8 de julho de 2011 Felipe

E o conteúdo?

Tem coisas que a gente só vê de fora. Antes de mais nada, vai um disclaimer educado. Se você ler esse post com o sentimento de que estou cuspindo no prato que comi, pode parar agora. Eu tenho muito respeito pelo mercado de Belo Horizonte, foi onde cresci. Por mais pretensioso que possa parecer, escrevi esse post com o objetivo de mostrar pra turma daí um caminho, por menor que seja. Também não sei se estou certo ou errado, são somente impressões 570 km distantes.

"Sharing" | Toban Black - Flickr CC-BY-NC

Nesse um ano e um mês fora de BH, algumas coisas ficaram bem claras: o belohorizontino médio é avesso à mudança; na maioria das vezes, o provincianismo é visto como uma qualidade; e a produção de conteúdo é extramemente prolífica em algumas áreas e totalmente nula em outras igualmente importantes.

Sobre esse assunto é que eu quero falar. Não tenho visto esse tipo de produção nas principais cabeças das agências da cidade. Basta um giro por twitters e facebooks para comprovar isso. É um mar de check-ins no foursquare e mimimis diversos. O pior, não vejo nenhum sinal de mudança. Não sei se há alguma razão específica pra isso. Pode ser a falta de interesse ou falta da percepção que as agências e seus donos são a mesma coisa perante o público (“posso escrever besteira que ninguém vai associar mesmo”).

Outra razão: a falta da consolidação (ou interesse) de uma estratégia de comunicação, em detrimento às constantes modificações visuais. As agências resolveram virar escritórios de produção visual e não se preocupam em construir (ou compartilhar) conhecimento. Nesse caso, perde-se uma chance de ouro de educar o mercado, ser referência de conteúdo e tal.

O que eu esperava? Posts com referências legais, algum artigo ou discussão sobre algum assunto relevante. Ou quem sabe ler um blog de agência que não falasse tão somente dela, mas sim do mercado, do que o(s) dono(s) pensa(m), como acha(m) que as pessoas vão consumir e se comunicar daqui alguns anos. Pode ser um chute absoluto, não me importa. Quem sabe até um workshop travestido de café da manhã, para trocar ideias e experiências. Mas quero saber o que esses caras pensam. Não quero check-ins, trollagens infundadas ou auto promoções em excesso.

Só três exemplos rápidos, aqui em São Paulo tem o Mobilizado da .Mobi, o defunto blog da Gringo e o da Talk2. Devem ter outros milhões espalhados no Brasil.

Algumas exceções existem, felizmente. De supetão lembro dos blogs da 3 Bits e da Vöel, além do Quinta Digital, iniciativa feita pelo Alex, da Bolt, que infelizmente não vingou como deveria. A maioria dos apoiadores, inclusive a agência que eu trabalhava na época (mea culpa feita), pouco se movimentou para divulgar e fazer o evento vingar de fato. Todos pegaram carona na ideia, motivados pelo lance de colocar a marquinha lá. Saí de BH não muito tempo depois, vi que o projeto aconteceu em outras cidades e eu esperava que servisse de motivação para outras agências fazerem o mesmo, mas não. Nada aconteceu.

“Mas foda-se, o twitter é meu, eu escrevo o que eu quiser”. Sim, claro! Mas não adianta reclamar que o cliente é burro, que ele não entende de comunicação (bem mais amplo e rico do que somente internet) e que “mineiro é disso pra pior”, se você não faz a sua parte pra coisa melhorar. Enquanto não ficar claro que conhecimento é diferencial estratégico e tem muito mais peso do que brodagem entre fornecedor-cliente, as coisas realmente não vão mudar.

E aí, qual é a sua opinião sobre o assunto?

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (9)

  1. Annita Velasque

    Nossa, Felipe. Fica complicado até para comentar, porque concordo demais com você.

    Sou espectadora fiel do Talk Show, projeto da TALK, que você cita acima, que é simplesmente o auge das minhas tardes de quinta-feira! 🙂

    Tenho a mesma impressão que você sobre o mercado aqui em BH. Tem boas iniciativas, mas conteúdo não é a principal preocupação, mesmo. É aquela coisa de valorizar mais o parecer que o ser. A imagem que a reputação.

    Posso aproveitar e fazer um jabázinho? É que acho que o seu artigo se parece com um comentário que postei no Webcontexto: http://www.webcontexto.com.br/tecnologia/websites-sobre-ser-e-parecer/

    No mais, um abraço!
    Annita.

  2. Tiago

    Felipão, nem tanto ao céu e nem tanto ao mar. Concordo com a “falta” local. Falta mais, falta ousadia, falta olhar além da serra do Curral.

    Porém, não se pode colocar no mesmo cesto a ousadia da New360o com o primeiro Leão mineiro ou as iniciativas do Grupo TOM de Estudos da Tom Comunicação.

    Mas na minha mineira e igualmente expatriado p/ SP opinião, mais ainda do que esperar por posts, tweets ou breakfasts que são ótimo para o PR mediano, é importante que o mercado (e aí vale p/ Mineiro, Gaúcho, Candango, Curitibano…) tenha uma efetiva produção de conteúdo para o público de seus clientes.

    Já não sei mais quantas vezes vejo 1 empresa querendo ser amiga no Facebook, ou outra que usa o Twitter p/ ser apenas um link direto do conteúdo do site, como um RSS.

    Alô pessoal. O canal de comunicação com as pessoas é 1 só. Por que repetir a mesma informação em 3 ou 4 plataformas. Faça o conteúdo ser vivo, ser integrado, ser diretamente relacionado. Tanto se falou de Obama em 2008. Quem fez algo na mesma linha? Ok… vamos atualizar. E a NBA em 2011? Alguém tem uma plataforma de comunicação quiçá a metade? Pois é…

    Sei lá… acho que o ponto é mais esse. Mais embaixo. O que é feito de conteúdo p/ quem é o “pagador” da cerveja do final de semana, hein? É míope pensar que o cliente a ser encantado é o dono da empresa ou o diretor de mkt.

    Enfim. Boa provocação. Fica aí meus 2cents também.

  3. Bruno

    Sim, seu post é pretensioso. E falta um pouco disso no mercado de BH IMHO. E complementando esta discussão, acho que tbm falta “pagador” de cerveja do fds em BH.

  4. Concordo completamente com você, Felipe. Sou paulistana e estou morando em BH a 6 meses, sinto de perto a diferença de atitudes e pensamentos dos 2 estados. Acho uma pena, pois na minha opinião o mercado mineiro pode crescer muito mais, tem muito potencial, mas a miupia impede.
    De qualquer forma, torço sinceramente para que essa mudança ocorra o quanto antes. Pois o mundo gira! #ficaadica

    Valew!

  5. Cara, muito bacana e oportuno este seu post. Fecho com você completamente neste princípio de que as agências estão se transformando em escritórios de criação visual e que perdem uma excelente oportunidade de extrapolar e educar o mercado, tornando-se referências.

    Só não acho que a coisa é localizada em BH (na verdade, não vejo isso muito bem feito no Brasil como um todo).

    Ah, e me lembrei que a Tom (agência de BH) faz(ia?) algo semelhante, com palestras, conversas e workshops…

  6. Artur Miglio

    Concordo plenamente. Muito bom o post Cabeça.

    É muito absurdo perceber que mesmo sendo resistentes às mudanças, os clientes e comunicadores querem parecer totalmente favoráveis à mudança, porque é chic. Mas na prática nada muda. “Eu quero um blog…”, “Minha empresa precisa de ter Twitter e Facebook…”. Mas vai falar que é preciso monitorar e redigir conteúdo, e que talvez seja preciso de contratar alguém para tal, a idéia cai por terra em 2 minutos. Ou então pior: “Não que isso, eu sei mexer nisso aí”. Aí já viu o resultado…

  7. Paula

    Felipe, bacana o seu post e a exposição da sua opinião.

    Já trabalhei em empresas e agências. Ou seja, já vivenciei os dois lados da moeda.

    O que mais me incomodou até hoje foi a pressa das empresas em fazer uma campanha ou uma ação digital. Na maioria das vezes, tudo é feito na super correria, sem praticamente nenhuma análise estratégica ou planejamento. A agência contratada acaba tendo que atender no mesmo ritmo. Ela bem que tenta convencer a empresa a fazer algo bacana, elaborado, baseado em pesquisa e voltado para o perfil do público da empresa. Mas acaba sendo engolida pela pressão do cliente e produzindo algo “inferior”. A frustração, em pouco tempo, acaba sendo de ambas por uma ação que não foi bem aceita no mercado.

    E também existe a situação inversa: quando a empresa precisa mesmo é de algo mais rápido e a agência acaba pressionando para fazer algo mais elaborado. E a empresa acaba perdendo o timing da campanha ou ação.

    Enfim, a “química” entre a agência e a empresa também é fundamental!

    E como bem disse o Jc: “O imediatismo econômico é que dita as regras na maioria das vezes.”

    Fico com a fé de que teremos cada vez mais agências competentes em BH, capazes de gerar conteúdos sensacionais! E empresas com profissionais experientes, com olhares completos e ousados, embasados em Planejamentos Estratégicos que saem do papel.

    E que as duas trabalharão cada vez mais juntas e melhor. Baseadas não simplesmente em vaidade ou foco no lucro imediato, mas na vontade de produzir algo verdadeiro e de qualidade.

    Abração pra você!

  8. Pilar

    Quando a gente sai de BH, consegue entender melhor a cidade, sua serra (que a cerca), seus ritmos, suas dificuldades. É uma cidade que em pleno século XXI, da descentralização total, construiu um centro administrativo com conceito dos anos 50/60, com um arquiteto excelente, dos melhores do mundo, mas “datado” e não houve nenhuma movimentação radical dos seus moradores para impedir este atraso.

    O centro da cidade vai regredir mais, aqueles prédios todos do entorno da Praça 7, poderíamos ter nos inspirado nas revitalizações que NY, Berlim, Boston fizeram. E este “clima” da cidade reflete no transporte focado no carro, na privatização de áreas públicas, no provincianismo das suas agências…

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