13 de setembro de 2016 Felipe

Quando as referências vêm dos lugares mais improváveis

O baterista Benny Greb e o chef de cozinha Daniel Humm.

(Ou: “Como a criatividade permeia as diferentes nossas diferentes atividades”)
(Ou: “Como escrever 857 palavras a partir de um vídeo de bateria”)


(Editado com as valiosas sugestões do Caio, Ceió e Marcos. Obrigado!)

Vocês também têm a impressão de que, eventualmente, as melhores referências vem dos lugares mais improváveis? Tipo, uma referência de arte que pode ser aplicada na nossa vida profissional, ou um artigo sobre música que seria perfeito para o esporte. Esses cruzamentos acontecem direto comigo. De vez em quando eu preciso forçar um pouco, mas é uma atividade que me diverte bastante e ajuda a manter a criatividade em ordem.

Pois bem, outro dia eu cruzei com este vídeo do Benny Greb, um dos bateristas mais criativos que conheço e dono de um groove sensacional. É uma masterclass promovida pelo Drumeo, um canal sobre bateria no YouTube.

Em determinado momento do vídeo, quando perguntado sobre o aspecto mental de tocar bateria, Greb levanta um ponto interessante em sua resposta. Ele fala que há um senso comum entre os bateristas que para ter mais repertório ou fazer viradas mais interessantes você precisa ouvir música e estudar feito um condenado. É claro que são coisas necessárias e importantes, mas, segundo o baterista, é igualmente importante também treinar nossas mentes, fundamentando o argumento ao explicar o que acontece em todos os seus workshops. Ele chama alguém da plateia e pede para a pessoa tocar um groove. 99,9% das vezes, em qualquer lugar do mundo, o groove e as viradas seguem a mesma estrutura.

Veja aí abaixo, a explicação começa aos 50:07. A gente continua a conversa depois do vídeo.

Pois bem, Benny Greb falando deve ter sido mais legal do que eu explicando. E se você viu todo o trecho, certamente prestou atenção no resto do argumento. Como ele disse, é claro que escutar música e estudar são coisas importantes, mas, trocar as afirmações por perguntas é igualmente importante.

“Toda virada deve usar ton-tons e terminar no prato(?)” ou “Toda virada deve ter mais notas do que o groove(?)”

Quando você transforma uma afirmação numa pergunta, sua percepção sobre aquele assunto muda, sem ter necessariamente aprendido adicionado algo novo ao seu repertório. É uma abordagem quase experimental, de não dar nada como garantido e ser curioso sempre. Deve ser o que cientistas fazem, eu imagino, e eu já estava dando o assunto por encerrado.

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Something to Food About – Ahmir Questlove Thompson

Mas aí eu pensei no outro lado, na importância do repertório e do estudo. Ou seja, a quantidade de horas dedicadas ao aperfeiçoamento de uma habilidade, seja de maneira formal ou não. E o quanto elas são importantes para você começar a trocar os pontos finais por interrogações. Na hora lembrei de um livro que estou lendo e adorando, o Something to Food About, do Questlove, também baterista, além de DJ e produtor. O livro é uma coletânea de entrevistas com chefs dos Estados Unidos sobre cozinha e processo criativo. É tão legal que vai merecer um post próprio. De qualquer maneira, um dos chefs, Daniel Humm, faz um comentário interessantíssimo.

“Acho que para qualquer grande artista em qualquer coisa – seja arquitetura, arte, música ou comida – você tem que entender as regras fundamentais antes de quebrá-las”

Ou seja, antes de questionar, você precisa saber o que questionar e isso faz toda a diferença. Meio conflitante, né? Mas acaba fazendo sentido e eu acho que esse é o resumo dessa história toda. O balanço entre o que chamamos de bagagem, repertório, formação e essa capacidade de maquinar as coisas. Principalmente para fugir 1) das limitações impostas pelas afirmações e 2) do perigo da procrastinação.

No primeiro caso, e só para ficar com os meus dramas profissionais, é não conseguir desenvolver coisas relevantes por conta de afirmações tipo:

“Seu conteúdo só será interessante se você tiver uma boa câmera(?)”

“Todo e-learning deve ter uma avaliação no final(?)”

O Instagram está aí para provar que o equipamento é só um meio para a história ser contada. E no caso do e-learning, a Khan Academy não tem uma avaliação no final de cada curso, apenas o propósito da peça sendo cumprido por ela própria.

O segundo caso é um conflito que muita gente tem todos os dias. Consiste em pensar “só posso começar a fazer X quando tiver Y”, onde Y é algo totalmente desnecessário. Por exemplo, eu achava que um podcast só seria possível com um microfone decente e uma super produção. Nas primeiras 40 edições do Ainda Sem Nome eu usei todo o tipo possivel de microfones baratos, até finalmente ter um Blue Yeti. Além disso, eu e o Caio utilizamos aquele período para aprender sobre como fazer podcasts e construir uma audiência que nos acompanhou até o hiato de produção. Passado um ano desde a volta, até hoje lutamos para recuperá-la. 😉

Agora, se eventualmente Y for realmente necessário, acho válido tentar chegar o mais perto possível de X. Pelo menos você vai aprender alguma nova habilidade, o que é sempre bom.

Chega, né? Esse foi só um exemplo de como duas referências, uma da música, outra da gastronomia, podem ser extrapoladas e utilizadas no nosso dia-a-dia. Ok, as duas versam sobre criatividade, mas vem de universos bem diferentes.

Você tem alguma referência desse tipo? Compartilhe aqui com a gente.

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Felipe

Jornalista mineiro que mora em São Paulo. Interessado em fotografia, comunicação, esportes, música, mobilidade e bicicletas.