16 de setembro de 2013 Felipe

Saia do armário, cara

Sexta estava indo para o Aeroporto de Congonhas. Bandeirantes bem lenta, e o taxista assistia ao Jornal da Band, fazendo comentários quase inaudíveis. Eu ouvia as notícias e tentava desesperadamente passar da fase 154 do Candy Crush Saga, quando ouvi o dileto companheiro falar em alto e bom tom:

– Amigo, você é filiado a algum partido político?

Era aquela pergunta chata, porque a imensa maioria dos taxistas paulistanos curte a direita festiva, então era sinal de altercação na certa. “Não sou filiado, mas sou de esquerda”, respondi já avistando as antenas do ILS de Congonhas.

“Ah, eu sou de direita. Não gosto de socialismo”, ele estufou o peito pra dizer. “Mas sou a favor da política de cotas. Muita gente não teria condições de entrar na universidade se não fosse assim”, prosseguia. E eu concordando.

– Além disso, as bolsas são importantes. Bolsa Família, Bolsa Cultura, tira o cara da miséria, o que você acha?
– Eu acho que é importante também – respondi, quase cético.

O táxi sai da avenida, desce o túnel e se encaminha para o aeroporto, tempo para a sua conclusão: “Eu acho o seguinte. Se a pessoa tem condições, ela precisa devolver algo para a sociedade. Assim todo mundo ganha”. O táxi para.

Enquanto tiro o dinheiro da carteira, comento: “Cara, olha só. Acho que você, na verdade, bem lá no fundo, é de esquerda”. Seus olhos arregalam.

– DEUS ME LIVRE! JAMAIS SEREI SOCIALISTA E COMUNISTA. ISSO NÃO É PRA MIM!

Dou um sorriso, saio do carro e sigo meu rumo.

Mais um pouco e esse aí saí do armário. 😉

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

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