4 de março de 2010 Felipe

Porque eu sou contra a Cidade Administrativa

Hoje ocorre a inauguração oficial da Cidade Administrativa, a nova sede do governo de Minas Gerais. Foram torrados R$ 1,5 bilhão na construção dos cinco prédios que compõem a Cidade, com o argumento de deixar toda a estrutura do Estado em um só lugar, gerando uma economia de R$ 92 milhões/ano*.

Minha opinião? Sou contra. Simplesmente porque não é uma solução moderna. Mal comparando, a própria Praça da Liberdade é um centro administrativo da sua época. Claro que de 1897 (data da criação do Palácio da Liberdade e seu entorno) para hoje, a estrutura do Estado é outra e muitas secretarias estão localizadas fora dali. Mas hoje não é necessário juntar todo mundo. “Ah, mas e a economia em ligações e despacho de documentos?”, vão questionar. Skype e meios eletrônicos existem pra isso aí. “Só que a obra representará desenvolvimento da zona norte da cidade!” Concordo que é importante, porém convenhamos, não poderiamos utilizar o mesmo espaço para uma série de outras coisas? Um pólo industrial, um centro de convenções, sei lá. Mas não, resolvem construir uma obra “imponente” em um vale, abaixo do nível da estrada. E me desculpem os pachequistas, porque escolher Oscar Niemeyer quando se podia fazer, por exemplo, um concurso? A obra tem a cara dos anos 50.

Finalmente, temos o problema do acesso, já que os servidores vão de ônibus fretado (!). Fizeram uma meia dúzia de linhas marginais de ônibus para atender ao local, sem pensar em uma grande solução de transporte tipo metrô ou VLT.

Fosse eu o governador, reformaria o centro da cidade com essa grana. Existem dezenas de prédios grandes e parcialmente desocupados na Praça 7 e arredores. Colocaria todo o funcionalismo lá, reformando as edificações, interligando-os pelo alto, colocando estacionamento subterrâneo e o escambau. De quebra, transformaria a praça em um grande boulevard. Isso sim seria uma obra moderna e de vanguarda. Não essa “grandiosidade dentro de uma caixa de fósforos” que me parece ser a Cidade Administrativa. 😐

* Corrigido às 14h24. Em quinze anos pagamos a conta, perdão!

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comments (9)

  1. Ricardo Bizafra

    Você está coberto de razão. A cidade administrativa é um desastre, tanto arquitetônico quanto urbanístico. Mais uma vez, o centro de Belo Horizonte é deixado de lado.

  2. Muito interessante a opnião, principalmente no que toca ao desenvolvimento do atual centro comercial de Belo Horizonte apesar de ser uma visão diferente do padrão, que tende a descentralizar as cidades, buscando a redução do trânsito e ampliação da área urbanizada.

    Penso que apesar dos pesares políticos e economico-duvidosos tenha sido sim uma boa iniciativa pois com o passar do tempo as necessidades vão ficar mais claras e assim novas iniciativas de apoio vão sanar parte dos problemas gerados pela obra.

    E para finalizar, eu particularmente gostei da idéia de convidarem Niemeyer para assinar, pois do meu ponto de vista representou um elo entre o passado e o presente da arquitetura urbana de BH, que é marcada pelos traços deste grande profissional.

  3. Gabriel

    Cabeça,

    Primeiramente, não sou simpatizante do Aécio e não tenho interesse nenhum em defender político nenhum e respeito sua opinião. Meu comentário é puramente técnico:

    A economia gerada é de aproximadamente 90 milhões/ano. Serão economizados em aluguéis e serviços de vigilância, portaria, etc. O custo real não foi de 1,5 bi e sim pouco mais de 1 bi. Isso representa um payback de pouco mais de 10 anos, sem considerar eventuais reajustes de valores. Só por esta razão, já valia a pena a construção.

    O trânsito do centro de BH irá melhorar significativamente, uma vez que cerca de 20.000 pessoas irão deixar de ir para o centro (que sofre o fenômeno de “transito de passagem” que tanto a PBH e BHTRANS querem solucionar).

    O vetor norte PRECISA ser ocupado e ter seu valor agregado aumentado. A área nobre de BH está “vazando” para Nova Lima (Belvedere, Vale do sereno, etc). Qual o problema? Os IPTUs mais caros, os IPVAs mais caros entram no cofre de Nova Lima e estes contribuinte oneram os serviços de Belo Horizonte. E não creio que pólo industrial, um centro de convenções teria o mesmo efeito de levar para lá 90% dos cargos mais bem pagos do governo estadual. O entorno vai valorizar e, naturalmente, estes investimentos que você citou vão ser demandados. E melhor, DE GRAÇA!

    E a questão de melhorar o transporte dos servidores até o C.A., já existe licitação aberta para o projeto de VLT, TRO ou até um monotrilho da estação de metrô da Vilarinho até a C.A.

    E, na minha opinião, temos que pensar a longo prazo e pensar que uma cidade não se faz só de postos de saúde, delegacias e escolas. Até porque, quando um primo seu chega a cidade, ou um amigo do exterior, nós sempre os levamos á praça da liberdade, ao complexo arquitetônico da lagoa…ou seja, obras de primeiríssima necessidade da época, não é mesmo?

  4. Gabriel Bahia

    Depois de muito tempo volto ao seu blog, Cabeção!!!
    Com todo o respeito, colocar todo o funcionalismo do Estado no Centro de BH não é proposta que se faça, Cabeça! É gente pacarai, o Centro que já está sempre lotado, de gente, carros, ônibus e o escambau, simplesmente não comporta. Têm-se que se valorizar o Centro, sim. Mas como um centro de convivência da cidade, e não como Centro Administrativo.
    Já fui contra essa obra do Aécio, mas hoje a acho válida e creio que agradeceremos em um futuro próximo.
    Sem contar que a Praça da Liberdade vai ficar doida demais, com CCBB e todo o resto.
    Abraços cordiais da Capital acéfala!

  5. Glauco

    Na minha avaliação esta atitude não “deixa de lado” o centro da cidade, muito pelo contrário, cria condições para significativas melhorias técnicas tanto na parte de tráfico como te possibilidades de novos comércios… Galera tem que começar a entender que Belo Horizonte é muito mais do que a zona centro sul

  6. Guilherme

    Essas melhorias no trânsito mencionadas pelos compadres mostram como a obra foi mal planejada. Se vai melhorar o trânsito no centro do capital, vai transformar então a Linha Verde em nova “Antônio Carlos” ou “Cristiano Machado”.

    Soluções precisam ser efetivas e não jogo de empurra. O governador tem que pensar no todo, e não deveria comprometer o acesso às cidades daquela região só para que a zona centro sul possa desfilar de carro pela rua da Bahia.

    O centro administrativo é uma solução, sim, mas com mentalidade de Tancreto, digo, Concredo adolescente. Er… A tecnologia era a maior aliada para a economia nesse caso. E ainda há prejuízos para os bairros próximos da Cidade Administrativa, problemas que não saem no jornal, mas buracos deixados nas ruas do Morro Alto apenas pq um grupo passou tubulações até chegar à suntuosa destruição do Jóquei.

    O governador em obrigação de pensar no ESTADO. Mas pra que, se fazer propaganda em BH dá mais retorno para se eleger ao Senado?

    • Felipe

      Só para apimentar a discussão, colo um artigo que saiu ontem na Folha de São Paulo (link, exclusivo para assinantes) e que sintetiza exatamente o meu pensamento em relação ao Centro Administrativo.

      Ao mirar o futuro, Aécio acertou o passado

      FERNANDO SERAPIÃO
      ESPECIAL PARA A FOLHA

      Na gravura “O quarto do arquiteto”, de Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp criou uma cena com armário entreaberto, mesa com cadeira e uma prateleira. Os personagens são maquetes de edifícios em diferentes estilos. Uma possível interpretação irônica da obra é que os arquitetos possuem soluções guardadas nas gavetas e as utilizam conforme a necessidade. Lembro-me disso diante da nova obra de Oscar Niemeyer.
      A Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves é composta por cinco edifícios, encomendados pelo governador Aécio Neves para reunir no extremo norte de Belo Horizonte mais de 40 órgãos estaduais. São três motivos alegados: induzir o desenvolvimento da região, diminuir despesas (principalmente aluguéis) e facilitar a gestão com a convivência entre funcionários. À primeira vista, principalmente se observado por dentro, tudo é uma maravilha: os móveis são novos, os equipamentos, sofisticados, e os espaços, confortáveis -como nas melhores empresas privadas.
      Contudo, do ponto de vista arquitetônico não há novidade. O prédio mais imponente abriga o gabinete do governador. É um edifício envidraçado de quatro andares que fica pendurado por estrutura externa. Com mais graça, tal solução foi utilizada por Niemeyer há 40 anos para uma editora na Itália.
      Louvando o novo prédio, o arquiteto e o calculista afirmam que ele é “o maior edifício suspenso do mundo”. E daí? Eles se vangloriam como se o ineditismo técnico fosse de suma importância para o futuro da humanidade.
      Gastando energia em retórica desgastada, Niemeyer deixa de lado questões atuais como a eficiência energética -o complexo tem a maior área de vidros da América Latina. Fachadas envidraçadas voltadas para as faces ensolaradas, por exemplo, é um erro primário que exigirá mais energia do ar-condicionado. Os dois edifícios maiores são destinados às secretarias. Gêmeos, eles são gigantescos e curvos -e também foram retirados das “gavetas” do arquiteto. Eles têm proporção semelhante de um hotel em Petrópolis, desenhado em 1950.
      Por fim, além de um auditório pouco gracioso, o conjunto é completo por um centro de convivência, com restaurantes e lojas, que pretende substituir a rua -o espaço primordial de convivência urbana.
      E é justamente aí que está o maior problema. Se a arquitetura é requentada, a ideia de pensar em centro administrativo longínquo é tão nova quanto o bonde. Urbanisticamente, é um desastre. O governo deveria permanecer na região central, renovando edifícios subutilizados e incrementando a vida urbana. Ao deixar os edifícios da praça da Liberdade para atividades culturais, serão empobrecidos o uso e a diversidade local. Se na era da revolução das telecomunicações é estranho falar da necessidade do contato físico, para ajudar a desenvolver a periferia seria mais útil financiar transporte coletivo de massa. Claro, daria mais trabalho e menor visibilidade.
      Infelizmente, há 50 anos os políticos acreditam na mística de perpetuar-se com um postal de Niemeyer a fim de repetir a trajetória daquele que encomendou Pampulha e Brasília (raríssimos são os que apostam na capacidade arquitetônica de sua própria geração). Aécio Neves cometeu o mesmo erro: mirando o futuro, ele acertou o passado.

      FERNANDO SERAPIÃO é arquiteto e editor executivo da revista “Projeto Design”.

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