20 de setembro de 2016 Felipe

A Indústria da Multa incomoda muito mais do que a Indústria da Morte

Em 2009, quando ainda morava em Belo Horizonte, eu resolvi criar um site chamado Não Sei Estacionar, onde a pessoa podia mandar uma foto dos carros parados em local proibido e/ou imprimir uma multinha para colocar nesses veículos. Por N motivos, nunca consegui fazer andar pra frente como gostaria, mas não é esse o objetivo do post.

O objetivo é dizer que desde aquela época eu ouvia sobre a “Indústria da Multa” estimulada pela BHTrans, a CET de Belo Horizonte. O orgão determinava que cada um dos seus agentes precisava cumprir uma cota de 18 multas por dia. “Nooooossa! 18 multas é multa pra caramba”, eu pensava. Até que eu percebi que estava enganado. Era só andar uns três quarteirões e ver uma meia dúzia de infrações. Ou seja, chegar nas 18 multas não exigia muito esforço e procura. A gente não gosta de seguir as regras e isso é um fato.

Pois bem, a “Indústria da Multa” é um termo que voltou agora nas eleições municipais em São Paulo. Uma hipocrisia alimentada pela candidata Marta Suplicy e pelos candidatos João Dória e Celso Russomanno, tentando arrebanhar eleitores contrários às medidas de redução de velocidade nas vias implementadas pelo prefeito Fernando Haddad. (Inclusive com dados descontextualizados).

A redução da velocidade nas vias urbanas é uma política recomendada pela ONU, já adotada com sucesso em Nova York e Londres. Aqui em São Paulo, as mortes no trânsito caíram em 21% desde a implantação das novas velocidades. São vidas sendo salvas, famílias que sofrerão menos, menos atendimentos nos hospitais, menos pessoas afastadas do seu trabalho. Em troca, precisamos andar um pouco mais devagar, o que significa, inclusive redução de congestionamentos. Eu acho justo.

O que é injusto é transferir a culpa do nosso egoísmo e falta de civilidade para o poder público. Dizer que a redução da velocidade fere o Direito de Ir e Vir, falar os velhos argumentos da “Indústria da Multa”, quando é óbvio que cometemos infrações a torto e a direito, e até ter a audácia de afirmar que “o certo seria educar antes de punir”. Essa afirmativa é quase um paradoxo com aquela outra que gostamos de soltar aos quatro ventos: “O brasileiro só aprende quando doí no bolso”. Quer dizer, a gente só aprende pagando, mas quando falamos de infrações de trânsito, não é educação, mas punição e arrecadação desmedida. Que pensamento confuso.

Não podemos achar normal o trânsito ceifar 43 mil vidas por ano. A solução pra isso passar por várias frentes: melhores vias, mais fiscalização, formação de motoristas, menos carros nas ruas, diversificação dos modais de transporte (aliás, ciclovias melhoram o deslocamento dos carros) e redução de velocidade nas vias. Não aceitar isso é ser egoísta e não pensar na cidade como o espaço comum que dividimos. E o candidato que defende os limites antigos está sendo irresponsável com São Paulo, seus eleitores e cidadãos. Uma boa pergunta para eles é qual seria o número aceitável de mortes por acidentes de trânsito na cidade. Pra mim é zero.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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