mas, e a obrigação de estarmos lá? De vez em quando, temos o questionamento certo mas na hora errada. Eu tenho uma preguiça imensa de momentos sem sentido e fico puto quando percebo que meu tempo poderia estar sendo melhor aproveitado. O cara que fez o questionamento tinha os mesmos sentimentos. “Sou professor e não faço chamada em sala de aula. Quem está lá, está verdadeiramente interessado”. Depois disse que era voluntário da Cruz Vermelha e que poderia estar mais próximo de Deus fazendo outra coisa naquele momento. “Estou me sentindo coagido”.

Eu entendo, mesmo. Não me senti “coagido”, porque é uma palavra forte e não era o caso. Mas já cansei de estar em aulas, palestras, reuniões e afins que não tinham o menor sentido, onde acho que meu tempo poderia ser melhor aproveitado. Era o caso do curso? Era. Aposto que metade da sala faria esse curso online, se tivesse essa opção. Eu seria um desses. Mas existe uma questão de propósito. Se o batizado é na igreja católica, você precisa fazer esse curso de padrinhos. É a regra. Estamos ali para cumprir uma formalidade por causa do local do batismo. Ser padrinho ou madrinha vai muito além das obrigações religiosas.

Talvez essa seria uma boa resposta para a “coação”. Ao invés de falar que aquele era o momento para reunir todo mundo e falar sobre Deus, o voluntário poderia dizer que era o momento para conversar sobre este propósito e desafio comum, que é exercer os papéis de padrinho e madrinha no geral. Achar algo além da religião para criar empatia com quem está lá.

Para mim, a lição que ficou desse episódio é que os desafios de engajamento são os mesmos, seja uma sala de aula, um curso de batismo ou um ambiente de treinamento online. Criar empatia, espaços para a troca de ideias e conectar os propósitos não são tarefas fáceis e devem estar sempre nos nossos radares.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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