31 de maio de 2011 Felipe

São Paulo, ano I

31 de maio de 2010, por volta das 22h e o voo Gol 1273 pousa em Congonhas. Um dos seus passageiros era o bom e velho Cabeção, esse que vos escreve. Tinha início a minha vida paulistana. Vida que começou a se desenhar em uma reunião uns 15 dias antes, quando me perguntaram: “Você então está topando vir pra cá?” e eu, cheio de confiança por fora e cagadinho por dentro disse um “Sim!”.

Aceitado o desafio, não tinha como fugir. Mas esperava que um meteoro caísse entre BH e SP e furasse a Fernão Dias. De quebra, viria como brinde uma cortina de fumaça tão grande, que impediria qualquer ônibus ou avião de cumprir essa rota. Era o pânico total e completo em sua versão fantasiosa. Pânico de largar minha família, a Carol, meus amigos de escola, faculdade, pelada, pedaladas e ensaios. Do marasmo (delicioso) de BH. Mas não tinha jeito e eu vim. Quebrei todos os paradigmas internos, as raízes fincadas dez metros naquele chão de minério de ferro, enchi o peito e vim.

Não me arrependo, de forma alguma. Tive muita sorte de cair num oásis em meio ao caos da cidade. Morando em um ponto estratégico (logo atrás da Av. Paulista), ridiculamente perto do trabalho, bem acolhido lá e em casa. Se achei os quatro primeiros meses impossíveis, imagino que eles seriam bem piores se tivesse trabalhando na Berrini, já enfrentando o climão corporativo daqui. Mas sobrevivi e ousei dar um passo mais longo. Longe do trabalho, longe da casa (paulistana) e fui bem sucedido.

Fui descobrindo como era meu bairro, como eram outros bairros. Horas e horas investidas no Google Maps, desvendando o melhor caminho pra chegar em um lugar novo, utilizando o metrô. Ah, o metrô! Quantas vezes preferi utilizá-lo só pra saber onde fica determinada estação e como chegar em algum endereço utilizando-o. Quantas vezes quase fui atropelado pela turba louca que faz a baldeação na Sé, só porque esqueci que lá é o “acesso à linha 1, Azul. Desembarque pelo lado esquerdo do trem”. É só uma das provas de que São Paulo não é uma cidade amigável, isso é fato. Ela te bate na cara todos os dias e te joga no chão. Ao melhor estilo Rocky Balboa, o esquema é levantar, sacodir a poeira e domá-la. Eu demorei talvez uns 9 meses para conseguir isso.

Também descobri que morro de saudades da Carol e da minha família. E descobri que saudade não diminui, a gente que se acostuma com ela. Mas cada vez que a Carol aparece, além da festa, dá a vontade de prender ela aqui. E ela foi a co-desbravadora dos pastéis, do mercadão, do Rong He, do Museu do Futebol e do Bar Dona Onça.

Acredito que o saldo geral seja positivo. Óbvio que “perdi” algumas coisas, mas ganhei outras. Reforcei laços de amizade, conheci gente nova, fui me descobrindo. Acho que essa rede de afeto que te sustenta em uma situações de solidão ou tristeza. E é algo que aprendi a fazer com quem chega.

Devo ter amadurecido alguns anos em apenas um. A gestão da casa, a dinâmica do trabalho, saber viver sozinho em uma cidade que não é amigável. Isso tudo serve de aprendizado. E serve pra ver que até dá pra gostar daqui.

365 dias e contando… 🙂

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (5)

  1. A marcha em SP foi combatida com violência policial. Cidade nada amigável… Situação terrível. Bate na cara e te derruba no chão. As drogas? Não, a cidade. Que é uma droga. Mas dá onda…
    não dá?

  2. Agora vc pode imaginar como foi pra mim, bem mais novo, mudando pra BH. Sentido ainda a saudade do mar, que aqui sempre está “lá”. E em BH nunca estava… Oq nos cercava era a contorno, com suas ondas tobogã. BH tem traços do pior que há em sampaulo, mas menos. Transito, cracolandia, morros e mortes. Mas sp não tem aquele sotaque, aquelas moças simpáticas, aquele falar devagar. Em sampaulo não há. E oq q há? Ha aquele horizonte profissional metafísico… aquela maça presa por um fio em nossa frente, como quem a amarrasse na ponta de uma vara diante do burrico, que andará eternamente. Ou será que não? Será que só de saber que a maça nunca chegará já somos portanto livres? Não me pergunte, pois eu não sei. Pra quem nasceu lá, e como a sua beagá. Atendimento 100% na mesa do bar. Opções de cultura e divertimento. Profissionalismo. Oq mais tem em sampaulo Felipe? Desafios? O homem é movido a desafios?? Mas quem define o seu desafio é você? Complicadas questões… Meditações diante o mar de morros, fazem falta… A fantasia introspectiva barroca! Irão um dia os paulistas entender oq é isso?
    Agora vou remar, no mar, das águas do Atlântico.
    Boa sorte velho guerreiro! Muitos anos hão de vir, aí, aqui ou lá, seja lá onde for.
    godspeed

  3. Suas palavras, pelo que vejo, só fizeram você notar que BH é apenas uma grande cidade do interior. Palavra de carioca que adora BH (e SP também).

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