10 de maio de 2011 Felipe

Argumentando o transporte público

Esse post foi motivado por uma discussão no Twitter. Vale como argumentação, já que fazer isso em 140 caracteres por vezes é impossível.

Sexta-feira estava eu no caminho para o Aeroporto de Congonhas, tipo 17h30 e aquela zona característica da Avenida Rubem Berta, um para-e-anda eterno. O taxista tinha a teoria para isso. “A culpa desse trânsito todo são os radares. Baixaram a velocidade para 60 km/h e por isso o trânsito fica ruim”. E eu fiquei pensando que o senso comum é culpar os radares, a CET (ou a BHTrans pra abraçar minhas duas realidades) ou os motoristas ruins, sem no entanto, olhar para o óbvio: Tem carro demais nas ruas.

Tem carro demais nas ruas. Afirmei isso no twitter e tomei pancada. Mas tem. Agora, quais são as razões pra isso? A principal e, a qual acredito devemos cobrar mais, é a falta de investimentos em transporte coletivo e alternativo. Me parece uma matemática simples: Com transporte ruim e desconfortável, o caminho natural das pessoas é escolher o carro, mesmo que o ganho de tempo seja mínimo, se é que exista. Já falei isso algumas vezes, não canso de repetir: Quando o transporte público for mais eficiente, confortável e prioritário em relação ao carro, ele será escolhido como modal principal.

Outra razão é cultural (ou midiática). Carro é status. Ter carro é legal, traz poder, é sinônimo de independência. De vez em quando, a troca do carro entra antes da reforma da casa. Carro, Carro, Carro! É um assunto que merece ser estudado a fundo, penso. E vejam, não estou demonizando o coitado. Algumas pessoas precisam diariamente. Eu, felizmente, preciso eventualmente e quase que somente em Belo Horizonte.

E toda essa argumentação e defesa acima também serve para as bicicletas. É preciso criar estrutura cicloviária para que as pessoas percam o medo de pedalar nas ruas. Incentivar a construção de ciclofaixas (são mais educativas), concientização para grande parte de motoristas e motoqueiros e, quando possível, suporte ao trabalhador que usa a bicicleta rotineiramente: chuveiro, local para guardar a magrela em segurança etc.

Em Belo Horizonte, eu ia e voltava de bicicleta do trabalho porque era mais rápido. Quando mudei de emprego, passei a ir somente uma vez por semana, por falta de estrutura no prédio onde trabalhava. Aqui em São Paulo atualmente utilizo o ônibus. Mas morro de raiva em ver a quantidade de gente espremida dentro. E isso serve para o metrô também. Imagina então o ódio do cara que vai espremido de Itaquera até Jabaquara. Esse sujeito deve pensar “quando tiver dinheiro, vou comprar um carro e foda-se pra isso tudo aqui”. É a solução mais simples, na cabeça dele.

Então, quando acho que a proporção de duas pessoas por carro significa muita coisa não é pra menos. Ok, Chico me alertou que em Berlim a proporção é quase 1/1. Ok. Certa vez li uma matéria sobre Vauban, cidadezinha também alemã que tem proporção semelhante, mas o transporte coletivo é tão eficiente e a cultura da bicicleta tão viva, que as pessoas deixam os carros em casa e só andam quando necessário. É nesse ponto que eu quero chegar. São Paulo (e BH, Rio, Brasília) poderiam ser Vaubans em maior escala.

Utópico. 😉

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (3)

  1. Boa Cabeça,

    Só um comentário sobre você dizer que “carro é status”. Eu antigamente achava isso também, mas vejo que hoje não é mais não. “Status” é o carrão de luxo, grande e alto. Carro já banalizou e facilitou para todos.
    Comprar um carro a primeira vista é acessível a qualquer um que tenha R$350 no orçamento para abrir um financiamento por 5 anos, sem pensar no depois o quanto ele vai consumir com gasolina, estacionamento, oficina, iptu, seguro e mais um tanto de coisa que vão deixar de pagar ou burlar no melhor estilo Gerson.
    O caminho medíocre é sempre mais fácil. O ônibus está demorando e é lento, porque tem muito carro na rua, e se eu estou parado no ponto para pegar um ônibus cheio e lento enquanto as outras pessoas estão confortáveis no seus carros com ar condicionado e ouvindo música, cantando junto e tirando meleca do nariz, eu deveria fazer o mesmo. É mais confortável sofrer no trânsito assim do que em pé num ônibus lotado e ‘saculejento’.

    Quem sabe no dia que o contrário acontecer, quando você ficar parado no trânsito dentro do seu carro enquanto vê muitos ônibus passando rápidos e sem pessoas sem espremendo a mediocridade siga seu rumo e as pessoas mudem para a opção coletiva ao invés da individual.

  2. Engraçado ler isso justo hoje. “Tem carro demais nas ruas” saiu quando me deparei com um trânsito ruim em horário alternativo. Concordo com o que disse, mas ainda mais, Felipe, tenho me espantado como aqueles que não dirigem tem tido cada vez menos respeito. (sou uma não-motorista desde que decidi não mais enfrentar meu pânico de direção)
    Esses dias, atravessando na faixa de pedestres, o semáforo mudou e eu, no meio do percurso, me vi obrigada a correr porque carros e motos me intimidaram, buzinando e ameaçando seguir adiante. Eu estava no meio da faixa quando as luzes mudaram, eles deveriam me esperar. Ainda ouvi desaforo. Mas os motoristas de carro aqui ainda tem o “poder”, além de tudo isso que vc listou.
    O carro polui, faz barulho, causa tráfego, etc etc etc e é preferido; a mim, ‘andante’ que sou, silenciosa, inofensiva, e que saudavelmente se exercita, cabe o medo de atravessar ruas – na faixa e sinal verde de pedestres.

    Abs!

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