30 de outubro de 2006 Felipe

Lula mais quatro anos

Eu ia escrever um texto falando sobre a reeleição do Lula e o escambau. Votei no cara, meio decepcionado com alguns fatos do primeiro mandato. Jamais votaria no pouca telha do Alckmin, parte porque ele é fraquíssimo e parte porque não me vejo votando na direita tão cedo. O grande lance é que o Ganso resolveu escrever exatamente tudo que eu sinto. Replico aqui, com os devidos créditos. E sim, de vez em quando eu falo sobre coisa séria.

Da irresponsabilidade e da cara-de-pau

Como se começa um recado bem dado? Com as melhores palavras? Perdendo o juízo? Partindo para a briga? Sendo objetivo? “Depende do tema”, vão dizer os de ‘centro’. “Saia chutando tudo”, recomendará a ‘oposição’. E “mantenha o nível”, pedirá a ‘situação’.

Discussão política, atualmente, nesse país, parece cada vez mais inviável, sobretudo numa terra onde falastrões se tornam ídolos, artistas se elegem com seus personagens e eleitores estão cada vez menos comprometidos. ‘Consciência política’ é algo que muitos dizem ter, mas poucos fazem por merecer o direito de no currículo computá-la. Fãs de Roberto Jefferson, eleitores de Clodovil e os atuais ‘fiscais da ética’ estão entre os que não merecem respeito e tampouco deveriam ter um título em mãos.

Votar não é brincadeira, não é disputa de jogo de futebol. Não está em jogo quem marca mais gol, quem “ataca” melhor. A melhor decisão política exige a consciência política que muitos fingem ter. Quem me diz, ‘de peito aberto’, que votar em Alckmin foi uma resposta nas urnas, é o mesmo irresponsável que, numa roda de amigos, me interrompe para falar pérolas como: “Ah não, política não”.

A verdade é que os atuais ‘fiscais da ética’ se escondem atrás de um discurso furado, secular e arraigado em preconceito de classe. Mas soa bem, não é? Que fiscais são esses que, de 1990 a 2002, riram das privatizações, sequer queriam saber dos mensalões para aprovar a emenda da reeleição e, ainda, deixaram nosso ilustre governante (cheio de obstáculos acadêmicos) ampliar a dívida externa brasileira, ao fazer estripulias com a política econômica? (Logo ele, o sociólogo, o culto, o que ninguém chama de ‘ignorante’?)

Quem se diz traído pelo atual governo e grita, esperneia, ataca a honra do presidente que, no momento, governa o Brasil, agora acha bonito reclamar de deslizes que estão enraizados na política brasileira, justamente pela negligência nas urnas em anos, décadas anteriores. São os mesmos senhores e senhoras que votam em Alckmin os responsáveis por deixar oligarquias e ‘senhores feudais’ como porta-vozes das decisões e votos sobre o futuro do país (E exigem do atual governante uma postura ditatorial e revolucionária como solução, num estalar de dedos, para o fim da corrupção).

O Brasil caminha, ainda a passos lentos, para alguma espécie de foco social. Não vou ser irresponsável de dizer que é o melhor, que é o ideal, mesmo porque é a primeira vez, em mais de 500 anos, que o Brasil tem alguma proposta nesse sentido. Não vou dizer que ignoro os fatos graves ocorridos na atual gestão, e também não vou deixar de constatar que nunca vi tantas investigações. Só digo que, à luz dos fatos, ‘brincar’ de votar em Alckmin foi uma das grandes irresponsabilidades já cometidas nesse país.

Agora que os que não votaram em Lula não obtiveram maioria, sugiro que os mesmos reflitam bastante sobre o cenário político e que, na próxima alternância de ideologia no poder, tenham a mesma má vontade e o mesmo ‘senso de cidadão’ que, hoje, dizem ter suficientemente para ensaiar discursos (aliás, asneiras) sobre política. É fácil falar, é fácil cobrar e muito mais fácil exigir milagres para corrigir atrocidades e falhas do sistema democrático – aliás, falhas que os próprios senhores e senhoras, atuais ‘fiscais da ética’, com essa ‘consciência política’ invejável, ajudaram a implantar no Brasil.

No mais, sejam felizes e podem voltar a criar suas comunidades de “Eu amo Roberto Jefferson”. O quê? Faz mais de 40 dias que Lula não diz de onde veio o dinheiro do dossiê? Em primeiro lugar, a Polícia Federal é quem deve dizer. Agora, por que vocês não me dizem, também, onde estão as pessoas que jamais verão suas famílias, por terem sido assassinadas nas ruas, no dia-a-dia, em São Paulo, por mera negligência/incompetência com a segurança pública? Ok, sou eu o irresponsável por votar em Lula. Vocês têm toda razão. Podem continuar a gritar. Sejam felizes.

Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.

Comment (1)

  1. Iza

    Concordo um bucado com tudo isso também, não sou petista e tampouco defendo o Lula, mas acredito nisso de que a coisa existe e não é de hoje nem só com o Lula, isso vem de muito longe. A diferença, como diz Chico Buarque, é que hoje a gente tem certeza e o principal, tem provas e “liberdade” de falar.
    Mas enfim, votei nulo. Talvez seja ignorancia minha, mas de fato não queria nenhum dos dois no governo e optei por não me aliar a eles.

    Abração.

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