8 de março de 2016 Felipe

SXSWedu 2016

Alerta: nível altíssimo de TL;DR.

Tem algumas experiências que você precisa de tempo para maturar na cabeça. Por exemplo, participar do SXSWedu e do SXSW Interactive. Tanta coisa acontece consecutivamente que fica até complicado conseguir fazer registros mais trabalhados enquanto o dia avança.

A ideia, claro, era fazer um post por dia, mas não deu. Logo, resolvi dividir os assuntos. Um post, esse aqui, sobre os cinco dias de SXSWedu e os outros para cada dia do Interactive. E isso tem muito a ver com as formas que fiz minhas anotações. Comecei o edu anotando no celular e no tablet. Um tanto de anotações picadas, combalidas pelo corretor do iPad. Durante o Interactive, migrei as anotações para o caderninho. Foi muito mais produtivo.

De certa forma, foi bom ter ido à Austin para duas conferências em seguida, já que uma serviu de ensaio comportamental para a outra. O SXSWedu aconteceu entre 7 e 10 de março, já o Interactive, entre 11 e 15 de março. A dinâmica de ambas é bem parecida, embora a segunda seja muito maior do que a primeira: várias palestras ao mesmo tempo, espalhadas pelo Centro de Convenções de Austin e hotéis próximos, todos localizados no centro da cidade.

Profissionalmente, me senti um peixe MEIO fora d’água. Fui para a conferência “a trabalho”, mas descobri que o foco é quase todo na educação básica e pública. Ou seja, nada a ver com o mercado de educação corporativa. Mas, por outro lado, são assuntos que tenho conhecimento e bastante interesse, então não teve como não aproveitar.

Nesse ponto, foi interessante ver as semelhanças e diferenças nos desafios e dilemas da educação pública dos Estados Unidos e do Brasil. Sobre os opostos: os desejos e dilemas dos professores da rede pública de lá são muito diferentes dos daqui, por uma série de motivos. A discussão sobre ensino de tecnologia, a criação de espaços maker em sala de aula e edtechs é fortíssima. Como consequência, vemos várias ofertas de atividades lúdicas, cursos de verão sobre programação e design, impressoras (e canetas!) 3D, além de qualquer solução tecnológica para sala de aula e gestão escolar. Tenho a impressão que este tipo de demanda ainda está engatinhando no ensino público por aqui.

No Explo, o seu objetivo é pegar um cartão postal e transformá-lo em um para-quedas, somente com tesoura e fita crepe. É um experimento utilizado para ensinar aerodinâmica para as crianças.

No Explo, o seu objetivo é pegar um cartão postal e transformá-lo em um para-quedas, somente com tesoura e fita crepe. É um experimento utilizado para ensinar aerodinâmica para as crianças.

Por outro lado, existem muitas similaridades. Exemplos: Uma política de avaliação bem vertical, onde os professores não são ouvidos, desigualdade social e racial e os desafios da inclusão.

Sobre os dois primeiros temas, lembro de uma painel promovido pelo Medium. Nele, a forma de avaliação dos professores foi fortemente questionada. De maneira simplista, assumiam somente que os professores não queriam ensinar, quando, na verdade, os docentes, especialmente da escola pública, lidam com crianças mais pobres e com uma infinidade de realidades e problemas. O Medium tem sido uma plataforma importante para que os profissionais discutam as realidades nas escolas.

Retoricamente, as pessoas falam que educação é importante. Na prática, ninguém dá valor. – Randi Weingarten, Presidente da Federação Americana de Professores.

A desigualdade social e racial também foi discutida. Um painel sobre diversidade na educação, promovido pela Fundação Bill e Melinda Gates, foi enfático nesse ponto. A falta de diversidade é importante porque torna-se um problema de negócio, uma vez que os alunos não se parecem com as pessoas que estão resolvendo o problema. De fato, 51% dos alunos na rede pública americana não são brancos e a maioria do pessoal da escola é. Não é uma questão de pareamento, mas de representatividade.

Em outro painel, investidores em edtech comentaram sobre como é relevante ter uma equipe diversa, para eliminar os pontos cegos dos projetos. Citaram o caso de uma empresa que desenvolve um app para acompanhamento do desempenho dos alunos de uma determinada região. O time contratou uma programadora latina, que sugeriu a tradução do app para o espanhol, já que a maioria dos pais dos daqueles alunos não fala inglês. Só isso fez o número de downloads, interações aumentassem barbaramente, assim como o envolvimento com as escolas.

Sobre inclusão, a diferença fundamental é o estágio da discussão. Se por aqui, perguntamos se devemos fazer, por lá é sobre como fazer a inclusão. Nesse ponto, vale o keynote de aberuta da conferência, feito por Temple Grandin.

Grandin fala sobre a diferentes modos de pensamento e como todos devem pensar juntos para resolver problemas. Ela mesma tem autismo e Síndrome de Asperger. Sobre inclusão, Grandim defende que as crianças são inclusivas naturalmente, mas as vezes é preciso separar para evitar bullying.

Os finalmentes

No geral, o SXSW é uma elaborada construção coletiva. Toda hora alguém vem conversar, especialmente nos happy hours, o que é algo um pouco estranho para os tímidos feito eu. Mas rapidamente você se acostuma. De repente, você está descobrindo diversos projetos super legais: bibliotecas para crianças em barbearias de Nova York, projetos de inclusão da IBM usando tecnologia de ponta, plataformas que usam o emoji como um idioma ou o hip-hop como ferramenta de ensino de matemática, história e línguas.

Também é um lugar de tendências. Vi muitas iniciativas de Realidade Virtual e Realidade Aumentada para a sala de aula, algumas discussões sobre blended learning nas escolas e sobre como será a aprendizagem no futuro. Tipo esse vídeo:

No entanto, ainda é um evento muito focado para o público americano. No último dia, a representante do SXSWedu para o Brasil nos ofereceu um café da manhã. Nele, algumas pessoas da Fundação Lemann demonstraram interesse em levar professores da rede pública brasileira para Austin em 2017. Sem dúvidas, a diversidade de culturas e realidades de ensino seria muito benéfica para a conferência.

Quem trabalha com educação básica, é gestor público, quer desenvolver soluções, ajudar nesta questão ou simplesmente tem interesse nos assuntos, deve considerar a viagem para Austin. E nem precisei falar da cidade. 😉

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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