29 de março de 2016 Felipe

SXSW Interactive 2016 – Parte 2

Como disse, essa viagem foi recheada das primeiras vezes. Uma delas foi dormir em um hostel. Nunca tinha feito isso e, claro, estava um pouco ansioso com a situação. Tentei hotéis – tanto pelo sistema de reservas do SXSW quanto por fora – e quartos no AirBNB dentro da equação preço x distância do Centro de Convenções, mas a conta não fechava. Aí achei o Drifter’s Jack Hostel, perto da Universidade do Texas e a pouco mais de dez minutos do centro de ônibus.

Foi interessante para conhecer gente nova e que parecia comigo. Nas primeiras noites, meus companheiros de quarto eram cinco jovens na casa dos 20 anos. “Vai ser foda”, pensei, até conhecer Eduardo no primeiro café da manhã. Português que também havia caído de para-quedas no hostel. Mais ou menos da minha idade, também com saudade da esposa, também achando o público jovem demais e viajando junto com um amigo para resolver coisas do doutorado. Deu uma amenizada.

Mas, o que mais me incomodava – e imagino ser o sentimento comum em hostels – era a falta do “meu” espaço. Fazer a minha bagunça, deixar as coisas espalhadas no banheiro, as roupas do meu jeito. Isso não existe. Mas eu estava indo bem, até a noite de 9 para 10/3. Gripado, havia passado para a parte debaixo do beliche e com companheiros novos de quarto, simplesmente não consegui dormir. Acordava assustado e fui pegar realmente no sono quase às 4 da manhã. Foi tipo um balde de água fria na motivação.

Na noite do dia 10, descobri mais um “dos meus” no hostel através da lista de whatsapp criada para o SXSW. Fabrício Vitorino, jornalista, primeira vez no SXSW e perdido igual eu. Saímos junto com o portugueses pra tomar uma cerveja. Foi o balde de água quente na motivação. Fui entender esses sentimentos todos no keynote do segundo dia do SXSW Interactive.

SXSW Interactive – Dia 2 – 12/Mar

A regra era continuar na busca das coisas que eu não sei. Então comecei o dia vendo uma palestra sobre negociação com Richard Shirley, sargento da polícia de Austin, Kathleen Hessert, consultora de comunicação e a autora do discurso de aposentadoria do Peyton Manning e Andria Vidler, ex-executiva da gravadora EMI. É uma das belezas do SXSW, colocar pessoas totalmente diferentes para falar da convergência de um assunto. E a negociação, seja em uma ocorrência policial ou no contrato de um novo artista, segue os mesmos princípios: trabalhar a escuta ativa, colocar-se no lugar do outro e, ao falar qualquer coisa pensar o que isso significa para o ouvinte e porque ele se importaria.

Aí ví a palestra meia-boca do dia, sobre o poder das hashtags. Sim, existem palestras e painéis meia-boca no SXSW. Basicamente falou o que todos nós sabemos: hashtags são importantes, mas não se sustentam sozinhas. Ou, a mesma hashtag tem significados diferentes em cada plataforma. Por exemplo, #Ferguson no twitter era utilizada para reportar o factual. Já no instagram, ela era utilizada para postagens mais gerais sobre questões de raça e desigualdade. De relevante somente o fato de que as redes sociais estão aumentando o engajamento cívico e político nos Estados Unidos.

Almoço rápido para ver, em seguida, uma mesa sobre inovação nas cidades com Kevin Johnson, prefeito de Sacramento, Richard Berry, prefeito de Albuquerue, Jen Consalvo, CEO da Tech.Co e Tynesia Boyea-Robinson, diretora da Collective Impact. Duas cidades tão diferentes e com algo em comum: a vontade de tornarem um hub para start-ups e inovação. Muitas ideias progressistas e uma preocupação real com a diversidade. Primeiro, uma nova definição sobre Infraestrutura. Não estamos falando de fazer ruas e calçadas, mas investir também em conexão de dados de qualidade, distribuição inteligente de energia e criação de espaços para que as empresas apareçam. Johnson disse que não deve-se esperar que o Google apareça na sua cidade e crie 5 mil empregos como em um passe de mágica. Estes empregos aparecerão com a criação de empresas locais, que irão pagar impostos e fazer o sistema ser sustentável.

Sobre diversidade, vários pontos válidos. É ponto comum que a diversidade é o caminho inteligente para o sucesso. Por isso, devemos entendê-la como uma normalização baseada em sua população, ou seja, ver a mesma representação e distribuição das ruas dentro das empresas. E finalmente, enxergar as minorias como bens, não como déficit. Foi um painel tão progressista que fiquei imaginando como seria ofensivo para o pensamento tradicionalista do gestor público brasileiro padrão. Falaremos mais sobre diversidade mais pra frente.

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Keynote do dia: Brené Brown. Em vídeo porque a sala lotou. Muito, muito reconfortante. Brené estudou a vulnerabilidade das pessoas e ficou conhecida após falar no TEDxHouston sobre o assunto. Achou que tinha sido horrível, mas fez o maior sucesso. E ela falou mais sobre o assunto no TED Conference de 2012. É uma pena que sua keynote ainda não está no YouTube. Foi fundamental para mim, porque entendi, finalmente, todos aqueles sentimentos do hostel em apenas duas frases. “De vez em quando, precisamos escolher coragem ao invés de conforto” e “Vulnerabilidade não é fraqueza”. Toda essa operação SXSW significava, para mim, que eu havia escolhido coragem ao invés de conforto. Pena que eu havia entendido a dimensão dessa decisão tão tarde. Outra dica que aprendi com ela: sobre nós mesmos e nosso trabalho, preocupe-se apenas com a opinião de cinco pessoas. Mais do que isso é pedir para sofrer.

Brené Brown

Brené Brown

Corri pra uma palestra que estava lotada, então resolvi saber se excelentes atletas precisam ser boas pessoas, com Katie Nolan, apresentadora da Fox Sports, Kevin Demoff, COO do Los Angeles Rams, Evan Rosenblum, editor do TMZ Sports, e Erik Burkhardt, agente esportivo. Composição interessante, porque você tem todos os lados envolvidos, o cara que paga o salário do jogador, dois veículos de mídia totalmente opostos e o agente. A resposta curta para o título do painel: depende. “Não dirija bêbado, não bata na sua esposa. Os fãs esperam dos jogadores as mesmas coisas que esperam de seus familiares e amigos”, disse Rosemblum. Já Burkhardt foi mais cético e acha que os fãs não se importam muito com o comportamento dos atletas. “É importante, mas não é fundamental. O fã não compra ingresso somente por bom comportamento”.

A postura da TMZ também foi questionada. Rosemblum disse que não se importa se os jogadores fazem coisas certas ou erradas, ele está interessado somente na história. No entanto, as histórias ruins dão mais audiência, naturalmente. “Mas há uma linha de privacidade que a gente respeita. Embora não seja uma regra estabelecida, você analisa a situação e faz seu julgamento sobre publicar ou não a matéria”, disse.

Fechei o dia com a palestra de Jim Bankoff CEO da Vox Media, empresa-mãe do Vox, The Verge e afins, sobre como construir a empresa de mídia do futuro. Eu tenho um caso de amor sério com os produtos da Vox Media, especialmente o Vox. Bankoff explicou porque a empresa trabalha seu portfólio com marcas diferentes para cada editoria, ao invés de uma grande marca com várias editorias. Ele acha que as pessoas se identificam mais rápido com as marcas, ou seja, se eu quero saber sobre gastronomia e comida, vou direto ao eater.com, ao invés de ir numa sub-seção do UOL, por exemplo.

A operação consegue ser viabilizada através de publicidade, naturalmente, e através de eventos, propriedade intelectual e no desenvolvimento de branded content, plataforma e tecnologias. Sobre publicidade, eles disponibilizam o conteúdo das oito editorias além de todos os dados de utilização dos sites em uma única plataforma. Nela, os anunciantes podem escolher a melhor forma de colocar o dinheiro.

Já no final da entrevista, quando perguntado sobre o que teria feito diferente no começo do Vox Media, Bankoff disse que teria feito uma equipe e uma cultura mais diversa. Das 200 pessoas que foram contratadas nos últimos dois anos, 58% são mulheres e 27% são não-brancos. “Mas no começo, na correria para lançar produtos e serviços, acabamos contratando ‘o de sempre’ e agora estamos modificando isso”. Vale a pena ver o painel inteiro.

Aproveitei o fim do segundo dia para conhecer mais pessoas legais, tomar boas cervejas, e tentar ficar um pouco mais inteligente. Depois que entendi o significado da minha ida, tudo ficou mais fácil. 🙂

Cachorro quente no Frank's.

Cachorro quente no Frank’s.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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