9 de maio de 2013 Felipe

Naomi

Naomi durante o carnaval em Barbacena/2012.

Tudo que acaba de forma abrupta, choca. Dói. Te deixa com aquela sensação de “Por quê?”

Um dos meus maiores medos ao sair de BH era receber essa notícia. Mas na minha cabeça, no meu conforto, era pra ela acontecer em uns cinco anos pra frente. E era pra pensar “Ah, mas ela estava velhinha, estava na hora”.

Mas não. Foi de manhã, de forma bruta, sem chances e do pior jeito. Ônibus.

Não falo por que era a minha (nossa) cachorra, mas a Naomi deixou um legado. Fez muita gente gostar de cachorros. Gente que tinha medo, gente que até tinha simpatia, mas que era melhor cada um estar seu canto. Vivia em constante estado de ataraxia, a ausência de todos os medos (exceto da escada da área de serviço). Ia com todo mundo, cumprimentava todo mundo, entrava no carro de todo mundo (principalmente sem ser convidada).

Chegou bem pequena lá em casa, presente do meu tio e padrinho, com aquela cara de cachorra pidona e morta de medo. Chorou, comeu CD, baquetas (várias), tênis (alguns), roubou comida (até já velha), ganhou comida, ganhou carinho. Sorrateiramente, deitava entre eu e a Carol no meio da noite e me tirava da cama. Deitava entre qualquer pessoa e o encosto do sofá e tirava essa pessoa do sofá. Pariu cinco cachorros, foi mordida, usou abajur, teve gravidez psicológica, caiu no carnaval e tomou pontos na pata. Era a minha referência de casa. Porque era só colocar a chave na fechadura pra ouvir as patinhas no piso e aquela fungada pela fresta da porta. Melhores sons depois de oito horas de estrada.

Ela está em uma das fotos que mais gostei do meu casamento. Ela e os famosos três pontos dos whippets (os dois olhos e o focinho). Eles farão falta.

Eu e Naomi no dia do casamento - Foto: Fernando Lutterbach

Eu e Naomi no dia do casamento – Foto: Fernando Lutterbach

E claro, colocava o Usain Bolt no chinelo. Tinha um parangolé, porque era cortejada por todos os cachorros. Era de uma ingenuidade linda e de um amor incondicional. Talvez essa combinação Usain Bolt + ausência de medos + amor incondicional tenha jogado contra ela em uma única vez (daqueles nós bizarros que o universo dá).

Finalmente, ouvi alguém dizer que o problema de ter cachorros é que eles vão morrer antes da gente e aí fica o vazio. Eu não concordo. Cachorros são iguais os filhos do poema “Enjoadinho”. “Cães… Cães? / Melhor não tê-los!/ Mas se não os temos /Como sabê-lo?”

Obrigado pelos oito anos maravilhosos, Naomi.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (6)

  1. Meu caro amigo, não conheci a Naomi pessoalmente – apenas por fotos e pelos seus relatos sempre alegres. E é assim que vou me lembrar dela. Como o verso que encerra o seu post, talvez eu não saiba o que se passa agora aí dentro. Mas sei que as lembranças boas é que devem ficar. Curioso falar de “não medos”, porque o único realmente irracional que tive na vida foi uma cinofobia que ganhei de presente quando criança e que aprendi a domar a partir da adolescência. E assim, aos poucos, com bastante conhecimento adquirido e cachorros como a sua adorável whippet, passei a gostar desses dóceis animaizinhos. Afinal, aprendi mesmo que os cães refletem os donos e, nesse quesito, você e a Nat têm energia positiva de sobra. Tenho certeza de que a Naomi também tinha. Um abraço e uma saudade de não tê-la conhecido. Força aí. 🙂

  2. carolina neves neiva

    que texto maravilhoso, sinto por sua perda. tenho em casa 2 almas boas assim. que estao sempre a esperar… alguns meus ja se foram… mas agora tenho esses 2 presentes de DEUS. Benedito e Valentino. meu coracao enche de tristeza por sua perda. e eterna saudade com certeza.

  3. Ana Teresa

    ✨Naomi✨ foi uma cachorra educa,linda,fofa e era muito amada pela Natália,pelo Felipe e por todos aquém a conhecia. FORÇA NATÁLIA E FAMÍLIA .

  4. Aparecida

    Felipe, foi com Naomi que considerei a possibilidade de gostar de cachorro. A cena com áudio que vc descreveu era mesmo uma delicia: tocar a companhia de seu ap e ouvir os passos dela pela sala. Saudade!

  5. Walter Romano

    Poxa, Naomi foi embora. Só vi agora. Sempre me lembrei da sua alegria com ela. Muito bacana ver seu afeto por ela. Que a família guarde com carinho a lembrança de sua companhia 🙂

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