13 de dezembro de 2016 Felipe

Sobre cozinha e criatividade

Vou começar assim: Eu queria ser amigo do Questlove. O cara é foda. Baterista do Roots, produtor, DJ, amigo de todas as pessoas legais (inclusive o Prince), o “cara do pente no cabelo” tem jeitão de ser uma pessoa interessantíssima. Tornou-se ainda mais quando acabei descobrindo também sua paixão pela comida, através da conta @questlovesfood no Instagram. Tipo, alguém podia dar meu telefone pra ele.

(Nota mental: Como eu adoro esses processos de descoberta! Começa com um post, vai pra um vídeo, uma entrevista e por aí vai. Quando as pessoas são interessantes, essa é uma das coisas mais legais que a gente pode ter na vida.)

Ai certo dia, assisti à essa entrevista no Jimmy Fallon. Quase uma meta-entrevista, já que o The Roots* é a banda do programa. Nela, Questlove fala do “Something to Food About“, o livro que escreveu sobre processo criativo na cozinha. A parte sobre o livro começa aos 2:49.

Eu precisava correr atrás desse livro, porque juntava uma série de referências e assuntos que eu gosto. Acabei comprando no Kindle. Bom porque fica fácil de ler. Ruim porque vou perder as fotos, que parecem maravilhosas. Me interessei pela premissa do Questlove: “Quando converso com músicos, não me interessa a música e sim como ela foi feita. Então eu queria absorver a mesma coisa com chefs”.

“Something to Food About” foi uma das boas leituras do ano. Foram entrevistados dez chefs dos Estados Unidos. Alguns eu conhecia, tipo o Nathan Myhrvold e Ludo Lefebvre. E, embora o foco seja processo criativo na cozinha, é impossível dissociá-lo da vida, do histórico, carreira, visões de mundo e referências de cada chef. Mais do que isso, o microcosmos da gastronomia pode ser usado para diversos exemplos e analogias.

Por exemplo, na questão da aprendizagem. Nathan Myhrvold fala que “uma das mágicas da cozinha é ver que as pessoas descobrem as coisas empiricamente, e grande parte dessas coisas está correta“. Daniel Humm defende que as primeiras memórias que temos são aprendizado “sem a gente perceber que é aprendizado”. E isso não acontece só na cozinha, se a gente prestar bem atenção.

E o Questlove é um bom entrevistador, porque, além da relação esperada entre música e comida, ele consegue abordar questões sociais e culturais com muita tranquilidade. Por exemplo, a relação entre as camadas mais pobres da população e o acesso à alimentação de qualidade e/ou à alta gastronomia. Aliás, este é um ponto interessante. Todos os chefs entrevistados sabem que eles cozinham e falam para uma parcela mínima da população e querem furar esta bolha. Os meios são vários e passam por uma ligação maior com a comunidade onde o restaurante está, o incentivo à produção local e, de certa forma, sobre inclusão e oportunidades.

A verdade é que se eu não tenho um bom relacionamento com o pescador ou o fazendeiro, então eu não sou nada. Eu não sou um mágico. – Ludo Lefebvre

Donald Link quer atacar a pobreza urbana e suas consequências para a cultura do alimento, “Com dez dólares eu faço comida para quatro pessoas, mas a moça ao meu lado no caixa do supermercado gastou com rosquinhas e refrigerante”. Daniel Patterson criou o Loco’l, um fast food com comida de verdade e de qualidade pra todo mundo. Em um mundo cada vez mais exclusivo, dá um alento ver pessoas deste gabarito pensando em todos.

Ryan Roadhouse - Something to Food About

Ryan Roadhouse – Something to Food About

Finalmente, as discussões sobre o processo criativo são deliciosas. As dores e os dilemas também são bem similares às de quem trabalha com criatividade em outros campos. Lidar com as limitações, buscar a simplicidade, pesquisar referências em outras áreas, descobrir quais são as regras fundamentais antes de quebrá-las. A gente vê isso todos os dias em nossos trabalhos e com os chefs não é diferente.

Lefebvre, por exemplo, fez um programa de TV onde cozinhava em qualquer lugar. E não raro, tinha a sua disposição um fogão de quatro bocas e um forno. Ao invés de 12 cozinheiros, somente dois. Quando ele voltava para sua cozinha totalmente equipada, mantinha a eficiência e a simplicidade.

Existe o “perfeito”, existe a “falha” e não há nada no meio. Esta é uma responsabilidade do trabalho criativo. – Daniel Patterson

Sobre as referências em outras áreas, Daniel Humm comentou que seu restaurante recebeu uma crítica positiva de um jornal, mas com uma ressalva: “gostaria que o lugar tivesse um pouco de Miles Davis“. Ele e sua equipe fizeram uma pesquisa sobre a vida do músico e listaram 11 palavras que eram comumente utilizadas para descrevê-lo. Saíram palavras tipo “colaborativo”, “cool“, “reinvenção sem fim”, “de vanguarda”. Para Humm, cada um dos termos era um conceito e cada conceito é uma ideia. Elas foram responsáveis pela guinada no restaurante.

Enfim, “Something to Food About” é um livro delicioso se você gosta de música, criatividade, comida e boas histórias. Sejam juntas ou separadas. Recomendo para dar uma arejada na cabeça e ter novas ideias para o seu processo criativo. 🙂

Ah, esse post foi parcialmente escrito ao som de “Undun”. Pesado, mas providencial.

* Em uma tradução literal seria “o o Roots”. Nunca sei como escrever quando há um artigo em português e um em inglês.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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