9 de dezembro de 2013 Felipe

Sobre Atlético-PR e Vasco

Sobre a pancadaria entre Atlético-PR e Vasco, algumas palavras. Pra começar, fiquei tão triste com o ocorrido que tive a mesma sensação do Marcão. Ele postou um desabafo em seu facebook, que termina com a seguinte frase: “Mas não quero isto pro meu filho. É claro que não vou proibi-lo de ir ao campo, não tenho este direito. Mas, do fundo do coração, espero que ele não se envolva tanto como eu numa atividade que é cada dia mais violenta e cruel.” É mais ou menos por aí mesmo.

Primeiramente, todo mundo sabe onde está o problema, mas acho que ninguém tem saco para correr atrás da solução. Envolveria clubes, jogadores, organizadas que são financiadas pelos clubes, dirigentes que usam as torcidas como massa de manobra para seus próprios interesses. Se o problema fosse tratado como deveria ser, veríamos Atlético Paranaense e Vasco rebaixados hoje e uma centena de pessoas (não só três) indiciadas e presas. Se a “análise das imagens permitiu facilmente a identificação” segundo o delegado, é só ir na sede das torcidas e pegar cada um. Todos estão lá, com nome e sobrenome.

Segundo, acabar com as torcidas organizadas até funcionaria, mas é pouco se a primeira parte não for cumprida. E isso envolve clubes e dirigentes. Os clubes não tem que ajudar torcida. Muitos dirigentes usam a torcida como apoio para mudar a própria situação política dentro do clube. Aqui cabe um caso: Lembro de quando estava fazendo a minha monografia e estava entrevistando o assessor de imprensa de um clube, em sua sala de trabalho. Perguntei se o clube tinha alguma relação com as torcidas organizadas e ele, de forma veemente, disse que não. Não se passaram dois minutos quando um outro funcionário do clube bateu na porta aberta da sala e disse: “Seu Fulano, o Beltrano da torcida tal está aqui. Veio cobrar aquelas camisas que o senhor prometeu”. Risinho amarelo do Fulano. Tanto faz se era um posicionamento do clube ou do próprio cara, mas está errado. Não existe almoço de graça no mundo e eu que sou ingênuo sei disso. Um jogo de camisas e um ônibus mais 40 ingressos garantem tranquilidade e força política em um momento, mas viram invasão de CT e torcedores “profissionais”, que vivem de viajar para qualquer lugar, “acompanhando” o time e caçando briga.

Terceiro, os jogadores. Parem de fazer gestos da torcida organizada. No meu caso, o gesto dos braços cruzados acima da cabeça não me representa. Comemorar gol assim é dar moral para poucos. E hoje, especialmente no ocorrido em Joinville, os jogadores deveriam se recusar a continuar a partida. Mas não. O nível de burrice é tão alto que os mesmos sujeitos que choraram a pancadaria e covardia na arquibancada preferiram conversar com as mãos tampando a boca durante a interrupção do jogo. E, pior, comemorar os gols como se nada tivesse acontecido.

E eu espero uma posição mais firme do Bom Senso FC. Soltar um comunicado vazio e pra galera, não conta. Afinal, todo mundo espera “que os culpados, em todos os âmbitos, sejam punidos e que medidas drásticas sejam tomadas por toda a coletividade do futebol para que cenas como essas jamais voltem a ocorrer“. Eles deveriam fazer valer o movimento corporativista e dar com o pau na mesa. Se tem alguém que pode parar isso são os jogadores e os…

Patrocinadores. Torcedor do clube patrocinado brigou feio no estádio? Corta o pagamento ou, em casos piores, rompa com o clube. Se eu fosse gestor de uma marca que patrocinasse o futebol, detestaria ver ela associada à violência. Na Fórmula 1, a seguradora ING rompeu com a Renault em 2009, depois do Cingapuragate. Este ano, a NAPA fez a mesma coisa na Nascar, depois de uma tentativa de arranjo de resultados. Mas parece que no futebol brasileiro, violência não é motivo para isso.

E finalmente, também estou com o Marcelo Bechler. A ausência da Polícia Militar em Joinville e a presença de seguranças particulares: uma grande derrota para quem defendia a desmilitarização nos estádios, como ele e eu. No entanto, enquanto não tivermos segurança privada bem treinada para estes eventos, é melhor que a PM resolva esta questão.

Em pouco mais de seis meses iremos sediar uma Copa do Mundo. Mas esse episódio de violência não tem a ver com ela. É uma situação urgente, antiga e que o tempo para solucioná-la é agora. Porque senão a Copa vem, a Copa vai e a violência não. E seria horrível continuar perpetuando nosso pior legado.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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